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Prólogo
Orígenes — Comentários ao Cântico dos Cânticos
- O epitalâmio escrito por Salomão é um drama onde a noiva, representando a alma ou a Igreja, arde de amor celestial por seu esposo, o Verbo de Deus, e vários personagens, incluindo as companheiras da esposa e os amigos do esposo, intervêm na trama, assim como numa peça teatral.
- As palavras do Cântico dos Cânticos são alimento sólido próprio de adultos espirituais, não devendo ser lidas por aqueles que ainda são crianças na fé e se alimentam de leite, pois não as compreenderiam.
- O leitor carnal corre grande perigo ao ler este livro, pois pode desviar as expressões de amor para desejos carnais; por isso, aconselha-se que apenas os maduros na fé o leiam, assim como os hebreus só o permitiam aos adultos.
- Antes de discutir o conteúdo do livro, é necessário expor breves considerações sobre a natureza do amor, a ordem dos livros de Salomão, o título “Cântico dos Cânticos” e a forma dramática da obra.
- Os sábios gregos investigaram o amor verdadeiro e escreveram diálogos e banquetes sobre o tema, mas alguns homens carnais corromperam esses ensinamentos para fins viciosos, o que demonstra o perigo de tratar do amor entre os inexperientes.
- Para evitar interpretações carnais do que foi escrito espiritualmente, é preciso estender as mãos a Deus em oração, para que Ele conceda sã inteligência das Escrituras e edifique a castidade conforme a natureza do amor.
- Moisés escreveu sobre a criação de dois homens (interior e exterior), e o apóstolo Paulo confirmou que em cada homem existe um homem interior que se renova e um exterior que se corrompe, mesmo nos santos.
- As Escrituras usam os mesmos nomes para os membros do homem exterior e as faculdades do homem interior, como exemplificado pelas designações de “crianças”, “jovens” e “pais” segundo a idade da alma, e termos como “olhos”, “ouvidos” e “pés” aplicados ao espírito.
- O homem interior tem comida e bebida próprias (o pão vivo e a água que sacia a sede eterna), enquanto o homem exterior se alimenta de coisas corruptíveis, e a semelhança de vocábulos não deve levar a interpretações literais grosseiras.
- Existe um amor carnal que semeia na carne e um amor espiritual que semeia no espírito; o amor celestial move a alma contemplativa, que se enamora da beleza do Verbo de Deus, mas a alma pode cair em amor adúltero por espíritos perversos.
- A Escritura divina, para evitar escândalo, muitas vezes substitui a palavra “desejo” (eros) por “amor” (ágape), como nos exemplos de Isaac amando Rebeca, Jacó amando Raquel e Amnon amando Tamar, usando o termo mais decoroso.
- O amor é chamado de desejo em relação à sabedoria, como nos Provérbios e na Sabedoria de Salomão, e no Cântico dos Cânticos a esposa declara estar “ferida de amor”, mostrando que os termos são intercambiáveis nas Escrituras.
- Deus é amor, conforme escreveu João, e o Filho também é amor; assim, o amor divino, quando habita em alguém, não ama nada terreno ou corruptível, mas exige que se ame a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo.
- O amor de Deus sempre tende para Deus e para o próximo, e o nome “amor” aplica-se primeiramente a Deus, depois ao próximo (em sentido derivado) e impropriamente às coisas corruptíveis; a natureza humana não pode deixar de amar algo, mas deve ordenar esse amor a Deus e às virtudes.
- O amor perfeito resume toda a lei e os profetas, pois quem ama a Deus com todo o coração não comete adultério, nem mata, nem rouba; esse amor faz suportar todas as coisas e nunca decai, como exemplificado pelo amor de Jacó por Raquel e pelo amor de Paulo.
- O Cântico dos Cânticos trata do amor pelo qual a alma bem-aventurada arde pelo Verbo de Deus, e a Igreja se une a Cristo, seu esposo celestial; esse amor é conhecido apenas pelo Filho e pelo Espírito Santo, que o revela às almas dignas.
- Os três livros de Salomão correspondem às três ciências gerais: Provérbios ensina a moral (ética), Eclesiastes ensina a natural (física) e o Cântico dos Cântares ensina a contemplativa (teórica), seguindo uma ordem lógica de purificação, discernimento e união com Deus.
- Salomão também considerou a lógica no início de Provérbios, distinguindo ciência, sabedoria, disciplina, prudência e figuras de linguagem, para que os simples não fossem enganados por sofismas.
- Quem deseja a sabedoria deve começar pela instrução moral (Provérbios), depois passar ao conhecimento da natureza e à distinção entre o vão e o eterno (Eclesiastes) e, finalmente, à contemplação do divino pelo amor (Cântico dos Cântares).
- Abraão, Isaac e Jacó prefiguram as três filosofias: Abraão a moral (obediência), Isaac a natural (escavar poços, investigar a natureza) e Jacó a contemplativa (visão de Deus e dos anjos).
- O título “Cântico dos Cântares” indica uma superioridade semelhante a “Santo dos Santos” e “séculos dos séculos”; este é o cântico perfeito do próprio Esposo, preferível aos cânticos anteriores da lei e dos profetas, que eram para a esposa ainda criança.
- O primeiro cântico foi cantado por Moisés e Israel após a travessia do Mar Vermelho; o segundo, no deserto, após chegar ao poço cavado pelos príncipes; o terceiro, no Deuteronômio, convocando o céu e a terra; o quarto, por Débora e Baraq após a vitória; o quinto, por Davi após ser livrado de seus inimigos; o sexto, por Asafe e seus irmãos para louvar ao Senhor.
- O Cântico dos Cânticos ocupa o sétimo lugar entre esses cânticos, mas se incluídos os cânticos de Isaías e os quinze Cânticos das Subidas dos Salmos, ele continua sendo o mais excelente, pois a esposa chega ao tálamo do esposo.
- Nos títulos dos livros, Salomão é chamado “filho de Davi, rei de Israel” em Provérbios; “Eclesiastes, filho de Davi, rei de Israel em Jerusalém” em Eclesiastes; e apenas “Cântico dos Cântares, que é de Salomão” no Cântico, para indicar a perfeição onde não há mais noção carnal.
- Cristo é o verdadeiro Salomão (pacífico) e Eclesiastes (que congrega a Igreja); nos Provérbios reina em Israel (fé), no Eclesiastes reina em Jerusalém (Igreja celestial) e no Cântico é simplesmente Salomão, quando todo o reino for entregue a Deus Pai.
- Alguns interpretam o título como “um dos cânticos de Salomão” entre cinco mil, mas a Igreja só recebeu este como canônico; a expressão “Cantar dos Cântares, que é de Salomão” indica que este cântico singular pertence a Salomão, não sendo apenas um entre muitos.
- A esposa, no drama, após receber os dotes e presentes do esposo, mas vendo-se demorada, ora ao Pai pedindo que ele a beije com os beijos de sua boca, ou seja, que ele mesmo venha pessoalmente em vez de enviar mensageiros.
- A Igreja, como esposa de Cristo, possuindo os dotes da lei e dos profetas, anseia pela vinda pessoal do Esposo para que ele a beije com os beijos de sua boca, infundindo nela suas próprias palavras, em vez de falar por meio de anjos e profetas.
- A alma perfeita, dotada da lei natural, da razão e do livre-arbítrio, roga ao Pai que o próprio Verbo de Deus a beije com os beijos de sua boca, ou seja, que ilumine sua mente pura com pensamentos divinos, sem a mediação de mestres.
- Os beijos dados em plural significam cada iluminação de pensamento obscuro que o Verbo de Deus concede à alma perfeita, sendo o beijo mais verdadeiro e santo a revelação direta do Esposo à esposa, imagem do que ocorre nos mistérios celebrados na igreja.
- Os peitos do Esposo, melhores que o vinho, representam a parte principal do seu coração, onde se escondem os tesouros da sabedoria e da ciência, cuja doutrina supera a antiga doutrina da lei e dos profetas, comparada ao vinho.
- O vinho antigo, que alegrava a esposa antes da vinda do Esposo, simboliza as doutrinas da lei e dos profetas; os peitos do Esposo, porém, oferecem uma doutrina muito mais perfeita, comparável ao vinho novo e superior que Jesus fez nas bodas de Caná.
- Os perfumes do Esposo, superiores a todos os aromas, representam as palavras da lei e dos profetas, que eram aromas preparatórios; o perfume divino de Cristo, ungido pelo Espírito Santo, é incomparavelmente mais suave e celestial, como o óleo de alegria com que Deus o ungiu.
- O nome do Esposo, tornado perfume derramado por sua aniquilação ao assumir a condição de servo, fez com que as donzelas (almas em crescimento) o amassem e o atraíssem para si, correndo ao olor de seus perfumes em busca da união com ele.
- As donzelas, que representam as almas ainda em progresso, atraem Cristo pela fé e correm ao olor de seus perfumes, enquanto a esposa perfeita já o ama pela plenitude mesma de seus perfumes, não apenas pelo nome derramado.
- O rei introduziu a esposa em sua câmara do tesouro, que significa o sentido secreto e recôndito da sabedoria divina, onde estão ocultos os tesouros da ciência e que nem o olho viu nem o ouvido ouviu.
- As donzelas, que correm em pos do Esposo cada qual segundo suas forças, exultam e se alegram nele, prometendo amar os seus peitos (a doutrina espiritual perfeita) mais do que o vinho (as doutrinas comuns da lei e dos profetas).
- A equidade, isto é, a justiça e a retidão que guardam os mandamentos, é que ama verdadeiramente o Esposo, pois onde há iniquidade não pode haver o amor perfeito a Cristo, que é a própria substância das virtudes.
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