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GEORG GICHTEL

THEOSOPHOS — JOHANN-GEORG GICHTEL (1638-1710)

Introdução de Julio Peradejordi à edição espanhola de THEOSOPHIA PRACTICA

Filho de um conselheiro da Corte de Ratisbona, Johann Georg Gichtel nasceu nessa cidade em março de 1638, sob a influência da constelação mística de Peixes. Nosso autor manifestou desde cedo suas tendências contemplativas, que foram tão determinantes para a elaboração de sua obra. Estudante de Direito, abandonou logo seus estudos para se dedicar à filosofia e à teologia. Em 1664, conheceu o barão Justiniano Ernst von Weltz, principal promotor de um movimento evangélico de ideias espiritualistas. Decepcionado com o protestantismo oficial e com o catolicismo, entrou, segundo declara em uma de suas cartas, em contato com a divindade a partir de uma iluminação. Encarcerado e depois excomungado, foi expulso em 1665 de sua cidade natal. A partir de 1668, encontramos-o em Amsterdã, a cidade dos hereges e cismáticos, após ter residido algum tempo na Áustria.

Quase tudo o que sabemos sobre Gichtel provém de sua volumosa correspondência (que soma mais de 800 cartas) e de uma biografia sua escrita por seu seguidor e discípulo Johann Wilhelm Ueberfeld, também responsável pela edição de 1730 das obras completas de Jacob Boehme.

A vida de Gichtel sofreu, como vimos, uma mudança radical a partir de 1664, quando se relacionou com as ideias espiritualistas de Ernst von Weltz. Não se tratava apenas de uma reação, aliás lógica e normal, ao dogmatismo da ortodoxia, mas da gênese de um movimento que teria também suas repercussões na filosofia e na literatura, com casos como Leibniz, Juan Valentín Andreae e, mais tarde, os pré-românticos alemães.

Outra figura que, junto com Ernst von Weltz, teve um papel importante na orientação filosófica de Gichtel foi Friedrich Breckling, autor de uma obra com mais de 45 títulos na qual prega um cristianismo social independente das instituições e confissões eclesiásticas. Mestre de Quirino Kuhlmann, com quem manteve correspondência, Breckling também viveu em Amsterdã, no mesmo exílio espiritual que Gichtel. É muito possível que nosso autor tenha vivido algum tempo na casa de Breckling, em Amsterdã. Gichtel sempre se sentirá nesta cidade como um estrangeiro, já que sua pátria nunca deixará de ser Ratisbona. Seu exílio, suas penurias, suas dificuldades de todo tipo foram como aguilhões que provocaram uma atitude meditativa diante da vida, cujos resultados e conclusões ele disseminará em suas cartas e na Theosophia Practica. Em Amsterdã, ele buscou a solidão, pois se sentia decepcionado com as atividades redentoras e reformadoras que empreendeu em sua juventude. Lá, levou uma vida contemplativa, quase eremítica, um verdadeiro retiro no deserto dos homens.

Durante esse retiro voluntário, Gichtel encontrou alguém que, por meio de seus escritos, mudaria sua vida: Jacob Boehme.

Pouco tempo depois de conhecer a obra de Boehme, já famoso na Holanda desde 1558, nosso autor a devora, profundamente impressionado pelas doutrinas do filósofo teutônico e por suas ousadas interpretações das Escrituras. Em 1665, cerca de vinte obras de Boehme haviam sido editadas em Amsterdã, sendo esta a cidade europeia onde suas ideias tiveram maior repercussão. Amsterdã era uma das cidades comerciais mais prósperas do mundo. Esse tipo de atividade, que os magos e teosofistas classificariam como mercuriana, não é alheio à vida intelectual. No século XVII, Amsterdã era, por assim dizer, a editora e a livraria da Europa. Gichtel conseguiu encontrar ali trabalho como tradutor e leitor em uma editora célebre, o que o salvou da miséria.

À sua volta, foi-se formando uma associação de buscadores que só viria a se organizar após sua morte. O nome com que passou para a história, “Comunidade dos Irmãos da Vida Angélica”, devemos a Ueberfeld, seu discípulo e biógrafo. Em mais de uma ocasião, Gichtel insistiu na inutilidade da vida em comum, defendendo, no entanto, a oração em grupo. A “Comunidade dos Irmãos da Vida Angélica” reuniu cerca de trinta discípulos que logo foram combatidos por seitas rivais. Gichtel conhecera pessoalmente muitas dessas seitas, das quais provavelmente tirou alguns de seus discípulos. Em suas cartas, podemos ver até que ponto ele estava informado sobre as doutrinas e movimentos heterodoxos de sua época.

Sua volumosa correspondência conheceu várias edições no início do século XVIII sob o nome de Theosophia Practica. Em 1723, surgiu um tratado póstumo de 175 páginas intitulado “Uma breve revelação e instrução”. Pouco sugestivo, esse título se transformaria, nas edições sucessivas, na Theosophia Practica que hoje conhecemos e editamos, que bem poderia ser uma antologia do pensamento de Gichtel realizada por Ueberfeld.

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