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Jó XXVIII
Comentários sobre Jó. Livro V.
- Jó precisava ser humilhado pela comparação com Deus após suportar tantos sofrimentos com constância, para que a vitória de suas virtudes não se transformasse em queda pela soberba.
- O Senhor responde a Jó do meio do turbilhão porque fala severamente a quem foi provado, mostrando poder terrível para conter qualquer elevação orgulhosa.
- A fala divina ocorre diretamente por inspiração interior ou de modo adaptado por criatura angélica, sendo a primeira uma iluminação sem som que instrui o coração de modo imediato.
- Deus declara sua vontade por meio dos anjos de modos diversos, usando palavras, objetos, ações, imagens interiores, aparições sensíveis, substâncias celestes, substâncias terrestres ou presença espiritual no coração.
- Deus fala por palavras mediante um anjo quando uma voz temporal é formada por criatura racional para tornar audível aos homens uma decisão divina eterna.
- Deus fala por objetos mediante anjos quando elementos visíveis anunciam realidades futuras, como o âmbar de Ezequiel figura o Mediador em quem a natureza divina e a humana se unem.
- Deus fala simultaneamente por palavras e ações quando ensina por gestos simbólicos, como a caminhada divina no jardim mostra a instabilidade espiritual do homem após o pecado.
- Deus fala por imagens interiores ou por formas corporais assumidas temporariamente, como nas visões de Jacó, Pedro e Paulo ou na aparição dos três homens recebidos por Abraão.
- Deus fala por substâncias celestes, terrestres ou mistas quando usa nuvens, animais, fogo e sarça para comunicar realidades espirituais e prefigurar a encarnação.
- Deus inspira os profetas por meio de anjos presentes de modo secreto no coração, elevando a mente humana acima do peso da carne para contemplar causas futuras.
- A fala do Senhor a Jó no turbilhão pode ter ocorrido por mediação angélica exterior e por iluminação divina interior, de modo que Jó exprimisse em palavras aquilo que recebera sem palavras.
- A pergunta divina contra Eliú é repreensão da arrogância, pois ele possuía sentenças verdadeiras, mas as envolvia em palavras inábeis pela vaidade.
- A ordem para cingir os lombos como homem exorta Jó a conter não apenas a concupiscência da carne, mas também a concupiscência do coração que se gloria da própria virtude.
- Deus interroga a criatura por meio do castigo, de mandamentos difíceis e da revelação parcial de seus mistérios, para manifestar a paciência, a obediência e a humildade humanas.
- A menção aos fundamentos da terra passa da criação do mundo para a construção da Igreja, na qual os pregadores santos são fundamentos estabelecidos por Deus.
- A pedra angular designa Cristo, que une os povos e sustenta a Igreja, mostrando que a linguagem aparentemente cosmológica deve ser lida também em sentido místico.
- As medidas e linhas da terra significam os limites ocultos da Igreja, traçados pelo juízo secreto de Deus ao chamar alguns povos e reter outros fora da pregação.
- Os eleitos estão dentro das medidas divinas e os réprobos fora delas, mesmo quando parecem pertencer exteriormente à fé.
- As bases da terra simbolizam os doutores da Igreja, que sustentam o peso do edifício e tornam os preceitos difíceis praticáveis pelo exemplo de vida.
- As bases também significam os profetas, que sustentam os apóstolos ao anunciarem previamente a encarnação do Mediador e receberem plena luz com a vinda de Cristo.
- A pedra angular é Cristo, que une judeus e gentios em uma só Igreja e reconcilia a humanidade terrena com os anjos celestes.
- Em sentido moral, a terra representa a alma justa, cujo fundamento é a fé e cujo edifício de virtudes deve ser preservado pela lembrança humilde do estado anterior de pecado.
- Deus mede a alma justa ao distribuir diversamente seus dons, concedendo a cada pessoa graças específicas e limitando aquilo que cada uma pode realizar.
- A diversidade dos dons impede a soberba e cria dependência recíproca pela caridade, pois cada pessoa possui no outro aquilo que não recebeu em si mesma.
- A Igreja é o corpo de Cristo no qual membros diversos exercem funções distintas e, pela caridade, formam uma unidade viva e harmônica.
- A sabedoria divina estabelece limites aos dons de cada pessoa, de modo que ultrapassar a medida recebida conduz à perda do próprio ofício espiritual.
- Davi e Paulo preservaram a medida recebida ao não pretenderem realizar aquilo que não lhes fora concedido.
- A linha estendida sobre a alma consiste nos exemplos dos santos, que corrigem defeitos, moderam excessos e ensinam a manter a justa medida nas obras.
- O exemplo de Pedro ensina simultaneamente coragem diante dos perseguidores e humildade diante da correção fraterna, impedindo tanto a fraqueza por medo quanto o excesso por orgulho.
- A discrição mostra que uma mesma virtude deve às vezes ser exercida e às vezes suspensa, quando sua prática indiscreta ameaça causar dano maior aos fracos.
- Paulo circuncidou Timóteo por prudência pastoral, embora ensinasse a liberdade dos gentios, pois uma virtude pode ser preservada justamente quando é temporariamente contida por discernimento.
- A suspensão do zelo deve ser examinada pela intenção interior, para que não proceda de medo, ambição ou interesse próprio, mas do verdadeiro bem comum.
- As bases da alma são suas intenções, que só sustentam virtudes autênticas quando permanecem firmadas em Cristo e voltadas à vida eterna.
- Toda alma eleita edifica suas ações temporais sobre Cristo quando suas intenções repousam na esperança da eternidade.
- A pedra angular em sentido moral é a dupla compreensão da Escritura e também Cristo, que une vida ativa e contemplativa em sua própria encarnação.
- As estrelas da manhã são os anjos, que louvam o mistério da redenção e se alegram com a integração dos homens redimidos ao número celeste.
- A exultação humana diante da redenção expressa uma alegria que a voz não consegue conter nem explicar plenamente, enquanto Deus limita as tentações para que exercitem sem destruir.
- O mar simboliza o mundo perseguidor, e o ventre simboliza a corrupção dos pensamentos carnais de onde irrompem ameaças contra a Igreja.
- O mar coberto por nuvem representa a crueldade dos perseguidores velada pela ignorância e pela cegueira, tanto fora quanto dentro da Igreja.
- Deus circunda o mar com limites ao restringir providencialmente a ira dos perseguidores para que ela não destrua a Igreja.
- As portas representam os santos pregadores e a tranca representa o Senhor encarnado, que fortalece seus pregadores e detém o ímpeto dos perseguidores.
- O limite imposto ao mar mostra que a perseguição só avança até onde Deus permite, servindo antes à purificação dos santos que à destruição da Igreja.
- O mar pode significar o mundo inteiro submetido ao limite divino, pois Deus não permite que os pecadores ultrapassem a ordem estabelecida por sua providência.
- O mar que irrompe do ventre também figura os gentios saídos da idolatria, cuja fúria inicial é contida por Deus para que sejam conduzidos à fé.
- A imposição de limites ao mar indica que Deus disciplina os convertidos pelas normas dos preceitos, para que não retornem à instabilidade dos desejos antigos.
- Em sentido moral, o mar é o coração agitado por ira, conflito, orgulho e engano, que só não destrói a vida espiritual porque Deus o contém pelo temor inspirado.
- O coração tumultuoso é coberto por nuvem e trevas porque ainda não vê claramente a paz interior nem contempla plenamente as verdades sublimes.
- Deus circunda o coração com limites ao restringir a contemplação segundo sua fraqueza e ao impedir que sugestões más avancem até o consentimento ou a ação.
- As portas são as virtudes e a tranca é a caridade, pela qual Deus conserva as boas obras contra as ondas das tentações interiores.
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