====== Deus ====== //LES IDÉES PHILOSOPHIQUES ET RELIGIEUSES DE PHILON D'ALEXANDRIE. PARIS: LIBRAIBIE ALPHONSE PICARD & FILS, 1908// * O conceito de Deus na obra de Filon é caracterizado por ser pouco dialético, mas muito vivo e central para a obtenção da salvação. * A ciência de Deus é considerada por Filon como o cume de todas as felicidades e perfeições humanas. * Filon procura satisfazer o desejo de consciência por Deus sem se preocupar rigidamente com a unidade ou a convergência das doutrinas que utiliza para isso. ** 1. — A NATUREZA DE DEUS ** * A teologia de Filon apresenta uma oposição aparente entre determinações abstratas da natureza divina e determinações concretas e morais de Deus. * De um lado, Deus é descrito como o ser em si, o gênero supremo, o melhor dos seres, o primeiro bem e o sol inteligível do sol sensível. * Deus é caracterizado como uma natureza simples, sem mistura e sem composição, uma vez que qualquer acréscimo a Deus resultaria em sua diminuição e corruptibilidade. * A argumentação para a simplicidade divina, que aparece no livro II das Alegorias, baseia-se na ideia de que qualquer elemento acrescentado à natureza de Deus seria inferior a ele e o tornaria pior. * De outro lado, Deus é apresentado como a força que dirige o universo e a alma humana, sendo descrito como a inteligência ou a alma do universo que o preenche e penetra inteiramente. * Deus recebe os caracteres do sábio estoico, sendo chamado de o único sábio, o chefe da grande cidade do universo, o estrategista, o piloto, o cocheiro e o prítano do universo. * Deus também é nomeado com epítetos populares gregos, como salvador, portador de vitória e benfeitor, e com epítetos judaicos, como benevolente, amigo dos homens, bom, rei dos reis e juiz incorruptível. * A solução encontrada por Filon para a oposição entre o Deus absoluto e o Deus relativo reside na distinção entre dois níveis de compreensão da realidade divina. * Realmente e em verdade, Deus é um ser absoluto sem relação com nenhum outro ser, excluindo de seu ser não apenas o mundo sensível, mas também as propriedades matemáticas e ideais como a unidade ou o bem. * Quando Deus é considerado como criador, juiz ou amigo dos homens, uma relação é introduzida no seu conceito, e nesse caso não se está mais na verdade, mas apenas na aparência. * O culto ao Deus absoluto realiza-se por meio da extase mística, um estado de arrebatamento no qual a alma, para conhecer Deus, abandona a si mesma com todas as suas faculdades. * O culto inferior ou relativo é mantido por Filon porque a extase é um estado raro e inacessível à maioria dos homens, além do próprio Filon ser um judeu praticante que valoriza as práticas que fundamentam a união política dos judeus. * A compreensão do Deus de Filon torna-se unificada quando se adota a perspectiva da experiência íntima de Deus, própria do místico religioso. * Para um místico, como Filon, não é contraditório afirmar que Deus está radicalmente retirado do mundo e, ao mesmo tempo, que ele o penetra e o preenche por completo. * A morada divina está sempre a uma distância infinita da alma, e Deus escapa diante da alma que o persegue, mas a alma tem a consciência de seu próprio nada e do nada das coisas diante de Deus. * Deus é, simultaneamente, aquele que está muito perto e muito longe da criatura humana, sendo um Deus de experiência íntima e não apenas um termo da explicação cosmológica. ** 2. — O PROBLEMA DA CRIAÇÃO ** * A concepção de um Deus absoluto e transcendente modifica completamente o problema das relações entre Deus e o mundo, que na filosofia grega partia da análise do mundo dado. * O mundo, para Filon, não é a aparição ou o desenvolvimento do próprio divino, como ocorre em Platão e nos estoicos, pois Deus exclui radicalmente de seu ser o mundo sensível e todas as suas propriedades. * Apesar disso, na descrição da formação do mundo, as fórmulas utilizadas por Filon são emprestadas principalmente de Platão, a partir do Timeu, e, em menor medida, dos estoicos. * O demiurgo platônico é substituído pela causa ativa e pela inteligência do universo, que são expressões inteiramente estoicas. * A matéria é concebida como preexistente, mas ao modo estoico, ou seja, como inanimada e imóvel, sendo uma essência corporal derivada da mistura confusa dos quatro elementos. * A criação do mundo sensível na obra de Filon não se realiza a partir do nada, mas a partir de uma matéria preexistente, à qual Deus introduz ordem, harmonia e separação dos contrários. * Deus é chamado de pai e criador do mundo, mas a criação é descrita como um ato da vontade e da bondade divinas, e não como uma necessidade. * Embora existam expressões que sugerem a criação a partir do nada, como o uso do termo criador (ktistes), elas permanecem enigmáticas e não indicam uma doutrina clara da criação ex nihilo. * A criação verdadeiramente a partir do nada aplica-se apenas aos seres inteligíveis, como a sabedoria, as ideias e as inteligências puras, que são engendrados por Deus sem a intervenção de uma mãe (sem matéria). * A distinção entre o homem ideal, que Deus fez (epoiesen), e o homem terreno, que Deus modelou (eplasen), ilustra que a filiação divina é atribuída apenas aos seres ideais, com exclusão dos seres sensíveis. * A grande inovação introduzida por Filon na filosofia não é a ideia de criação a partir do nada, mas a ideia de criação em diversos graus e por meio de seres intermediários. * A criação não deriva apenas da potência divina, mas principalmente da bondade de Deus, de modo que o ser só pode ser criado por Deus na medida em que pode receber essa bondade. * A ação divina sobre os seres imperfeitos e inferiores não ocorre diretamente, mas sim por meio de intermediários mais perfeitos do que eles. * Apenas as coisas melhores podem nascer tanto por Deus quanto através do seu intermediário, enquanto as outras coisas nascem não por Deus, mas por intermédios inferiores a ele.