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LUTERO
WEIGEL, Valentinus Josephus. Valentin Weigel: selected spiritual writings. New York Mahwah, NJ: Paulist Press, 2003.
Crise de consciência luterana e retraimento interior
- A Era da Fé conheceu tanto o sacrifício heroico em nome da crença quanto a violência terrível praticada contra os professantes de doutrinas divergentes.
- O período testemunhou simultaneamente a exaltação do amor comunitário e o desencadeamento de perseguições desumanas e guerras religiosas.
- O pensamento de Valentin Weigel busca purificar a fé de suas contradições de violência e intolerância por meio da eliminação de seu caráter mundano.
- O mundo engloba o interesse próprio humano, a imposição institucional de doutrinas pelo poder estatal e a própria natureza material corruptível.
- A natureza material configura-se como a esfera não livre onde imperam a força física e a necessidade biológica.
- A recuperação da coerência profunda dessas associações de ideias apresenta dificuldades para o observador contemporâneo.
- O questionamento envolve a possibilidade de rejeitar doutrinas luteranas e ao mesmo tempo postular uma autodefesa como pertencente ao Luteranismo.
- A aparente neutralidade teológica da natureza e da sociedade secular funciona no mundo moderno como a garantia comprovada da liberdade intelectual e religiosa.
- A reconstrução da arqueologia das convicções do autor deve ser feita desde a base, observando a coerência entre elementos luteranos, místicos e paracelsianos.
- O objetivo consiste em demonstrar como esses componentes díspares pareciam constituir um todo coerente dentro do contexto histórico específico.
- A compreensão de Valentin Weigel sobre mundo e espírito insere-se em uma tradição mística que se estende por vários séculos.
- O historiador Bernard McGinn aponta que o misticismo medieval inicial caracterizava-se pelo motivo do afastamento do mundo para integração em uma elite espiritual.
- A orientação de afastamento em direção a uma elite monástica segregada sofreu um redirecionamento nos séculos posteriores.
- O processo de transformação iniciou-se no século treze por meio de dinâmicas de democratização e secularização mística:
- Essa ênfase começa a mudar no início do século treze, quando testemunhamos os primeiros sinais de um processo de democratização e secularização que cresceria ao longo dos cinco séculos seguintes.
- A democratização mística definia-se pela possibilidade prática de comunhão direta com Deus estendida a todos os cristãos comuns:
- Por democratização, quero dizer a convicção de que era prática e não apenas teoricamente possível para todos os cristãos, e não apenas para os religiosos, desfrutar da consciência imediata da presença de Deus.
- A secularização mística implicava encontrar a graça divina no cotidiano sem a necessidade de fuga do mundo físico:
- Por secularização, quero dizer que a fuga do mundo não era considerada uma condição prévia necessária para alcançar tal graça divina — Deus podia ser encontrado no reino secular e no meio da experiência cotidiana.
- O Paracelsismo complementa a virada interior ao conferir relevância espiritual à esfera natural e secular da existência humana.
- O Paracelsismo transforma a natureza ou o mundo no correlato e oposto adequado para o espírito humano.
- Valentin Weigel operou uma semi-espiritualização teórica do mundo por meio de conceitos extraídos do sistema de Paracelso.
- Os conceitos de microcosmo e macrocosm integravam essa estrutura explicativa.
- A teoria da Tria Prima unia os princípios do enxofre, mercúrio e sal.
- Os espíritos elementares animados habitavam a natureza material de acordo com a cosmologia paracelsiana.
- Os princípios da Tria Prima não correspondiam às substâncias químicas comuns de mesmo nome, mas a aspectos da natureza compreendida como processo.
- O processo natural coincide em seus extremos com a condição escatológica de criação divina ex nihilo.
- A criação material destina-se à destruição e transformação em nada no final dos tempos.
- Paracelso comparava suas três substâncias primeiras a elementos de combustão como o combustível, a chama e a fumaça.
- A Reforma Luterana representou um marco divisor crucial no processo de transição em direção à democratização e secularização da experiência religiosa.
- Martinho Lutero configurou-se como a figura fundadora exemplar da confissão religiosa de Valentin Weigel.
- A Reforma Protestante possui palavras célebres e imagens míticas enraizadas na consciência popular, assemelhando-se à Revolução Americana.
- A imagem clássica retrata Martinho Lutero fixando as Noventa e Cinco Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg em 31 de outubro de 1517.
- A declaração lendária proferida perante a Dieta Imperial de Worms reafirmou a lealdade do crente livre até a morte.
- O teor da frase célebre de Worms consistia em: Aqui estou, não posso fazer de outro modo.
- A Reforma dissolveu as ordens religiosas católicas e extinguiu o status jurídico diferenciado e de elite do clero tradicional.
- O jovem Martinho Lutero reconheceu explicitamente o sacerdócio universal de todos os leigos batizados no período entre 1520 e 1523.
- A chamada doutrina dos dois reinos gerou diversas implicações para os luteranos, desde a submissão política até a afirmação da autonomia espiritual.
- O status autônomo da fé entrou em rota de colisão inevitável com as novas instituições eclesiásticas dedicadas à codificação e imposição de padrões.
- A variedade de impulsos luteranos gerou uma tensão permanente entre a autonomia religiosa individual e a nova autoridade institucional eclesiástica.
- Valentin Weigel ridicularizou o dogmatismo dos devotos cegos de Martinho Lutero na segunda metade do século dezesseis, embora o prestígio pessoal do reformador fosse imenso.
- Os seguidores slavos tratavam Martinho Lutero como um Pitágoras cujas próprias limitações pessoais deveriam ser imitadas.
- O núcleo da doutrina luterana permanecia como uma unidade que transcendia a autoridade estritamente pessoal para Valentin Weigel.
- Os três pilares do novo credo protestante sustentavam-se nas máximas de autoridade exclusiva da escritura, da graça divina e da fé.
- Valentin Weigel manteve a adesão ao senso de escolha excludente centrado na doutrina da salvação obtida unicamente pela fé.
- A rejeição do rótulo de subjetivismo exige enfatizar que a transferência da autoridade do exterior para a palavra interna não significava um abandono das Escrituras.
- A virada em direção ao misticismo não representou de modo algum uma renúncia à autoridade dos textos bíblicos.
- A Bíblia Luterana fornecia o testemunho escrito essencial a respeito do testemunho interno operado pelo Espírito Santo, segundo Valentin Weigel.
- A resposta de Jesus aos fariseus sobre o momento do advento do reino divino constitui a passagem citada com maior frequência e ênfase pelo autor.
- O texto evangélico de Lucas afirma a interioridade do reino em oposição à sua visibilidade localizável:
- O reino de Deus não vem visivelmente, nem as pessoas dirão: Aqui está, ou: Lá está, porque o reino de Deus está dentro de vocês.
- Martinho Lutero havia citado a mesma passagem de Lucas para rebrucar a compreensão de Andreas Karlstadt sobre a comunhão, opondo-se à localização física de Cristo.
- Martinho Lutero concluiu contra a suposta localização espacial afirmando que o reino de Deus está dentro do indivíduo.
- Cristo não se restringe à mão direita do Pai no céu, sendo considerado onipresente na teologia luterana.
- Martinho Lutero igualava a determinação espacial da divindade à substituição da liberdade evangélica por uma estrutura legalista restritiva da consciência.
- Os indivíduos que proclamavam a localização da verdade representavam tanto para Martinho Lutero quanto para Valentin Weigel os guardiões de uma igreja legalista baseada em cerimônias excludentes.
- As palavras de Jesus a Nicodemos a respeito do renascimento espiritual estabelecem uma dicotomia clara entre os reinos da carne e do espírito.
- O enunciado evangélico afirma que o espírito dá nascimento ao espírito.
- O discurso bíblico confirma que a igreja do espírito não pode ser aprisionada por dispositivos legais ou cerimoniais ritualísticos.
- O texto de João compara a ação do Espírito Santo à liberdade de movimento observada nos ventos da natureza:
- O vento sopra onde quer. Você ouve o som dele, mas não pode dizer de onde vem ou para onde vai. Assim é com todo aquele que nasceu do Espírito.
- A primeira das Duas Úteis Tratados de 1570 cita explicitamente a passagem de João para contestar a necessidade absoluta da água no batismo espiritual.
- O tratado condena os conflitos promovidos por teólogos e pastores ao defender a autonomia da ação divina.
- O novo nascimento espiritual depende exclusivamente do poder divino, escapando do controle da autoridade sacerdotal ou da água:
- O novo nascimento não está em poderes, nem em autoridade ou poder do sacerdote ou da água, mas sim no poder de Deus, que deixa o seu Espírito espirrar como quer.
- O indivíduo regenerado experimenta a moção interna em direção às virtudes sem que a ação humana possa acrescentar ou retirar algo desse estado:
- E um ser humano renascido experimenta e sente o espirrar, o soprar, o bom movimento em direção a todas as virtudes, mas o ser humano não pode nem dar tais coisas a ele, nem tirá-las.
- Os oponentes teológicos de Valentin Weigel eram designados em alemão como Schriftgelehrten, cujo significado literal traduz-se como eruditos da escritura.
- O termo Schriftgelehrten é vertido na tradução inglesa como fariseus.
- Valentin Weigel enfatiza as palavras do Apóstolo Paulo na Segunda Epístola aos Coríntios contra o uso autoritário e puramente histórico da figura de Jesus.
- A máxima paulina assevera que a letra mata, mas o espírito comunica a vida.
- A postura adequada do cristão envolve priorizar o sentido e significado profundo do texto sagrado em detrimento do apego estrito à grafia literal:
- É apropriado para o cristão observar o sentido e o significado da escritura em vez da letra. A letra mata, o espírito dá vida.
- A redução do conceito de letra ao sentido puramente literal e do espírito ao sentido alegórico constituiria uma simplificação incorreta do pensamento weigeliano.
- O espírito identifica-se com a liberdade, a verdadeira fé e a mensagem coesa dos evangelhos refletida na natureza e na filosofia.
- A letra engloba tudo o que gera tirania, exclusão e divisões de caráter sectário no ambiente religioso.
- O episódio do derramamento do Espírito Santo sobre gentios e judeus relatado nos Atos dos Apostólicos simboliza a natureza não excludente da igreja espiritual para Valentin Weigel.
- O relato bíblico dos Atos dos Apóstolos demonstra o recebimento do Espírito Santo independentemente da realização prévia do ritual do batismo aquático:
- Leia os Atos dos Apóstolos e descobrirá que até os gentios receberam o Espírito Santo sem qualquer batismo de água e, inversamente, que mesmo aqueles batizados em nome de Cristo não receberam o Espírito Santo.
- A pregação de Pedro provocou a descida do Espírito Santo sobre a totalidade dos ouvintes reunidos no recinto.
- Os fiéis de origem judaica que acompanhavam Pedro manifestaram choque perante a concessão do dom divino aos povos gentios:
- E os fiéis da circuncisão que tinham vindo com Pedro ficaram chocados de que o dom do Espírito Santo tivesse sido derramado inclusive sobre os gentios;
- A manifestação carismática de línguas e louvores a Deus foi ouvida diretamente pelas testemunhas da circuncisão.
- Pedro reagiu questionando a legitimidade de recusar o batismo com água àqueles que haviam recebido o mesmo dom espiritual:
- Diante disso, Pedro respondeu: Poderia alguém recusar a água para que não fossem batizados estes que receberam o Espírito Santo assim como nós?
- O apóstolo ordenou formalmente a execução do batismo de água em nome do Senhor após a constatação do fato espiritual.
- Valentin Weigel priorizou essas passagens bíblicas específicas pelo suporte que ofereciam à sua necessidade interna de inclusão universal.
- O autor desconsiderou os contextos institucionais ou estritamente históricos da salvação.
- Elementos vistos como lei, mandamento ou barganha salvacional foram deliberadamente descartados.
- A doutrina luterana da justificação imputada permitia a subsistência de uma falsa fé que funcionava como uma indulgência baseada nos méritos de Cristo, segundo a crítica do autor.
- A atitude criticada resumia-se na ideia de beber às custas de Cristo, bastando a imputativa justitia para o crente.
- A presença interior de Cristo não se concebe como uma forma de justiça baseada em obras humanas, mas como a interpretação autêntica da teologia luterana da cruz.
- A imediatez da fé dispensa qualquer critério institucional externo para fins de admissão na igreja visível.
- Valentin Weigel não rejeitava o sinal externo do batismo aquático em seu exercício prático como pastor da comunidade.
- O pastor negava apenas a capacidade do ritual de operar a regeneração espiritual por si mesmo.
- O novo nascimento místico ocorre no interior do indivíduo de forma não pública, impedindo sua transformação em um instrumento de exclusão eclesiástica:
- Quem quer que tenha este novo nascimento dentro de si, seja mulher ou homem, jovem ou velho, judeu ou gentio, cristão ou turco, será abençoado, e mesmo que já não tenha sido batizado com água.
- A negação do poder intrínseco da cerimônia batismal servia como afirmação de uma tolerância religiosa de caráter inclusivo.
- Valentin Weigel defendeu a salvação das crianças não batizadas pertencentes a judeus, gentios e todos os povos, possivelmente motivado pelo nascimento recente de seus próprios filhos.
- O batismo verdadeiro ou novo nascimento estende-se para além dos filhos dos cristãos, alcançando a descendência de todos os povos da terra:
- Quem crê e é batizado é salvo, etc. Tal batismo ou novo nascimento ocorre não apenas nos filhos dos cristãos, mas também nos filhos dos judeus, gentios e de todos os povos.
- Uma tricotomia antropológica paulina composta por corpo, alma e espírito foi postulada para fundamentar a existência de uma fé espiritual na infância.
- A criança pequena crê em Cristo por meio da iluminação intrínseca desse componente espiritual do ser.
- O ritual externo do batismo seria incapaz de produzir salvação na criança se houvesse ausência completa dessa fé espiritual interna.
- Valentin Weigel encontrou precedentes para a reconciliação entre Luteranismo e mística na Bíblia e no tratado místico medieval conhecido como Theologia Germanica.
- A Theologia Germanica havia sido altamente estimada por Martinho Lutero no início do movimento da Reforma.
- O tratado Breve Relato e Introdução à Theologia Germanica materializa o esforço inicial do autor para reavivar a mística contra o mal-estar teológico de sua época.
- O texto foi assinado na cidade de Zschopau em março de 1571 e dedicado ao colega pastor luterano Christopher Corner de Rückerswald.
- O Relato de Valentin Weigel somou-se a uma série de vozes luteranas dissidentes que buscavam reconduzir a Reforma às suas origens primitivas e puras.
- O tratado escrito por um cidadão anônimo de Frankfurt no século quatorze teve um impacto profundo após ter sido editado por Martinho Lutero no início da Reforma.
- A pequena obra evitava exposições sistemáticas para focar a fé cristã em contrastes simples como o eu e Deus, ou mundo e espírito.
- O ser humano foi criado livre por Deus, devendo renunciar voluntariamente à sua vontade própria para alinhar-se à vontade divina e divinizar-se na abnegação.
- O Breve Relato de Valentin Weigel introduz conjuntamente a Theologia Germanica e a Bíblia, seguindo o modelo do prefácio luterano de 1518.
- Ambas as fontes textuais exigiriam uma aplicação especial por parte do leitor.
- Os três primeiros capítulos do Gênesis articulam essencialmente o mesmo conteúdo contido na Theologia Germanica, segundo a observação de Valentin Weigel.
- O Gênesis e a Theologia resumem ou antecipam a totalidade das escrituras sagradas ao ensinarem a morte de Adão e a ressurreição de Cristo no interior do homem.
- A Bíblia ensina fundamentalmente que Adão deve morrer em nós e Cristo ser ressuscitado e viver em nós.
- O autor defendeu repetidamente a necessidade de uma interpretação mística e especulativa para os relatos do livro do Gênesis ao longo de sua carreira.
- A criação do homem a partir do pó da terra significa que o ser humano abrange em sua essência a totalidade da natureza material.
- O ser humano configura-se como um microcosmo com base nessa herança essencial da criação.
- Os dois mundos do macrocosmo e microcosmo sintetizam os processos bíblicos de queda da humanidade e subsequente redenção espiritual.
- Valentin Weigel empenhou-se em combinar esses temas na obra Interpretação Quádrupla da Criação durante sua última década de vida.
- A exegese do Gênesis serviu de base para associar a física bíblica com as descobertas astronômicas em Vom Ort der Welt e com a epistemologia espiritual de Der güldene Griff.
- A interpretação teológica permaneceu subordinada a uma perspectiva pragmática e simples, apesar das complexidades interpretativas adotadas.
- O valor atribuído à Theologia Germanica residia na capacidade do texto de reduzir a doutrina a uma alternativa simples de caráter bipolar ou equivalente.
- O bem e o mal contrastam entre si como a plenitude do ser divino opõe-se ao nada ilusório decorrente do pecado e da condição de criatura.
- Cada criatura traz obrigatoriamente em si a dualidade composta pelo elemento bom derivado de Deus e pelo elemento mau:
- Agora, cada criatura de necessidade tem duas coisas nela, o bom e o mau, o bom de Deus como sendo, vida, luz, espírito e assim por diante.
- O mal provém da própria vacuidade da criatura, que não possui substância ou ser independente por si mesma:
- O mau de si mesma, isto é, do seu próprio nada. Pois a criatura é nada em si mesma;
- A totalidade do que a criatura manifesta ou possui deriva exclusivamente da fonte divina:
- mas o que ela é e tem, ela tem inteiramente de Deus.
- Johannes Tauler afirma, baseado em Mestre Eckhart e na Theologia Germanica, que Deus constitui o único ser necessário e verdadeiro ser substancial.
- O criado assemelha-se a uma sombra, imagem ou mero acidente metafísico perante o verdadeiro ser divino:
- Tauler diz, baseando-se em Eckhart: O que foi feito não é o verdadeiro ser, mas sim como uma imagem ou sombra ou acidente, e assim também a Theologia fala em seu primeiro capítulo: que Deus sozinho é o verdadeiro ser, pois ele é por si mesmo, e é o seu próprio ser, e não pode negar a si mesmo: Ele não pode ser nada, ele é o ser necessário.
- O anjo ou o ser humano não possuem o ser verdadeiro de forma autônoma, pois sua existência depende da infusão da essência divina em todas as coisas:
- Mas a criatura, como anjo ou ser humano, não é o verdadeiro ser, pois não é por si mesma, e a criatura não tem nada de seu do que se orgulhar: É tudo de Deus, pois Deus é o ser de todos os seres, la vida de todas as coisas vivas e a sabedoria de todos os seres sábios.
- As passagens citadas destilam uma longa tradição metafísica em uma postura de caráter predominantemente moral e religioso.
- Críticos poderiam objetar que a equalização de Deus ao ser e da criatura ao nada possui raiz neoplatônica, distanciando-se da Bíblia e das intenções originais de Martinho Lutero.
- Uma dicotomia similar poderia ser deduzida a partir da própria doutrina luterana da onipresença e onipotência divina, familiar ao pensamento de Valentin Weigel.
- O relato de Martinho Lutero sobre a onipotência divina na obra De Servo Arbitrio de 1525 tende a tornar efêmera qualquer realidade exterior ao poder de Deus.
- O próprio diabo é enquadrado como um mero instrumento acidental para a execução da vontade divina na teologia de Martinho Lutero.
- A contemplação radical da onipotência e onipresença transforma as criaturas em marionetes ou máscaras que cobrem a ação divina.
- A teologia luterana da criação contínua, na qual a natureza é perpetuamente renovada por Deus, projeta uma luz dupla sobre o mundo criado.
- A persistência das coisas criadas configura-se como uma obra divina direta e imediata, embora a criação não se confunda com a própria divindade.
- O surgimento perpétuo dos seres a partir da invisibilidade pré-existente constitui um milagre que atesta o poder supremo do Deus invisível acessível pela fé.
- Martinho Lutero assevera que a retirada da sustentação divina provocaria o colapso imediato de toda a estrutura do mundo material:
- Se Deus retirasse a Sua mão, este edifício e tudo o que está nele desabariam.
- A inteligência humana ou angelical seria totalmente incapaz de preservar a existência das coisas por um único instante na ausência da ação divina:
- O poder e a sabedoria de todos os anjos e homens não seriam capazes de preservá-los por um único momento.
- Os processos vitais, o crescimento da vegetação e o movimento dos corpos celestes dependem do trabalho contínuo de Deus:
- O sol não reteria por muito tempo a sua posição e brilharia nos céus; nenhuma criança nasceria; nenhum grão, nenhuma lâmina de grama, nada de modo algum cresceria na terra ou se reproduziria se Deus não trabalhasse para todo o sempre.
- Cristo opera como o agente divino responsável por tornar visível aquilo que antes residia no estado de invisibilidade na criação.
- O governo e a preservação do céu e da terra são exercidos ativamente por Cristo desde o princípio até o final dos tempos:
- E é Cristo o Senhor, que estava presente no momento da criação de todas as coisas não como mero espectador, mas como Criador e Trabalhador coigual, que ainda governa e preserva tudo e continuará a governar e preservar tudo até o fim do mundo.
- Cristo define-se como o Alfa, o centro e o Ômega de todas as criaturas existentes:
- Pois Ele é o começo, o meio e o fim de todas as criaturas.
- O mundo apresenta um aspecto contrastante e dicotômico para Martinho Lutero de maneira análoga ao veredito de Valentin Weigel.
- A natureza permanecia dicotômica para Martinho Lutero, embora este divergisse de Valentin Weigel quanto ao grau de autoridade concedido a fontes não bíblicas.
- O ser da natureza depende integralmente e de forma passiva da infusão contínua do poder divino a cada instante.
- O pensamento weigeliano não representa uma interpretação adequada das intenções originais de Martinho Lutero, mas constitui uma leitura possível de suas afirmações sobre Deus.
- A proposta interpretativa de Valentin Weigel não necessita ser descartada sob rótulos de Gnosticismo ou filosofia puramente não cristã.
- O desafio para Valentin Weigel consistia em compreender como a criatura pode ser simultaneamente semelhante e dessemelhante a Deus em termos de vontade humana.
- A articulação conceitual dessa semelhança foi realizada por meio da teoria da imagem, presente em Mestre Eckhart, na Theologia Germanica e em Paracelso.
- Gnothi seauton de 1571 representou o esforço inicial de Valentin Weigel para estruturar um argumento teórico amplo fundamentado em antíteses binárias.
- As antíteses binárias organizam em correlatos simples os múltiplos termos doutrinários que haviam sido enredados em contradições clericais.
- O autor aponta uma lista de alternativas conceituais opostas que devem ser mantidas em mente durante a leitura das escrituras sagradas:
- Adão encontra seu oposto conceitual na figura de Cristo.
- A Desobediência contrapõe-se diretamente à Obediência.
- O Homem Natural opõe-se à dimensão do Sobrenatural.
- A Letra estabelece antítese com o Reino do Espírito.
- A Morte encontra-se em oposição à esfera da Vida.
- As Trevas contrastam com a realidade da Luz.
- A Cegueira opõe-se ao estado de Verdadeiro Conhecimento.
- A Lei define-se em oposição à mensagem do Evangelho.
- A Não Graça encontra seu contrário na dimensão da Graça.
- A Transgressão da Lei opõe-se ao seu Pleno Cumprimento.
- A Injustiça estabelece contraste absoluto com a Justiça.
- O Velho Nascimento opõe-se ao processo do Novo Nascimento.
- A Vontade Própria contrapõe-se diretamente à Vontade Divina.
- O estado de Preso e aprisionado para a Morte opõe-se à condição de Livre e solto para a Vida.
- As oposições conceituais listadas encontram-se na Bíblia, registrando-se com especial frequência nos escritos do Apóstolo Paulo.
- Os pares representam uma encruzilhada metodológica entre a exegese bíblica literal ou espiritual e entre a experiência mundana ou mística.
- A simplicidade das antíteses visa oferecer uma resposta direta contra as complexidades das controvérsias e recriminações teológicas.
- Os contrastes relembram ao leitor que todas as escolhas reduzem-se fundamentalmente à opção única entre Deus e o próprio eu.
- Valentin Weigel destacou exatamente essas antíteses ao defender sua ortodoxia luterana em 1572, ciente de que elas estruturavam a escrita do próprio Martinho Lutero.
- A obra Do Cristianismo Livre de Martinho Lutero, publicada em 1520, inicia-se com uma antítese de caráter paradoxal sobre o status do cristão.
- O cristão é definido como um senhor livre sobre todas as coisas, não estando sujeito a nenhum poder humano.
- O cristão define-se simultaneamente como um servo dócil em todas as coisas, sujeito à totalidade dos homens.
- A antítese entre liberdade e servidão possui parentesco conceitual com a dualidade existente entre o reino divino e os reinos deste mundo.
- O paradoxo assemelha-se ao mistério do ser divino perante o nada da criatura e à divisão nítida entre a luz e as trevas.
- O ser humano habita uma realidade condicionada pelos aspectos de Cristo e do mundo, ou da graça e da natureza material.
- O paradoxo luterano expressa uma visão dualista do cristão como uma criatura simultaneamente constituída por espírito e carne.
- A fórmula corresponde à exigência de Martinho Lutero por uma separação rigorosa entre os domínios da fé e do mundo civil.
- Martinho Lutero postula a existência de uma diferença vasta entre o reino de Cristo e o governo secular exercido por príncipes e senhores.
- O pregador deve abster-se de interferir no governo secular para evitar a criação de desordem e confusão social.
- A liderança da igreja deve ser exercida exclusivamente por meio da Palavra, considerada a espada oral da instituição.
- O governo secular mobiliza uma ferramenta de coerção física totalmente distinta da espada pastoral da palavra falada:
- O governo secular, por outro lado, empunha uma espada diferente, uma espada de punho e uma vara de madeira para infligir punição física.
- A vara do pregador atinge unicamente as consciências humanas por meio do impacto provocado pela Palavra divina.
- As duas ferramentas de coerção devem ser mantidas rigorosamente separadas para impedir a invasão mútua de províncias de autoridade:
- Portanto, estas duas varas e espadas devem ser mantidas afastadas e separadas, de modo que uma não infrinja a província da outra.
- O cristão deve obediência à autoridade civil do governo no plano exterior, embora permaneça livre na dimensão da fé, segundo a doutrina de Martinho Lutero.
- A orientação luterana alinha-se com as diretrizes do Apóstolo Paulo no capítulo treze da Epístola aos Romanos.
- A salvação reside no plano interior, não sendo afetada por obras humanas ou pela obediência civil exigida do homem exterior.
- O reino da liberdade interior ou do espírito configura-se como um território extraterritorial em relação ao poder político do príncipe.
- A liberdade espiritual situa-se fora das fronteiras do mundo material, superando-o e ofuscando-o na análise final.
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