====== De Agostinho ao Hermetismo ====== //[[..:start|STOCK, Brian]]. [[.:start|Augustine the reader: meditation, self-knowledge, and the ethics of interpretation]]. Cambridge (Mass.) London: Belknap press of Harvard university press, 1996.// * A Teoria Agostiniana da Leitura e o Eu Interior * Santo Agostinho desenvolveu a primeira teoria ocidental desenvolvida da leitura ao unir percepções filosóficas, psicológicas e literárias. * O ato de ler é um passo crítico em uma ascensão mental: é tanto um despertar da ilusão sensorial quanto um rito de iniciação do mundo exterior para o interior. * A leitura transforma-se em meditação (//Lectio// torna-se //Meditatio//) quando o texto apropriado é contemplado. * Palavras criadas no silêncio retornam ao silêncio na mente do sujeito, unindo o "Muitos" no "Um" através do pensamento reflexivo. * Agostinho enfatiza que a autoridade, guiada pela razão, orienta os estudos, precedendo a razão no tempo para auxiliar a mente fraca através das Escrituras. * Fundamentos das Místicas da Salvação (Gnose Hermética) * As místicas da salvação baseiam-se em uma concepção pessimista das capacidades do intelecto humano, onde a gnose deriva de uma experiência religiosa ou visão. * Conhecer a Deus torna-se uma questão de iniciação, teurgia e magia: //nouit qui colit// (conhece aquele que cultua). * O conteúdo da gnose resume-se em três pontos: conhecimento de Deus Salvador, conhecimento de si mesmo (gerados por Deus) e conhecimento da via de ascensão (//odos//). * O Deus Supremo habita em transcendência radical, circondado de silêncio e definido como [[tnpl:Noûs:]], Vida e Luz. * Cosmogonia e a Queda do Anthropos * Devido ao antagonismo entre Deus e o mundo material, um [[tnpl:Noûs:]] Demiurgo (segundo [[tnpl:Noûs:]]) é responsável pela organização do cosmo. * O [[tnpl:Noûs:]] Pai gera o Anthropos (Homem ideal), que é Vida e Luz como o Pai e amado por Ele como Sua própria imagem. * O Anthropos cai na matéria devido ao //[[tnpl:eros:]]// (narcisismo), revestindo-se de um corpo pneumático e de vícios planetários ao atravessar as esferas. * O homem atual é tríplice (corpo, alma e //noûs//) e vive submetido à Fatalidade (//Heirmarménè//) por causa de sua parte material. * A [[tnpl:Regeneração:]] Espiritual e o Despojamento Pós-Morte * A salvação hermética consiste em reconhecer a parte de Luz e Intelecto divino em si mesmo, amando-a enquanto se detesta a prisão material do corpo. * A [[tnpl:regeneração:]] (//paliggenesia//) ocorre quando dez potências divinas purificadoras expulsam e substituem os doze vícios zodiacais do homem interior. * Na morte, ocorre um duplo despojamento: o corpo é entregue à natureza e o intelecto ascende pelas esferas planetárias. * Em cada esfera, a alma abandona uma paixão: a malícia em Mercúrio, o desejo em Vênus, a ambição no Sol e a mentira em Saturno. * O objetivo final é a divinização (//theōthēnai//), tornando-se Deus ao penetrar nas Potências divinas. * Semiótica e a Teoria dos Signos em Agostinho * Agostinho propõe que toda instrução (//doctrina//) lida com coisas (//res//) ou signos (//signa//). * Um signo é uma coisa que, além da impressão sensorial, faz com que algo mais venha à mente (ex: fumaça indica fogo). * Os signos podem ser "próprios" (sentido literal) ou "figurativos" (quando o objeto referido sinaliza outra realidade, como o boi significando o pregador). * A linguagem é um sistema de signos dados para demonstrar os movimentos da mente entre emissor e receptor. * A interpretação correta das Escrituras busca revelar as intenções divinas ocultas sob os signos ambíguos. * Síntese Comparativa: Mística Teórica vs. Mística Ierática * Festugière distingue entre a mística da sabedoria (teórica) e a mística da salvação (ierática). * Na mística teórica (tradição grega), o homem não é salvo por outro; ele salva-se a si mesmo pelo esforço do pensamento e uso do //noûs//. * Na mística ierática (influência oriental), o homem é passivo e incapaz de salvar-se sem o auxílio externo da graça e da revelação divina. * Agostinho difere de Plotino ao acentuar a distinção entre sujeito e objeto através de uma exegese paciente e meditativa.