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NOMES DE DEUS

Frithjof Schuon: Forma e substância nas religiões

  • A doutrina metafísica e cosmológica contida no versículo corânico « Por certo, Ele é O Primeiro e O Derradeiro e O Aparente e O Interno, e Ele, de todas as coisas, é Onisciente » (Alcorão, LVII, 3), a qual, à semelhança da Shahadah, encerra em si mesma uma alquimia espiritual.
    • A síntese que engloba todos os aspectos fundamentais do Universo, resultante do cruzamento de um simbolismo temporal com um simbolismo espacial.
  • A interpretação dos Nomes Divinos « O Primeiro » e « O Derradeiro » em relação ao Princípio e à Manifestação.
    • « O Primeiro » enquanto o Princípio na sua anterioridade em relação à Manifestação.
    • « O Derradeiro » enquanto o Princípio na sua posterioridade em relação à Manifestação.
    • O Princípio que se exterioriza pela Manifestação ou Existência, mas que permanece « O Interno » ou « O Oculto » enquanto centro invisível velado por ela, ainda que em realidade a contenha.
    • A Manifestação universal compreendida como a onda que sai do Princípio e que a ele retorna.
    • A Manifestação como o Princípio sob o seu aspecto de exterioridade, sem prejuízo da transcendência e interioridade do Princípio em relação à sua cristalização ilusória.
  • A transcrição do relacionamento Princípio-Manifestação através dos quatro aspectos de « Anterioridade », « Posterioridade », « Exterioridade » e « Interioridade ».
    • A correspondência destes aspectos com as perspectivas da sucessão e da simultaneidade, ou do « devir » e do « ser ».
    • A perspectiva do ciclo ou dos ciclos associada à sucessão e a perspectiva da Existência como tal associada à simultaneidade.
  • A analogia evidente entre os Nomes Divinos « O Primeiro » e « O Derradeiro » e outros pares de atributos divinos.
    • A analogia entre « O Primeiro » e « Aquele que é sem início » (Al-Azal) e entre « O Derradeiro » e « Aquele que é sem fim » (Al-Abad).
    • Os Nomes « O Primordial » (Al-Qadim) e « O Perpétuo » (Ad-Da'im).
    • Os Nomes « Aquele que inicia tudo » (Al-Mubdi) e « Aquele que retorna toda a coisa a Si mesmo » (Al-Mu`id).
    • Os Nomes « Aquele que faz avançar » (Al-Muqaddim) e « Aquele que difere » (Al-Mu'akhkhir).
    • Os Nomes « Aquele que cria do nada » (Al-Badi) e « Aquele que permanece » (Al-Baqi).
  • A distinção entre os Nomes que marcam a posição do Princípio em relação ao ciclo da Manifestação e os que marcam aspectos da sua própria natureza.
    • Os Nomes Al-Azal e Al-Abad como marcadores de dois aspectos da natureza mesma do Princípio, considerados em relação à Existência, e não a sua posição no ciclo.
    • O Princípio divino como não apenas « O Primeiro » enquanto existência ou cria e « O Derradeiro » enquanto julga e finalmente resorbe, mas também como sendo em Si mesmo sem origem e sem fim.
    • O Princípio como eternamente a sua própria origem e o seu próprio fim, a sua causa e o seu efeito, a sua absolutidade e a sua infinitude.
  • A aplicação específica dos Nomes Divinos em relação à criação.
    • Deus como « O Primeiro » e « O Derradeiro » por relação às coisas que criou.
    • Deus como « O Primordial » (Al-Qadim) por relação ao mundo tomado no seu conjunto e como « O Perpétuo » (Ad-Da'im) no sentido de que « sobrevive » ao mundo.
    • A marca da transcendência do Princípio divino por todos estes Nomes, os quais se pressupõem mutuamente.
  • A compreensão da Manifestação universal como um caminho que conduz de Deus a Deus.
    • O « afastamento » (bu`d) da Manifestação como um fator que contribui para a « revelação » (tajalli) da « proximidade » (qurb).
  • A precedência da Essência (Adh-Dhat) em relação às Qualidades (As-Sifat) no próprio Princípio.
    • A afirmação de que o Princípio é « O Primeiro » também em Si mesmo, significando que a Essência é primeira por relação às Qualidades.
    • O enquadramento das Qualidades no Ser, portanto na determinação interna realizada pelo Princípio com vista à Manifestação.
  • A interpretação em linguagem vedantina da relação entre a Essência e as Qualidades.
    • As Qualidades, sem sair de Atma, como já pertencendo a Maya.
    • A afirmação da Relatividade já na ordem principial e a sua prefiguração divina da criação e da Revelação.
  • As diferentes perspectivas metafísicas sobre o Ser e a Relatividade.
    • A perspectiva que enfatiza somente o Si mesmo e considera o Ser apenas sob o relacionamento de Maya.
    • A perspectiva que considera o Ser somente sob o relacionamento do seu caráter de puro Princípio, portanto sob a sua divindade.
    • A perspectiva que considera a Relatividade apenas enquanto dimensão interna do Absoluto, reduzindo assim a Manifestação ao Princípio.
  • O significado do Nome divino « O Aparente » (Az-Zahir).
    • A afirmação de que a Relatividade, mesmo operando uma primeira polarização in divinis, não entame a natureza divina intrínseca.
    • A extensão desta afirmação a todo o domínio de Maya e, por consequência, à Manifestação universal como tal.
    • Az-Zahir como o mundo enquanto necessariamente divino, sob pena de não ser de todo.
    • O mundo como « O Aparente » ou « O Visível » enquanto se vê o Ser através dos cinco sentidos.
    • Deus como « O Interno » do ponto de vista da incapacidade de ver o Ser – e sobretudo o Supra-Ser – em Si mesmo.
  • A natureza de « O Aparente » como Existência, Vida e Consciência.
    • A identificação de « O Aparente » com o espaço, o tempo, a forma, o número, a matéria e os seus conteúdos positivos, enquanto reflexos sensíveis das Qualidades divinas.
    • O revestimento das formas, da vida e de outras contingências por Az-Zahir sem se confundir com isto ou aquilo.
    • A natureza de Az-Zahir como tudo o que existe, mas nenhuma coisa em particular.
    • O paradoxo da visão e não visão de Az-Zahir, pois vê-se-No por ser « O Aparente », mas não se vê-No por ser Deus.

Ramón Arola: O SIMBOLISMO DO TEMPLO

Toda a exegese hebraica está baseada no Nome do Senhor: encontramos um comentário de E.H.: “Os Antigos ensinaram que, devido à transgressão de nossos primeiros pais, o Nome Divino foi dividido em dois. As duas primeiras letras separaram-se das duas últimas. Deste então, estas duas partes, que estão vivas, procuram-se eternamente, vagando pelos mundos. A obra da cabala é reuni-las, também sendo denominada obra marial ou messiânica. As duas primeiras letras, IH, formam a palavra Ia. Está no céu, onde sonha eternamente, sempre insatisfeita. Em hebraico, são as letras iod e he. As duas últimas letras são VeH. Pronunciam-se Hu, o que significa “Ele” em hebraico. Estão neste mundo de exílio com o homem que possui o sentido e a palavra, porém extraviadas e reduzidas à dimensão do exílio. As duas primeiras são um ser insensato que sonha e pensa, sem conhecer-se. As duas últimas são um ser enfeado pela concupiscência do sensível, no exílio. Tais são o céu e a terra, que devemos reunir para formar o reino — e os cristãos dizem, em suas orações: “Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu…” — e torná-los uma só coisa. Por este motivo, vemos em Deuteronômio, 6,4: “Ouve, Israel, YHWH nosso Deus é o único Senhor.” Isto não significa que seja uno, só, mas é como se fosse dito: “Que os demais povos venerem um deus inacessível no céu ou se prosternem diante de um ídolo terrestre impotente. Teu Deus, o teu, Israel, é a união do céu e da terra, porque ele é uno, porque está reunificado.”

Explicam os Sábios Antigos, que a separação do Nome de Deus em duas partes ocorreu quando da destruição do Templo de Jerusalém. Quando o templo existia, o Nome de Deus, YHWH, era pronunciado uma vez ao ano pelo Sumo Sacerdote, no Santo dos Santos do templo. Destruído o templo, o Nome não mais pôde ser pronunciado, pois para isto precisa do lugar apropriado, onde se unem o céu e a terra. No exílio, pode-se escrever o nome, mas não pronunciá-lo, daí por que os hebreus leem o Tetragrama (YHWH) como Adonai (que significa Meu Senhor) ou como Hashem (que significa O Nome). Portanto, para que as duas partes do Nome sejam reunificadas, precisamos encontrar o templo, o lugar onde o céu e a terra podem unir-se.

Vladimir Lossky:

No que concerne aos nomes que aplicamos a Deus, estes revelam as suas energias (energeia) que descem até nós, mas não nos aproximam de sua essência inacessível (apophasis). Para São Gregorio de Nissa, todo conceito relativo a Deus é um simulacro, uma imagem falaz, um ídolo. Os conceitos que formamos segundo o entendimento e a opinião que nos são naturais, baseando-nos em uma representação inteligível, criam ídolos de Deus em vez de revelarem o próprio Deus. Há apenas um nome para expressar a natureza divina: é o assombro que toma a alma quando ela pensa em Deus. São Gregorio de Nazianzo, citando Platão sem nomeá-lo (“um dos teólogos helenos”), corrige da seguinte maneira a passagem do Timeu acerca da dificuldade de conhecer a Deus e da impossibilidade de expressá-lo: “é impossível expressar a natureza de Deus, mas ainda menos possível é conhecê-la”. Essa modificação da sentença de Platão por parte de um autor cristão frequentemente considerado platonizante mostra, por si só, quão distante está o pensamento dos Padres daquele dos filósofos.

Nicolas Boon: NO CORAÇÃO DA ESCRITURA – O Nome Sagrado

Moisés recebeu a revelação do Deus Único no Monte Sinai. A sua demanda, quando Deus o envio ao Egito para liberar seu povo: “se me demandarem qual é seu nome, que devo responder?” Deus lhe disse: “Eu sou aquele que sou”. Isso quer dizer: o ser é minha essência ou não posso não ser. Eu sou o Eterno. Em hebraico se diz: eheyeh ascher eheyeh. Donde o Nome: “Aquele que é”. Este nome já está inscrito na demanda de Moisés: “se me demandam qual é seu nome, que devo responder?”. Em hebraico esta frase é curta: (se) A mim que seu nome, que? (li mah schemo mah) (Ex. III, 13-14). Observemos as últimas letras de cada palavra. Estas quatro letras são em hebraico: YHWH. É o nome sagrado por excelência. Não ouso dar a pronúncia, pois somente o grande sacerdote tinha o direito de pronunciá-lo uma vez por ano no santo dos Santos. Na Bíblia adicionou-se vogais. São em realidade as vogais do nome Adonai. Para o judeu, ainda hoje, estas vogais são um aviso para dizer: Adonai, que quer dizer Senhor. De minha parte escrevo sem as vogais. Elas dão lugar a pronúncias inexatas como YHWH e Javé. O judeu não pronuncia jamais, a princípio por respeito e em seguida porque este nome quer dizer muito mais que “Deus existe”. É sobretudo, uma Presença ativa, logo um segredo que não se pode expressar em palavras. Em nossas traduções dizemos: “Tetragrama”. é uma palavra grega. Tetra que dizer quatro e gramma: letra. As vezes dizemos também o Eterno. Evitamos a palavra Senhor para bem distinguir o Nome sagrado de Adonai quando a palavra se apresenta. Isso nos evita uma certa confusão. Salientamos, para concluir que o valor numérico deste Nome é 26: I (yod) = 10; H (he) = 5; W ou V (vav) = 6; H (he) = 5; assim 10 + 5 + 6 + 5 = 26. Retemos este número pois tem sua importância. Por vezes encontramos este número escrito assim: IDVD. Desta letra H (hé), decomposta em daleth D e vav V. Não se trata de simples substituição de uma letra por outra, mas da absorção dos dois V em um só, o do meio. Os três V são as três colunas da árvore sefirótica (v. Sephiroth). Os dois D (daleth) são as duas portas, a de baixo, em Malkuth, aquela do alto, em Binah.

William Chittick: Caminho do Conhecimento

“Allah”, o nome plenamente abrangente, refere-se simultaneamente a todos os atributos do Ser. Alude também à relação do Ser com toda a hierarquia da existência que reflete Seus atributos em intensidades variadas, hierarquia esta denominada, na linguagem dos teólogos, “atos de Deus”. Outros nomes divinos referem-se a atributos relativamente específicos do Ser, tais como Vida, Conhecimento, Desejo, Poder, Fala, Generosidade e Justiça. Segundo um dito do Profeta, existem noventa e nove desses nomes divinos “mais belos”, ainda que outros nomes sejam expressos ou implicados no Alcorão e em diversos ditos proféticos. Cada nome enuncia um atributo de Deus, o Ser em si. O efeito (athar) ou a propriedade (hukm) de cada nome pode ser identificado na existência, se, evidentemente, for concedida a visão e a sabedoria necessárias para tanto. Esta é, de fato, a tarefa que Ibn Arabi empreende no Futuhat, embora tenha plena consciência de que todos os livros do universo seriam insuficientes para registrar todas as propriedades dos nomes divinos, todas as “palavras” de Deus. Como afirma o Alcorão: “Ainda que todas as árvores da terra fossem penas, e o mar — sete mares após ele para reabastecê-lo — fossem tinta, as palavras de Deus não se esgotariam” (31:27).

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