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Jean Déchanet
Jean Déchanet. Guillaume de Saint-Thierry aux sources d’une pensée. Paris: Beauchesne, 1978.
- Os contatos com o pensamento de Guilherme de Saint-Thierry remontam a mais de quarenta anos, desde o encontro fortuito com a Carta de Ouro, cujo apetite despertado pela elevação da doutrina ascética e pela singularidade de uma concepção do homem situava o Autor fora dos caminhos batidos
- Em 1937 a Vie Spirituelle publica um primeiro ensaio dedicado à tradução e ao comentário da parte final da Carta, onde Guilherme descreve a unidade de espírito, a inteligência de amor e seu fruto, o verdadeiro conhecimento de Deus
- A divulgação da obra-prima de Guilherme exigia antes resolver problemas de texto e de autenticidade
- Uma primeira prospecção já anunciava o que levaria vinte anos a esclarecer: a pluralidade das versões
- Restava decifrar o rosto pluralista de Guilherme, o enigma de sua personalidade ao mesmo tempo tradicional e singular, além da questão das influências, do meio, dos antecedentes e das fontes
- Durante anos os resultados destas pesquisas foram entregues a um público restrito, através de artigos publicados na Vie Spirituelle, na Collectanea O.C.R. e na Revue d'Ascétique et de mystique, entre 1937 e 1939
- Uma brochura intitulada Aux Sources de la spiritualité de Guillaume de Saint-Thierry e uma biografia completa, Guillaume de Saint-Thierry, l'Homme et son Œuvre, deram maior difusão às descobertas, embora ainda limitada
- Escritos durante a guerra, em meio a mobilização, êxodos e bombardeios, tiragem reduzida, esses trabalhos alcançaram poucos leitores, mencionados ocasionalmente pelo padre de Lubac, pelo padre Chenu e pelo padre Bouyer
- Seguiram-se publicações: em 1943 Œuvres choisies de Guillaume de Saint-Thierry, em 1945 Méditations et prières de Guillaume de Saint-Thierry, em 1946 Le Miroir de la Foi com texto latino crítico e tradução francesa, em 1960 Exposé sur le Cantique des Cantiques de Guillaume de Saint-Thierry, em 1975 La Lettre aux Frères du Mont-Dieu de Guillaume de Saint-Thierry
- Do outro lado do Atlântico, algumas dessas obras, esgotadas na França, circulavam traduzidas para o inglês em meios monásticos dos Estados Unidos
- Um colóquio monástico realizado em Reims, por ocasião do milênio da Abadia de Saint-Thierry, ressaltava a forte personalidade de Guilherme e a atualidade de sua doutrina espiritual
- O pedido de reedição da brochura Aux Sources e da biografia Guillaume, l'Homme et son Œuvre não será atendido
- Esses trabalhos, redigidos em tempos de guerra, refletem a marca de uma documentação difícil de acessar e uma pesquisa isolada, suprida por hipóteses ousadas diante das lacunas inevitáveis
- O centro do interesse despertado por Guilherme deslocou-se levemente em certos meios
- O recente colóquio, primeiro a tratar de Guilherme, voltou-se menos para a doutrina que para a personalidade do ex-abade de Saint-Thierry, questionando seu papel como superior, as razões da denúncia de Pierre Abélard, e as influências exercidas sobre ele no conflito entre a razão e a inteligência de amor
- Os resultados desta polarização sobre o homem, do qual a história pouco ensina, foram modestos, negligenciando-se a riqueza e o ecletismo do pensamento revelado nos textos
- Convém revalorizar este pensamento expondo as influências, muitas vezes distantes, que lhe conferem relevo, pois Guilherme sofreu o destino dos inovadores, espécie de rebelde que lutava contra os automatismos e a esclerose das ideias presas ao que se chama, frequentemente de modo equivocado, a Tradição
- Foi propriamente posto à sombra, sem condenação alguma, apenas pelo silêncio
- Não se ousou descartar sua obra-prima, a Carta de Ouro, mas fingiu-se não perceber o que havia de inédito e revolucionário em sua antropologia mística
- No momento em que a razão, serva tão fiel que se tornava senhora, ganhava terreno na teologia, preferiu-se esquecer o que o Autor avançava sobre o conhecimento de amor, único capaz de afastar o véu e revelar ao espiritual algo acerca de Deus, o Inefável, o Indizível
- Para prevenir suspeitas de heterodoxia, colocou-se a última obra de Guilherme sob a égide de São Bernardo, e o mesmo se fez com os tratados De la Contemplation de Dieu e De la Nature de l'amour, ambos dos primeiros anos do abadiado
- Os tateios do início e a síntese final foram preservados, mas o intervalo entre eles foi esquecido
- Guilherme sofreu intensamente no final de sua carreira, angústia patente no momento em que envia a Carta de Ouro a seus amigos de Mont-Dieu
- Na carta ao prior Haymon, recomenda que leiam todas as obras, e que, se não forem os primeiros a fazê-lo, sejam ao menos os últimos, temendo que caiam nas mãos daqueles que, nada produzindo, denigrem o que outros fazem
- Prefere ver seus trabalhos entregues ao fogo por amigos menos severos que prudentes, do que expostos aos ataques desencadeados pela invidia dos detratores
- Este defensor da fé, compilador esclarecido dos Padres da Igreja, comentador prudente de escritos inspirados, temia tornar-se pedra de escândalo à maneira de um presunçoso
- Guilherme conhecia bem as fontes de seu próprio pensamento, e os mestres que escolhera não eram, aos olhos de seus contemporâneos, todos pilares de ortodoxia
- Com exceção de Orígenes, já suspeito mas ao fim bem cotado, citado após Santo Agostinho e Santo Ambrósio no prólogo do Exposé sur l'Epître aux Romains, Guilherme nunca cita nominalmente seus inspiradores, remetendo o leitor às fontes dos santos padres, entendendo por padres tanto os chamados Doutores da Igreja quanto todos os que seguiam seus passos sem ultrapassar os limites por eles fixados
- O campo das influências sobre Guilherme é vasto, surpreendendo o pouco interesse que tem suscitado até hoje
- É conhecido o julgamento radical do padre de Régnon, segundo o qual São Bernardo e Guilherme de Saint-Thierry pertenciam a uma escola conservadora alimentada quase exclusivamente por Santo Agostinho, sendo este, para o espírito frio e didático de Guilherme, seu único doutor, de quem adotou toda a doutrina e sentenças, sobretudo as mais duras contra os pelagianos
- Este ponto de vista superficial foi compartilhado pelos primeiros divulgadores do pensamento de Guilherme, incluindo Rousselot, Malevez e o próprio Gilson, que o consideram um dos representantes mais puros do pensamento agostiniano no século doze
- Embora Guilherme se utilize com proveito dos temas e fórmulas do gênio africano, não é discípulo cego, sendo seu amor à verdade e seu seguro senso católico convite constante a prospectar além das idéias correntes
- Reconhece-se que Guilherme é agostiniano pelo vocabulário e por certas aplicações felizes das descobertas do Doutor de Hipona, havendo nele algo do temperamento do autor das Confissões e dos Soliloques
- Tudo isso, porém, não dá conta do que há de singular em sua doutrina, cujo edifício espiritual repousa sobre uma antropologia que nada tem de agostiniana, traindo a influência profunda de outros representantes da tradição cristã
- Convém delimitar o terreno sem questionar o que já está bem estabelecido: a alta estima de Guilherme pelo mestre de Alexandria, Orígenes, e os generosos empréstimos feitos a seus escritos
- Na introdução ao Exposé de Guillaume sur le Cantique des Cantiques, esboçou-se o encontro entre os dois espíritos
- Foram identificadas no texto de Guilherme cerca de trinta passagens de inspiração origeniana, dando a impressão de que o Autor segue passo a passo seu modelo em certos desenvolvimentos
- Uma lista exaustiva desses empréstimos, não apenas no Exposé mas em toda a obra de Guilherme, seria tarefa fastidiosa porém fecunda em surpresas, dando a impressão nítida de que o pensamento origeniano exerceu sobre o de Guilherme uma influência crescente
- É preciso reconhecer o mérito do padre Verdeyen, que em tese de doutorado apresentada à Faculdade de Letras de Paris sublinhou a inspiração nitidamente origeniana de certo número de temas espirituais no Autor
- Os textos falam alto e claro, obrigando a uma espécie de reviravolta, pois a conclusão se impõe: não é a Santo Agostinho que se deve pedir a chave da teologia mística de Guilherme, mas ao mestre de Alexandria
- Segundo observa o autor da tese, a profusão de textos agostinianos em Guilherme não engana, pois o amor como dom de natureza, o fogo natural do amor celeste e Cristo como pedagogo restaurando em nós a ordem natural do homem constituem temas tipicamente origenianos, apresentados por Guilherme camuflados sob aparências de um agostinismo que tranquilizava seus contemporâneos
- Nos claustros fala-se pouco e lê-se muito, tornando-se as Escrituras divinas, os Padres da Igreja e, através deles, numerosos autores profanos tão familiares que se passa a pensar com as palavras do texto sagrado, sendo necessário distinguir as fontes do pensamento das fontes da linguagem
- O cuidado de avançar levando em conta o status quaestionis e as pesquisas mais recentes impede também retomar a questão das relações entre Bernardo e Guilherme
- O padre Verdeyen já se dedicou com coragem a este problema, resolvendo-o ao confrontar não as pessoas, mas as doutrinas dos dois amigos
- Permite-se apenas um leve afastamento ocasional dessas conclusões
- Dadas estas precisões, entra-se no cerne do assunto: na parte final da edição-tradução da Carta de Ouro buscou-se reconstituir o percurso de Guilherme, a gênese de seu pensamento, desde os primeiros trabalhos até a concepção, tão precisa quanto audaciosa, da unidade do homem com Deus presente em seu canto do cisne
- Esta gênese resulta de uma tríplice reformulação: a das relações pessoais do homem com Deus no seio da vida monástica, nos tratados De la Contemplation e De la Nature et Dignité de l'Amour
- A do homem em si mesmo, redescoberta maravilhada da Imagem divina, no tratado Du Corps et de l'Ame
- A mais notável e revolucionária destas reformulações, espécie de recomeços operados pelo Autor ao longo de sua carreira espiritual e literária, é a segunda, onde se expressa uma antropologia teocêntrica que tudo deve ao Oriente e desemboca numa mística formando um todo ordenado e coerente
- Como Guilherme conheceu Gregório de Nissa, inspirador do tratado Da Alma que confere ao homem sua verdadeira dimensão?
- Sabe-se hoje que foi através de João Escoto Erígena, de seus escritos e traduções
- Uma primeira parte apresenta o genial irlandês, pouco conhecido e logo posto à sombra, destacando as influências mais marcantes sobre o pensamento de Guilherme
- Uma segunda parte reedita, enriquecido e refundido, o paralelo traçado há mais de trinta e cinco anos entre o tratado de Guilherme e a obra capital do bispo de Nissa
- Uma terceira parte acompanha Guilherme avançando sobre as pegadas de um filósofo pouco conhecido, mas tido na Idade Média como um novo Agostinho: Claudiano Mamerto, a quem o Autor deve uma valorização do conceito da Imagem de Deus no homem
- Por fim, retira-se o véu que dissimula, entre nós ao menos, certos aspectos da influência sobre o pensamento de Guilherme dos escritos platônicos e neoplatônicos
- Esta lenta prospecção pretende ser um convite, pois houve excessiva polarização sobre poucos autores latinos nominalmente citados por Guilherme
- Prolongando o diálogo com aquele que outrora iluminou a juventude, longa prospecção foi realizada com os recursos disponíveis
- Senex et deficiens, sem muito mais a perder, entregam-se hoje as notas reunidas ao longo dos anos, como apelo a quem tiver a graça de aprofundá-las ainda mais
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