CRIAÇÃO — A CAUSA DA DIVERSIDADE
Orígenes — DOS PRINCÍPIOS
De Principiis II.IX.6
Da seleção em inglês de Henry Bettenson
6. No entanto, para que nosso silêncio não alimente a ousadia dos hereges, responderemos, na medida de nossas forças, às objeções que costumam nos apresentar. Já afirmamos muitas vezes, apoiando-nos nas afirmações que pudemos encontrar nas Escrituras, que o Deus criador de todas as coisas é bom, justo e onipotente. Quando Ele, no princípio, criou tudo o que desejou criar, a saber, as criaturas racionais, não teve outro motivo para criar além de si mesmo, ou seja, de sua bondade. Ora, sendo Ele mesmo a única causa das coisas que deveriam ser criadas, e não havendo n’Ele qualquer diversidade, nem mutação, nem impossibilidade, Ele criou todas as criaturas iguais e idênticas, pois não havia n’Ele mesmo nenhuma causa de variedade ou diversidade. No entanto, tendo sido concedida às criaturas racionais, como já demonstramos muitas vezes, a faculdade do livre arbítrio, foi essa liberdade de vontade que levou cada uma delas — das criaturas racionais —, ou a aperfeiçoar-se pela imitação de Deus, ou a deteriorar-se por negligência. Essa foi a causa da diversidade que existe entre as criaturas racionais, a qual provém, não da vontade ou intenção do Criador, mas do uso da própria liberdade. Mas Deus, que havia decidido conceder às suas criaturas de acordo com seus méritos, fez da diversidade dos seres intelectuais um único mundo harmonioso, o qual, como uma casa na qual deve haver não apenas “vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro, uns para usos nobres e outros para os mais humildes” (2 Tm 2,20), está provido dos diversos vasos que são as almas. Na minha opinião, essas são as razões pelas quais existe a diversidade neste mundo, pois a providência divina concede a cada um o que lhe corresponde, de acordo com seus distintos impulsos e as escolhas das almas. Com essa explicação, fica claro que o Criador não é injusto, pois concede a cada um o que previamente mereceu; nem somos forçados a pensar que a felicidade ou a infelicidade de cada um se deve a um acaso de nascimento ou a qualquer outra causa acidental; nem devemos acreditar que existam vários criadores ou várias origens das almas.
