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NICOLESCU

NICOLESCU, Basarab. La science, le sens et l’évolution: essai sur Jacob Boehme suivi d’un choix de textes. Paris: Ed. du Félin, 1988.

Prefácio de Antoine Faivre, Diretor de Estudos da École Pratique des Hautes Études (5ª Seção), Professor da Universidade da Alta Normandia.

A relação entre a Natureza e o Espírito é, sem dúvida, a questão mais fundamental da metafísica. É possível eludi-la, afirmando a existência de uma única ordem de realidade: seja a Natureza, reduzida à matéria ou a uma forma de energia —, seja — à semelhança de uma corrente que gosta de se revestir da palavra “Tradição” — um Espírito fora do qual tudo, incluindo a Natureza inteira, não passaria de ilusão. O panteísmo, que não deixa a Deus nenhum lugar fora da Natureza, seria então uma variante desse monismo de duas faces. Também é possível estabelecer entre essas duas ordens uma ruptura, uma solução radical de continuidade, daí os dualismos de estilos variados, seja o deísmo com seu tranquilo deus ocioso, seja os casos trágicos de figuras desenvolvidos à vontade por gnosticismos de tipo maniqueísta, hábeis em lançar sobre a Natureza um anátema sem apelo.

É possível, finalmente, conceber essa relação como uma complexidade ricamente paradoxal. Porventura, isso não impede a absorção de um dos dois termos pelo outro — assim, a Natureza por um Espírito em busca de autorrealização —, ao fim de um percurso que chamamos de “dialética”. Mas não somos obrigados a sucumbir a essa tentativa de conceber o Ser, mesmo que absoluto, como antropófago; então se abre um caminho singularmente fecundo, seguido no Ocidente sempre que um interesse pela Natureza como realidade não ilusória, a Natureza enquanto sujeito, foi acompanhado por uma consideração do que se encontraria como fora dela, por trás do que se dá para ser apreendido pela observação e pela experimentação científicas. Certamente, o judaico-cristianismo não trazia em si o germe de um desconhecimento dessas possibilidades. No entanto, a tentação reiterada de reprimir a Natureza — feminina, e ao mesmo tempo a Sophia, cantada por Jakob Boehme —, de reduzi-la, de humilhá-la, representa um dos aspectos mais interessantes, mas também mais desconcertantes, de sua história. Tentação perceptível sobretudo nas Igrejas constituídas, embora, entre outras correntes facilmente esquecidas, a Idade Média tenha conhecido, por exemplo, as Escolas de Chartres e de Oxford. Assim, é à margem das Igrejas propriamente ditas, embora muitas vezes entre os espirituais ligados a elas, mas a quem a relativa independência ou a secularidade conferia uma certa margem de liberdade, que se encontram os mais inspirados dos “quadros” vivos ou “naturais” das “relações” que, talvez, para retomar o título do belo livro de Louis-Claude de Saint-Martin, “unem Deus, o homem e o universo”.

Jakob Boehme figura entre esses. Sem dúvida, esse mestre de Saint-Martin, de Franz von Baader e de tantos outros é o maior. Seus escritos são os de um visionário cuja inspiração brota do Mito, ao qual ele recorre incessantemente, o do judaico-cristianismo: tempestades e chuvas torrenciais, lava vulcânica e buquês de sentidos em cores suaves, variadas, ordenadas como as de um arco-íris. Aceitar, a título de hipótese, reconhecer a tal discurso uma dimensão profética comparável à de Ezequiel, arriscar-se a admitir que a imaginação criadora de Jakob Boehme poderia muito bem permanecer irredutível aos caprichos de uma subjetividade fechada sobre si mesma, isso não constituiria necessariamente um ato de fé, mas seria uma aposta metodológica cujo desafio certamente merece a aventura. Aposta que Basarab Nicolescu nos propõe aqui, convite que me parece poder ser aceito por pelo menos três razões.

Em primeiro lugar, se já quase não se duvida de que a imaginação — no sentido, desta vez, mais amplo do termo — exerça uma função orientadora das escolhas da pesquisa e influencie a natureza das próprias descobertas, talvez ainda não tenhamos refletido o suficiente sobre a potencial fecundidade das estruturas com vocação para a universalidade, que se encontram em certos visionários. Cada uma delas, ou quase todas, considerada “absoluta” por seu autor, parece relegar as anteriores ao status de curiosidades ultrapassadas. Mas cada uma delas também mereceria, sem dúvida, ser retomada de tempos em tempos pelo pesquisador, quando este se dispõe a buscar esquemas unificadores, pois, como organon, pode ajudá-lo a lançar suas redes no campo de sua representação do real. Entre os pensadores ocidentais que elaboraram tais estruturas figuram Raimundo Lúcio, Hoëné Wronski, Raymond Abel-lio e Jakob Boehme. Mas este último foi, sem dúvida, o único a forjar sua chave na incandescência visionária do Mito, com as ferramentas de uma simbólica cuja arquitetura barroca, longe de prejudicar a coerência interna de seu discurso, dá substância a ele, o encarna em estruturas figurativas e concretas. Talvez não tenhamos nada a perder ao postular a existência de uma conaturalidade entre o espírito humano e o universo, para então prosseguir com a abordagem de tipo hipotético-dedutivo, cujo alcance exploratório Basarab Nicolescu aqui relembra. Essa conaturalidade significa que os dois termos estariam associados em uma relação de analogia, de modo que o espírito humano seria, por vezes, capaz de interiorizar — faculdade cuja noção foi desenvolvida no século III pelo Corpus Hermeticum alexandrino — e, em seguida, de refratar sob a forma de imagens e símbolos, as próprias estruturas que, para retomar o verso do Fausto de Goethe, «mantêm o universo em sua coesão íntima» («Was die Welt im Innersten zusammenhält»). Assim, Raymond Abellio, impressionado com a estreita analogia revelada por uma comparação entre os 64 hexagramas do I Ching e os codons do código genético, pôde chamar nossa atenção para a possibilidade de tal connaturalidade.

Ora, parece-me — e essa seria a segunda razão para aceitar o desafio proposto por Basarab Nicolescu — que, entre os visionários cuja Imaginação se apresenta desde o início como «criadora», ou seja, capaz de recriar e, de certa forma, reproduzir tais configurações arquetípicas, aqueles que tomam o Mito como fundamento — como base, suporte de meditação, trampolim, heurística — são os que vão mais longe, e de sua obra emana uma impressão de autenticidade. O Mito, aqui, é história em imagens, um enredo organizado em tríptico: cosmogonia (ou mesmo teogonia) e antropogonia, cosmologia (cosmosofia) e escatologia. A hermenêutica dessa história desenvolve-se sempre, em Jakob Boehme, a partir da Revelação — a do judaico-cristianismo —, e leva o nome de teosofia, que se aplica igualmente à Cabala judaica do Zohar. O que ela pode nos trazer? Nada menos do que a possibilidade de reconstituir nosso caduceu. Se o Mito, assim entendido, é novamente levado a sério graças àqueles que, poucos, escapam ao domínio dos reducionismos, ao mesmo tempo questiona-se o sentido da ciência e sua finalidade, já que o homem não se sente mais verdadeiramente em casa numa Natureza que tende a tornar-se radicalmente “outra”. É por isso que se faz sentir a urgência de uma Filosofia da Natureza, no sentido em que o pensamento romântico alemão, tal como representado por Franz von Baader — o “Boehmius redivivus” —, a entendia. De uma Naturphilosophie não acompanhada de uma teologia, muito menos de uma ideologia, mas dotada de uma abertura ontológica e capaz de acolher a contribuição de uma transdisciplinaridade fecunda. Uma imaginação criativa que, como a de Jakob Boehme, mergulha suas raízes no solo do mito, assim como a árvore carregada de flores ou frutos retira do solo sua fertilidade, articular-se-ia assim, em dupla ligação e à imagem do caduceu, com uma ciência cuja especificidade não impediria o cientista de ser também um filósofo.

Há, finalmente, uma terceira razão, ligada às duas primeiras. Ela diz respeito à própria escolha de Jakob Boehme pelo autor do presente livro. Até agora, no século XX, os brotos embrionários de uma Naturphilosophie que não consegue, de forma alguma, recuperar corpo apresentaram-se sobretudo sob a forma de comparações ou aproximações entre um real descrito pela ciência e imagens emprestadas do simbolismo de diversas tradições religiosas. Nada nisso é contrário às orientações sugeridas acima; no entanto, essas aproximações — como a do Tao e da física —, por mais sedutoras que possam ser, permanecem essencialmente estéticas e não constituem, por si só, na falta de fundamento ontológico, os prolegômenos de uma Filosofia da Natureza. Se é verdade, como insiste Basarab Nicolescu, que os graus de realidade “correspondem” aos do Imaginário, as comparações que nos foram assim propostas em diversas ocasiões convidam a considerar apenas alguns dos primeiros ordens de realidade que se trata de percorrer. Por fim, observa-se que estas, em sua imensa maioria, se inspiram em imagens e tradições provenientes do Extremo Oriente, como se nosso solo ocidental, ainda tão pouco explorado a esse respeito, não estivesse pronto para revelar sua beleza, não contivesse jazidas — teosóficas, alquímicos, herméticos — exploráveis, com riquezas sem dúvida mais acessíveis do que as pérolas exóticas e cujos locais orientariam nossa busca. Também a esse respeito, saudemos como um acontecimento o livro de Basarab Nicolescu.

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