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LIBERDADE, NECESSIDADE E PROVIDÊNCIA

ATFO

E quanto aos males que o Destino traz consigo Julga-os pelo que são; suporta-os; e esforça-te, Quanto puderes, por suavizar seus traços. Os deuses não entregaram os sábios aos mais cruéis.

Disse que Pitágoras admitia dois móveis das ações humanas, o poder da Vontade e a necessidade do Destino, e os submetia ambos a uma lei fundamental Chamada Providência, da qual igualmente emanavam. O primeiro desses móveis era livre, e o segundo forçado: de modo que o homem se encontrava colocado entre duas naturezas opostas, mas não contrárias, indiferentemente boas ou más, conforme o uso que soubesse fazer delas. O poder da vontade exercia-se sobre as coisas a fazer ou sobre o futuro; a necessidade do destino sobre as coisas feitas, ou sobre o passado; e um alimentava incessantemente o outro, trabalhando sobre os materiais que mutuamente se forneciam: pois, segundo este admirável filósofo, é do passado que nasce o futuro, do futuro que se forma o passado, e da reunião de um e outro que se engendra o presente sempre existente, do qual igualmente tiram sua origem: ideia muito profunda, que os estoicos haviam adotado Senec, De Sen. L. VI, c. 2.. Assim, segundo esta doutrina, a liberdade reina no futuro, a necessidade no passado, e a providência no presente. Nada do que existe acontece por acaso, mas pela união da lei fundamental e providencial com a vontade humana, que a segue ou a transgride, operando sobre a necessidade Hiérocl., Aur. carmin., v. 18.. O acordo da vontade e da providência constitui o Bem; o Mal nasce de sua oposição. O homem recebeu, para se conduzir na carreira que deve percorrer na terra, três forças apropriadas a cada uma das três modificações de seu ser, e todas três ligadas à sua vontade. A primeira, ligada ao corpo, é o instinto; a segunda, devotada à alma, é a virtude; a terceira, pertencente à inteligência, é a ciência ou a sabedoria. Estas três forças, indiferentes por si mesmas, só tomam esse nome pelo bom uso que a vontade faz delas; pois, no mau uso, degeneram em embrutecimento, vício e ignorância. O instinto percebe o bem e o mal físico resultantes da sensação; a virtude conhece o bem e o mal morais existentes no sentimento; a ciência julga o bem ou o mal inteligíveis que nascem do assentimento. Na sensação, o bem e o mal chamam-se prazer ou dor; no sentimento, amor ou ódio; no assentimento, verdade ou erro. A sensação, o sentimento e o assentimento, residindo no corpo, na alma e no espírito, formam um ternário, que, desenvolvendo-se sob uma unidade relativa, constitui o quaternário humano, ou o Homem considerado abstratamente. As três afecções que compõem este ternário agem e reagem umas sobre as outras, e se iluminam ou obscurecem mutuamente; e a unidade que as liga, isto é, o Homem, aperfeiçoa-se ou deprava-se, conforme tende a confundir-se com a Unidade universal ou a distinguir-se dela. O meio que tem de se confundir ou distinguir, de se aproximar ou afastar, reside inteiramente em sua vontade, que, pelo uso que faz dos instrumentos que lhe fornecem o corpo, a alma e o espírito, se instintifica ou embrutece, se torna virtuosa ou viciosa, sábia ou ignorante, e se põe em estado de perceber, com mais ou menos energia, conhecer e JULGAR com mais ou menos retidão o que há de bom, belo e justo na sensação, no sentimento ou no assentimento; de distinguir com mais ou menos força e luzes o bem e o mal; e de não se enganar enfim no que é realmente prazer ou dor, amor ou ódio, verdade ou erro.

Sente-se bem que a doutrina metafísica que acabo de expor brevemente não se encontra em parte alguma tão claramente expressa, e que assim não posso apoiá-la em nenhuma Autoridade direta. É apenas partindo dos princípios postos nos Versos dourados, e meditando longamente sobre o que foi escrito de Pitágoras, que se pode conceber seu conjunto. Os discípulos deste filósofo tendo sido extremamente discretos, e muitas vezes obscuros, só se podem apreciar bem as opiniões de seu mestre iluminando-as com as dos platônicos e dos estoicos, que as adotaram e difundiram sem tanta reserva.

O Homem, tal como acabo de descrevê-lo, segundo a ideia que Pitágoras dele concebera, colocado sob o domínio da Providência, entre o passado e o futuro, dotado de uma vontade livre por sua essência, e inclinando-se à virtude ou ao vício por seu próprio movimento, o Homem, digo, deve conhecer a fonte dos infortúnios que necessariamente experimenta; e longe de acusar dessa mesma Providência, que distribui bens e males a cada um segundo seu mérito e ações anteriores, só a si mesmo deve culpar se sofre como consequência inevitável de suas faltas passadas. Pois Pitágoras admitia várias existências sucessivas Diog. Laërt., in Pythag.; ibid., in Emped., e sustentava que o presente que nos atinge, e o futuro que nos ameaça, não são senão a expressão do passado, que foi nossa obra em tempos anteriores. Dizia que a maioria dos homens perde, ao voltar à vida, a lembrança dessas existências passadas; mas que, para ele, devia a uma graça particular dos Deuses conservar-lhes a memória Hierocl. Pont., apud Diog. Laërt. L. VIII, § 4.. Assim, segundo sua doutrina, essa Necessidade fatal de que o homem não cessa de se queixar, é ele mesmo que a criou pelo emprego de sua vontade; percorre, à Medida que avança no tempo, o caminho que já traçou para si mesmo; e, conforme o modifica para o bem ou para o mal, nele semeia, por assim dizer, suas virtudes ou seus vícios, encontrá-lo-á mais suave ou mais penoso, quando chegar o momento de percorrê-lo novamente.

Eis os dogmas pelos quais Pitágoras estabelecia a necessidade do Destino, sem prejudicar o poder da Vontade, e deixava à Providência seu império universal, sem ser obrigado ou a atribuir-lhe a origem do mal, como os que admitiam um só princípio das coisas, ou a dar ao Mal uma existência absoluta, como os que admitem dois princípios. Nisso concordava com a doutrina antiga, seguida pelos oráculos dos Deuses Maximo de Tiro fizera uma dissertação sobre a origem do Mal, na qual pretendia que os oráculos fatídicos, consultados sobre o assunto, responderam com estes dois versos de Homero: Acusamos os Deuses de nossos males; e nós mesmos / Por nossos próprios erros, nós os produzimos todos.. Os pitagóricos, aliás, não consideravam as dores, isto é, tudo o que aflige o corpo em sua vida mortal, como verdadeiros males; só chamavam verdadeiros males os pecados, os vícios, os erros em que se cai voluntariamente. Segundo eles, os males físicos e inevitáveis, ilustrados pela presença da virtude, podiam transformar-se em bens, e tornar-se brilhantes e dignos de inveja. São esses últimos males, dependentes da necessidade, que Lísias recomendava julgar pelo que são; isto é, considerar como consequência inevitável de alguma falta, como castigo ou remédio de algum vício; e, consequentemente, suportá-los, e longe de agravá-los ainda com a impaciência e a cólera, suavizá-los, ao contrário, com a resignação e o aquiescimento da vontade ao juízo da Providência. Não proibia, como se vê nos versos citados, aliviá-los por meios lícitos; ao contrário, queria que o sábio se aplicasse a desviá-los, se pudesse, e a curá-los. Assim, este filósofo não caía nos excessos que se têm justamente reprovado aos estoicos Plutar., De Repugn. Stoic.. Julgava a dor má, não que fosse da mesma natureza que o vício, mas porque sua natureza purgativa do vício a tornava uma consequência necessária. Platão adotou esta ideia e expôs todas as suas consequências com sua habitual eloquência In Gorgi. et Phileb..

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