====== Poderes ====== //[[.:start|Jean Daniélou]]. Philon d’Alexandrie, Paris: Librairie Arthème Fayard, 1958// * Se a essência de Deus é incompreensível, disso não se segue que nada se possa conhecer sobre Deus — o conhecimento de Deus pertence a duas ordens: o conhecimento por meio da criação e o conhecimento por meio da ação interior de Deus na alma, pela profecia. * Fílon retoma as provas aristotélicas da existência de Deus para o primeiro modo de conhecimento. * Wolfson observou que Fílon recorre à teoria platônica da reminiscência e à teoria estoica das ideias inatas, adaptando-as profundamente — pois esse conhecimento não é algo que a alma possui por natureza, mas provém do dom da iluminação. * O segundo modo de conhecimento será retomado no contexto da ação do Lógos. * O conhecimento dos atributos de Deus conduz ao ponto mais importante e complexo da teologia filônica — a doutrina dos poderes divinos —, cuja interpretação permanece a mais difícil em todo o pensamento de Fílon. * Em De Posteritate, 166–69, lê-se: "O Ser que realmente é pode ser percebido e conhecido, não apenas pelos ouvidos, mas com os olhos do entendimento, a partir dos poderes que percorrem o universo e do movimento constante e incessante de suas obras inefáveis... 'Vê, vê que Eu sou' (Deuteronômio 32:39)... Tudo o que segue na esteira de Deus está ao alcance do homem bom, enquanto Ele mesmo sozinho está além disso — mas tornado acessível pelos poderes que o seguem e acompanham; pois esses tornam evidente não sua essência, mas sua subsistência a partir das coisas que ele realiza." * A passagem bíblica de base é Êxodo 33: Iahweh declara a Moisés que não pode ver Deus face a face, mas que Moisés verá sua esteira — que Fílon interpreta como o que a ação de Deus estabelece no mundo. * Essa exegese da "esteira de Deus" persistirá na tradição subsequente sob a figura da sombra. * Fílon enumera os poderes de maneiras diversas — ora dois, ora cinco —, sendo os dois poderes principais o criador e o real, identificados com os nomes bíblicos Elohim e Kyrios. * Em De Abrahamo, 121, ao interpretar a aparição em Mambré, Fílon escreve: "O lugar central é ocupado pelo Pai do Universo, que nas Sagradas Escrituras é chamado O-que-é como nome próprio, enquanto de cada lado dele estão os poderes mais antigos e próximos a ele, o criativo e o real. O título do primeiro é Deus, pois estabeleceu e ordenou o Todo; o título do segundo é Senhor, pois é direito fundamental do criador governar e controlar o que trouxe à existência." * Em De Fuga, 95 e 104, Fílon distingue cinco poderes: além do criativo e do real, o terceiro é o poder gracioso — pelo qual o Grande Artífice tem piedade e compaixão de sua própria obra —, mais o poder que ordena o que deve ser feito e o que proíbe o que não deve ser feito. * Em De Fuga, 100, os cinco poderes são simbolizados pela Arca da Aliança: "As Leis depositadas na Arca são símbolos do mandamento e da proibição; a tampa da Arca — que ele chama de propiciatório — representa o poder gracioso; enquanto os poderes criativo e real são representados pelos Querubins alados que repousam sobre ela." * Os cinco poderes são hierarquicamente ordenados, e seu conjunto forma uma escala de graus no conhecimento de Deus — a teologia afirmativa constitui os pequenos mistérios, e a teologia negativa na nuvem constitui os grandes mistérios. * Na ascensão rumo a Deus, a alma encontra sucessivamente: a proibição do pecado, a obediência à lei, o arrependimento diante da misericórdia, o reconhecimento da soberania e, por fim, a adesão ao amor criador. * A visão de Deus como uno ou como tríplice — um e seus dois poderes — depende do grau de purificação da mente, conforme o episódio de Mambré. * Em De Abrahamo, 119 e 122, lê-se: "Quando Deus ilumina a alma ao meio-dia e a luz da mente a preenche por inteiro e as sombras são afastadas por seus raios, o objeto único apresenta-se a ela numa visão tríplice... O ser central, com cada um de seus poderes como escudeiro, apresenta à mente que possui visão a aparência às vezes de um, às vezes de três: de um, quando essa mente está muito purificada e, ultrapassando não apenas a multiplicidade dos outros números, mas até a díade, avança para a forma ideal livre de mistura e complexidade; de três, quando, ainda não iniciada nos mistérios mais elevados, só pode apreender o Existente por suas ações, como criativo ou como soberano." * Os três últimos poderes representam os graus inferiores (De Sacrificiis, 131–33). * A origem dessa teologia dos poderes está nos dados bíblicos — os nomes divinos Iahweh e Elohim —, dos quais Fílon extrai a distinção entre os atributos divinos. * A Septuaginta traduz Elohim por Theos e Iahweh por Kyrios. * Theos designa Deus como criador, segundo uma etimologia encontrada em Heródoto II, 52, que o conecta ao verbo grego "estabelecer." * Kyrios designa naturalmente o poder real. * No judaísmo havia-se adotado o costume de não mais pronunciar o sagrado Tetragrama, substituindo-o por Adonai ou Elohim (De Somniis I, 230) — e o contraste desenvolvido por Fílon entre a essência inefável e os poderes é um desdobramento dessa tendência. * A relação entre a ousia e as dynameis em Fílon foi retomada por Gregório Palamás no século XV e por Vladimir Lossky no século XX, mas Wolfson demonstrou que Fílon não reconhece na natureza divina a divisão que Palamás ensina. * Para Palamás, há distinção real entre a ousia e as dynameis — sendo estas Deus diretamente apreendido na divinização, e não apenas por meio de sua obra. * Wolfson mostrou que, em Fílon, a palavra dynameis designa duas realidades distintas: de um lado, os atributos divinos, incompreensíveis como o próprio Deus e conhecidos apenas por seus efeitos (De Sacrificiis, 59); de outro, as dynameis apreendidas pela mente humana — que são os arquétipos inteligíveis da criação e constituem uma realidade criada. * Essa distinção não recebe apoio nos Padres da Igreja.