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Centúria
João de Karpathos (resumo)
- A oferta de uma centena de textos espirituais ao destinatário — cidadão do céu — é feita à semelhança do vassalo que leva flores simples ao rei terreno e recebe em troca dons inesperados, na esperança de obter como retribuição o dom das orações.
- O reinado eterno de Deus, sem princípio nem fim, supera infinitamente qualquer honra terrena, pois as recompensas que Ele concede aos que O servem com santidade são incorruptíveis e perduram para sempre, ao contrário das glórias mundanas que se extinguem com a morte.
- Assim como a sarça ardeu sem ser consumida, os que receberam o dom da impassibilidade não são perturbados nem prejudicados pelo calor do corpo, pois a voz do Senhor retém as chamas da natureza e Sua vontade separa o que por natureza está unido.
- A lua que cresce e mingua ilustra a condição humana — o pecado não destrói o intelecto, assim como o tamanho físico da lua não diminui, apenas sua luz — e pela penitência o homem recupera seu esplendor original, crendo que quem acredita em Cristo, mesmo morrendo, viverá.
- Ceder perante o enxame de pensamentos malignos significa ser temporariamente abandonado pela graça de Deus por sentença justa; ao superar as provocações impuras, porém, o crente deve reconhecer que foi a graça divina — e não sua própria força — que o libertou do demônio, do homem velho e das potências predatórias.
- A visita do Logos divino, sobretudo quando acompanhada de lágrimas, dissolve e mata as paixões, mesmo as mais inveteradas, reduzindo gradualmente a nada os impulsos destrutivos da alma e do corpo, desde que o crente persevere na oração e na esperança incessante.
- Cristo aceita o louvor da boca dos fiéis simples de coração porque por meio desse louvor destrói o inimigo e vingador — o diabo, adversário da santidade — conforme a plenitude da glória divina que esmaga o adversário.
- Quem é figurativamente um aborto deformado pelo pecado tem metade de sua carne devorada nesta vida e metade na vida futura, pois cada um experimentará inevitavelmente as consequências de seus próprios atos.
- O monge deve praticar a virtude do jejum, evitar o enredamento pelas paixões e cultivar em todo tempo a intensa quietude interior.
- Os demônios, no ódio às almas, incitam outros a proferir elogios vazios, induzindo ao relaxamento pela vaidade; se o crente cede à presunção e à autoestima, os inimigos o aprisionam sem dificuldade.
- Deve-se aceitar a crítica desdenhosa de preferência às palavras de elogio, pois o adulador não difere em nada de quem amaldiçoa.
- Quem não consegue guardar as regras do jejum por enfermidade deve dar graças com contrição ao Senhor que cuida e julga a todos, pois a humildade constante diante de Deus impede que se caia em arrogância perante o próximo.
- O inimigo, sabendo que a oração é arma invencível, tenta afastar o crente dela preenchendo-o com o desejo do saber secular; resistir a essa sugestão é necessário para não colher espinhos e abrolhos em vez de figos e uvas, pois a sabedoria do mundo é loucura aos olhos de Deus.
- A boa nova de grande alegria foi proclamada a todo o povo, e toda a terra deve adorar e cantar a Deus — não uma parte — de modo que a vida presente deve ser percorrida com alegria temperada pelo temor de Deus e pela consciência de que, no momento da partida dos grandes santos, o amor de Deus prevalece e expulsa o temor.
- As Escrituras testemunham que o homem ainda dominado pelas paixões, se acreditar com humildade e de todo o coração, receberá o dom da impassibilidade, conforme o ladrão que foi prometido ao paraíso e a mulher a quem foi dito que sua fé a salvou.
- Ao opor-se ferozmente às paixões, o crente é mais intensamente perturbado pelos demônios com pensamentos torpes; nesse momento, deve reafirmar a fé no Senhor e firmar a esperança nos bens eternos prometidos, pois a própria intensidade da inveja demoníaca revela a grandeza desses bens.
- A prática das virtudes constitui para alguns a forma mais verdadeira do conhecimento espiritual, de modo que fé e conhecimento devem manifestar-se pelas obras, sob pena de negar a Deus pelos próprios atos.
- É sobretudo nas Grandes Festas e durante a Divina Liturgia que os demônios tentam manchar o asceta com fantasias impuras, mas não conseguem vencer a resistência de quem está habituado a enfrentar tudo com firmeza e coragem.
- Os demônios tentam minar a resolução interior por meio de inúmeras tribulações, das quais se tece uma coroa, pois o poder de Cristo se aperfeiçoa na fraqueza e a graça do Espírito floresce justamente quando a situação é mais sombria.
- Nada apaga a virtude tão facilmente quanto a conversa frívola e a zombaria; e nada renova a alma decadente e a aproxima do Senhor tanto quanto o temor de Deus, a atenção, a meditação das Escrituras, a oração e o progresso espiritual pelas vigílias.
- É necessário e salutar para a alma suportar com fortaleza toda tribulação — seja dos homens, seja dos demônios — reconhecendo que os sofrimentos são merecidos e sem culpar ninguém, pois quem atribui suas tribulações a outrem perdeu a capacidade de julgar corretamente o que lhe é vantajoso.
- Há momentos em que provações multiplicadas fazem o homem diligente desviar do caminho certo para que não confie em si mesmo; mas após a retirada do maligno, por ordem de Deus, é possível esperar ser restaurado ao bom estado anterior.
- À medida que o homem cresce interiormente e aumenta em santidade, torna-se algo grande e maravilhoso, mas ainda assim teme o pecado como o elefante teme o camundongo, para não se tornar reprovado após ter pregado aos outros.
- Não é somente nos tempos próximos ao fim do mundo que o diabo pronuncia blasfêmias contra o Altíssimo; ele o faz agora mesmo por meio dos pensamentos, mas o crente, escalando o rochedo do conhecimento espiritual, deve crescer em fervor de fé e oração para resistir ao inimigo.
- Quando a alma deixa o corpo, o inimigo a ataca ferozmente acusando-a de seus pecados, mas a alma que ama a Deus e tem fé nEle não se atemoriza, pois fortalecida pelo Senhor, guiada pelos anjos santos e protegida pela luz da fé, responde ao diabo com grande ousadia e ele foge diante do nome de Cristo.
- Assim como o peixe rêmora pode deter um grande navio ao prender-se à quilha, por permissão de Deus um pequeno tentação pode travar o avanço do caminhante espiritual; ainda assim, não se deve perturbar, mas resistir com perseverança paciente para receber a graça divina.
- Quando alguém avançado na vida espiritual desvia-se por indolência, é atacado por todos os exércitos do mal — as forças da impureza e seus incontáveis pensamentos apaixonados — e levado à desolação e ao desânimo extremo; mas, pela fé profunda e humildade, como Gideão, recebe auxílio do céu e vence, porque a graça de Deus combate ao seu lado.
- Não é possível pisar sobre a áspide e a cobra sem que Deus, em resposta à oração constante, envie anjos para proteger o crente, sustentando-o com suas mãos e elevando-o acima da lama da impureza.
- Quem é vencido após resistir firmemente não deve desesperar, mas animar-se com a certeza de que os demônios serão novamente derrotados, pois Deus ergue todos os que foram derrubados e causa consternação nos inimigos assim que o crente se arrepende.
- Durante as provações e tentações é inevitável sentir abatimento, mas aqueles que lavram a terra do sofrimento e da tribulação no coração são depois preenchidos de grande alegria, lágrimas de consolação e pensamentos santos.
- Isaac quis abençoar Esaú e Esaú quis receber a bênção paterna, mas ambos falharam, pois Deus abençoa e unge com o Espírito não necessariamente quem preferimos, mas aqueles que Ele destinou ao Seu serviço antes da criação, de modo que não se deve invejar o progresso de irmãos aparentemente insignificantes.
- Nunca se deve ceder quando alguém sob obediência pede tempo para deliberar antes de praticar uma boa ação, pois quem assim fala está claramente cedendo à própria vontade e repudiando sua promessa de obediência.
- Por maiores que sejam, as paixões do corpo e da alma são destruídas com o passar do tempo e por ordem de Deus, enquanto a misericórdia de Cristo jamais falha, permanecendo de geração em geração sobre os que O temem, desde a vida presente até a futura.
- Assim como o tesouro real está cheio de ouro, o intelecto do verdadeiro monge está preenchido de conhecimento espiritual.
- Há ocasiões em que um mestre cai em desgraça e passa por provações para o proveito espiritual dos outros, tornando-se desprezado e fraco para que os demais se fortaleçam em Cristo.
- Os pensamentos apaixonados são a fonte e o fundamento da corrupção que chega pela carne, mas retornando à vigilância pelo arrependimento o crente expulsa tais pensamentos da alma, pois o luto pelo pecado repele o espírito de corrupção.
- Para quem se sente oprimido por um senso de indignidade e incapacidade de alcançar a santidade, a mensagem é que, se alcançar a impassibilidade, verá a Jesus não apenas no futuro, mas vindo a ele já nesta vida com poder e grande glória — pois como Sara, a alma envelhecida pode ainda gerar um filho santo.
- O Senhor às vezes retira um dom de graça e concede outro em seu lugar, mas o crente, voltado apenas para o que foi tirado e não percebendo o que foi dado, sente-se abatido, e ainda assim Deus se alegra com esse abatimento, pois Seu propósito não é destruir, mas salvar.
- A proibição de comer algo acende imediatamente o desejo irresistível por aquilo que é vedado, ilustrando como a queda de Adão tipifica o que acontece a todos: por ter sido proibido de comer de uma árvore específica, ele se sentiu irresistivelmente atraído justamente por ela.
- Deus salva um homem pelo conhecimento espiritual e outro pela candura e simplicidade, pois não rejeita o simples.
- Quem se dedica com intensidade especial à oração é assaltado por tentações terríveis e selvagens.
- Quem se propõe a revestir-se de impassibilidade deve esforçar-se com toda a sua força para alcançá-la, pois a morte é engolida pela vitória e todos os perseguidores que nos assediam serão tragados pelas ondas quando o poder desça do céu sobre nós.
- Não se deve esquecer os avisos de Paulo sobre a possibilidade de tornar-se reprovado após pregar, de cair mesmo quando se pensa estar firme, e o exemplo de Salomão que desviou para a maldade e de Pedro que negou o Senhor; pois esquecer isso conduz ao orgulho, à jactância e à complacência.
- Seguindo o Senhor com amor ardente, o crente pode tropeçar em alguma paixão e cair inesperadamente em pecado, mas deve levantar-se com o mesmo ardor de antes e continuar a seguir o Senhor, pois é uma grande coisa ser chamado cristão, como o próprio Senhor declara por Isaías.
- Da oração a Deus com fé firme, o crente recebe não apenas o perdão dos pecados, mas também dons celestiais de graça, pois o Senhor prometeu esses bens não aos justos, mas aos pecadores, de modo que deve-se pedir incessantemente e sem duvidar.
- Para levar alguém de pouca fé a sacudir a doença da incredulidade e do desespero, basta contemplar como a formiga cria asas e a lagarta se transforma em borboleta, pois Deus é aquele que faz florescer a árvore seca e dá vida aos ossos secos.
- Não se deve exaurir com ansiedades pelas necessidades corporais, mas confiar a Deus toda a alma, pois assim como a aranha — mais fraca e impotente do que qualquer criatura — recebe de Deus alimento diariamente sem sair de seu lugar, assim também o Senhor estende Sua providência até os mais humildes.
- Quem está escravizado à gula deve pensar nas enormes baleias do Atlântico, que Deus alimenta fartamente todos os dias, pois é Deus quem provê o alimento tanto para quem come muito quanto para quem come pouco, de modo que o apetite não deve ser motivo de ansiedade mundana.
- Para verdadeiramente agradar a Deus e desfrutar da graça de Sua amizade, o intelecto deve apresentar-se despido diante dEle, sem o peso de qualquer habilidade, noção, argumento ou pretexto mundano, pois Deus Se afasta dos que se aproximam com presunção e autoestima.
- Para superar a pecaminosidade firmemente estabelecida no interior, é preciso usar a força; quem perseverar na oração incessante e nas demais virtudes receberá uma força poderosa que desce do alto, incomparavelmente mais forte do que qualquer esforço humano, destruindo as piores inclinações da alma e os impulsos desordenados do corpo.
- O inimigo arma ciladas ocultas na forma de pensamentos impuros e blasfemos, mas o crente vigilante pode armar contra ele armadilhas ainda mais eficazes: a oração, a salmodia, as vigílias, a humildade, o serviço ao próximo, os atos de compaixão, a gratidão e a escuta atenta das Escrituras.
- Davi, já em idade avançada, declarou que encontrou seu coração depois de muito esforço e tempo de oração, ensinando assim que é necessário grande luta para alcançar o estado em que a mente não é mais perturbada e se atinge o céu interior do coração onde Jesus habita.
- Cristo é a sabedoria, a justiça, a santificação e a redenção do crente, e por isso é também o seu descanso, pois somente nEle a raça humana encontrará o verdadeiro repouso, conforme o próprio Senhor declara.
- Assim como existe um cálice de calamidade e um cálice de ira, existe também um cálice de fraqueza que, no momento oportuno, o Senhor toma das mãos do crente e coloca nas mãos de seus inimigos, de modo que não mais o crente, mas os próprios demônios, se tornam fracos e caem.
- Assim como externamente os homens exercem diferentes ofícios, internamente há diferentes tipos de pensamentos — jogadores, envenenadores, piratas, caçadores, devassos, assassinos — e o homem de Deus deve rebatê-los na oração e fechar imediatamente a porta contra eles.
- O Senhor pode ser alcançado e levado a conceder a salvação não apenas pela palavra — como no caso do ladrão na cruz — mas também pelo pensamento, como a mulher do fluxo de sangue que apenas pensou em tocar a orla do manto de Cristo e foi curada.
- O próprio pecado, uma vez que tomamos consciência de seu peso, fedor imundo e loucura, nos impele em direção a Deus pelo arrependimento; se recusarmos o arrependimento, porém, o pecado nos retém com laços que não podemos romper.
- Deve-se guardar-se da feitiçaria de Jezabel — cujos feitiços mais poderosos são os pensamentos de ilusão e vanaglória — considerando-se desprezível e indigno, lançando-se diante do Senhor e reconhecendo que todo dom de graça vem do céu.
- O impulso de autoestima que surge durante uma refeição e incita a falar no momento errado deve ser destruído pelo silêncio; se não for resistido, o crente terá de pagar o preço — seja por uma tentação grave, seja por dor corporal, seja por conflito com os irmãos ou tormento na vida futura — pois é preciso guardar a língua com vigilância.
- Aqueles que são tentados por pensamentos de prazer, ira e amor à glória são queimados pelo sol de dia e pela lua à noite, de acordo com o Salmo; deve-se orar para ser abrigado pela nuvem fresca e refrescante da graça de Deus.
- Nunca se deve cultivar amizade íntima com quem aprecia banquetes ruidosos e conversas obscenas, mesmo que seja monge há muitos anos, para não ser contaminado por sua impureza.
- Pedro recebeu primeiro as chaves do reino, mas foi depois deixado cair no pecado de negar Cristo para que sua soberba fosse humilhada; assim, não se deve estranhar cair em maus pensamentos após receber as chaves do conhecimento espiritual, pois as provações são as rédeas com que Deus em Sua providência refreia a arrogância humana.
- Deus frequentemente retira Suas bênçãos de nós, assim como privou Jó de suas riquezas, mas é igualmente verdade que também removerá as adversidades que nos enviou, pois bênçãos e adversidades vêm de Deus e Ele, que mudou nossa situação para pior, pode inesperadamente alterá-la para melhor.
- Quem lança um ataque feroz e determinado contra os demônios é retaliado por eles com feridas mais profundas, até ser levado ao desespero e sentir em sua alma que recebeu uma sentença de morte espiritual.
- Os demônios decidem atacar com a espada da tentação os que escolheram a vida de quietude até o último momento da vida; quanto mais fervorosa for a devoção e o amor a Deus, mais selvagens são os assaltos, mas o crente não deve cessar de confiar em Deus até que os tentadores sejam afastados e ele seja renovado pela paciência e pela impassibilidade firme.
- Se um demônio tem força para levar um homem, mesmo contra sua vontade, de seu estado natural de bondade ao pecado, muito maior deve ser a força do anjo que, no momento designado e por ordem de Deus, restaura toda a sua condição — assim como o calor do vento sul pode derreter o que o frio extremo endureceu em pedra.
- O intelecto que parte do Egito — deixando para trás o peso das paixões e a escravidão vergonhosa — não mais ouve a linguagem dos demônios, impura e destruidora, mas a linguagem santa dos anjos luminosos, que converte o intelecto do não-espiritual ao espiritual e ilumina a alma que a acolhe.
- Para os irmãos enfermos que não conseguem praticar o jejum, a mensagem é que o mal e os demônios podem ser destruídos e banidos não apenas pela abstinência de alimentos, mas também clamando a Deus de todo o coração; se a fraqueza obriga a deixar a cidade do jejum, que se busque refúgio na cidade da oração e da ação de graças.
- Assim como Faraó pediu a Deus que afastasse a morte e foi atendido, e os demônios pediram ao Senhor para não serem lançados no abismo e foram ouvidos, muito mais será ouvido o cristão que ora para ser libertado da morte espiritual.
- Há momentos em que um homem é iluminado e refrescado pela graça de Deus e depois essa graça é retirada, fazendo-o sentir confusão e murmuração; em vez de buscar pela oração perseverante recuperar a certeza da salvação, ele perde a paciência e desiste — como um mendigo que recebe esmola do palácio e se ofende por não ter sido convidado a jantar com o rei.
- Bem-aventurados os que, quando a graça é retirada, não encontram em si mesmos nenhuma consolação, mas apenas tribulação contínua e trevas espessas, e ainda assim não desesperam, mas fortalecidos pela fé suportam corajosamente, convictos de que veem Aquele que é invisível.
- A humildade que, no tempo oportuno e pela graça de Deus, depois de muitas lutas e lágrimas, é concedida do céu aos que a buscam, é incomparavelmente mais forte e elevada do que o senso de abatimento daqueles que caíram da santidade, sendo concedida apenas aos que alcançaram a verdadeira perfeição.
- Assim como os anjos não estavam com o Senhor durante o tempo em que Era tentado, mas vieram a Ele depois da tentação e O serviram, do mesmo modo os anjos de Deus se retiram por um tempo durante as nossas tentações e depois vêm ministrar-nos com intelecções divinas, apoio, iluminação, compunção e alegria.
- Deve-se ter em mente o sumo sacerdote diante de quem o diabo estava à direita para se opor a todos os seus bons pensamentos, palavras e ações, para não se estranhar o que acontece consigo mesmo.
- O fogo torna o ferro impossível de tocar, e do mesmo modo a oração frequente torna o intelecto mais poderoso em seu combate contra o inimigo; por isso os demônios esforçam-se com toda a força para tornar o crente preguiçoso na atenção à oração.
- Davi reconheceu os guerreiros que ficaram para trás por exaustão no combate e lhes deu parte igual nos despojos, porque quis combater; da mesma forma, ao irmão que mostra fervor no início mas depois afrouxa, deve-se agir com misericórdia, pois se ainda guarda a bagagem da fé, da penitência, da humildade e da esperança, merece a recompensa eterna.
- Chamam-se Levitas e sacerdotes os que se dedicam totalmente a Deus pela prática das virtudes e pela contemplação; aqueles que não têm força para caçar as paixões podem ser chamados de gado dos Levitas — pois têm sede genuína de santidade mas frequentemente falham — mas podem esperar que Deus, no momento certo, lhes conceda o dom da impassibilidade unicamente por amor.
- O crente percebe o tormento que o inimigo lhe inflige, mas não percebe o tormento que inflige ao inimigo quando pratica as virtudes, se arrepende, persevera nas dificuldades ou ora; Deus em Sua providência oculta isso do crente para impedi-lo de tornar-se preguiçoso, mas é certo que Deus pagará com aflição aos que nos afligem.
- Assim como o toco de uma árvore tombada e envelhecida na rocha pode brotar ao cheiro da água como uma planta jovem, também é possível que o crente seja despertado pelo poder do Espírito Santo e floresça com a incorruptibilidade que lhe é própria por natureza, dando fruto, ainda que tenha caído no pecado.
- Quando a alma se desanima diante do enorme enxame de seus pecados e tentações, Deus não desespera de sua salvação e declara que viverá; e onde o Espírito Santo está presente, não se deve mais esperar a sequência e as leis da natureza e do hábito, pois o Paráclito que desce em compaixão é superior a tudo e eleva o crente acima de todos os impulsos naturais e paixões demoníacas.
- Deve-se lutar para preservar sem mancha a luz que brilha no intelecto; se a paixão começa a dominar ao olhar as coisas, isso significa que o Senhor deixou o crente nas trevas, mas mesmo assim não se deve desesperar, e sim orar com as palavras de Davi pedindo que Sua luz e Sua verdade sejam enviadas.
- Bem-aventurado quem, com uma fome que nunca se sacia, faz da oração e dos salmos seu alimento e bebida dia e noite ao longo desta vida e se fortalece pela leitura da glória de Deus na Escritura, pois essa comunhão conduzirá a alma a uma alegria sempre crescente na era vindoura.
- O atleta forte não deve cair, mas se cair, deve levantar-se imediatamente e prosseguir no combate; mesmo que caia mil vezes pela retirada da graça de Deus, deve levantar-se cada vez até o dia da morte, pois o justo cai sete vezes e outras tantas se levanta, e quem abandona a vida monástica como covarde e desertor perderá a liberdade de comunhão com Deus.
- É mais grave perder a esperança do que pecar: Judas, derrotista e inexperiente na guerra espiritual, foi reduzido ao desespero e se enforcou, enquanto Pedro, rocha firme, apesar da queda terrível, não se quebrou no desespero e, levantando-se, derramou lágrimas amargas de coração contrito, diante das quais o inimigo recuou como se seus olhos fossem queimados por chamas.
- O monge deve travar uma guerra sem trégua sobretudo contra três coisas: a gula, a autoestima fútil e a avareza — que é uma forma de idolatria.
- O Senhor quer que um homem seja salvo por meio de outro, e do mesmo modo Satanás procura destruir um homem por meio de outro; por isso não se deve passar o tempo com quem é descuidado, arteiro e sem controle da língua, para não ser contaminado e destruído como por lepra.
- Se se quer ser chamado sábio, inteligente e amigo de Deus, deve-se esforçar por apresentar ao Senhor a alma no mesmo estado em que a recebeu dEle: pura, inocente e completamente imaculada — e então se será coroado no céu e os anjos proclamarão a beatitude desse alguém.
- Uma única palavra boa tornou o ladrão puro e santo e o introduziu no paraíso, apesar de todos os seus crimes anteriores, enquanto uma única palavra imprudente impediu Moisés de entrar na terra prometida; portanto, a garrulice não é uma doença menor, pois os amantes da fofoca e da difamação se excluem do reino dos céus.
- Para não ser enganado e arrastado pelas coisas vãs que os sentidos apresentam, deve-se entrar no quarto interior — o santuário do coração, fechado a toda concepção derivada do mundo sensível — e fechar a porta a tudo que é visível, escondendo-se por um breve momento até que a ira do Senhor e a iniquidade passem, mantendo a atenção continuamente dentro do coração durante a oração.
- Quem realmente deseja renunciar ao mundo deve imitar o profeta Elias, que em seu amor ardente por Deus nada reservou para si, distribuindo todos os seus bens aos necessitados, abraçando a Cruz de Cristo e apressando-se disposto a morrer para este mundo, a fim de receber em troca o reino eterno.
- Reconhecendo que o Amoreu interior é forte como um carvalho, deve-se orar fervorosamente ao Senhor para que seque seus frutos de cima — as ações pecaminosas — e suas raízes de baixo — os pensamentos impuros — destruindo o Amoreu diante do crente.
- Não se deve estranhar quando os que são incapazes de alcançar a quietude ridicularizam a quietude alcançada; deve-se resistir-lhes intensificando a obediência a Deus e rezando também pela cura deles.
- Quando não sopra vento no mar, não há ondas; do mesmo modo, quando nenhum demônio habita no interior do crente, sua alma e seu corpo não são perturbados pelas paixões.
- Se se sente sempre o calor da oração e da graça divina, pode-se aplicar a si mesmo as palavras da Escritura: revestiu-se da armadura da luz e suas vestes estão quentes, enquanto os inimigos estão cobertos de vergonha e de trevas infernais.
- Ao recordar os próprios pecados, não se deve hesitar em bater no próprio peito, pois com esses golpes se escava o coração endurecido e se descobre nele a mina de ouro do publicano, riqueza oculta que traz grande alegria.
- Que o fogo da oração, subindo enquanto se medita nos oráculos do Espírito, arda sempre sobre o altar da alma.
- Se a cada momento se busca ter os pés calçados com o evangelho da paz, sempre se estará edificando a casa do próximo além da própria; se há indolência, os demônios cospem invisivelmente no rosto do crente e ele será conhecido como o homem que teve sua sandália arrancada.
- Se Deus é amor, quem habita no amor habita em Deus e Deus nele; quem odeia o próximo, por esse ódio, separa-se do amor e, portanto, separa-se de Deus — a Quem seja glória e poder por todos os séculos.
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