====== Culto ====== //LES IDÉES PHILOSOPHIQUES ET RELIGIEUSES DE PHILON D'ALEXANDRIE. PARIS: LIBRAIBIE ALPHONSE PICARD & FILS, 1908// ** 1. — O CETICISMO E A FÉ ** * A experiência religiosa de Filon se fundamenta em uma crítica radical ao dogmatismo das filosofias gregas que confiavam exclusivamente nas faculdades humanas, utilizando argumentos céticos para demonstrar a fraqueza do homem e conduzi-lo à fé em Deus como única certeza. * Filon considera como uma forma de dogmatismo ateu a crença generalizada entre os sofistas e filósofos de que a inteligência humana é a medida de todas as coisas, uma referência implícita ao pensamento de Protágoras, e de que a sensação e a inteligência são critérios infalíveis de verdade, numa alusão à epistemologia epicurista. * A esses pensadores, Filon atribui a convicção impiedosa de que as artes, as leis, as instituições sociais e a própria justiça são criações exclusivas da inteligência humana, prescindindo completamente da ação divina no mundo. * Para demolir essa autossuficiência humana, Filon recorre aos argumentos do ceticismo grego, notadamente aos tropos de Enesidemo, que demonstram a impossibilidade de se estabelecer um critério estável de verdade devido à variação e instabilidade das representações sensíveis produzidas pelos mesmos objetos. * Um longo trecho do tratado "Sobre a Embriaguez" (parágrafos 171 a 206) é identificado como uma reelaboração direta dos tropos céticos, onde Filon mostra que os mesmos fenômenos produzem impressões diferentes conforme as condições físicas, psicológicas ou ambientais, tornando impossível qualquer assentimento definitivo. * Além dos tropos, Filon utiliza em outras passagens a divergência irredutível de opiniões entre os filósofos sobre questões fundamentais, como a natureza do céu e a substância da alma, servindo-se de fontes doxográficas para compilar essas teses contraditórias com um propósito claramente cético. * Essa argumentação cética, no entanto, não visa estabelecer a impossibilidade do conhecimento em geral, mas sim limitar a pretensão humana de conhecer o mundo sensível e demonstrar a incapacidade do homem composto de corpo e alma de atingir, por seus próprios meios, a verdade sobre o ser. * A conclusão fundamental que Filon extrai desse exercício cético é o sentimento do nada do homem e da instabilidade de todas as coisas do devir, um sentimento que não é meramente teórico, mas cultivado como uma meditação ascética sobre a impotência dos sentidos, da razão e da linguagem diante da realidade divina. * Nesse contexto, a fé (pistis) em Deus não é uma crença ingênua ou uma opinião provável, mas a certeza inabalável de que Deus é a causa única de todas as coisas e de que Ele permanece imutável enquanto todo o resto está em perpétuo fluxo. * Filon identifica a fé com a "compreensão estável" (katalepsis) da teoria estoica do conhecimento, ou seja, a apreensão de um objeto que é clara e distinta a ponto de não poder ser abalada por nenhum argumento contrário, mas transfere esse conceito do conhecimento do mundo físico para a relação religiosa com Deus. * Em uma série de paradoxos de inspiração estoica, Filon afirma que a fé verdadeira pertence apenas a Deus, que é o único fiel (pistos) porque somente Ele pode compreender-se a si mesmo, e também ao sábio, que por sua perfeição se torna amigo de Deus e participa dessa estabilidade divina. * Contudo, a análise mais profunda de Filon revela que a fé perfeita e sem dúvidas é impossível ao homem comum, pois a própria inteligência ligada ao corpo é instável e falível, e o próprio Abraão, o modelo de fé, experimenta momentos de dúvida que são descritos como mudanças rápidas e quase imperceptíveis na sua mente. * A fé verdadeira, portanto, não pode ser uma disposição permanente da natureza humana, mas exige uma verdadeira metamorfose, uma saída de si mesmo (extase) e uma transformação da inteligência humana em inteligência pura, que já não é mais humana, mas divina, capaz de habitar o mundo inteligível e ali contemplar a Deus. ** 2. — AS RELAÇÕES DA ALMA COM DEUS NO CULTO INTERIOR ** * O culto interior em Filon exige como condição não apenas a pureza moral do adorador, mas uma transformação radical que suprime no homem tudo o que é terreno, elevando sua inteligência purificada ao nível dos seres divinos que prestam culto a Deus. * Embora Filon não rejeite as formas exteriores do culto judaico (sacrifícios, dízimos, festas), ele subordina completamente sua validade à disposição interior de quem os pratica; o mesmo sacrifício oferecido por um homem piedo é aceito por Deus, enquanto a oferenda mais rica de um ímpio é rejeitada. * A insistência na pureza moral do adorador leva Filon a uma crítica implícita do culto material: Deus não tem necessidade de sacrifícios sangrentos, não pode ser corrompido por oferendas e não se agrada de holocaustos senão quando estes são símbolos de uma alma que se oferece a Ele em ação de graças. * O culto interior, no entanto, não se reduz à moralidade, pois a simples prática das virtudes por si mesmas, sem a referência a Deus, é insuficiente; a verdadeira vida religiosa consiste em praticar a virtude com a consciência explícita de que ela tem origem divina e em oferecer a Deus os próprios atos bons como vítimas espirituais. * A alma que se dirige a Deus no culto interior experimenta uma complexa mistura de sentimentos: ao mesmo tempo em que se aproxima d'Ele com a confiança e a franqueza (parresia) de um amigo, ela treme diante de sua majestade e poder, numa alternância de temor e amor que caracteriza a piedade judaica. * Deus é descrito nas relações pessoais com a alma como o mestre que instrui o discípulo, o amigo que consola, o pai que protege e castiga, e o salvador que liberta o justo das aflições; essa linguagem evoca a relação íntima entre Deus e o homem piedoso descrita nos Salmos e nos Profetas. * Contudo, sob a influência da mística platônica e estoica, essas relações pessoais sofrem uma profunda transformação e se esvaziam de seu conteúdo humano: a amizade com Deus torna-se um princípio de desapego do corpo, a filiação divina transforma-se em uma geração espiritual e misteriosa, e a salvação converte-se na libertação da alma das paixões e na sua ascensão ao mundo inteligível. * A análise da paternidade divina exemplifica bem essa transformação: em um sentido, Deus é o pai que ama e educa os homens; em um sentido mais elevado, o sábio é chamado de filho de Deus porque atingiu o ápice da sabedoria e se tornou semelhante aos anjos; e, finalmente, o sentido místico da paternidade divina é apresentado no "mistério da geração de Isaac", no qual Deus, unindo-se à virtude (Sara), gera na alma purificada o bem-aventurança espiritual, um evento que transcende completamente a ordem da natureza humana. * A conclusão final de Filon é que o culto verdadeiro, assim como a profecia, o êxtase e a fé, não é uma atividade possível ao homem composto de corpo e alma, nem mesmo à sua inteligência enquanto ela permanece ligada ao corpo; ele é exclusivamente a função da "inteligência muito pura", um ser que já não é mais humano, mas que pertence à ordem dos anjos, dos arcanjos e das potências divinas, habitando o mundo inteligível e ali praticando a adoração perfeita a Deus. ** 3. — ORIGEM EGÍPCIA DO CULTO ESPIRITUAL ** * As origens do culto espiritual de Filon, com sua ênfase na inteligência purificada, na imortalidade por meio de uma nova geração espiritual e na iniciação por meio de mistérios, devem ser buscadas não na Grécia clássica nem no judaísmo palestiniano, mas no ambiente religioso do Egito helenizado e no estoicismo que aí se desenvolveu. * O estoicismo alexandrino, representado por figuras como Queremon (um sacerdote egípcio e mestre de Nero) e Apion (gramático e comentador de Homero), já havia incorporado elementos da religião egípcia, interpretando alegoricamente seus deuses e desenvolvendo uma teologia na qual o Logos (identificado com Hermes-Thot) e os astros desempenhavam um papel central. * A teoria da inteligência purificada em Filon é uma reinterpretação radical dos paradoxos estoicos sobre o sábio: enquanto os estoicos afirmavam que o sábio é divino, profeta e rei, Filon dá a essas afirmações um sentido literal e metafísico, sustentando que o sábio perfeito não pode existir na terra, mas apenas no mundo inteligível, como uma inteligência pura e desencarnada. * A imortalidade, em Filon, não é concebida como a permanência da alma individual após a morte (como no platonismo ou no estoicismo), mas como o resultado de um processo de "regeneração" ou "nova nascença" no qual o homem, ao se despojar de seu corpo, de suas paixões e de sua própria inteligência terrestre, torna-se um ser imortal e incorruptível, habitando o mundo inteligível. * Essa concepção da imortalidade como uma "partida para o Hades" ou como uma "ascensão ao céu" é frequentemente expressa por Filon em uma linguagem que evoca as descrições gregas do mundo subterrâneo (com suas imagens de trevas, fantasmas e suplícios), mas que adquire um significado alegórico: o verdadeiro Hades é a vida no corpo e nas paixões, e a verdadeira imortalidade é a vida no mundo inteligível. * Filon adota amplamente o vocabulário e a estrutura dos cultos de mistério (eleusinos, órficos, isíacos) para descrever a iniciação na verdade divina: ele fala de um "discurso sagrado" (hieros logos), de um "hierofante" que revela os mistérios, da distinção entre "pequenos mistérios" (o conhecimento das potências divinas) e "grandes mistérios" (a visão direta do Deus uno), e exige o silêncio e a discrição dos iniciados. * O conteúdo central desses mistérios filonianos, contudo, não é judaico: o "mistério da geração divina" (a união de Deus com a Sabedoria-Sara para gerar o bem-aventurança-Isaac) é estranho ao monoteísmo bíblico e encontra seus paralelos mais próximos nas hierogamias (casamentos sagrados) descritas por Plutarco em "Sobre Ísis e Osíris" e nos hinos órficos. * A doutrina da inteligência muito pura, que morre para o mundo sensível e renasce para o mundo inteligível, praticando ali o culto divino como um ser espiritual, apresenta analogias impressionantes com o "Livro dos Mortos" egípcio e com a literatura hermética contemporânea (especialmente o "Poimandres"), onde a alma do justo, após a morte, ascende através das esferas planetárias, despoja-se de suas faculdades e paixões e torna-se um deus, unindo-se ao Pai. * Essas influências egípcias e sincréticas não devem ser vistas como uma infidelidade de Filon ao judaísmo, mas como um testemunho da abertura e da criatividade do judaísmo alexandrino, que, na ausência de uma ortodoxia rígida e diante da distância geográfica do Templo de Jerusalém, pôde incorporar elementos das religiões e filosofias de seu entorno, reinterpretando alegoricamente a Lei de Moisés à luz dessas novas concepções religiosas.