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ISIDORO DE SEVILHA

  1. As Etimologias são a principal obra de Isidoro de Sevilha, sendo uma vasta enciclopédia que reúne todo o saber antigo, explicando os termos que designam os seres e as instituições por meio de mecanismos etimológicos, que buscam na forma e na história das palavras a chave para a compreensão dos objetos.

Composição

  1. Acredita-se que Isidoro começou a compor sua enciclopédia por volta de 615, movido por sua preocupação pastoral e pela convicção de que a língua manifesta o mundo, sendo fundamental para a compreensão e transmissão da mensagem de salvação.
  2. A carta de dedicatória da obra, endereçada ao rei Sisebuto, indica que uma versão inicial, provavelmente mais curta, estava concluída antes de 621, ano da morte do monarca.
  3. A correspondência com Braulio, bispo de Zaragoza, revela que este pediu os livros das Etimologias, que já circulavam de forma incompleta e com defeitos. Isidoro, após anos de insistência, enviou-lhe um exemplar, ainda sem a correção final, justificando-se por seu mau estado de saúde.
  4. Braulio, em sua “Renotatio”, afirma que a obra ficou inconclusa com a morte de Isidoro, que a deixou sem divisão em livros, tendo ele próprio procedido a essa divisão. A insistência de Braulio parece decorrer do fato de a obra, composta a seu pedido, ter sido enviada ao rei antes que ele próprio pudesse obter uma cópia.
  5. O final da obra é marcado por problemas, pois, apesar do envio a Braulio, a tradição afirma que ficou inacabada. A divisão em vinte livros, atribuída a Braulio, pode ter sido uma forma de alinhar a obra a modelos de Aulo Gélio e Nônio Marcelo, visando sua valorização.

Título e data da obra

  1. O título original da obra é incerto, sendo conhecida como “Origines” e “Etymologiae”. Embora “Origines” possa ter sido o primeiro título, os manuscritos antigos e os catálogos medievais utilizam quase exclusivamente “Etymologiae”, sugerindo que este título se adequa melhor ao estado final da obra.
  2. Quanto à data, é inevitável admitir que a composição começou cedo, estendendo-se por doze ou quinze anos, com uma primeira versão dedicada a Sisebuto e um longo período de revisões até o envio a Braulio.

Conteúdo e distribuição

  1. O conteúdo atual das Etimologias está distribuído em vinte livros, que abrangem desde gramática e retórica até medicina, direito, teologia, geografia, agricultura, guerra e outros temas, conforme um esquema apresentado detalhadamente.
  2. A análise da tradição manuscrita revela que a divisão original não era em vinte livros. Uma reconstrução proposta sugere que a primeira parte da obra se dividia em três livros, abrangendo as ciências profanas, a lei humana e divina, e os nomes de pessoas, o que conferiria à obra uma estrutura mais sólida que a divisão atual, embora não se saiba se essa estrutura remonta ao próprio Isidoro.
  3. Existem também indícios de que certos livros, como o VII e o XIX, apresentam elementos que sugerem uma elaboração independente anterior, com prefácios que os introduzem como compêndios de outras obras, e o livro XIII é introduzido de forma a sugerir uma edição anterior isolada.

A chamada edição brauliana

  1. A notícia dada por Braulio em sua “Renotatio”, de que ele dividiu a obra em livros, gerou um debate sobre a existência de uma verdadeira “edição brauliana”. No entanto, a divisão em vinte livros, atribuída a ele, não é um critério suficiente para identificar cópias dessa edição, pois não há manuscritos que apresentem a antiga divisão apenas por títulos.
  2. As variantes textuais que poderiam indicar a edição de Braulio, como o elogio a Zaragoza, podem ser interpretadas como modificações feitas pelo próprio Isidoro ou como uma cortesia pessoal para com Braulio.
  3. O papel de Braulio na ordenação final da obra parece ter sido menos significativo do que se supunha. Sua contribuição se restringe à divisão em livros e ao papel de incentivador, sem que sua mão seja claramente identificável nos manuscritos.

Métodos na obra

  1. As Etimologias são uma enciclopédia que visa facilitar uma visão científica integral com base no conhecimento linguístico do mundo clássico. Braulio definiu a obra como apropriada aos métodos do saber mais profundo, assegurando que seu leitor frequente não ignoraria nenhum conhecimento.
  2. A técnica de abreviação é central na obra, reduzindo o saber a fórmulas concentradas e memorizáveis, o que era um procedimento comum de vulgarização escolar. Isidoro aplica esse método por meio da leitura e seleção de passagens, agrupando materiais em uma espécie de fichário.
  3. Os métodos de tratamento das fontes incluem a “elaboração”, em que Isidoro atribui importância relativa aos elementos extraídos de suas fontes; a “autocombinação”, que consiste em contaminar um texto com a sua própria fonte anterior; e a “acumulação”, que é a justaposição de definições diversas de diferentes escolas.
  4. A apresentação final do texto é influenciada pela visão etimológica, onde o critério de ordenação da matéria é predominantemente didático-escolar, encadeando-se os temas por associação de palavras.
  5. Apesar da vastidão da obra, nota-se uma falta de última mão em alguns capítulos, além de classificações cientificamente discutíveis e a ausência de uma ordem interna clara que distinga o fundamental do secundário.
  6. A hipótese de que Isidoro contou com a ajuda de colaboradores, que teriam preparado parte dos materiais, surge para explicar os erros e falhas de compreensão presentes na obra, atribuíveis a uma revisão final que não foi realizada.

A “etimologia” isidoriana

  1. A etimologia isidoriana busca responder tanto à pergunta sobre a origem da palavra (“de onde vem”) quanto à sua razão de ser (“por quê”), visando apreender o valor essencial da palavra por meio de uma interpretação que conecta o nome à realidade.
  2. Isidoro reconhece elementos arbitrários nas denominações, mas acredita que a interpretação etimológica, inspirada no ato de Adão de nomear os seres, pode revelar o ser ou comportamento dos objetos. Essa interpretação pode ser popular, filosófica, gramatical, histórica ou teológica, envolvendo a definição do conceito, a análise do vocábulo e a explicação de suas vinculações reais com o objeto.

Fontes da obra

  1. As fontes utilizadas por Isidoro são variadas e, na maioria das vezes, indiretas, pois ele consulta autores cristãos como Jerônimo, Agostinho e Lactâncio, além de comentadores pagãos como Servio, e utiliza compêndios e resumos de obras como a “História Natural”, de Plínio.
  2. A importância da obra de Isidoro se destaca não apenas pela massa de informações que compila, mas também pela preservação de fragmentos de autores antigos que, de outra forma, se teriam perdido, pois, embora ele utilize fontes intermediárias, a sua obra foi fundamental para a transmissão desses fragmentos.
  3. A obra não é um mero mosaico de fontes, pois Isidoro as contamina, elabora e reduz para alcançar um objetivo maior: oferecer ao leitor uma fórmula que aprimore seus conhecimentos sobre o mundo antigo, sem uma preocupação direta com a contemporaneidade.

Difusão das “Etimologías”

  1. A difusão das Etimologias foi imensa, com mais de mil referências manuscritas entre os séculos VIII e XV. Existem duas grandes famílias de manuscritos: uma com texto mais curto, derivada da versão dedicada a Sisebuto, e outra com texto mais longo, a “recensão hispânica”, que inclui elementos de última hora.
  2. A influência da obra foi imediata e profunda, sendo citada e utilizada por autores como Braulio, Eugênio de Toledo, Julião de Toledo, e, mais tarde, por Elipando de Toledo e Beato de Liébana. Na Península Ibérica, seu uso continuou em ambientes moçárabes.
  3. Fora da Península, a obra alcançou grande sucesso na Gália a partir do século VII, sendo utilizada por Teodofredo de Corbie, e teve forte influência na literatura exegética insular entre os séculos VIII e IX. A difusão foi impulsionada por monges peregrinos e por compilações como o “Liber Glossarum” (ou Glossário de Ansileubo), que extraiu milhares de glosas da obra isidoriana.
  4. A difusão no continente se deu por várias rotas, tanto marítimas diretas entre a Península Ibérica e a Irlanda quanto terrestres através da Gália. A partir do século IX, a obra já se encontrava em todos os centros culturais da Europa, e a preocupação dos eruditos em obter textos mais completos levou a frequentes contaminações entre diferentes famílias de manuscritos.

Fragmentos e seleções das “Etimologias”

  1. A influência das Etimologias também se manifesta em fragmentos e seleções, que circularam como obras independentes, como uma “Ars grammatica” atribuída a Isidoro, o livro IV sobre medicina, e o livro VIII sobre os hereges, além de esquemas sobre graus de parentesco.
  2. Esses extratos reforçam a percepção do impacto duradouro da obra, demonstrando que ela foi utilizada em diversos contextos e para diferentes finalidades, como o estudo da gramática, da medicina e do direito.

Conclusão

  1. As Etimologias representam uma conversão de Isidoro à cultura profana, uma tentativa de integrar o mundo antigo e o mundo cristão como uma continuidade, em um esforço para oferecer à sociedade visigoda um suporte cultural firme, que unisse a herança hispano-romana ao povo godo.
  2. A obra buscou apresentar um método de acesso aos grandes princípios do saber, utilizando a etimologia para compreender a realidade e aproximar o leitor da época antiga, atualizando os dados para que o leitor se insira e mergulhe no mundo clássico, que se apresenta como a realização de um domínio do universo pela razão.
  3. A intenção de Isidoro não era apenas a de explicar termos obscuros, mas a de oferecer uma visão integradora do saber que serviria como base para a compreensão dos textos antigos, sem, contudo, expressar diretamente sua preocupação pastoral, que ficou subjacente como motivação inicial de sua atividade.
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