====== Anjo da face ====== McGinn Anticristo O componente final na evolução de Satã envolve a miscigenação de oponentes celestiais e humanos de Deus de uma maneira que acercam os estágios formativos da lenda do Anticristo. Isaías 14,12-13, datando sua forma presente da metade do século VI aC, satiriza um rei terrestre da Babilônia que ousou tentar ascender ao céu : Como caístes dos céus, Daystar, filho da Aurora (helel ben-shahar)? Como acabastes atirado ao solo, tu que escravizastes nações? Tu que costumavas pensar, "Subirei aos céus ; e mais alto que as estrelas de Deus fixarei meu trono. Este relato, que obviamente envolve colorido mítico considerável em sua figuração de uma rebelião contra os poderes do céu, é notável por sua mitificação da história contemporânea — ou seja, sua inserção da nova estória do ataque de rei babilônio (provavelmente ou Nabucodonosor ou Nabonidas) ao templo de YHWH em uma velha estória do conflito entre jovens e mais antigos deuses. Lúcifer, o nome dado ao rei rebelde mitificado na Vulgata, mais tarde se tornaria um sinônimo de Satã na Cristandade. Ataques similares contra reis poderosos que clamavam status divino para si mesmos são encontrados no oráculo do rei de Tiro em Ezequiel 28 e contra o Faraó em Ezequiel 29. Esta fusão de oposição angélica e humana a Deus influenciou tanto a desenvolvimento da figura de Satã e a evolução da ideia de Tirano Final no apocaliticismo judeu. Eckartshausen: OS ESPÍRITOS Houve um tempo onde não havia senão luz; a noite não seguia o dia, a luz não engendrava um fogo devorante. A possibilidade do fogo e da noite existia então, mas não se realizara. Luz e fogo eram uma única coisa. As inteligências eram os receptáculos da luz, os tipos da imagem luminosa manifestada; a tarefa destes seres consistia simplesmente em deixar agir neles a divindade, fonte de luz. O centro mesmo da bondade de Deus, o espelho sobre o qual se depositava plenamente a impressão de Sua luz, para agir de novo sobre os outros seres, era Lúcifer, receptáculo de todas as energias espirituais, portador de Sua luz no seio deste Universo luminoso, pois Sua bondade, Seu amor, atenuavam o fogo devorante de Sua essência. O que Lúcifer recebia da fonte de luz era puro, e ele devia comunicar por sua vez aos outros Espíritos; ele estava destinado a se manter no centro da Unidade a fim de servir de medium, quer dizer, para impedir que a luz não se tornasse fogo e não queimasse a criatura. Com efeito, qual ser, mesmo angélico, é puro diante de deus? Quem é capaz de O contemplar, se Sua bondade não atenuasse o fogo devorante? Allard l'Olivier: L'ILLUMINATION DU COEUR O Anjo da Face é o intermediário entre o indivíduo humano e Deus. Segundo a terminologia usada por Guénon, o homem individual ocupa os níveis da manifestação grosseira (corporal) e sutil (psíquica). Acima da manifestação sutil está a manifestação espiritual: é o nível disto que chamamos as criaturas angélicas, o nível do mundo do céu. Se é verdade que, pela face interna de seu espírito voltado para Deus, o homem — a pessoa humana — está «ligado à unidade divina», como diz Ruysbroeck, como explicar que uma doutrina tradicional exponha que um princípio intelectual (e angélico), comum a todos os homens, esteja situado entre estes e Deus? Não seria que a doutrina em questão faz estado, em citando Buddhi, de uma função entre o homem individual e Deus, função exercida na origem por um anjo em seguida pelo Verbo encarnado ele mesmo que, após a ressurreição, está sentado no Céu à direita do Pai? Mas qual anjo, e como foi destinado? //Na origem, Deus, tendo criado os anjos, colocou «o mais belo e o maior dentre eles» entre o homem e Ele mesmo; e, nestas condições, na origem, a luz existencial divina não tocava a criatura humana senão através do Anjo reitor do universo. O que implica dizer que ainda que ele fosse dotado de mente, tendo sido criado à imagem de Deus, o homem, na origem, não dispunha deste Olho do Coração que significa a unidade humano-divina de que fala Ruysbroeck, e não estava ligado a Deus senão pelo intermediário de um intelecto angélico. Este anjo — o Anjo da Face Divina — é chamado Lúcifer, quer dizer etimologicamente, o Portador da Luz. A palavra Lúcifer, tendo este sentido, traduz o grego Phosphoros que é o nome do planeta Vênus, como Estrela da Manhã//, portadora e anunciadora da luz do sol. Este anjo, tendo sido reprovado, foi revogado e se tornou Satã, o que significa o Adversário. A queda dos anjos, pois Lúcifer carregou em sua queda uma parte das criaturas angélicas, precede a queda do homem, e esta foi tornada tanto mais possível, por quanto Lúcifer caído, o homem se encontrava imediatamente em face de Deus e virtualmente em posse do Olho de se seu coração. Lúcifer-Satã incita o homem à desobediência para que este Olho se abra («Prove deste fruto, vossos olhos se abrirão (Gen 3,5). Quando a desobediência foi consumada, o Olho do Coração de Adão se abriu com efeito, pois, o Anjo reitor tendo sido revogado, não havia mais intermediário entre Deus e o homem; e Adão se tornou como Deus, no sentido que enfrentou, em regime de Rigor, a identidade existencial. Mas imediatamente Deus interveio e desenvolveu o plano que, em sua presciência, tinha parado: o Verbo, para a salvação dos homens, se fará carne. O Homem-Deus, que exonera o homem do insuportável Rigor da identidade convidando-o ao rigor suportável da Cruz, será o intermediário, a Ponte , entre a Realidade divina e a irrealidade humana. Se Lúcifer não tivesse pecado, e se Adão e sua descendência permanecessem na obediência, o homem teria sido conduzido a Deus por Lúcifer ele mesmo. Depois da queda do Anjo, é pelo Homem-Deus, o Cristo-Jesus que, no céu, ocupa o lugar de Lúcifer, que o homem é conduzido ao Pai; é ele, o Cristo-Jesus, que é a Ponte — o Pontífice, o Grande Sacerdote — e que justifica a existência humana.