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Espelho da Fé

Guilherme de Saint-Thierry (1085-1148)

A humildade é o sinal inequívoco da ovelha do Senhor que deve ser colocada à direita; assim, a pergunta orgulhosa do incrédulo é sinal do bode que deve ser colocado à esquerda. Perante Deus, ninguém é salvo, a não ser o humilde de espírito; pela porta da fé, ninguém entra, a não ser com a cabeça humilhada. A fé é o buraco de uma agulha, pelo qual não pode entrar o camelo enorme e desengonçado, a menos que tenha sido reduzido e endireitado à humildade e à simplicidade de Cristo. O homem soberbo e presunçoso chega à porta da fé, é chamado a acreditar e convidado a entrar, mas fica discutindo com o porteiro sobre por que razão um é admitido e outro excluído; até que, com justo julgamento do porteiro, a porta lhe é fechada; e, discutindo sobre os admitidos e os excluídos, eis que se encontra entre estes últimos. De fato, ele diz das diversas coisas que não compreende: «É dura esta palavra», enquanto ele próprio é ainda mais duro; e, afastando-se e voltando-se para trás, é colocado entre aqueles que ficam para trás. O pobre de espírito que está entre aqueles a quem pertence o reino dos céus, trabalhando pela própria salvação com temor e tremor, sem se intrometer nas coisas celestiais, vem e chora, e reza para ser admitido; e, quando é admitido, adora sempre com medo, trepido, fica à mercê do oleiro, que faz o que lhe apraz com seu barro.

…Em primeiro lugar, às coisas de Deus, sem retratação nem hesitação, devemos o simples e puro assentimento da fé; portanto, para compreender o que cremos, com observância e obediência aos mandamentos de Deus, devemos confiar ao Espírito Santo todo o nosso espírito e intelecto; não tanto com o esforço da razão ambiciosa, mas com o afeto do amor piedoso e simples. Assim mereceremos, mais pelas práticas da piedade humildíssima do que pelas forças do engenho poderoso, que Jesus comece a confiar em nós; com a graça que ilumina o intelecto da razão, que o assentimento da fé se torne sentimento de amor, o qual não precisa, para conhecer o sacramento da vontade interior de Deus, dos sacramentos exteriores. Mas, enquanto vivermos aqui na terra, que nossas partes exteriores estejam ligadas à sua sacrossanta religião, e por esse meio também nossas partes interiores, para que não se desviem para coisas alheias; por isso, religio provém de religare.

…Conhecer, no sentido comum da palavra, como conhecer um homem ou uma coisa, é ter junto a si uma imagem concebida por muita observação, graças à qual a própria coisa é pensada se ausente ou conhecida se presente. Esse conhecimento em Deus é o da fé, não porque seja, de algum modo, semelhante a um fantasma, mas, pelo contrário, é um afeto de piedade tal qual, concebido pela forma da fé e confiado à memória, e que, sempre que retorna com a lembrança, toca suavemente a consciência de quem pensa.

Aquele verdadeiro conhecimento recíproco do Pai e do Filho é a própria unidade dos dois, que é o Espírito Santo; não são coisas distintas neles o conhecimento pelo qual se conhecem recíprocamente e a substância pela qual são o que são. Com esse conhecimento, ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho, e ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai e aqueles a quem eles quiseram revelá-lo.

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