CRIAÇÃO
Christophe Andruzac prefere evitar o termo «criação», que se refere em geral aos dados das tradições religiosas, onde exprime a dependência profunda do coração do homem religioso: ora a dependência na ordem da vida espiritual (inteligência e amor) é muito distinta da dependência ao nível do ser. Esta distinção, que depende daquela, mais radical, entre ser, viver e pensar (esse, vivere et intelligere), não sendo mais percebida pelo conjunto do que se poderia chamar a «filosofia moderna» desde Descartes, cremos dever voltar ao termo técnico proposto por Tomás de Aquino, o esse creatum .
Outro ponto deveras importante que necessita reflexão é “criação de que?”: universo, cosmo, mundos, homem universal, ser humano, Filho de Deus. No caso do ser humano, trata-se da criação do hílico, do psíquico, do pneumático, do Filho de Deus. Muita reflexão a ser devidamente ordenada para ser justamente pensada, ou seja, pensada com justiça.
Antes de examinar as diferentes citações que se seguem sobre o tema “criação” é importante ter em mente que o termo “criação” enseja pelo menos três acepções, referentes ao Criador, à Criatura e ao Criar, ou seja, uma acepção refere-se à criação enquanto processo, outra enquanto resultado, e uma terceira enquanto poder ou causa. As citações que se seguem devem ser examinadas tendo como questão de fundo “que criação está sendo contemplada?”, para que sejam devidamente apropriadas.
Justino: A Criação do Homem (Orbe, Cristologia Gnóstica)
Com base nas duas passagens de São Justino, que fazem alusão às narrativas bíblicasCf. Dial. 40,1: «Porque o barro que Deus moldou, Adão, tornou-se morada do sopro que saiu de Deus». Em Dial. 62,1ss, ele aponta com bastante clareza que à decisão divina de Gn 1,26ss respondeu diretamente a matéria, modelada a partir de elementos da terra. Veja-se Dial. 62,2s: «E para que não distorçais os oráculos citados e digais o que dizem vossos mestres: que Deus se dirigia a Si mesmo com o “Façamos”, em resposta à decisão de Gn 1,26: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança…”, surgiu o homem, composto de elementos materiais, ou seja, o corpo humano; obra não de anjos, mas de pessoas divinas.
O fragmento De resurrectione confirma isso de forma apodíctica:
Esses (inimigos da ressurreição carnal) parecem ignorar a obra universal (pragmateian) de Deus e o surgimento e a formação inicial do homem, e por que as coisas do mundo foram feitas. Não diz por acaso o oráculo (Gn 1,26): ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança’? Qual? Refere-se ao homem carnal, é claro. Pois diz o oráculo (Gn 2,7): ‘E Deus tomou da terra barro e moldou o homem’. Salta, pois, aos olhos que o homem modelado à imagem de Deus era carnal.
São Justino salta de um versículo para outro, descobrindo na plasis do homem terreno o cumprimento do desígnio divino sobre o homem “à imagem e semelhança”. Ambas as passagens bíblicas se completam. Há uma única criação, um único homem.
Consequentemente, o Santo também não vê qualquer distinção entre os dois verbos — fazer (poiein) e moldar (plassein) — nem entre os substantivos correspondentes (poiema, plasma). À forma verbal “façamos um homem à imagem…” responde o homem “moldado à imagem de Deus”.
Ao ler o propósito das pessoas divinas, poderia-se entender que Deus não pretendia criar o homem, mas sim moldá-lo diretamente do barro da terra. Sem qualquer preâmbulo nem interesse pela alma, Ele projetava, por meio da plasis, sua primeira ideia do anthropos; o qual, antes de ser sopro, era um corpo configurado de terra. Fazer e moldar coincidiam, por se tratar do homem. O que não teria ocorrido, por exemplo, com os anjos.
Tal filosofia se oculta de modo semelhante na obra justiniana “Cohortatio ad Gentiles”, no escrito “A Diogneto”; e — o que reveste maior transcendência — na carta de Clemente. Também, segundo ele, a plasis respondia ao primeiro desígnio:
Finalmente, com suas mãos sagradas e irrepreensíveis, (Deus) plasmou o homem, à sua própria imagem. Deus diz, de fato: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. E Deus fez o homem; homem e mulher os fez».
A unidade da criação humana implica a identidade prática dos verbos “fazer” e “modelar”, em benefício deste último. Deus fez o homem moldando-o, e não vice-versa: modelou o homem, porque o fez. Quer Deus tenha ou não criado a alma do nada, a atividade característica de Deus sobre o anthropos residiu apenas na plasis. Aos anjos, Ele os criou, os fez (epoiesen); aos homens, Ele os modelou (eplasen).
O silêncio contínuo em torno da alma e a insistência na identidade física entre o homem e o plasma, ou o corpo tirado do barro, apontam para o mesmo. A própria imagem de Deus deverá estar ligada ao indivíduo carnal, por ser o único elemento no qual repousavam os desígnios de Gn 1,26.
Gregório de Nissa: CRIAÇÃO E TEMPO
Serafim de Sarov: Criação
Sérgio Fernandes: SER HUMANO
Em geral, não se tira um coelho de uma cartola vazia, a não ser por criação ex nihilo. Dito assim, o apelo prestidigitador aos espetáculos de mágica disfarça a poderosa linhagem dessa tese venerável: seu pedigree é platônico. Isso, na minha visão das coisas, diz tudo sobre sua altíssima semelhança com a Verdade.
A primeira parte da tese (não se tira um coelho de uma cartola vazia) é a menos difícil de ser compreendida, pois foi sobejamente elaborada e difundida na Filosofia por Kant e os kantianos e, na Ciência de hoje em dia, pela síntese neodarwinista. Já a segunda parte (a não ser por criação a partir do nada) inclui uma ideia que já era escandalosa, na antiguidade clássica, ao ser apresentada aos gregos pelos representantes das tradições judaico-cristãs (nesse ponto não faço distinção entre as tradições que, posteriormente, foram consideradas heréticas ou heterodoxas). Entendo que, a partir do nada, a criação do que quer que seja não pode ter o que quer que seja a ver com a ideia (“decaída”) de tempo. A partir do nada, a criação do que quer que seja implica a criação do próprio tempo. Há, de fato, um sentido, sutilíssimo, em que pretendo resgatar a noção de criação a partir não do nada, mas da compreensão dos simulacros da Existência. Mas este sentido tampouco tem a ver com o tempo.
Pois muito mal. E por essas e outras razões que a tese em questão não tem semelhança somente com a verdade, mas também com falsidades. Tem, por exemplo, levado a Mente, o Pensamento e a Linguagem (o Instrumento) a ver nela alguma semelhança com várias espécies de falsidade, dentre elas o chamado “argumento do conhecimento criador” . Ora, afirmo que o chamado “argumento do conhecimento criador” é um contra-senso. E tamanho é o contra-senso, na minha visão dessas coisas, que não vejo porque ser delicado no tratamento deste assunto. Desincumbo-me dele logo aqui, de maneira o mais curta e grossa possível. Em primeiro lugar, só há verdadeira criação ex nihil: qualquer outra coisa é contrafação, ou melhor, transformação ou artesanato, não criação. Logo, o “verum factum” só poderia significar algo como “só conheço o que transformo” ou “artefaço”, jamais “só conheço o que crio”. Em segundo lugar, ainda que se tome “criação” no sentido vulgar, ou seja, no sentido de “transformação”, seu uso no suposto “argumento” (do “conhecimento criador”) trai variadas confusões, das quais só me darei ao trabalho de indicar as principais. Uma delas é a confusão entre “teoria” e “prática”; outra, mais grave, a confusão entre conhecer e criar.
