====== GUIA DOS PERPLEXOS ====== //Le guide des égarés ; [suivi du] Traité des huit chapitres. Nouvelle édition. ed. Lagrasse: Verdier, 1983.// ** CARTA DO AUTOR A SEU ALUNO, R. JOSEF IBN YEHOUDA ** * A instrução do discípulo Rabbi Josef, filho de Rabbi Yehouda, por um mestre foi motivada pela paixão demonstrada pelo estudante em relação às matérias especulativas e pela produção de composições poéticas e literárias vindas de Alexandria. * O mestre nutria grande estima pelo discípulo. * As poesias revelavam amor pelas coisas especulativas. * O mestre avaliou inicialmente se o desejo de aprender superava a compreensão real do estudante. * O avanço nos estudos sob orientação direta confirmou a excelência mental e a agilidade intelectual do aluno durante o aprendizado preparatório das ciências matemáticas e da astronomia. * O mestre sentiu grande alegria com o progresso verificado. * A dedicação às matemáticas foi incentivada pelo instrutor com base na previsão do futuro do estudante. * O aprendizado subsequente da lógica habilitou o estudante a ingressar na decifração dos segredos contidos nos textos proféticos, por meio de breves indicações e estímulos iniciais fornecidos pelo preceptor. * O aluno foi julgado digno de conhecer os mistérios dos livros dos profetas. * As explicações visavam a formação própria dos homens perfeitos. * A busca sôfrega do aluno por esclarecimentos metafísicos e pelo entendimento das demonstrações dos Motécallemîn gerou perturbações internas na alma, a despeito das recomendações de prudência e ordenação metodológica emitidas pelo orientador. * O estudante demandava mais ensinamentos e insistia por temas de metafísica. * Os Motécallemîn constituem os filósofos religiosos ou escolásticos dos árabes. * Questionava — se se os métodos desses pensadores baseavam — se na demonstração ou em outra arte. * O aluno já havia feito leituras prévias da matéria sob o comando de outros mestres. * A busca rigorosa fundamentava — se na diretriz de Eclesiastes para achar o objeto do desejo. * O instrutor visava o estabelecimento metódico da verdade para evitar certezas acidentais. * A separação física decretada por vontade divina impeliu o mestre a redigir um tratado sistemático em capítulos avulsos, dando continuidade às antigas explicações orais de versículos e textos dos doutores. * O preceptor prestava esclarecimentos sobre temas curiosos trazidos pelos textos enquanto o aluno estava presente. * A ausência estimulou a retomada de uma resolução anterior que havia enfraquecido. * O livro foi direcionado ao aluno e a indivíduos semelhantes de número restrito. * O envio dos capítulos escritos ocorreria de forma sucessiva para o local de morada do discípulo. * Votos de boa saúde encerram a comunicação. ** OBSERVAÇÕES INTRODUTÓRIAS ** * O apelo ao direcionamento espiritual e à recepção da ciência dos sábios serve de introdução aos propósitos reguladores da obra. * Invoca — se o versículo do Salmo para conhecer o caminho a seguir com a elevação da alma. * O chamado de Provérbios dirige — se aos homens e aos filhos de Adão. * Recomenda — se aplicar o coração e os ouvidos às palavras dos sábios e à ciência exposta. * O escopo primordial do tratado consiste em decifrar a semântica de nomes homônimos, metáforas e termos anfibológicos presentes nas escrituras proféticas, frequentemente interpretados de forma equivocada pela população sem instrução. * Os ignorantes confundem as acepções dos homônimos. * As metáforas são tomadas erroneamente pelo sentido primitivo de origem. * Os vocábulos anfibólicos oscilam na percepção vulgar entre nomes apelativos e homônimos. * O obra não se destina ao ensinamento do público comum, dos iniciantes ou daqueles dedicados exclusivamente à interpretação tradicional da Lei. * A mera exegese tradicionalista é excluída do público — alvo primário. * O verdadeiro foco do livro reside em orientar o homem religioso e instruído na filosofia que se vê imerso em sofrimento e contradição face ao sentido literal antropomórfico das escrituras. * O destinatário possui a verdade da Lei enraizada na alma como objeto de crença. * O sujeito demonstra perfeição na religião e nos costumes morais. * O indivíduo domina as ciências dos filósofos sob o guia da razão humana. * O impasse decorre do choque entre a lógica racional e o entendimento exterior de homônimos, metáforas ou anfibologias. * A hesitação gera opressão, inquietação e agitação interior violenta. * O dilema existencial do pensador divide — se entre a rejeição dos fundamentos da Lei pela via racionalista pura ou a negação da própria razão em favor de visões imaginárias. * Seguir a razão em detrimento dos nomes aprendidos gera o temor de subverter as bases religiosas. * Abandonar a razão em favor do sentido literal acarreta a percepção de perda e dano intelectual na religião. * O segundo propósito do livro assenta na elucidação de alegorias proféticas obscuras que os desavisados interpretam unicamente na superfície material, ignorando a existência de um miolo esotérico. * O ignorante e o estonteado falham em enxergar o sentido esotérico. * O aviso sobre a natureza alegórica dos textos funciona como instrumento de libertação e alívio para o transe intelectual do investigador instruído. * O sábio sofre perturbação profunda ao encarar as alegorias sob a ótica literal. * A explicação recoloca o leitor no caminho reto e o salva do torpor. * A titulação do livro como Dalálat al — 'Hâyirîn justifica — se pela meta de mitigar a maioria das grandes obscuridades conceituais, sem a pretensão de esgotar todos os pormenores em um texto escrito. * O tradução do título corresponde ao Guia dos Indecisos ou Extraviados. * O livro promete afastar as dúvidas mais graves e prementes. * A exaustão completa de uma alegoria é impossível de ser vazada em livro sem expor o autor à hostilidade dos pretensos cientistas ignorantes. * Os ignorantes lançariam as flechas da própria tolice contra o escritor. * Obras talmúdicas anteriores do mesmo autor já haviam fixado as equivalências entre o Ma'asé beréchîth e a ciência física, e entre o Ma'asé mercabâ e a ciência metafísica, sob a regra de restrição na transmissão desses saberes. * O Ma'asé beréchîth equivale ao relato da criação. * O Ma'asé mercabâ designa o relato do carro celeste. * Conforme o tratado Hagigá 11b, a mercabâ não deve ser interpretada nem mesmo para um único aluno, salvo se for sábio e capaz de compreender por si, transmitindo — se apenas os rudimentos. * A dispersão intencional dos primeiros elementos ao longo dos capítulos obedece ao desígnio divino de ocultação das verdades transcendentais sobre a divindade perante a massa. * O leitor não deve exigir mais do que as noções elementares básicas. * Os princípios não se encontram ordenados de forma seguida no tratado. * As verdades aparecem e se ocultam de forma intermitente para não contrariar o plano do Criador. * O Salmo chancela que o segredo do Eterno é reservado aos que o temem. * Os mistérios da física e da cosmologia também demandam ocultação por meio de parábolas e enigmas, dada a conexão estreita que guardam com as verdades da metafísica. * Os princípios físicos reais não podem ser ensinados com clareza total. * Os doutores proíbem a interpretação do Ma'asé beréchîth diante de duas pessoas simultaneamente. * Escrever claramente em um livro equivaleria a pregar para milhares de indivíduos. * Os profetas e doutores seguiram a trilha das escrituras sagradas ao usarem enigmas. * Nenhum homem domina a totalidade da extensão desses mistérios profundos. * A percepção humana da verdade é essencialmente descontínua, manifestando — se como clarões breves de relâmpagos no meio de uma escuridão densa gerada pelas coisas corporais e cotidianas. * O verdade ora brilha como o dia, ora some sob o manto material. * O estado habitual do homem assemelha — se ao esquecimento e à noite profunda. * O brilho oscilante é comparado ao fulgor da espada que gira na Gênese. * Os graus de perfeição humana flutuam de acordo com a frequência dos lampejos intelectuais obtidos, situando — se o maior escalão profético na iluminação perene concedida a Moise. * O patamar supremo confere luz contínua que apaga a noite, destino do maior dos profetas. * A ordem de Deuteronômio comandou a Moise que ficasse junto a Deus e o seu rosto resplandecia. * Outros indivíduos recebem um único relâmpago na noite, como aqueles listados em Números que profetizaram apenas uma vez e cessaram. * Certos homens experimentam intervalos longos ou curtos entre as iluminações. * Há os que não atingem o relâmpago, recebendo luz indireta refletida por pedras preciosas ou corpos polidos. * O massa comum dos homens, inteiramente alheia ao vislumbre da luz e habitante voluntária das trevas da ignorância, é deliberadamente excluída do escopo de análise do tratado. * O Salmo qualifica a massa como aqueles que caminham nas trevas sem compreender nada. * O livro de Jó descreve — os como os que não enxergam a luz brilhante dos céus. * Não há utilidade em fazer menção a esse estrato populacional na obra. * A natureza esquiva dos mistérios metafísicos impede que o sábio ordene ou exponha suas compreensões de modo linear e didático, forçando o uso recorrente de múltiplas alegorias e misturas conceituais. * O sábio repete em seu ensino a mesma descontinuidade vivida em seu estudo pessoal. * A ideia reluz e some por força da própria natureza do objeto. * Teólogos e metafísicos amigos da verdade multiplicaram parábolas de diversos gêneros. * As técnicas de ocultação utilizadas pelos antigos sábios incluíam a fragmentação de um único tema em parábolas distantes ou o emprego de uma mesma imagem para acobertar assuntos díspares. * O sentido pode estar no início, no meio ou no fim da narrativa. * Raras são as imagens que cobrem perfeitamente o assunto do começo ao fim. * Um assunto unificado era repartido em alegorias apartadas. * A mudança de assunto no curso de uma mesma alegoria aumenta a obscuridade. * Uma parábola inteira pode servir a dois temas análogos. * O ensino direto e sem parábola vinha revestido de brevidade e obscuridade artificiais. * Os sábios agiam nesse mister impulsionados pela vontade divina e por disposições físicas. * A ordem de distribuição dos livros sagrados reflete a propedêutica das ciências, situando o relato da criação física no pórtico da Revelação como base necessária para o posterior ingresso na metafísica. * O aperfeiçoamento social e prático pelas leis pressupõe dogmas racionais prévios. * Compreender a divindade exige a metafísica, que por sua vez demanda a física antecedente. * A ciência física é limítrofe e antecede o aprendizado da metafísica. * Deus postou o relato físico no começo do livro sagrado por essa razão pedagógica. * A fraqueza da mente humana em face das grandezas divinas justifica o manto enigmático do texto bíblico e o recurso aos termos homônimos, capazes de alimentar tanto o homem comum quanto o perfeito filósofo. * O Midrach Iemenita consigna que expor a potência da criação a mortais é impossível, justificando a escrita obscura de Gênese. * Salomão atesta em Eclesiastes que o existente é profundo e distante da concepção. * O homônimo ampara o vulgo na medida de sua fraqueza e serve ao instruído em outro patamar conceitual. * O projeto original de redação de dois livros complementares devotados à profecia e à harmonia das lendas talmúdicas foi abandonado pelo autor devido ao risco de mera substituição de enigmas e revelação inadequada de segredos ao vulgo. * O Livro da Profecia e o Livro da Harmonia foram prometidos no comentário da Michnâ. * O livro da harmonia pretendia explicar as incongruências das Derachoth face à verdade racional. * As Derachoth compreendem as interpretações alegóricas e lendas dos Midrachim e Haggadoth do Talmud. * O método de explicar por novas alegorias pareceu ao autor uma troca inócua de indivíduos da mesma espécie. * Desvendar o miolo racional das profecias e Derachoth não seria conveniente para o povo comum. * A atividade dos leitores frente às Derachoth varia de acordo com o nível intelectual, dividindo — se entre a aceitação passiva dos ignorantes e a busca esotérica operada pelos homens distintos. * O rabino vulgar e ignorante aceita o impossível sem sobressaltos devido à cegueira sobre a natureza do Ser. * O homem perfeito que lê o sentido literal pode julgar mal o autor, sem que isso destrua a fé. * A busca por um sentido esotérico preserva a boa opinião sobre o antigo escritor. * O sumário abreviado das verdadeiras fundamentações da fé foi incorporado na obra jurídica Michné Torâ, transferindo — se para o presente tratado a tarefa de guiar o filósofo religioso em suas dúvidas metafísicas. * Desistiu — se da composição dos dois tratados originais nos moldes primitivos. * O Michné Torâ concentra as bases da fé de forma breve e próxima da exposição clara. * O presente tratado foca no estudante de filosofia cujas convicções são abaladas por homônimos e alegorias. * A variedade de conteúdos dos capítulos abrange preparações linguísticas, alertas sobre o caráter parabólico de certos temas e a correção de erros gerados pela confusão entre a imagem e a realidade representada. * Alguns capítulos não tratarão de homônimos diretamente, mas prepararão o terreno para outros. * Certas seções desfazem a inversão errônea entre o símbolo e o objeto simbolizado. * A decifração das chaves interpretativas das alegorias constitui a ferramenta indispensável para atingir o conhecimento real das mensagens transmitidas pelos profetas. * Compreender o sentido oculto é a chave para conhecer os discursos proféticos na realidade. * O testemunho dos próprios profetas e os escritos de Salomon corroboram a centralidade do uso de parábolas e enigmas na transmissão do conhecimento divino. * O Altíssimo afirma em Oseias que faz similitudes por intermédio dos profetas. * Ezequiel ordena a proposição de enigmas e parábolas. * O uso frequente gerou a queixa do profeta de que o povo o chamava de fazedor de alegorias. * Salomão abre os Provérbios indicando a meta de compreender a alegoria, as enigmas e as palavras dos sábios. * O Midrach compara o estado da Torah anterior à intervenção exegética de Salomão a um poço profundo inacessível, cujas águas só puderam ser bebidas após a emenda de cordas e parábolas sucessivas. * Os homens de bom senso não devem supor que as profundezas da Torah mencionadas refiram — se a regras práticas ordinárias. * Os preceitos sobre cabanas rituais, ramos de palmeira ou o direito dos quatro guardiões não são o alvo da analogia do poço. * O foco do Midrach liga — se exclusivamente à inteligência das realidades profundas. * A parábola em si mesma possui valor instrumental nulo, assemelhando — se a uma mecha barata que se acende unicamente com o propósito de localizar uma pérola valiosa perdida na escuridão da casa. * Os rabinos ilustram que uma moeda gasta em iluminação serve para achar o siclo ou a pérola na residência. * O interior das palavras da Torah é a pérola preciosa, ao passo que a casca externa da alegoria nada vale por si. * A habitação escura e atulhada de móveis representa a dificuldade de visualização da verdade existente. * A lâmpada acesa faculta o proveito e o resgate do bem precioso. * A inteligência da alegoria desempenha o papel dessa iluminação doméstica. * O provérbio de Salomão sobre as maçãs de ouro envoltas em redes de prata ilustra a proporção ideal da alegoria, cujo exterior deve ser útil e belo, mas cujo interior deve primar por uma preciosidade ainda maior. * O versículo menciona maçãs de ouro em Maskiyyôth de prata para definir a palavra dita em suas diferentes faces. * Maskiyyôth designa cinzeladuras reticulares com aberturas de malhas finas feitas por ourives. * A etimologia caldaica we — istekhi vincula o termo ao ato de olhar através da abertura. * O exterior de prata equivale ao sentido literal, enquanto o interior de ouro representa a verdade esotérica. * A malha fina deve permitir que o observador atento vislumbre o ouro escondido sob a prata. * O exame descuidado ou distante da parábola projeta a falsa impressão de uma superfície homogênea de prata, revelando — se o ouro interior apenas ao olhar penetrante do investigador. * A distância faz o objeto parecer composto integralmente de prata. * O olho penetrante capta o ouro que habita o lado de dentro. * A utilidade dupla das alegorias proferidas pelos profetas atende à melhoria da governança social em sua face externa e à fixação das crenças verdadeiras em seu miolo interno. * Os Provérbios de Salomão servem externamente para o aprimoramento das sociedades humanas. * O sentido interno nutre as crenças focadas no verdadeiro em toda a sua realidade. * A alegorias proféticas subdividem — se em duas modalidades: aquelas em que cada palavra isolada porta um significado oculto específico e aquelas em que apenas o arranjo geral possui correspondência com o tema central. * A segunda espécie utiliza termos adicionais para adorno, simetria e ocultamento do assunto. * O discurso mantém — se coerente com a lógica externa da narrativa na segunda categoria. * A visão da escada de Jacob em Gênese ilustra a primeira categoria de alegorias, visto que cada detalhe textual adiciona um elemento determinado à soma do sentido profético. * O termo escada indica um assunto próprio. * O posicionamento na terra, o topo no céu e os anjos de Deus aportam sentidos particulares separados. * Os movimentos de subida, descida e a postura do Eterno no topo complementam os sete dados individuais da visão. * O alerta de Salomão em Provérbios contra a sedução da cortesã casada exemplifica a segunda categoria de alegorias, figurando o longo relato descritivo apenas como adorno para a condenação das paixões animais e da matéria. * A narrativa descreve o jovem sem inteligência cruzando a praça no crepúsculo em divisão com a casa da mulher. * A figura feminina apresenta — se em trajes de cortesã e com o coração repleto de artimanhas. * Os detalhes sobre sacrifícios de paz, tapetes, perfumes na cama e a ausência do marido com a bolsa de dinheiro são listados no texto. * A totalidade do discurso visa desestimular o seguimento dos prazeres do corpo. * A matéria corporal, geradora dos vícios e impeditiva da perfeição, é comparada à cortesã infiel. * A matéria imediata humana é idêntica àquela que constitui os demais animais. * O desfecho dos Provérbios com o elogio da esposa fiel espelha simetricamente a condenação inicial da matéria ao exaltar a alma focada no bom governo da casa e na elevação do cônjuge. * A mulher honrada dedica — se à ordem doméstica e à posição de seu marido. * A tentativa de extrair sentidos esotéricos individuais de cada detalhe ornamental de uma alegoria de segunda classe constitui um erro metodológico grave que desvia o foco do tema central. * Detalhes sobre promessas cumpridas ou camas enfeitadas são meros adornos externos da cena de adultério. * O leitor não deve buscar equivalentes reais para cada frase descritiva acessória. * A insistência impõe a tarefa espúria de interpretar o que não foi feito para sê-lo. * A obsessão escolar contemporânea em fixar sentidos arbitrários em termos secundários irrelevantes é classificada como uma grande tolice literária. * A maioria das academias mundiais padece desse vício em suas produções escritas. * Busca — se extrair intenções que o autor original jamais possuiu. * O discernimento básico sobre o caráter parabólico de uma passagem basta para desobstruir a visão do investigador e aproximá-lo da apreensão do objeto real. * Compreender o escopo geral deve ser a meta na maior parte das alegorias. * Saber que o texto é uma alegoria equivale a remover o anteparo interposto diante dos olhos. ** RECOMENDAÇÃO SOBRE ESTE TRATADO ** * A apreensão integral das verdades depositadas na obra exige a leitura cruzada e correlacionada de todos os capítulos, prestando — se estrita atenção a cada vocábulo empregado na progressão do texto. * É indispensável combinar as seções entre si para que nada escape. * Palavras marginais fora do tema principal da seção contêm indicações valiosas. * O rigor construtivo do tratado exclui a presença de afirmações casuais ou aleatórias, justificando — se os deslocamentos tópicos pontuais pela necessidade de preparar explicações em locais adequados. * O texto foi cinzelado com precisão e exatidão severas. * Incursões fora de lugar servem para iluminar conceitos em suas sedes verdadeiras. * A abordagem da obra por meio de preconceitos ou opiniões preconcebidas é prejudicial ao leitor e injusta com o esforço do escritor. * O julgamento prévio impede o proveito e causa dano ao autor. * O aprendizado exige dedicação contínua para desatar os nós interpretativos da Lei. * Conjura — se solenemente os leitores a não comentarem ou desvelarem os conteúdos inéditos do tratado a terceiros, exceto naquilo que já constar da lavra de doutores célebres do passado. * O juramento é feito em nome de Deus o Altíssimo. * Compreensões originais inéditas não devem ser partilhadas com o público. * A pressa na formulação de refutações críticas ao texto é desaconselhada devido ao risco de má interpretação das intenções reais do autor, gerando o pagamento do bem com o mal. * O leitor apressado corre o risco de entender o oposto do que foi grafado. * A crítica injusta pune o escritor que visava unicamente a utilidade do leitor. * A colheita de uma única solução para as obscuridades da Lei basta para exigir do estudante o agradecimento a Deus e a resignação intelectual. * A satisfação de um só desejo interpretativo legitima o esforço. * O desinteresse completo pelos frutos do livro ou a impressão de prejuízo doutrinário devem ser respondidos pelo esquecimento da obra ou pelo julgamento favorável das intenções do sábio. * O texto inútil deve ser encarado como se jamais tivesse sido escrito. * A exegese benevolente é um dever para com os sustentáculos da Lei que buscam ensinar a verdade. * O aproveitamento dos conteúdos do tratado varia segundo o nível do leitor, sendo parcial para os iniciantes e integralmente jubiloso para os sábios perfeitos perturbados pelas alegorias. * Os iniciantes sem base especulativa colherão frutos de alguns capítulos. * Os homens perfeitos imbuídos da Lei extrairão prazer de todas as seções. * Os indivíduos de mente confusa e apegados a métodos falsificados de erudição experimentarão repulsa e aversão ante os capítulos, face à revelação da falsidade de suas moedas intelectuais. * Os pretensos sábios especulativos nada conhecem da ciência real. * A rejeição nasce da incapacidade de apreensão do sentido. * O livro expõe o caráter espúrio do tesouro que esses homens guardavam para a sua velhice. * O temor em verter mistérios esotéricos em formato de livro escrito durante o período do cativeiro foi superado pelo amparo em princípios rabínicos que autorizam a ação em prol de Deus e do céu. * O autor confessa grande temor em registrar os segredos no papel. * Inexistiam livros dessa natureza compostos por correligionários no cativeiro cujas obras restaram guardadas. * O Salmo 119, no entendimento rabínico, permite a transgressão secundária da Lei quando é chegado o momento de agir por Deus para salvar o edifício religioso. * A máxima rabínica ordena que todas as obras sejam feitas em nome do céu. * A preferência em salvar e iluminar um único homem distinto em detrimento do agrado de dez mil ignorantes justifica a franqueza e o enfrentamento do clamor da multidão vulgar. * O mestre prefere falar para o indivíduo singular na arena estreita. * O escopo é retirar o homem perfeito do labirinto e propiciar — lhe o repouso da alma. ** OBSERVAÇÃO PRELIMINAR ** * As origens das contradições e oposições textuais verificáveis em livros e escritos de qualquer natureza reduzem — se ao número fixo de sete causas determinantes. * A primeira causa decorre da compilação de opiniões pertencentes a autores diversos sem a devida menção às autoridades originais de cada frase. * A segunda causa manifesta — se na mudança posterior de opinião por parte de um mesmo autor, cujos registros antigo e novo acabam fundidos em um mesmo volume por coletores. * A terceira causa repousa no uso coexistente de linguagem literal e de linguagem figurada, gerando oposição aparente quando duas imagens alegóricas são lidas na superfície. * A quarta causa provém da omissão pontual de uma condição reguladora ou da alteração oculta do assunto tratado em duas passagens vizinhas. * A quinta causa resulta da necessidade pedagógica de adotar premissas imprecisas ou grosseiras para facilitar a apreensão inicial de um tema complexo por parte do estudante. * O instrutor começa pelo mais simples para pavimentar o caminho. * O tema obscuro é deixado provisoriamente ao sabor da imaginação do ouvinte. * A realidade exata do conceito é desvelada apenas no momento oportuno posterior. * A sexta causa advém do obscurecimento de uma contradição que se encontra aninhada ao término de uma longa cadeia de premissas e silogismos, escapando à percepção do próprio escritor. * O acúmulo de premissas esconde o choque lógico do autor. * A junção de premissas verdadeiras a conclusões intermediárias revela a oposição somente no final da série. * Erros dessa estirpe acometem escritores de grande gabarito científico. * O esquecimento flagrante de teses opostas em páginas próximas denota inferioridade intelectual indigna de atenção. * A sétima causa impõe — se pela necessidade intrínseca de ocultar e revelar alternadamente as frações de uma verdade metafísica extremamente profunda perante os diferentes públicos. * O escritor vê — se compelido a firmar teses opostas em locais distintos do livro. * O povo comum não deve perceber os pontos de fratura e contradição do discurso. * O autor utiliza expedientes diversos para encobrir a oposição lógica. * As oposições verificáveis na Michnâ e nas Baraïthôth derivam exclusivamente da primeira causa, resolvendo — se o impasse no Talmud pela atribuição das frases a doutores distintos. * O Talmud responde às contradições separando o início e o fim do capítulo entre autoridades separadas. * Registra — se que o Editor validou opiniões anônimas de diferentes doutores em casos apartados. * A busca pela autoria de asserções anônimas é uma constante com exemplos inumeráveis. * As divergências textuais internas da Guemarâ e do Talmud brotam da ação conjunta da primeira e da segunda causa produtora de contradições. * Os debates indicam a adoção de rumos teóricos de mestres distintos para casos diferentes. * Aponta — se a divisão entre dois Amoreus acerca do verdadeiro pensamento de um doutor anterior. * Os talmudistas registram as ocasiões em que Râb ou Rabâ abandonaram antigas convicções. * Discute — se qual texto representa a última redação de Rabbi Aché em detrimento da primeira versão. * As contradições aparentes na superfície dos livros proféticos são fruto da terceira e da quarta causa, operando os doutores a reconciliação pela explicitação de condições ocultas. * O esclarecimento dessas oposições literais proféticas era o alvo principal da nota preliminar. * Os doutores costumam contrastar dois textos divergentes para em seguida sanar o conflito. * Aponta — se que a oposição decorre de temas diferentes ou fatores omitidos na escrita. * Os debates dos doutores sobre as contradições internas de Salomão ou entre este e seu pai focavam majoritariamente em temas de ordem moral ou relativos aos preceitos práticos. * O tratado Chabbat 30a interroga se Salomão teria o direito de contradizer o pai e a si mesmo. * O presente tratado foca exclusivamente nas contradições proféticas que afetam as opiniões e artigos da fé, cuja decifração integra os mistérios da própria Lei. * Deixa — se para o campo do debate a verificação de contradições da sétima causa nos livros proféticos. * As discordâncias entre os filósofos verdadeiros derivam da quinta causa pedagógica, enquanto os erros de autores comuns e das lendas hágadas nascem da sexta e da sétima causa. * Os filósofos usam a imprecisão temporária para facilitar o ensino. * Comentadores comuns caem em contradições involuntárias da sexta causa. * Os Midrachôth e as Haggadôth portam sérias contradições decorrentes da sexta e da sétima causa. * Os rabinos estipulam como regra que não se devem levantar contradições no seio das Haggadôth. * As variações e aparentes oposições contidas no corpo deste Guia provêm estritamente da quinta e da sétima causa, devendo o leitor fixar esse dado para evitar o torpor intelectual. * O aviso prévio blinda o estudante contra sobressaltos no decorrer das seções. * O desvelamento do sentido exato dos nomes bíblicos funciona como chave de abertura para portais trancados, onde a alma e o corpo encontram repouso e cessação do cansaço. * O esclarecimento abre as portas de locais dantes inacessíveis. * Os olhos se deleitam e os corpos descansam de suas fadigas na interioridade do saber.