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DISCURSO ASCÉTICO

Nilo do Sinai — Philokalia (resumo)

  1. Somente os discípulos de Cristo alcançaram a verdadeira sabedoria, pois tiveram a Sabedoria encarnada como mestre, enquanto os filósofos gregos eram filósofos apenas no nome, escravos das paixões e da glutonaria, sem correspondência entre o discurso e a vida.
  2. Alguns gregos dedicaram-se à metafísica e à astronomia, mas viviam de modo mais degradado do que animais; quando tentavam praticar seus princípios, faziam-no por vaidade e busca de aplausos, tornando-se piores do que os meros teóricos.
  3. Os judeus que cultuavam a filosofia, como os recabitas e essênios, cultivavam a virtude e a contemplação com vida frugal e ascética, mas, por negarem Cristo, o juiz que concede o prêmio, seus esforços permaneciam sem o verdadeiro galardão.
  4. A filosofia verdadeira consiste na integridade moral aliada ao conhecimento da realidade; tanto judeus quanto gregos ficaram aquém dela por rejeitarem a Sabedoria celeste e tentarem filosofar sem Cristo, que foi o primeiro a estabelecer a filosofia verdadeira pela pureza de sua vida e pelo sacrifício voluntário da própria alma.
  5. Os apóstolos receberam de Cristo esse modo de vida e o incorporaram plenamente, renunciando à pátria, aos parentes e aos bens, enfrentando toda sorte de adversidade até a morte, e deixando assim uma imagem fiel do mais elevado modo de existência.
  6. Embora todos os cristãos devessem modelar sua vida por esse exemplo apostólico, a maioria não o fez ou o fez de forma débil; apenas alguns poucos tiveram força para fugir do tumulto das cidades e abraçar a vida monástica, reproduzindo em si mesmos o padrão de virtude apostólica.
  7. Esses primeiros monges não buscavam ganho excessivo nem moviam processos uns contra os outros; a generosidade dos mais abastados supria as carências dos demais, eliminando a desigualdade, enquanto a inveja, a arrogância e a discórdia eram banidas, e alguns chegavam a tal estabilidade interior que nem nos sonhos sentiam perturbações das paixões.
  8. Esse modo de vida austero e angélico sofreu, contudo, o destino de um retrato copiado muitas vezes por mãos descuidadas, perdendo progressivamente a semelhança com o original; os monges recaíram nas preocupações materiais, embotando o fio do verdadeiro ascetismo e desacreditando os que genuinamente merecem honra.
  9. Abandonou-se a simplicidade e a tranquilidade; a rivalidade por bens materiais fez esquecer o mandamento do Senhor de não se preocupar com as coisas terrenas, e o comportamento dos monges passou a contradizer abertamente as palavras do Evangelho sobre as aves do céu e os lírios do campo.
  10. Apesar dos ensinamentos evangélicos sobre a providência divina, os monges passaram a acumular terras, rebanhos e animais de carga, escolhendo ofícios de maior rendimento que absorvem toda a atenção e não deixam tempo para a lembrança de Deus, como se acusassem Deus de ser incapaz de provê-los.
  11. A vida ascética tornou-se para muitos um meio de lucro e de fuga do trabalho duro sob aparência de piedade, e os monges passaram a difamar os que vivem com simplicidade, sendo vistos pelo mundo como uma multidão inútil envolvida em compras e vendas, distinguindo-se dos demais apenas pelo hábito que vestem.
  12. O monge contemporâneo veste o hábito sem purificar a alma, sem compreender o propósito da filosofia divina, inflado de soberba farisaica por causa das vestes, exibindo instrumentos cujo uso ignora e reivindicando um conhecimento que não provou nem com a ponta da língua.
  13. Incapazes de suportar a austeridade do mosteiro, esses monges invadem as cidades como foliões e, quando têm fome, enganam os outros com aparência de piedade, tornando-se parasitas dos ricos, empurrando pessoas pelas ruas para abrir caminho, tudo por causa de uma refeição, sem nunca ter aprendido a controlar a gula.
  14. Por causa desse comportamento, o nome de Deus é blasfemado, o modo de vida ascético inspira repulsa em vez de admiração, as cidades estão cheias de vagabundos com hábito monástico, e as pessoas preferem confiar em ladrões comuns a confiar nesses monges, por considerarem os criminosos comuns mais fáceis de se precaver.
  15. Esses monges sequer começaram a vida ascética; vieram ao monasticismo talvez por pressão exterior, encarando-o apenas como meio de sobrevivência, e a autoindulgência os impede de perceber como a vida mole engendra continuamente novos e extravagantes desejos.
  16. E difícil tratar os que sofrem de doenças crônicas, pois quem nunca conheceu a saúde considera o estado de doença algo natural; igualmente inútil é dar conselhos a quem não tem intenção de segui-los, especialmente os dominados pela cobiça, completamente surdos a qualquer advertência.
  17. Aqueles que professam ter renunciado ao mundo e seguir Cristo devem perguntar a si mesmos por que voltam a se enredar nas distrações mundanas, por que reconstroem o que derrubaram, e por que, ao perseguir futilidades, acendem no coração dos irmãos mais fracos a cobiça que deveriam combater.
  18. Quem se diz filósofo e se orgulha de ser superior ao prazer, mas persegue o ganho material com mais ardor do que qualquer outro, ou corrige sua conduta desonrosa ou abandona toda pretensão ao título de filósofo, pois para o verdadeiro filósofo os bens são supérfluos diante da pureza da alma.
  19. Tão grande é a ocupação com as coisas materiais que os monges já não se envergonham quando, ao transgredir os mandamentos do Salvador, são repreendidos pelos próprios seculares, que lhes citam as Escrituras enquanto eles disputam por dinheiro e propriedades, tornando-se alvo de ridículo por causa da incongruência entre ações e vocação.
  20. A cobiça de bens alheios, que pesa como grilhões materiais, é condenada pelos profetas; quem carrega fardos mundanos move-se lentamente e é facilmente alcançado pela avareza, que Paulo ensinou a fugir, ainda que mesmo sem grande carga seja preciso correr velozmente para não ser apanhado pelo inimigo.
  21. O apego às coisas mundanas obstrui gravemente o caminho para a santidade: o vinhedo custou a vida a Nabot por despertar o ciúme de Acab; os rebanhos fizeram duas tribos e meia ficarem fora da Terra Prometida; e os mesmos rebanhos separaram Ló de Abraão, pois as posses suscitam ciúme, cortam seus donos de homens melhores, dividem famílias e transformam amigos em inimigos.
  22. As posses não têm lugar na vida futura e pouco servem na presente; Deus alimentou os israelitas no deserto por quarenta anos sem que cultivassem a terra, enviou corvos para sustentarem Elias, e fez que a viúva de Sarepta repartisse o último pão com o profeta, mostrando que se deve buscar a santidade e não a comida, a bebida e as vestes.
  23. Esses fatos, embora pareçam estranhos, não são impossíveis: Elias completou uma jornada de quarenta dias com a força de uma única refeição, e Moisés permaneceu oitenta dias no monte sem alimento humano, confirmando que o homem não vive só de pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.
  24. Arrastando a vida monástica do céu para a terra e enterrando-se em ansiedades materiais, os monges abandonam a esperança em Deus e confiam no próprio braço, como quem beija a própria mão atribuindo a si mesmo a prosperidade que vem da providência divina.
  25. Acima de tudo é preciso retornar ao bem-aventurado modo de vida dos primeiros monges, facilmente alcançável por todos que o desejam; qualquer sofrimento que sobrevenha nesse caminho não será inútil, pois corrige as faltas e ajuda os que abandonaram a vida espiritual a retomá-la.
  26. Deve-se evitar as cidades e aldeias, buscando o deserto para que as pessoas venham até os monges, como vinham a João Batista no deserto; a fama da santidade é eterna, enquanto os ricos que então eram glorificados caíram no esquecimento, e a memória do humilde anacoreta é venerada até hoje.
  27. Abandonando rebanhos, comércio e lavoura, deve-se escolher a vida de tranquilidade para adquirir a pérola preciosa e se tornar cultivador do paraíso; a melhor maneira de silenciar os críticos é corrigir discretamente em si mesmo as faltas pelas quais se é censurado.
  28. Outra coisa verdadeiramente vergonhosa é que alguém recém-entrado na vida monástica, tendo aprendido apenas as práticas exteriores do ascetismo, já reivindica ensinar outros sobre o que ainda não dominou, rodeando-se de discípulos sem perceber que o cuidado das almas alheias é a tarefa mais difícil de todas.
  29. Dominar qualquer arte requer tempo e muita instrução; nenhum inexperiente se aventura na agricultura ou na medicina sem preparo; apenas a arte das artes, a vida espiritual, é presumida como a mais simples por quem não a aprendeu, ignorando inclusive que é totalmente ignorante.
  30. Por isso a vida monástica é alvo de desprezo e escárnio: quem ontem servia em taverna hoje posa de mestre de virtude, e quem acaba de sair de uma vida desonesta pavoneia-se pela praça com uma multidão de discípulos, sem saber que se aventurar nessa tarefa sem experiência provoca a ira de Deus.
  31. As palavras de Cristo aos fariseus hipócritas que percorriam mar e terra para fazer um prosélito e o tornavam filho do inferno aplicam-se igualmente a todos que no futuro caírem no mesmo erro, e o exemplo de Jó, que intercedia diariamente por seus filhos, deveria inspirar quem assume a direção espiritual de outros.
  32. Só quem primeiro lutou contra as próprias paixões, observando o curso da batalha pela experiência pessoal, pode aconselhar outros sobre essa guerra e tornar a vitória mais fácil para eles; aqueles que vencem suas paixões por grandes austeridades, mas sem compreender como venceram, são como soldados que não sabem como a batalha foi ganha.
  33. Os mestres autoproclamados carecem de experiência pessoal e não ouvem quando outros lhes falam; apoiando-se na própria presunção, ordenam que os irmãos os sirvam como escravos e têm como único objetivo exibir-se em público com grande séquito de discípulos, como saltimbancos antes que mestres.
  34. Deveriam aprender com Abimeleque e Gideão que não são as palavras mas as ações que inspiram os seguidores; o Apóstolo trabalhou com as próprias mãos para suprir as necessidades suas e dos que estavam com ele, e o próprio Senhor primeiro agiu e depois ensinou.
  35. Os falsos mestres são como pastores repreendidos pelo profeta por carregarem a espada no braço em vez de cingida à coxa: por negligenciarem a ação reta extinguem a luz da contemplação, e as ações privadas dessa compreensão revelam-se equivocadas, pois quem não usa o discernimento para cortar as próprias paixões não pode ver nem agir corretamente.
  36. A experiência mostra que a tarefa de guiar outros deve ser assumida por alguém equânime, sem interesse pessoal em vista; tal pessoa, tendo provado a tranquilidade e a contemplação, não quereria enredar seu intelecto em cuidados corporais, como ilustra a parábola de Jotão, em que a videira, a figueira e a oliveira recusaram reinar sobre as árvores, preferindo dar seus próprios frutos.
  37. A maldição que recaiu sobre as árvores da parábola recai igualmente sobre os inexperientes que assumem a liderança: a inépcia do mestre destrói os discípulos, e a negligência dos discípulos põe em perigo o mestre, pois ao mestre compete notar e corrigir todas as faltas, e aos discípulos obedecer a todas as suas instruções.
  38. Ninguém deve imaginar que ser guia espiritual é desculpa para a comodidade e autoindulgência, pois nada é tão exigente quanto o encargo de cuidar de almas; governar homens é mais difícil do que cuidar de animais, por causa da variedade de caracteres e da astúcia deliberada dos primeiros, e quem assume essa tarefa deve preparar-se para uma luta severa.
  39. O castiçal do templo feito de ouro maciço cinzelado significa que quem pretende iluminar outros deve ser sólido e bem fundamentado, sem nada vazio ou oco; e os bois que suportam a pia significam que quem assume essa obra deve suportar os fardos e as impurezas dos mais fracos, recebendo em si a sujeira daqueles que purifica.
  40. O diretor espiritual deve também conhecer todos os artifícios do inimigo para prevenir os que estão sob sua responsabilidade, sendo tal pessoa rara e difícil de encontrar; como Jó descreve, Satanás não tem face visível, oculta sua astúcia sob muitos disfarces, e quem tenta ensinar com base no que mal compreendeu de outros acaba se contradizendo no meio do caminho.
  41. A história de Eliseu e o machado perdido no Jordão ilustra que o mestre revela ao discípulo o pensamento que este acreditava escondido: o Jordão significa o discurso sobre o arrependimento, e o madeiro que faz o machado emergir à superfície significa a Cruz, que tornou claro o pleno significado do arrependimento.
  42. O objetivo de tudo isso não é dissuadir as pessoas de assumir a direção espiritual de iniciantes, mas urgir que primeiro adquiram o estado interior necessário para tão grande tarefa, sem se deixar seduzir pelos prazeres que acompanham o cargo; só quem subjugou todas as paixões e não é mais perturbado pela guerra interior pode propriamente assumir a direção de outros.
  43. Em primeiro lugar, os que abraçam a vida monástica devem nada reter de seus bens, temendo o exemplo terrível de Ananias; tudo que se retém forma objeto de contínua atração para a mente e acaba por cortar o monge da comunidade, como mostrou Eliseu ao matar os bois e queimar o jugo ao juntar-se ao seu mestre.
  44. Em segundo lugar, os que abraçam a vida monástica devem esquecer parentes e amigos a tal ponto que nunca sejam perturbados por suas lembranças; as vacas que transportavam a Arca, separadas de seus bezerros, completaram o trajeto sem se desviar nem à direita nem à esquerda, e se animais agiram assim por necessidade, muito mais deveriam fazê-lo os homens por livre escolha.
  45. Depois de conseguir nessas duas coisas, os que escaparam do agito do mundo devem praticar a tranquilidade para não reabrir as feridas infligidas à mente pelos sentidos; embora difícil para os recém-chegados, porque a memória passa a revolver toda a sujeira interior que antes não tinha oportunidade de agitar, a tranquilidade liberta progressivamente o intelecto das perturbações.
  46. Se os monges se misturarem livremente com a confusão do mundo exterior, correm o risco de ser apanhados novamente nas armadilhas de que pensavam ter escapado; o intelecto de quem recentemente se afastou do pecado é como um corpo que começa a se recuperar de uma doença prolongada, e algo trivial basta para provocar uma recaída.
  47. Enquanto os sentidos continuam fornecendo impressões do exterior, é não apenas difícil mas completamente impossível libertar o intelecto dessa inundação; da mesma forma que para secar um leito de rio é preciso cortar o fluxo de cima, quando os sentidos deixam de fornecer material do exterior torna-se fácil esvaziar a mente das impressões que produzem as paixões.
  48. Quando se está continuamente entre outras pessoas, as paixões ficam impedidas de emergir, mas crescem secretamente mais poderosas; como ervas daninhas no solo constantemente pisado, que não aparecem na superfície mas cravam raízes profundas e vigorosas, as paixões atacam com grande força quando finalmente se tem a chance de praticar a tranquilidade.
  49. Por isso o profeta ordena destruir a semente de Babilônia, ou seja, apagar as impressões sensoriais antes que penetrem na mente; se forem deixadas crescer e regadas com a chuva violenta da meditação repetida, produzirão uma abundante colheita de mal, e os salmos elogiam os que matam as paixões na infância.
  50. As provocações das paixões começam com fantasias triviais como formigas, mas crescem até ter a força de leões; o alimento das paixões são as impressões sensoriais, que sustentam as paixões atacando a alma com uma sucessão de fantasias, e por isso Moisés colocou grades ao redor do altar no tabernáculo, significando que se deve tecer uma barreira mental contra os sentidos.
  51. A contemplação de certas provações futuras age como grade contra os sentidos: Salomão a teceu para os olhos de todos os capazes de compreender ao dizer que quando os olhos veem uma mulher estranha a boca fala coisas tortuosas; e quem no momento da tentação resiste à visão que o tenta luta para escapar do castigo futuro como um homem em meio à tempestade no mar.
  52. A guerra dos assírios contra os homens de Sodoma ilustra como os sentidos lutam contra os objetos sensíveis: os cinco reis representam os cinco sentidos e os quatro reis os objetos da percepção sensorial; desde o nascimento até os doze anos deixamos nossos sentidos serem controlados pelos objetos, mas quando o julgamento amadurece começamos a rebelar-nos contra essa escravidão, e se persistirmos ficamos livres para sempre.
  53. Nada se ganha com a decisão de renunciar às coisas terrenas se não se persevera nela; olhar continuamente para o que se renunciou, como a mulher de Ló, revela o apego a isso, e o hábito, que ela simboliza, exerce uma força que nos puxa de volta depois de tentarmos a renúncia definitiva.
  54. A alma que recai em hábitos antigos e dá toda sua atenção às coisas materiais é como Raquel sentada sobre os ídolos de Labão, que não ouve o ensino que a elevaria a coisas superiores; a riqueza, a fama e as outras coisas desta vida carecem de substância real, mudando de dia em dia, e somos nós que lhes damos substância ao formar fantasias sobre coisas que não servem a nenhum propósito real.
  55. As Escrituras usam a palavra sentar para significar tanto a omissão do que é correto quanto o amor ao prazer; e a gula é a raiz de que brotam vigorosamente a avareza, a ira e a tristeza, como o chefe dos cozinheiros dos babilônios derrubou os muros de Jerusalém estimulando os prazeres carnais pela arte da culinária.
  56. O desejo sexual está ainda mais estreitamente ligado à gula do que a ira e a tristeza, como a própria natureza indicou ao colocar os órgãos da geração imediatamente abaixo do ventre; a gula, além de nutrir todas as paixões, destrói tudo o que é bom, expulsando a temperança, a moderação, a coragem e todas as virtudes.
  57. Por isso os santos fugiram das cidades e evitaram encontrar grande número de pessoas, pois sabiam que a companhia de homens corrompidos é mais destrutiva que uma praga; Elias foi para o Monte Carmelo, Eliseu herdou do mestre o amor pelo deserto, João Batista habitou no deserto e Moisés ordenou que os israelitas recolhessem mana para um único dia, instituindo que os homens vivessem de dia em dia confiando em Deus.
  58. Todos os santos, de quem o mundo não era digno, deixaram as regiões habitadas e vagaram por desertos, montes, covas e cavernas da terra, fugindo da sofisticada malícia dos homens e preferindo a convivência com os animais selvagens, que não ensinam a pecar mas reverenciam a santidade, como os leões que preservaram Daniel.
  59. Todos os que desejam progredir espiritualmente devem imitar a santidade dos santos, livrando-se da escravidão às exigências do corpo e buscando a liberdade; como o asno selvagem criado para correr livre no deserto, devemos ser soltos dos laços das paixões para nos tornarmos portadores do Logos divino e buscarmos as riquezas das Escrituras.
  60. Deve-se abandonar as futilidades mundanas e elevar-se ao verdadeiro bem da alma; assim como crianças que crescem abandonam seus brinquedos e se dedicam aos assuntos da vida adulta, os que professam buscar as bênçãos eternas não deveriam se deixar seduzir pelas diversões mundanas, tornando-se motivo de escárnio para os que julgam as coisas pelo seu valor real.
  61. A razão pela qual se continua apegado às coisas visíveis é que nunca se pensa em nada superior a elas; se houvesse compreensão mais profunda das realidades do mundo divino, não se cairia nas atrações deste mundo, que deslumbram com sua falsa glória e atraem todo o desejo.
  62. Deve-se começar a se afastar das coisas deste mundo, desprezar posses e dinheiro e lançar fora a carga, para que o navio flutue mais levemente; quem vai para o mar e é apanhado por uma tempestade não hesita em jogar a mercadoria às águas para salvar a vida, e da mesma forma deve-se desprezar tudo que arrasta a alma para o fundo.
  63. O atleta não compete vestido, e os que lutam contra adversários espirituais muito mais hábeis do que qualquer visível não devem entrar no estádio carregados de fardos; a alma despida é difícil ou impossível de ser agarrada, como José que, ao fugir da mulher egípcia, abandonou o manto e escapou, compreendendo que sem nudez seria arrastado pela sensualidade.
  64. Além de despidos, deve-se estar ungidos com óleo, pois assim como o óleo impede o adversário de segurar o corpo do lutador, o desapego impede o diabo de se agarrar a quem não tem apegos mundanos; as coisas mundanas são para nossa luta o que a poeira é para a luta atlética, e o apego ao material torna o intelecto coberto de poeira, difícil de escapar da garra do diabo.
  65. O desapego é a marca da alma perfeita, enquanto a ansiedade com as coisas materiais é característica da alma imperfeita; a alma perfeita é chamada lírio entre espinhos, vivendo com desapego no meio dos que são perturbados por tal ansiedade, pois os lírios do Evangelho significam a alma desapegada do cuidado mundano.
  66. Seduzidos pelas coisas vãs desta vida, não se percebe a feiura da matéria, encoberta pelo apego a ela; não se vê que as posses devem ser limitadas às necessidades corporais, e que o que as excede é de mau gosto e desnecessário, assim como um manto demasiado longo embaraça os pés e prejudica todo tipo de trabalho.
  67. Não se deve seguir os que permanecem apegados ao mundano por nunca terem pensado nas realidades espirituais, pois confiar neles como juízes seria como usar cegos como árbitros de cor ou surdos como críticos de música; a inteligência deve julgar as coisas sensíveis de seu lugar correto, e não ser enterrada sob elas.
  68. Uma vez que se vai um pouco além dos limites das necessidades básicas no desejo pelos prazeres desta vida, nenhum critério pode deter o movimento, pois não há limites para o que excede o necessário; o esforço inútil e o trabalho sem fim desperdiçados no desnecessário só aumentam o anseio por ele.
  69. Tudo isso é contrário à natureza, pois o Criador ordenou o mesmo modo natural de vida para nós e para os animais; os animais permanecem dentro dos limites da natureza e não alteram o que Deus ordenou, enquanto os homens, honrados com a inteligência, abandonaram completamente a ordenança original, inflamando desejos insaciáveis com a riqueza dos alimentos.
  70. Uma vez que as posses são causa de grande dano e dão origem a todas as paixões, deve-se eliminar essa causa pela pobreza voluntária; a companhia de pessoas frívolas é prejudicial e mina a paz interior, assim como os que vivem em clima insalubre geralmente adoecem, da mesma forma os que convivem com homens indignos partilham de seus vícios.
  71. Nada há de comum entre os que renunciaram ao mundo e o próprio mundo; a ocupação com negócios impede o treinamento militar, e sem treinamento não se pode resistir às tropas experientes; combate-se de forma tão frouxa que não se resiste ao inimigo mesmo quando ele está caído, tornando-se presa dele, como quem saqueia cadáveres em campo de batalha e recebe golpe mortal do moribundo.
  72. Deve-se também treinar o intelecto na verdadeira piedade, pois o ascetismo corporal tem uso limitado como a educação elementar, enquanto a verdadeira piedade é útil em tudo; os iniciantes procuram controlar as paixões, mas os mais avançados devem também dirigir sua atenção à mente, para que seus movimentos estejam de acordo unicamente com os ensinamentos da sabedoria.
  73. Quem segue o caminho espiritual deve dirigir todo o desejo ao Senhor que ama; então os pensamentos humanos não encontrarão oportunidade de ativar as paixões correspondentes, pois cada paixão ativa em quem ela controla mantém a inteligência acorrentada, e o amor pela sabedoria deve fazer o intelecto renunciar tanto às coisas sensoriais quanto aos próprios sentidos.
  74. A pureza da virtude não deve ser nublada por pensamentos mundanos nem a intensidade da contemplação perturbada por cuidados corporais; assim a verdadeira sabedoria se revelará em toda a sua beleza, e não será mais difamada pelos insolentes por causa das faltas dos monges, mas louvada pelos poderes angélicos e por Cristo, cujo louvor os santos desejaram, desprezando a glória humana.
  75. O tribunal celestial, que se alegra com os atos de justiça, não precisa das opiniões dos homens, que não podem recompensar os que viveram bem nem punir os que viveram de outra forma; no momento do julgamento, os que viveram retamente serão recompensados com as bênçãos eternas de acordo com a verdadeira natureza de suas vidas.
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