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Centúria

João de Karpathos (resumo)

  1. A oferta de uma centena de textos espirituais ao destinatário — cidadão do céu — é feita à semelhança do vassalo que leva flores simples ao rei terreno e recebe em troca dons inesperados, na esperança de obter como retribuição o dom das orações.
  2. O reinado eterno de Deus, sem princípio nem fim, supera infinitamente qualquer honra terrena, pois as recompensas que Ele concede aos que O servem com santidade são incorruptíveis e perduram para sempre, ao contrário das glórias mundanas que se extinguem com a morte.
  3. Davi descreve no salmo o louvor que toda a criação — anjos, animais, aves e répteis — oferece ao Criador, e diante dessa universalidade do culto divino, o monge, comparado ao ouro de Ofir, não pode permitir-se inércia ou apatia no canto do louvor a Deus.
  4. Assim como a sarça ardeu sem ser consumida, os que receberam o dom da impassibilidade não são perturbados nem prejudicados pelo calor do corpo, pois a voz do Senhor retém as chamas da natureza e Sua vontade separa o que por natureza está unido.
  5. A lua que cresce e mingua ilustra a condição humana — o pecado não destrói o intelecto, assim como o tamanho físico da lua não diminui, apenas sua luz — e pela penitência o homem recupera seu esplendor original, crendo que quem acredita em Cristo, mesmo morrendo, viverá.
  6. Ceder perante o enxame de pensamentos malignos significa ser temporariamente abandonado pela graça de Deus por sentença justa; ao superar as provocações impuras, porém, o crente deve reconhecer que foi a graça divina — e não sua própria força — que o libertou do demônio, do homem velho e das potências predatórias.
  7. A visita do Logos divino, sobretudo quando acompanhada de lágrimas, dissolve e mata as paixões, mesmo as mais inveteradas, reduzindo gradualmente a nada os impulsos destrutivos da alma e do corpo, desde que o crente persevere na oração e na esperança incessante.
  8. Cristo aceita o louvor da boca dos fiéis simples de coração porque por meio desse louvor destrói o inimigo e vingador — o diabo, adversário da santidade — conforme a plenitude da glória divina que esmaga o adversário.
  9. Quem é figurativamente um aborto deformado pelo pecado tem metade de sua carne devorada nesta vida e metade na vida futura, pois cada um experimentará inevitavelmente as consequências de seus próprios atos.
  10. O monge deve praticar a virtude do jejum, evitar o enredamento pelas paixões e cultivar em todo tempo a intensa quietude interior.
  11. Os demônios, no ódio às almas, incitam outros a proferir elogios vazios, induzindo ao relaxamento pela vaidade; se o crente cede à presunção e à autoestima, os inimigos o aprisionam sem dificuldade.
  12. Deve-se aceitar a crítica desdenhosa de preferência às palavras de elogio, pois o adulador não difere em nada de quem amaldiçoa.
  13. Quem não consegue guardar as regras do jejum por enfermidade deve dar graças com contrição ao Senhor que cuida e julga a todos, pois a humildade constante diante de Deus impede que se caia em arrogância perante o próximo.
  14. O inimigo, sabendo que a oração é arma invencível, tenta afastar o crente dela preenchendo-o com o desejo do saber secular; resistir a essa sugestão é necessário para não colher espinhos e abrolhos em vez de figos e uvas, pois a sabedoria do mundo é loucura aos olhos de Deus.
  15. A boa nova de grande alegria foi proclamada a todo o povo, e toda a terra deve adorar e cantar a Deus — não uma parte — de modo que a vida presente deve ser percorrida com alegria temperada pelo temor de Deus e pela consciência de que, no momento da partida dos grandes santos, o amor de Deus prevalece e expulsa o temor.
  16. As Escrituras testemunham que o homem ainda dominado pelas paixões, se acreditar com humildade e de todo o coração, receberá o dom da impassibilidade, conforme o ladrão que foi prometido ao paraíso e a mulher a quem foi dito que sua fé a salvou.
  17. Ao opor-se ferozmente às paixões, o crente é mais intensamente perturbado pelos demônios com pensamentos torpes; nesse momento, deve reafirmar a fé no Senhor e firmar a esperança nos bens eternos prometidos, pois a própria intensidade da inveja demoníaca revela a grandeza desses bens.
  18. A prática das virtudes constitui para alguns a forma mais verdadeira do conhecimento espiritual, de modo que fé e conhecimento devem manifestar-se pelas obras, sob pena de negar a Deus pelos próprios atos.
  19. É sobretudo nas Grandes Festas e durante a Divina Liturgia que os demônios tentam manchar o asceta com fantasias impuras, mas não conseguem vencer a resistência de quem está habituado a enfrentar tudo com firmeza e coragem.
  20. Os demônios tentam minar a resolução interior por meio de inúmeras tribulações, das quais se tece uma coroa, pois o poder de Cristo se aperfeiçoa na fraqueza e a graça do Espírito floresce justamente quando a situação é mais sombria.
  21. Nada apaga a virtude tão facilmente quanto a conversa frívola e a zombaria; e nada renova a alma decadente e a aproxima do Senhor tanto quanto o temor de Deus, a atenção, a meditação das Escrituras, a oração e o progresso espiritual pelas vigílias.
  22. É necessário e salutar para a alma suportar com fortaleza toda tribulação — seja dos homens, seja dos demônios — reconhecendo que os sofrimentos são merecidos e sem culpar ninguém, pois quem atribui suas tribulações a outrem perdeu a capacidade de julgar corretamente o que lhe é vantajoso.
  23. Há momentos em que provações multiplicadas fazem o homem diligente desviar do caminho certo para que não confie em si mesmo; mas após a retirada do maligno, por ordem de Deus, é possível esperar ser restaurado ao bom estado anterior.
  24. À medida que o homem cresce interiormente e aumenta em santidade, torna-se algo grande e maravilhoso, mas ainda assim teme o pecado como o elefante teme o camundongo, para não se tornar reprovado após ter pregado aos outros.
  25. Não é somente nos tempos próximos ao fim do mundo que o diabo pronuncia blasfêmias contra o Altíssimo; ele o faz agora mesmo por meio dos pensamentos, mas o crente, escalando o rochedo do conhecimento espiritual, deve crescer em fervor de fé e oração para resistir ao inimigo.
  26. Quando a alma deixa o corpo, o inimigo a ataca ferozmente acusando-a de seus pecados, mas a alma que ama a Deus e tem fé nEle não se atemoriza, pois fortalecida pelo Senhor, guiada pelos anjos santos e protegida pela luz da fé, responde ao diabo com grande ousadia e ele foge diante do nome de Cristo.
  27. Assim como o peixe rêmora pode deter um grande navio ao prender-se à quilha, por permissão de Deus um pequeno tentação pode travar o avanço do caminhante espiritual; ainda assim, não se deve perturbar, mas resistir com perseverança paciente para receber a graça divina.
  28. Quando alguém avançado na vida espiritual desvia-se por indolência, é atacado por todos os exércitos do mal — as forças da impureza e seus incontáveis pensamentos apaixonados — e levado à desolação e ao desânimo extremo; mas, pela fé profunda e humildade, como Gideão, recebe auxílio do céu e vence, porque a graça de Deus combate ao seu lado.
  29. Não é possível pisar sobre a áspide e a cobra sem que Deus, em resposta à oração constante, envie anjos para proteger o crente, sustentando-o com suas mãos e elevando-o acima da lama da impureza.
  30. Quem é vencido após resistir firmemente não deve desesperar, mas animar-se com a certeza de que os demônios serão novamente derrotados, pois Deus ergue todos os que foram derrubados e causa consternação nos inimigos assim que o crente se arrepende.
  31. Durante as provações e tentações é inevitável sentir abatimento, mas aqueles que lavram a terra do sofrimento e da tribulação no coração são depois preenchidos de grande alegria, lágrimas de consolação e pensamentos santos.
  32. Isaac quis abençoar Esaú e Esaú quis receber a bênção paterna, mas ambos falharam, pois Deus abençoa e unge com o Espírito não necessariamente quem preferimos, mas aqueles que Ele destinou ao Seu serviço antes da criação, de modo que não se deve invejar o progresso de irmãos aparentemente insignificantes.
  33. Nunca se deve ceder quando alguém sob obediência pede tempo para deliberar antes de praticar uma boa ação, pois quem assim fala está claramente cedendo à própria vontade e repudiando sua promessa de obediência.
  34. Por maiores que sejam, as paixões do corpo e da alma são destruídas com o passar do tempo e por ordem de Deus, enquanto a misericórdia de Cristo jamais falha, permanecendo de geração em geração sobre os que O temem, desde a vida presente até a futura.
  35. Assim como o tesouro real está cheio de ouro, o intelecto do verdadeiro monge está preenchido de conhecimento espiritual.
  36. Há ocasiões em que um mestre cai em desgraça e passa por provações para o proveito espiritual dos outros, tornando-se desprezado e fraco para que os demais se fortaleçam em Cristo.
  37. Os pensamentos apaixonados são a fonte e o fundamento da corrupção que chega pela carne, mas retornando à vigilância pelo arrependimento o crente expulsa tais pensamentos da alma, pois o luto pelo pecado repele o espírito de corrupção.
  38. Para quem se sente oprimido por um senso de indignidade e incapacidade de alcançar a santidade, a mensagem é que, se alcançar a impassibilidade, verá a Jesus não apenas no futuro, mas vindo a ele já nesta vida com poder e grande glória — pois como Sara, a alma envelhecida pode ainda gerar um filho santo.
  39. O Senhor às vezes retira um dom de graça e concede outro em seu lugar, mas o crente, voltado apenas para o que foi tirado e não percebendo o que foi dado, sente-se abatido, e ainda assim Deus se alegra com esse abatimento, pois Seu propósito não é destruir, mas salvar.
  40. A proibição de comer algo acende imediatamente o desejo irresistível por aquilo que é vedado, ilustrando como a queda de Adão tipifica o que acontece a todos: por ter sido proibido de comer de uma árvore específica, ele se sentiu irresistivelmente atraído justamente por ela.
  41. Deus salva um homem pelo conhecimento espiritual e outro pela candura e simplicidade, pois não rejeita o simples.
  42. Quem se dedica com intensidade especial à oração é assaltado por tentações terríveis e selvagens.
  43. Quem se propõe a revestir-se de impassibilidade deve esforçar-se com toda a sua força para alcançá-la, pois a morte é engolida pela vitória e todos os perseguidores que nos assediam serão tragados pelas ondas quando o poder desça do céu sobre nós.
  44. Não se deve esquecer os avisos de Paulo sobre a possibilidade de tornar-se reprovado após pregar, de cair mesmo quando se pensa estar firme, e o exemplo de Salomão que desviou para a maldade e de Pedro que negou o Senhor; pois esquecer isso conduz ao orgulho, à jactância e à complacência.
  45. Seguindo o Senhor com amor ardente, o crente pode tropeçar em alguma paixão e cair inesperadamente em pecado, mas deve levantar-se com o mesmo ardor de antes e continuar a seguir o Senhor, pois é uma grande coisa ser chamado cristão, como o próprio Senhor declara por Isaías.
  46. Da oração a Deus com fé firme, o crente recebe não apenas o perdão dos pecados, mas também dons celestiais de graça, pois o Senhor prometeu esses bens não aos justos, mas aos pecadores, de modo que deve-se pedir incessantemente e sem duvidar.
  47. Para levar alguém de pouca fé a sacudir a doença da incredulidade e do desespero, basta contemplar como a formiga cria asas e a lagarta se transforma em borboleta, pois Deus é aquele que faz florescer a árvore seca e dá vida aos ossos secos.
  48. Não se deve exaurir com ansiedades pelas necessidades corporais, mas confiar a Deus toda a alma, pois assim como a aranha — mais fraca e impotente do que qualquer criatura — recebe de Deus alimento diariamente sem sair de seu lugar, assim também o Senhor estende Sua providência até os mais humildes.
  49. Quem está escravizado à gula deve pensar nas enormes baleias do Atlântico, que Deus alimenta fartamente todos os dias, pois é Deus quem provê o alimento tanto para quem come muito quanto para quem come pouco, de modo que o apetite não deve ser motivo de ansiedade mundana.
  50. Para verdadeiramente agradar a Deus e desfrutar da graça de Sua amizade, o intelecto deve apresentar-se despido diante dEle, sem o peso de qualquer habilidade, noção, argumento ou pretexto mundano, pois Deus Se afasta dos que se aproximam com presunção e autoestima.
  51. Para superar a pecaminosidade firmemente estabelecida no interior, é preciso usar a força; quem perseverar na oração incessante e nas demais virtudes receberá uma força poderosa que desce do alto, incomparavelmente mais forte do que qualquer esforço humano, destruindo as piores inclinações da alma e os impulsos desordenados do corpo.
  52. O inimigo arma ciladas ocultas na forma de pensamentos impuros e blasfemos, mas o crente vigilante pode armar contra ele armadilhas ainda mais eficazes: a oração, a salmodia, as vigílias, a humildade, o serviço ao próximo, os atos de compaixão, a gratidão e a escuta atenta das Escrituras.
  53. Davi, já em idade avançada, declarou que encontrou seu coração depois de muito esforço e tempo de oração, ensinando assim que é necessário grande luta para alcançar o estado em que a mente não é mais perturbada e se atinge o céu interior do coração onde Jesus habita.
  54. Cristo é a sabedoria, a justiça, a santificação e a redenção do crente, e por isso é também o seu descanso, pois somente nEle a raça humana encontrará o verdadeiro repouso, conforme o próprio Senhor declara.
  55. Assim como existe um cálice de calamidade e um cálice de ira, existe também um cálice de fraqueza que, no momento oportuno, o Senhor toma das mãos do crente e coloca nas mãos de seus inimigos, de modo que não mais o crente, mas os próprios demônios, se tornam fracos e caem.
  56. Assim como externamente os homens exercem diferentes ofícios, internamente há diferentes tipos de pensamentos — jogadores, envenenadores, piratas, caçadores, devassos, assassinos — e o homem de Deus deve rebatê-los na oração e fechar imediatamente a porta contra eles.
  57. O Senhor pode ser alcançado e levado a conceder a salvação não apenas pela palavra — como no caso do ladrão na cruz — mas também pelo pensamento, como a mulher do fluxo de sangue que apenas pensou em tocar a orla do manto de Cristo e foi curada.
  58. O próprio pecado, uma vez que tomamos consciência de seu peso, fedor imundo e loucura, nos impele em direção a Deus pelo arrependimento; se recusarmos o arrependimento, porém, o pecado nos retém com laços que não podemos romper.
  59. Deve-se guardar-se da feitiçaria de Jezabel — cujos feitiços mais poderosos são os pensamentos de ilusão e vanaglória — considerando-se desprezível e indigno, lançando-se diante do Senhor e reconhecendo que todo dom de graça vem do céu.
  60. O impulso de autoestima que surge durante uma refeição e incita a falar no momento errado deve ser destruído pelo silêncio; se não for resistido, o crente terá de pagar o preço — seja por uma tentação grave, seja por dor corporal, seja por conflito com os irmãos ou tormento na vida futura — pois é preciso guardar a língua com vigilância.
  61. Aqueles que são tentados por pensamentos de prazer, ira e amor à glória são queimados pelo sol de dia e pela lua à noite, de acordo com o Salmo; deve-se orar para ser abrigado pela nuvem fresca e refrescante da graça de Deus.
  62. Nunca se deve cultivar amizade íntima com quem aprecia banquetes ruidosos e conversas obscenas, mesmo que seja monge há muitos anos, para não ser contaminado por sua impureza.
  63. Pedro recebeu primeiro as chaves do reino, mas foi depois deixado cair no pecado de negar Cristo para que sua soberba fosse humilhada; assim, não se deve estranhar cair em maus pensamentos após receber as chaves do conhecimento espiritual, pois as provações são as rédeas com que Deus em Sua providência refreia a arrogância humana.
  64. Deus frequentemente retira Suas bênçãos de nós, assim como privou Jó de suas riquezas, mas é igualmente verdade que também removerá as adversidades que nos enviou, pois bênçãos e adversidades vêm de Deus e Ele, que mudou nossa situação para pior, pode inesperadamente alterá-la para melhor.
  65. Quem lança um ataque feroz e determinado contra os demônios é retaliado por eles com feridas mais profundas, até ser levado ao desespero e sentir em sua alma que recebeu uma sentença de morte espiritual.
  66. Os demônios decidem atacar com a espada da tentação os que escolheram a vida de quietude até o último momento da vida; quanto mais fervorosa for a devoção e o amor a Deus, mais selvagens são os assaltos, mas o crente não deve cessar de confiar em Deus até que os tentadores sejam afastados e ele seja renovado pela paciência e pela impassibilidade firme.
  67. Se um demônio tem força para levar um homem, mesmo contra sua vontade, de seu estado natural de bondade ao pecado, muito maior deve ser a força do anjo que, no momento designado e por ordem de Deus, restaura toda a sua condição — assim como o calor do vento sul pode derreter o que o frio extremo endureceu em pedra.
  68. O intelecto que parte do Egito — deixando para trás o peso das paixões e a escravidão vergonhosa — não mais ouve a linguagem dos demônios, impura e destruidora, mas a linguagem santa dos anjos luminosos, que converte o intelecto do não-espiritual ao espiritual e ilumina a alma que a acolhe.
  69. Para os irmãos enfermos que não conseguem praticar o jejum, a mensagem é que o mal e os demônios podem ser destruídos e banidos não apenas pela abstinência de alimentos, mas também clamando a Deus de todo o coração; se a fraqueza obriga a deixar a cidade do jejum, que se busque refúgio na cidade da oração e da ação de graças.
  70. Assim como Faraó pediu a Deus que afastasse a morte e foi atendido, e os demônios pediram ao Senhor para não serem lançados no abismo e foram ouvidos, muito mais será ouvido o cristão que ora para ser libertado da morte espiritual.
  71. Há momentos em que um homem é iluminado e refrescado pela graça de Deus e depois essa graça é retirada, fazendo-o sentir confusão e murmuração; em vez de buscar pela oração perseverante recuperar a certeza da salvação, ele perde a paciência e desiste — como um mendigo que recebe esmola do palácio e se ofende por não ter sido convidado a jantar com o rei.
  72. Bem-aventurados os que, quando a graça é retirada, não encontram em si mesmos nenhuma consolação, mas apenas tribulação contínua e trevas espessas, e ainda assim não desesperam, mas fortalecidos pela fé suportam corajosamente, convictos de que veem Aquele que é invisível.
  73. A humildade que, no tempo oportuno e pela graça de Deus, depois de muitas lutas e lágrimas, é concedida do céu aos que a buscam, é incomparavelmente mais forte e elevada do que o senso de abatimento daqueles que caíram da santidade, sendo concedida apenas aos que alcançaram a verdadeira perfeição.
  74. Assim como os anjos não estavam com o Senhor durante o tempo em que Era tentado, mas vieram a Ele depois da tentação e O serviram, do mesmo modo os anjos de Deus se retiram por um tempo durante as nossas tentações e depois vêm ministrar-nos com intelecções divinas, apoio, iluminação, compunção e alegria.
  75. Deve-se ter em mente o sumo sacerdote diante de quem o diabo estava à direita para se opor a todos os seus bons pensamentos, palavras e ações, para não se estranhar o que acontece consigo mesmo.
  76. O monge deve compreender o que significa ser fraco e estar em rebelião contra Deus, pois essa é justamente a doença de que o diabo e seus anjos estão acometidos.
  77. O fogo torna o ferro impossível de tocar, e do mesmo modo a oração frequente torna o intelecto mais poderoso em seu combate contra o inimigo; por isso os demônios esforçam-se com toda a força para tornar o crente preguiçoso na atenção à oração.
  78. Davi reconheceu os guerreiros que ficaram para trás por exaustão no combate e lhes deu parte igual nos despojos, porque quis combater; da mesma forma, ao irmão que mostra fervor no início mas depois afrouxa, deve-se agir com misericórdia, pois se ainda guarda a bagagem da fé, da penitência, da humildade e da esperança, merece a recompensa eterna.
  79. Chamam-se Levitas e sacerdotes os que se dedicam totalmente a Deus pela prática das virtudes e pela contemplação; aqueles que não têm força para caçar as paixões podem ser chamados de gado dos Levitas — pois têm sede genuína de santidade mas frequentemente falham — mas podem esperar que Deus, no momento certo, lhes conceda o dom da impassibilidade unicamente por amor.
  80. O crente percebe o tormento que o inimigo lhe inflige, mas não percebe o tormento que inflige ao inimigo quando pratica as virtudes, se arrepende, persevera nas dificuldades ou ora; Deus em Sua providência oculta isso do crente para impedi-lo de tornar-se preguiçoso, mas é certo que Deus pagará com aflição aos que nos afligem.
  81. Assim como o toco de uma árvore tombada e envelhecida na rocha pode brotar ao cheiro da água como uma planta jovem, também é possível que o crente seja despertado pelo poder do Espírito Santo e floresça com a incorruptibilidade que lhe é própria por natureza, dando fruto, ainda que tenha caído no pecado.
  82. Quando a alma se desanima diante do enorme enxame de seus pecados e tentações, Deus não desespera de sua salvação e declara que viverá; e onde o Espírito Santo está presente, não se deve mais esperar a sequência e as leis da natureza e do hábito, pois o Paráclito que desce em compaixão é superior a tudo e eleva o crente acima de todos os impulsos naturais e paixões demoníacas.
  83. Deve-se lutar para preservar sem mancha a luz que brilha no intelecto; se a paixão começa a dominar ao olhar as coisas, isso significa que o Senhor deixou o crente nas trevas, mas mesmo assim não se deve desesperar, e sim orar com as palavras de Davi pedindo que Sua luz e Sua verdade sejam enviadas.
  84. Bem-aventurado quem, com uma fome que nunca se sacia, faz da oração e dos salmos seu alimento e bebida dia e noite ao longo desta vida e se fortalece pela leitura da glória de Deus na Escritura, pois essa comunhão conduzirá a alma a uma alegria sempre crescente na era vindoura.
  85. O atleta forte não deve cair, mas se cair, deve levantar-se imediatamente e prosseguir no combate; mesmo que caia mil vezes pela retirada da graça de Deus, deve levantar-se cada vez até o dia da morte, pois o justo cai sete vezes e outras tantas se levanta, e quem abandona a vida monástica como covarde e desertor perderá a liberdade de comunhão com Deus.
  86. É mais grave perder a esperança do que pecar: Judas, derrotista e inexperiente na guerra espiritual, foi reduzido ao desespero e se enforcou, enquanto Pedro, rocha firme, apesar da queda terrível, não se quebrou no desespero e, levantando-se, derramou lágrimas amargas de coração contrito, diante das quais o inimigo recuou como se seus olhos fossem queimados por chamas.
  87. O monge deve travar uma guerra sem trégua sobretudo contra três coisas: a gula, a autoestima fútil e a avareza — que é uma forma de idolatria.
  88. Assim como um rei de Israel subjugou tribos bárbaras usando os salmos e a música de Davi, o crente também possui bárbaros morando em seu interior — os demônios que atormentam e inflamam sua carne — e deve destruí-los com grande fé, com salmos, hinos e cânticos espirituais.
  89. O Senhor quer que um homem seja salvo por meio de outro, e do mesmo modo Satanás procura destruir um homem por meio de outro; por isso não se deve passar o tempo com quem é descuidado, arteiro e sem controle da língua, para não ser contaminado e destruído como por lepra.
  90. Se se quer ser chamado sábio, inteligente e amigo de Deus, deve-se esforçar por apresentar ao Senhor a alma no mesmo estado em que a recebeu dEle: pura, inocente e completamente imaculada — e então se será coroado no céu e os anjos proclamarão a beatitude desse alguém.
  91. Uma única palavra boa tornou o ladrão puro e santo e o introduziu no paraíso, apesar de todos os seus crimes anteriores, enquanto uma única palavra imprudente impediu Moisés de entrar na terra prometida; portanto, a garrulice não é uma doença menor, pois os amantes da fofoca e da difamação se excluem do reino dos céus.
  92. Para não ser enganado e arrastado pelas coisas vãs que os sentidos apresentam, deve-se entrar no quarto interior — o santuário do coração, fechado a toda concepção derivada do mundo sensível — e fechar a porta a tudo que é visível, escondendo-se por um breve momento até que a ira do Senhor e a iniquidade passem, mantendo a atenção continuamente dentro do coração durante a oração.
  93. Quem realmente deseja renunciar ao mundo deve imitar o profeta Elias, que em seu amor ardente por Deus nada reservou para si, distribuindo todos os seus bens aos necessitados, abraçando a Cruz de Cristo e apressando-se disposto a morrer para este mundo, a fim de receber em troca o reino eterno.
  94. Reconhecendo que o Amoreu interior é forte como um carvalho, deve-se orar fervorosamente ao Senhor para que seque seus frutos de cima — as ações pecaminosas — e suas raízes de baixo — os pensamentos impuros — destruindo o Amoreu diante do crente.
  95. Não se deve estranhar quando os que são incapazes de alcançar a quietude ridicularizam a quietude alcançada; deve-se resistir-lhes intensificando a obediência a Deus e rezando também pela cura deles.
  96. Quando não sopra vento no mar, não há ondas; do mesmo modo, quando nenhum demônio habita no interior do crente, sua alma e seu corpo não são perturbados pelas paixões.
  97. Se se sente sempre o calor da oração e da graça divina, pode-se aplicar a si mesmo as palavras da Escritura: revestiu-se da armadura da luz e suas vestes estão quentes, enquanto os inimigos estão cobertos de vergonha e de trevas infernais.
  98. Ao recordar os próprios pecados, não se deve hesitar em bater no próprio peito, pois com esses golpes se escava o coração endurecido e se descobre nele a mina de ouro do publicano, riqueza oculta que traz grande alegria.
  99. Que o fogo da oração, subindo enquanto se medita nos oráculos do Espírito, arda sempre sobre o altar da alma.
  100. Se a cada momento se busca ter os pés calçados com o evangelho da paz, sempre se estará edificando a casa do próximo além da própria; se há indolência, os demônios cospem invisivelmente no rosto do crente e ele será conhecido como o homem que teve sua sandália arrancada.
  101. Se Deus é amor, quem habita no amor habita em Deus e Deus nele; quem odeia o próximo, por esse ódio, separa-se do amor e, portanto, separa-se de Deus — a Quem seja glória e poder por todos os séculos.
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