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SCHWENCKFELD
THEOSOPHOS — Caspar Schwenckfeld (1490-1561)
Koyré, Alexandre. Místicos, Espirituais e Alquimistas do Século XVI Alemão. São Paulo: Editora Unesp, 2017.
- Desde os trabalhos de Max Weber e E. Troeltsch, conhece-se o papel dos pequenos grupos sectários protestantes na história das ideias e na história em geral.
- Foi nesses meios de “fantasiosos” e “entusiastas”, como eram denominados durante a Reforma, entre os hereges perseguidos pelas igrejas protestantes, que o impulso de renovação espiritual permaneceu vivo.
- Inversamente, todos os que mantinham intacto esse impulso primitivo, prolongando o movimento ideológico derivado da mística medieval, viviam necessariamente na oposição.
- Schwenckfeld, Denck e Karlstadt não admitiam compromisso nem pausas.
- Acreditavam defender o sonho místico da imediação contra a organização das igrejas protestantes, que erguiam nova hierarquia, dogmática e ortodoxia, interpondo mediação externa entre o homem e Deus.
- Aos defensores da “letra” e da “carne”, criadores de um “novo paraíso”, opunham sua religião “espiritual”, a religião do “homem interior” e sua noção do “espírito”.
- Os “fantasiosos” e “entusiastas” não tinham noção das coisas terrenas, sendo filósofos medíocres e teólogos de pacotilha, mas, curiosamente, enquanto as ortodoxias se anquilosavam, os “espiritualistas” elaboravam ou esboçavam temas religiosos e metafísicos desenvolvidos pelos grandes teólogos e filósofos do século passado.
- O texto menciona que mais adiante serão estudados alguns representantes dos “defensores do espírito”.
- Eles não formam um grupo compacto com doutrinas comuns e precisas.
- A distância entre um Sebastião Franck (com seu pan-naturalismo místico) e Gaspar Schwenckfeld (com seu supranaturalismo dualista) é tão grande quanto a que os separa de Lutero.
- O termo “espiritualistas” é enganoso, sendo sua relativa unidade radicada na comum oposição a Lutero, ao luteranismo e à hierarquia da igreja externa, talvez com maior motivo na violenta oposição de Lutero e do luteranismo às doutrinas diversas e igualmente perigosas dos hereges.
- Caspar Schwenckfeld, mais jovem que Lutero e cuja forte influência o “levara ao Evangelho”, não permaneceu muito tempo no luteranismo, pois acreditava que Lutero se apartava do caminho traçado.
- Para Schwenckfeld, a Reforma luterana degenerava em um movimento político-religioso, e Lutero restabelecia a maioria das coisas que havia combatido.
- A liberdade do cristão, a livre piedade evangélica e a adoração a Deus “em espírito e em verdade” pareciam ter cumprido sua etapa.
- A cristandade luterana era novamente submetida à lei (Knechtschaft für dem Gesetze), e a religião do espírito voltava à idolatria da letra.
- Esses são temas conhecidos da literatura “espiritualista”, mas nada há em comum entre Schwenckfeld e Franck.
- Schwenckfeld não tem interesse em salvaguardar a liberdade moral do homem, nem preocupação metafísica, sendo, como Lutero, “homem religioso”.
- Schwenckfeld esteve, no fundo, muito próximo de Lutero, quase com toda segurança mais próximo do que Melâncton.
- Como Lutero, Schwenckfeld ensinava a predestinação, negava ao homem toda liberdade e reservava à graça (sem colaboração do homem) toda a eficácia na obra da salvação.
- Embora magnificasse o “Cristo em nós” (Christus in uns), não diminuía o papel do “Cristo para nós” (Christus für uns).
- A encarnação, morte e glorificação de Cristo eram para ele, como para Lutero (ou talvez mais), o centro do drama religioso do homem e do mundo.
- As obras e o mecanismo da graça não existiam para ele, e a fé era a única via de salvação (Solafide salvemur).
- Ninguém foi mais obstinadamente rejeitado e combatido por Lutero do que Caspar Schwenckfeld, com palavras duras, hirientes e grosseiras.
- Lutero tinha seus motivos, pois Schwenckfeld negara o valor dogmático da confissão de Augsburgo.
- Schwenckfeld propusera uma teoria nova e própria da eucaristia e uma interpretação nova e pessoal do sentido das palavras de Cristo.
- Indicara a seus adeptos que se abstivessem da comunhão enquanto não houvesse união do sentido do rito e da interpretação das palavras da Ceia.
- Proclamou a necessidade de uma iluminação espiritual individual para compreender o sentido real da Escritura e para adorar a Deus em “espírito e verdade”, pretendendo tê-la recebido.
- Negou a presença real de Cristo nas espécies eucarísticas (embora tenha combatido a doutrina de Zwinglio com igual vigor).
- Proclamou, adotando doutrina “papista”, a necessidade de uma justificação real e combateu a doutrina da justiça acusadora.
- Pregou a necessidade de uma transformação espiritual do homem inteiro.
- Inventou sua teoria da carne divina de Cristo e quase devolveu à Virgem seu posto de mãe de Deus.
- Negou que Cristo fosse “uma criatura”, sendo cada uma de suas afirmações uma heresia.
- A heresia de Schwenckfeld era ainda mais grave na prática, pois fazia depender a salvação não apenas da fé, mas também da participação efetiva nos sacramentos, e não só da fé do fiel, mas até mesmo da do oficiante.
- Isso é prova manifesta de que, por “fé”, Schwenckfeld entendia algo muito diferente de Lutero e dos luteranos.
- A fé de Schwenckfeld, que assegurava a salvação e pela qual se participava dos sacramentos e se “comia a carne de Cristo”, era uma espécie de força real, uma participação real e um tentáculo espiritual que a alma projeta para alcançar o divino.
- A hostilidade e o ódio persistente de Lutero e dos teólogos luteranos contra o reformador silesiano explicam-se por oposições profundas, indo além das diferenças de caráter.
- É compreensível que Lutero, com seu caráter íntegro, espírito dominante, natureza apaixonada e tosca, se sentisse repelido pela “pureza” e “doçura” do reformador-gentil-homem silesiano.
- É compreensível que Lutero, monge e teólogo de ofício, sentisse desprezo pelos escritos e teorias do autodidata leigo.
- A oposição do irrealismo político e social de Schwenckfeld ao realismo de Lutero também não explica tudo, embora a política tenha jogado um papel.
- A Reforma, aliada aos príncipes, caminhava para uma Igreja de Estado, enquanto uma livre comunidade evangélica era um ideal herético.
- Há, fundamentalmente, uma oposição da experiência religiosa mesma, pois Schwenckfeld afirmava a natureza pecadora humana, sua impotência e abjeção, mas nunca teve o temor de Deus que Lutero soube perceber.
- Caspar Schwenckfeld, laico, autodidata e diletante, foi um teólogo lamentável que, ao afirmar que Cristo não era uma “criatura”, buscava salvaguardar a unidade absoluta da pessoa de Jesus, evitando qualquer duofisicismo.
- Para cumprir sua obra redentora e salvar a humanidade, Cristo precisava ser uma pessoa verdadeira, viva, real e una.
- Era preciso não admitir nele nenhuma imperfeição, mistura ou separação entre sua divindade e sua humanidade, sendo todo ele “divino” e “incriado”.
- Schwenckfeld não entendia como salvaguardar essa unidade pessoal se Cristo fosse “composto” de uma parte divina (eterna, incriada) e outra humana (criada, perecível e imperfeita).
- Um Cristo “composto” não poderia realizar a obra da salvação, nem os homens poderiam participar de sua natureza divina se a natureza humana não fosse em si mesma divina e incriada.
- Trata-se de um raciocínio ingênuo, de um profano que não assimilou o trabalho conceitual da teologia, e por isso Lutero o chamou de “imbécil”.
- Quanto à eucaristia, é duvidoso que Schwenckfeld tenha compreendido o sentido das fórmulas luteranas, mas isso pouco importa, pois Lutero percebeu sob suas fórmulas emboladas uma “religião” muito distinta da sua.
- Por pior teólogo que fosse, Schwenckfeld disse bastante bem o que queria, mesmo sem encontrar as fórmulas corretas e com raciocínios confusos e verbosos.
- A ideia que o anima é muito nítida: o homem está caído, total e completamente pervertido e manchado, com o que Schwenckfeld concorda plenamente com Lutero, indo talvez mais longe.
- Para Schwenckfeld, a condição do homem criado já está, como tal, profundamente manchada de imperfeição, pois “criatura” significa um ser fora de Deus, ausente de Deus, algo impuro e profano.
- Ele se recusa a admitir que Cristo seja uma criatura porque essa noção lhe parece uma blasfêmia, já que a criatura é imperfeita por definição (limitada e finita), enquanto Deus é absolutamente perfeito.
- Schwenckfeld sabe que vão acusá-lo de renovar heresias antigas (como a de Eutiques), chamando-o de “monofisita”, mas não aceita a doutrina ortodoxa das duas naturezas nem a communicatio idiomatum, vendo sempre nelas “nestorianismo” e blasfêmia.
- É paradoxal que Schwenckfeld tenha sido acusado de panteísmo, pois seu princípio fundamental é o de que toda criatura está fora de Deus, vendo no “nestorianismo” de Lutero (herdado do “papismo”) o perigo de romper a unidade da pessoa de Cristo e de confundir o criador com o mundo criado.
- Tanto para Schwenckfeld quanto para Lutero, o homem “carnal” e “exterior” é radicalmente impotente para fazer algo por sua salvação, sem mérito, liberdade ou eficácia, agindo só Deus.
- A discordância está no modo dessa ação divina.
- Schwenckfeld não admite que Deus se limite a “perdoar a pena” ou a não “levar em conta” a dívida, sem antes transformar o pecador por meio de uma graça justificante.
- Para ele, Deus não pode “contemplar como justo” alguém sem traço de justiça, sendo preciso que Deus a outorgue, fazendo o homem “renascer” (ou, mais exatamente, ter um “segundo nascimento” ou um “nascimento” propriamente dito).
- O homem justificado, salvo e verdadeiro cristão “nasce” realmente, sendo “engendrado” por Deus, tornando-se um homem novo.
- A diferença entre Lutero e Schwenckfeld reside na raiz do mal: para Lutero, o homem é antes de tudo pecador, e o pecado destruiu o que havia de bom, necessitando de perdão; para Schwenckfeld, a raiz do mal é mais profunda (ou menos profunda), pois o homem carnal, como criatura, não pode ser salvo.
- Não é apenas o crime do homem que o incapacita, mas sua própria condição de criatura, sendo o perdão de Deus insuficiente para salvá-lo.
- Schwenckfeld pensa que Deus não pode, no fundo, justificar e salvar nenhuma criatura que permaneça criatura.
- É necessário um homem novo que Deus “engendra” (efetivamente novo quanto ao modo de ser), pois a mesma essência pode ser “criada” (ser exterior e separado de Deus) ou “engendrada” (ter um ser divino).
- A graça não pode alcançar o homem exterior e criatural; o homem interior, engendrado por Deus, é o único capaz de recebê-la, sendo a graça esse próprio engendramento.
- Mesmo “engendrado”, o homem “interior” e “espiritual” permanece vinculado ao corpo e ao tempo, não alcançando sua perfeição na vida terrena, mas sim no além, quando será vestido de glória e adotado por Deus.
- É completamente lógico que Schwenckfeld, com sua concepção da estranheza total do homem natural, seja partidário convicto da doutrina da predestinação absoluta em todo seu rigor.
- Só os eleitos (desde a eternidade) serão salvos por Deus, porque foram engendrados por ele.
- Embora eleitos desde o nascimento (ou mesmo antes), só serão salvos pela fé que Deus acenderá neles mediante o “segundo nascimento” provocado pela palavra de Deus.
- Essa fé é um dom direto e imediato de Deus, que, assim como para a graça em geral, não precisa de “intermediários” ou “instrumentos” carnais e materiais.
- A ação divina é interior e imediata, sendo inadmissível que algo material ou criado sirva de suporte para a graça.
- Schwenckfeld não admite mistura entre o mundo criado e seu Autor, entre a “carne” e o “espírito”, negando, portanto, a ação real da matéria dos ritos: a água do batismo não conduz a graça, e as espécies eucarísticas não se transformam.
- O papel dos ritos para Schwenckfeld é mínimo, pois não são indispensáveis para a salvação (nem mesmo o batismo), sendo ele hostil a toda magia sacramental, já que a graça provém diretamente de Deus sem intermediários, bastando o único mediador, Cristo.
- Embora se defenda da acusação de anabatista, Schwenckfeld reconhece que o batismo de crianças é uma simples cerimônia humana sem valor real para os destinos espirituais, nem mesmo baseado na Escritura.
- Os anabatistas se enganam, pois nenhum batismo (de adultos ou de crianças) tem valor mágico como rito.
- O único batismo verdadeiro é o do espírito e no espírito; o resto é instituição humana, prática piedosa, símbolo da unidade da Igreja e cerimônia comemorativa.
- O importante é o simbolizado: o batismo da graça, a fé, que é uma graça pela qual o verdadeiro cristão obtém a salvação.
- A verdadeira fé viva não é uma simples crença ou assentimento intelectual, nem mesmo a confiança em Deus, mas uma participação direta e imediata do homem regenerado em Deus, uma gota do divino que transforma, abarca e ilumina a alma.
- A verdadeira fé não nasce “ex auditu”, pois nada que vem “de fora” e participa das condições de ser criado possui valor para Schwenckfeld, que afirma que Deus pode agir imediatamente.
- Nem o sermão nem a Escritura agem por si mesmos; é preciso que o homem compreenda seu sentido.
- Palavras, signos e sons são apenas símbolos, expressões e traduções do sentido, do espírito, o único inspirado por Deus.
- O Senhor não ditou os termos mesmos das escrituras aos escritores sagrados, sendo impossível encerrar a revelação na letra e a Deus nas palavras e conceitos.
- Os livros sagrados foram traduzidos, o que é pouco importante, pois apenas o espírito (não a letra) foi inspirado por Deus.
- O homem exterior e separado de Deus não pode compreender o sentido da palavra divina; apenas o cristão, o homem espiritual, o eleito e filho de Deus pode penetrar o sentido da Escritura, que para o homem normal permanece fechada e morta.
- Os luteranos se enganam ao pretender fazer nascer a fé “ex auditu” e ao crer que a Escritura (como letra) poderia agir sobre o homem não espiritual, errando mais ainda se acreditam poder alcançar ou provocar a conversão por meios totalmente exteriores.
- O espírito jamais nasce da matéria.
- O Verbo de Deus, que é Espírito, é o único que pode fazer “nascer” na alma o homem espiritual, conferindo-lhe a graça e o poder de penetrar o sentido real de sua palavra escrita.
- Schwenckfeld não nega o valor prático e empírico da pregação e da letra para o homem carnal, sendo úteis para o cristão (afligido por um corpo carnal), mas os luteranos as convertem quase em sacramento, pois não sabem o que é a fé, o espírito, nem o “segundo nascimento”.
- O erro luterano está em suas vinculações muito estreitas com a teologia “papista”.
- Schwenckfeld devolve os reproches que lhe são dirigidos, afirmando que os luteranos é que são duofisitas (admitindo elemento criatural na pessoa de Cristo) e que não sabem fazer a distinção essencial entre a carne e o espírito, crendo em uma ação possível da carne sobre o espírito.
- Os luteranos imaginam que a Escritura, a letra e a palavra predicada possuem eficácia própria e não admitem a ação direta do Verbo, pretendendo agir “ab extra” sobre o espírito.
- Isso manifesta o espírito “papista” dos luteranos e seu pelagianismo oculto, por quererem formar uma nova igreja exterior e pôr a salvação “ao alcance de todo o mundo”.
- Essa é a verdadeira razão pela qual desnaturalizaram o conceito de fé, pois todo mundo pode aceitar uma doutrina, mas a verdadeira fé é algo raro, outorgada apenas aos eleitos.
- É curioso que Schwenckfeld não pareça ter se colocado o grave problema dos condenados, mostrando seu Deus como tão bom que os condenados não lhe interessam.
- Seeberg observa que a doutrina da predestinação de Schwenckfeld se parece com a de Calvino, mas sem o “decretum horribile”.
- A condição do homem criado já é tão má que não se compreende o que poderia ser pior.
- Schwenckfeld pensa apenas nos eleitos, sabendo-se um deles e que todos os que creem verdadeiramente serão salvos.
- Eleitos desde a eternidade, já estão salvos, e o homem espiritual, engendrado por Deus, não pode morrer.
- As questões sobre a possibilidade de perder a graça recebida ou resistir a sua ação lhe parecem ociosas, pois a graça não “tine” o homem exterior, mas “engendra” um homem novo e espiritual.
- Todas essas questões não fazem sentido para Schwenckfeld porque seus problemas religiosos não se colocavam nos mesmos termos que para Lutero ou Calvino, pois sua alma tranquila e pura nunca sentiu a força insuperável do pecado nem o temor trágico de Deus.
- O seu Deus se parecia mais com o bom Deus de Zwínglio do que com o Mestre terrível de Lutero.
- Oecolampade, ao editá-lo, não se enganou quanto à diferença, embora errasse ao pensar em um acordo completo.
- Caspar Schwenckfeld pretendia algo muito distinto da maioria de seus contemporâneos: o que ele denomina salvação não é a “entrega”, mas a divinização (theosis), sendo esse o fim último de Deus.
- O Deus de Schwenckfeld criou o mundo e o homem com o objetivo de salvá-los e divinizá-los, prevendo em Adão uma prefiguração de Jesus Cristo, segundo Adão, homem Deus, filho de Deus, engendrado e não criado, que deveria levar a humanidade ao seio do Senhor.
- Não está claro por que Deus não começou pelo final, ou por que criou homens (seres imperfeitos e exteriores a ele), já que o estado final (theosis) é superior ao estado inicial (Adão não era perfeito), havendo “progresso”.
- O papel de Cristo não se esgota no de redentor, e sua encarnação não é determinada pelo pecado; mesmo sem pecado, era preciso que Cristo se encarnasse para tornar possível a theosis.
- Para Schwenckfeld, Cristo é essencialmente pessoa e homem, e sua ação está vinculada à sua encarnação e à realidade histórica de sua carreira terrestre, diferindo de Franck (para quem Cristo é Logos, Verbo, Espírito).
- Não se pode falar de um verdadeiro progresso, pois o homem espiritual não nasce do homem carnal, e essas naturezas não têm comunicação entre si.
- Schwenckfeld não responde aos problemas graves que Jacob Boehme colocará mais tarde, bastando-lhe saber que o nascimento e a encarnação de Cristo eram necessários, previstos desde a eternidade, e que sem eles o mundo não teria sentido.
- Schwenckfeld sabe que o homem é miserável e pecador por culpa de Adão, mas está seguro de que a bondade de Deus é infinita e que a graça, que faz nascer em nós o homem espiritual, nos diviniza e liberta não só do “status peccati”, mas também do “status creaturae”.
- O pecado de Adão tornou o homem duplamente impuro e impotente.
- Ao homem só lhe resta reconhecer sua abjeção, abdicar de sua “carne”, de seu eu, de seu ser impuro, e confiar-se a Deus, a Cristo, no abandono, na “abstração”, na “Gelassenheit”.
- Parece que Schwenckfeld se enrola, talvez pela influência de Karlstadt e do misticismo da Teologia germânica, vendo o mal tanto na “matéria” e na “carne grossa” quanto no pecado, com uma noção de mal coextensivo ao ser criatural (finito, limitado, imperfeito e separado de Deus).
- Seu “sentimento de criatura” não lhe permite ver a fonte do mal no pecado, mas sua teoria do mal como negação (pelo ser finito e limitado) não é o equivalente lógico de sua doutrina do ser criado, como demonstra sua cristologia.
- Embora Schwenckfeld insista no ser não criatural de Cristo, mantém com igual força a afirmação de sua natureza humana, sendo essa doutrina necessária para sustentar que a natureza humana (enquanto tal) é “capax dei” e compatível com a essência e natureza de Deus.
- É preciso que a natureza e a essência do homem sejam “quid divini”; do contrário, como poderia Cristo ter se encarnado e se feito homem?
- Se Cristo não fosse homem, como seria possível a theosis?
- Para o que Schwenckfeld busca, um Cristo mediador entre o homem e Deus, ou entre Deus e o mundo, só é concebível se o ser finito em si não é necessariamente extra-divino, se o caráter de finitude é compatível com Deus, e se o homem é (em essência) mais que uma criatura.
- Cristo deve ser homem e incriado, pois um Jesus criatura é um absurdo e implicaria a impossibilidade da deificação do homem.
- O termo “criatura” não designa necessariamente todo “ab alio” (contradição nos termos, mas não no pensamento de Schwenckfeld), pois a criação designa um modo de produção (exterior e transcendente), mas existem outros modos.
- Schwenckfeld desenvolve a distinção clássica entre essência, existência e modo de produção, afirmando que o homem é “essentialiter ab alio” (a Deo), mas não necessariamente uma criatura, sendo a prova disso Cristo: um homem sem ser criatura, cuja essência humana não se opõe a ser engendrado por Deus.
- Criação e engendramento são modos de produção diferentes que não mudam a essência do homem.
- O homem pode, de criado, passar a engendrado, podendo, por Cristo e com ele, tornar-se Filho adotivo de Deus, porque já o é.
- Schwenckfeld desenvolve uma teoria estranha sobre a pessoa e a carne de Cristo, considerada por alguns historiadores (Ecke, Erbkam, Baur) indigna de menção, mas que, no entanto, é a chave e o centro de seu ensino, além de vinculá-lo à evolução posterior do misticismo protestante (V. Weigel e Jacob Boehme).
- Essa teoria é a do corpo celeste, ou carne espiritual de Cristo, cujas fontes escriturárias são são Paulo e são João.
- A doutrina da carne espiritual de Cristo não visa apenas evitar o monofisicismo ou o docetismo de Münzer, mas também é impulsionada pela impossibilidade de representar a existência real de um espírito puro.
- O raciocínio de Schwenckfeld é simples: Cristo não é uma criatura, não tem (nem pode ter) carne comparável à nossa, é imaterial, mas não é um espírito puro.
- Cristo possuía um corpo real (nada mais estranho a Schwenckfeld que o docetismo), formado por uma “carne espiritual” completamente penetrada e transfigurada pelo espírito.
- A passagem de Jesus pela terra e seu nascimento da Virgem não lhe deram nada de carne criatural, mas ele não podia não ter corpo.
- Cristo reserva para o céu essa carne (doravante celeste, divina e que lhe pertence), sendo impossível não representar Cristo como um espírito perfeitamente corporal.
- Como Cristo é Deus, não há contradição nem incompatibilidade entre corpo e espírito, corporeidade e divinidade, homem e Deus.
- Deduz-se ainda que a natureza humana é essencial à pessoa de Cristo, que não se “tornou” homem, mas é, desde toda a eternidade, Homem-Deus, sendo a humanidade (enquanto tal) um momento necessário da divindade.
- Cristo, o Filho de Deus, é Deus por sua essência, sendo um momento absolutamente necessário no ser trinitário de Deus.
- A humanidade (em si) é um momento necessário da divindade, o que implica o caráter (em certo modo) divino da humanidade.
- Como a encarnação é perfeitamente necessária (não determinada pela falta contingente do homem), é necessário que Deus se realize e se encarne (desde a eternidade) no homem, assim como é essencial para o homem ter uma natureza que participa da divindade.
- O infinito e o finito, o homem e Deus, implicam-se mutuamente quanto às essências, antes de toda criação.
- O espírito “se encarna” necessariamente, e o corpo (a “carne”) opõe-se ao espírito de forma relativa, sendo o suporte necessário para a realização, o habitáculo e a expressão do espírito.
- Uma consequência grave para a eucaristia é que a carne celeste que Cristo guardou no céu é o que se “come” na eucaristia (não a carne em sentido vulgar, nem mesmo a carne espiritual de Jesus na terra), sendo a carne divina da qual se participa mediante a fé.
- A “carne celeste” não está incluída nas espécies eucarísticas, nem estas se transformam no corpo celeste de Cristo, pois crer nisso seria não compreender o caráter de ser criatural.
- Nem o pão se torna corpo de Cristo, nem este se transforma em um pedaço de pão; Cristo mesmo é o “pão e o vinho da vida”.
- É possível que o homem “coma” essa carne (que não é espírito) porque o homem é duplo: exterior/carnal e interior/espiritual.
- O homem interior (que não é a alma, um espírito puro e imaterial, mas um homem com um corpo espiritual) é que “come” a carne espiritual de Cristo, porque é “espiritual” em si mesmo.
- Para Schwenckfeld (como para Boehme), um espírito puro sem corpo é um absurdo; o homem interior é completo, congênere de Cristo, que divinizado e transfigurado se torna habitante da glória divina.
- Cristo é completamente Deus, mas Schwenckfeld não nega sua filiação humana (filho da Virgem, da qual recebeu o “corpo espiritual” engendrado por Deus), sendo dessa mesma “carne espiritual” que participam os eleitos.
- A posse de um “corpo” espiritual e transfigurado não é remetida por Schwenckfeld à ressurreição, mas é patrimônio do homem “espiritual” e “interior”, corpo engendrado pela ação direta da graça, de Deus ou de Cristo.
- O “renascimento” ou a “regeneração” é para Schwenckfeld uma ressurreição tanto quanto um verdadeiro nascimento: o nascimento do homem interior em nós é o nascimento de seu corpo espiritual.
- A vida do eleito é seu crescimento progressivo, sua espiritualização mais e mais perfeita, a assimilação mais profunda do homem com Cristo, uma divinização cada vez mais completa.
- O homem espiritual é realmente um membro de Cristo e realmente um filho de Deus.
- O homem novo (quanto à essência) é nós mesmos, nossa própria essência, nosso verdadeiro ser, ocultado pela carne grossa do estado criatural e ligado pelo pecado, que a ação de Cristo desperta e conduz à vida.
- Schwenckfeld repete com insistência que Jesus não é uma “criatura” porque, no fundo, o homem também não o é: o homem é uma forma essencial e necessária da manifestação de Deus, forma eterna, incriada e divina.
- Por ser assim, foi possível a Cristo fazer-se homem e nascer da Virgem Maria sem se tornar “criatura” e sem ser manchado pelo pecado.
- O pecado não alcança mais que a “criatura”; o homem interior e espiritual está preservado dele.
- O corpo glorioso de Cristo (que se “come”) é ao mesmo tempo o que a Bíblia chama “a glória divina”.
- Quando se entra nessa glória, torna-se membro do corpo de Cristo, mas o corpo de Cristo é a igreja, o conjunto dos fiéis.
- Cada fiel aumenta a glória divina, e a glória divina (que é o Paraíso) está nos homens tanto quanto estes nela.
- Apesar das semelhanças, a posição e a doutrina de Caspar Schwenckfeld (no qual revive o velho mito do “Theos Anthropos”) diferem das dos demais “espiritualistas”, pois, embora afirme a superioridade do “espírito” sobre a letra (tópico corrente), é preciso ver o sentido.
- Para Schwenckfeld, o homem “regenerado” é aquele em quem o processo de deificação já começou, o homem “engendrado” por Deus.
- Como tal, ele comunga com Cristo e com ele participa pela fé, sendo, literalmente e em certo modo, ele mesmo Corpo de Cristo.
- Por isso, os ritos e todo o aparato exterior e social da vida religiosa perdem seu sentido e valor para Schwenckfeld.
- A ordenação, o batismo e até a eucaristia são apenas cerimônias exteriores, que podem ser úteis, mas também perjudiciais por perpetuarem a crença na eficácia do ser exterior sobre o espírito e por dividirem o mundo cristão.
- Para Schwenckfeld, tudo isso carecia de importância, pois sua fé lhe dava a posse imediata de Deus.
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