====== Experiência Mística ====== JBSJC ==== Análise da Experiência Mística e do Estado Teopático em São João da Cruz ==== * Questão fundamental sobre origem da experiência mística * Interrogação sobre se é Deus quem desperta alma ou se é alma, após longo percurso, que desperta Deus. * Referência à alma intrépida de //Subida do Monte Carmelo//, que sai sem ser percebida e heroicamente se autodestrói. * Iluminação provém apenas da luz que ardia em seu coração, conforme estrofe de //Noite Escura//. * Processo de purificação e criação de novo ser * Sacrifício de noções, desejos, sentimentos e de supostas linguagens divinas de visões ou revelações. * Força declarada divina assume domínio único quando alma crê tornar-se, de algum modo, Deus. * Purificação gera ser novo, denominado por João da Cruz como //Filho de Deus// ou //espírito saído dos limites estreitos da operação natural//. * Natureza do amor divino e da graça mística * Investigação sobre origem do olhar de Deus, que é amor, e da graça mística que não abandona alma deificada. * Questionamento se amor veemente que leva alma para além de si é efeito de chamado divino ou se atividade interna individual é origem humilde de movimento configurado ao universo. * Rejeição na Fé e afirmação de Deus * Rejeição de coisas, seres, sensações e memórias no abismo da Fé pura interpretada como afirmação de Deus, fora do qual tudo seria aparência. * Movimento da alma recolhida na noite ocorre dentro de Deus sem limites, emanando dEle e a Ele retornando, permanecendo como movimento da alma. * Diálogo com filosofia: Leibniz e Spinoza * Citação de Leibniz sobre Spinoza: teria razão se não houvesse mônadas, pois então tudo fora de Deus seria passageiro, desvanecendo-se em acidentes ou modificações. * Reflexão sobre como, sem mônadas, faltaria base da substância nas coisas. * Dificuldade de discernimento entre lirismo, simbolismo e experiência * Em místico como João da Cruz, impregnado de simbolismo e lirismo, desafio de discernir onde terminam esses elementos. * Em //Noite//, alma narra seu destino, une-se a Deus na noite e, no ápice do estado teopático, ancora atinge-O apenas pela Fé. * Alma, ao libertar-se de obstáculos, torna-se ampla como o próprio Deus. * Dinâmica entre [[tnpl:regeneração:]] divina e iniciativa da alma * Alma atinge Deus porque Ele a regenera, mas também atrai Seu olhar ao despojar-se de tudo. * Recusa a //sentir// Deus até que ela própria se torne Deus. * Universalização do ser entendida como autocreração, descoberta crescente de cavernas interiores e de sua imensa capacidade. * Despertar de Deus na substância da alma * Citação de //Chama//: //Quão manso e amoroso / Recordas em meu seio, / Onde secretamente só moras//. * Deus nunca abandonou alma, pois está em nós mesmos. * Alma definida como força ansiosa e fervorosa, reduzida ao ritmo do não-saber, que finalmente dá Deus a Deus mesmo. * //Subida do Monte Carmelo//, se completada, mostraria mais claramente triunfo heroico desta intrépide //endiosada//. * Definição do estado teopático em João da Cruz * Envolve colocação em presença de duas atividades: transformação da alma por Deus e, de certo modo, transformação de Deus pela alma. * Caracterizado por alma sem limite e Deus sem fronteiras. * Quando místico atinge essa pureza noética, separa-se do //psiquismo naturalista// e aproxima-se do //idealismo intelectualista//, onde espírito é consciência como princípio de conhecimento adequado ao universo. * Síntese doutrinária na experiência joanina * Alma despojada e Deus sem modo combinam-se com alma tocada pela graça mística e com Deus trinitário do cristianismo teológico. * Experiência molda-se ora no ritmo dionisiano, ora no ritmo quente e concreto do cristianismo joanino. * Síntese é mais vivente nele devido à união de intenso amor por Deus Trino com adesão pura à Divindade essencial, à //Deidade// e ao //Uno//. * Distinção entre Deus na Noite e Deus no estado teopático * Deus na Noite está além de toda apreensão distinta, é Deus sem modo para o qual alma anseia tornar-se sem modo. * Deus alcançado no estado teopático é Deus que opera, age, cujos atributos infinitamente infinitos são, de certo modo, vida da alma. * //Chama// interrompe-se quando João da Cruz experimenta em si mesmo a aspiração do Espírito, no sentido teológico e no conhecimento da Deidade. * Caráter fundamental da mística joanina: penetração na Trindade e conhecimento da Deidade * Sistema místico é rigorosamente metafísico e constitui retorno ao Uno: retorno da alma e, na medida em que doutrina concerne à natureza em si, retorno das coisas em Deus. * Pureza de linha que evoca construção plotiniana, não redutível apenas a elementos técnicos do Pseudo-Dionísio. * Analogias com o pensamento plotiniano * Contemplação do Uno em Plotin exige despojamento de tudo que separa e libertação de toda forma, ecoando ritmo da //Subida//. * Prece a Deus como avançar solitário para o Uno, que é só, ressoa na música da solidão do //Cântico// e da //Chama//. * Sobra abundância na eternidade plotiniana, qualidade de ser sempre o que é, analogia com vida divina em nós comparada ao mar por João da Cruz. * Pensamento verdadeiro fora do tempo, na eternidade, e negação da memória na contemplação, ecoando negação das memórias empíricas realizada pela esperança em João da Cruz. * Diferença essencial entre êxtase plotiniano e experiência joanina * União extática plotiniana produz felicidade estética, alegria amorosa, exaltação na solidão, também presentes em João da Cruz. * Porém, Plotin não experimentou combinação íntima e direta de vida humana e vida divina, inserção de atividade humana deificada dentro do Ser divino. * Falta em Plotin o encontro violento e fulgurante, não doce e crepuscular, entre amor divino e amor humano. * Permanência da cultura escolástica e orientação para estados paroxísticos * Cultura escolástica e reflexão sobre distinção entre potência e ato combinam-se com aspiração imensa ao desabrochar do ser íntimo. * Conduziu lirismo e mística a estados paroxísticos, mas onde, em definitivo, é alma que irradia e triunfa. * Interpenetração de Deus e alma radiante é menos acentuada em místicos germânico-flamengos como Eckhart ou Suso. * João da Cruz aproxima-se profundamente de Santa Teresa na afirmação da grandeza da alma. * Problema metafísico último: alma sozinha frente a Deus sozinho * Citação de Leibniz sobre pensamento teresiano: alma deve pensar como se só existissem Deus e ela no mundo, ideia que reflete independência e extensão da alma. * Misticismo reduzido a seu fundamento coloca uma alma só diante de um Deus só. * Liberdade do espírito, solidão, despojamento traduzem ampliação do pensamento e despregamento total da natureza. * Transição da negação amarga para a vida teopática * Alma deificada rejeitou visões, revelações, sentimentos de presença, expressando pela noite rejeição de tudo que homens chamam de Deus. * Vida teopática sucede a negação amarga, invalidando objeções usuais sobre confusão entre dados afetivos e cognitivos ou entre Deus humanizado e Deus sem modo. * //Chama// e //Cântico// conduzem a intuição do universo e esforço para penetrar, via alma deificada, Deus alcançado dentro de seus atributos infinitos. * Estado teopático como pensamento, não apenas estado * Experiência mística de qualidade rara e irredutível não pode servir para julgar misticismo em geral. * Em seu grau mais elevado, superados distúrbios corporais e vencida preguiça intelectual, vida que desabrocha resulta não apenas em estado, mas em pensamento. * Psicologia contemporânea destaca traços permanentes do estado teopático: criação subconsciente de automatismo divino, apropriação de funções por consciência transfigurada, perfeita adaptação às exigências da ação. * Em místicos de desenvolvimento interno completo, observa-se extraordinária vitória da serenidade e da alegria conquistadora. * Diferenças no estado teopático: João da Cruz e Santa Teresa * Estado teopático de Santa Teresa, marcado pelo matrimônio espiritual, difere do de João da Cruz. * Em Teresa, visão imaginária precede imediatamente o novo estado; sua vida teopática não foi preparada pela severa eliminação de tudo que não é Deus. * Experiência teresiana não conduz ao Deus pensado em relação essencial com mundo e na profundidade crescente da Deidade, como em João da Cruz. * Desabrochar na ação tem significado diferente: em João da Cruz, ação e contemplação alimentam sonho de solidão metafísica e alegria noética. * Valor noético do estado teopático em João da Cruz * Estado teopático tem valor noético, não apenas valor experiencial. * É experiência ou conhecimento constantemente móveis, que levam cada vez mais fundo nas profundezas divinas. * Estado que se explicita em infinidade de novas modalidades, sem regressão a paroxismos extáticos ou torpores letárgicos. * Purificação exaustiva atinge apetites, afetos, sentidos, potências, estabelecendo acordo entre substância e tudo que dela emana, incluindo o corpo. * Consciência de ser Deus e percepção da divindade na vida cotidiana * Problema delicado sobre permanência da consciência de ser, de algum modo, Deus. * Parece que tudo que é pensamento, vida onírica, atividade criadora aparece a João da Cruz como divino. * Quando vida teopática se expressa e analisa a si mesma, percebe-se como divina. * Desafio de comparar experiências teopáticas em diversas tradições místicas * Trabalho imenso para comparar estado teopático em místicos especulativos católicos, protestantes, esotéricos como Böhme, sufis, textos hindus e mística chinesa. * Busca verificar se estado teopático aparece constantemente como síntese final, com múltiplas modalidades de ordem panteística. * Experiência mística só pareceria homogênea se fosse banal ou se falhássemos em apreendê-la. * É necessário ir além da fenomenologia para uma espécie de divinação das diferenças individuais. * Originalidade da experiência e dificuldade de acesso à intuição criadora * Experiência mística raramente é inteiramente original, muitas vezes guiada por modelos conscientes ou subconscientes. * Disciplo de João da Cruz que compreende estrofes como resumo de estados experimentados não reconquista necessariamente experiência inicial. * Eficácia de uma doutrina é distinta do esforço talvez desesperado para recuperar uma intuição criadora. * Análise de místicos só nos enriquecerá espiritualmente se descobrirmos, além da monotonia de esquemas e imagens, uma relação única com o universo. * João da Cruz como místico que adere ao universo * Não apenas cantou e analisou encontro de Deus e Alma sós. * Coisas, inicialmente rejeitadas pela negação da noite, reabsorvem-se na alma, são descobertas em Deus e amadas apaixonadamente em sua grandeza. * Deus em quem João da Cruz reencontra mundo é alcançado além das coisas e imagens, em centro interior onde Ele permanece. * Triunfo da noção sobre a imagem: noção de Deus, não das coisas; coisas só revivem quando conhecidas em Deus. * Volúpia do conhecer e natureza noética da alegria teopática * Mistério de João da Cruz talvez revele volúpia do conhecer. * Momentos na //Chama// onde comunicação divina é pura inteligência, quase sem mistura de amor, ainda imperfeitos. * No estado teopático, tais momentos desvanecem-se em alegria total, que será, ela mesma, uma alegria noética. * Vida teopática conduz a nova percepção das coisas, penetração em Deus da essência do mundo, experiência dos atributos infinitos, conhecimento da Deidade. * Obra de João da Cruz como sistema, experiência e drama interior * Obra descreve viagem de uma alma e marcha dialética de um pensamento. * Doutrina vive como ser, completa-se e nos capta. * Vontade que exige ir além de tudo perceptível e distinto, e alegria que prolonga quando espírito entra em Deus sem limite e reencontra universo, narram drama interior. * Drama desenrola-se no mais profundo do eu, longe de qualquer dado social, em solidão e silêncio onde mundo dos fenômenos é transcendido. * Busca do segredo místico e problema do universo * Dificuldade trágica: tal solidão e silêncio são inacessíveis para quem não os experimentou, e tê-los sentido não descobre explicação racional que exigem. * Não é proibido transpor, através do ritmo do esforço metafísico, a amarga purificação do espírito.