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CONCÓRDIA

Joaquim de Fiore

DOS “AFORISMOS DA CONCORDIA”

O decacordo

Entre as outras obras do Senhor que oferecem em símbolo o mistério da Trindade, ocupa lugar eminente o saltério de dez cordas. Trata-se de um único recipiente harmônico, o qual, embora não podendo ser dividido em pedaços, pois é um organismo, nem por isso é indiviso, enquanto é saltério e enquanto é saltério. Se se divide em parte, não cessa por isso de ser aquilo que era. É um único recipiente e, no entanto, consta maravilhosamente de três cornos. Antes, a mesma unidade indivisa possui tão inteiramente estes três cornos que os três em unidade e a unidade em três parecem identificar-se.

Não esqueçamos que uma coisa soa o uno e outra a unidade. Uno não pode dizer-se, absolutamente, senão de um indivíduo. Unidade, ao contrário, não pode predicar-se senão de dois ao menos. Pois, quando queremos e devemos deter-nos no uno, não quer isto dizer que se deva fazer referência a uma pessoa singular, mas sim a um povo, a uma reunião, a uma massa. Quando se diz, sem cláusula alguma, aqui ou ali há um só, naquele lugar há um só, entendo uma pessoa, sem hesitação. Quando, ao contrário, se diz: ali há unidade, de fato, entendemos somente um só coração e uma só alma em muitos: isto é, uma só vontade, um consenso solidário.

Só o Pai é genitor; só o Filho é gerado; só o Espírito Santo procede de ambos. Somente o Pai envia o Filho e o Espírito Santo, por ninguém Ele é enviado. E por isso a divindade eterna do Pai é comum também ao Filho e ao Espírito Santo. A encarnação do Filho, ao contrário, é própria do Filho. A adoção da pomba e do fogo é específica do Espírito Santo, embora seja única a operação das três Pessoas.

E, assim como sob o vocábulo do temor entendemos o Pai, sob o da sabedoria entendemos o Filho, assim sob o do amor entendemos o Espírito Santo. Na eficácia da ação, opera o temor do Senhor; no amor da leitura, a sabedoria impulsiona; na oração e na confissão, age o amor. Somos mantidos na obediência em virtude do temor, que é o Pai; na leitura, sob o estímulo da sabedoria, que é Cristo; no canto e na oração, em nome da caridade, que é o Espírito Santo.

E, pelo fato de Deus ser Trindade, era necessário que o reino deste mundo se dissolvesse em sua compaginação por meio de três grandes provas, a fim de que, ao final, fosse eternamente instaurado o Reino de Deus. Se Deus fosse uma só Pessoa, não teríamos devido ir em busca de três céus distintos de operação, pois se poderia resumir sua harmonia em um único epílogo.

A sabedoria e o amor

O Pai impôs o trabalho da lei porque é temor; o Filho impôs o trabalho da disciplina porque é sabedoria; o Espírito Santo traz a liberdade porque é amor. Onde está, de fato, o temor, há escravidão; onde está o magistério, há disciplina; onde há amor, ali há liberdade.

O ódio enraizado no coração do homem é pecado mortal diretamente dirigido contra o Espírito Santo. Se o Espírito Santo é amor, qual é, pois, o pecado antitético diretamente ao amor, senão o ódio?

A primeira origem da perdição universal foi um pecado de soberba. E o soberbo se levanta diretamente contra Cristo, que quis assumir semelhanças humildes e modestas. Aquele que, embora consciente da indigência de seu Soberano, corar de esmolar, não ofenderá o Cristo, posto na humilde manjedoura? E aquele que se envergonhar de cavalgar o humilde jumentinho, e for em busca de um fogoso destreiro, não fará ultraje a seu Rei, que mandou chamar humilde montaria?

O monge genuíno considera como sua propriedade uma só coisa: a cítara.

Oh, é bem necessário que ressurja agora uma semelhança da vida apostólica, quando não se procurava a posse de uma herança terrena, mas se evitava aquela já possuída.

Os caracteres da nova economia foram prefigurados nos profetas. Que Daniel, por exemplo, tenha simbolizado o Espírito Santo, como José, Josué e Samuel, sugere-o a própria prerrogativa da castidade, a qual, onde quer que apareça, costuma ser atribuída ao Espírito Santo, pois ela é o próprio amor de Deus e aquela fonte difusiva da realidade espiritual, que ninguém conhece, senão quem a tenha atingido.

O fim dos símbolos

A segunda economia teve sua clareza, segundo aquilo que diz o Apóstolo: nós vemos presentemente como através de um espelho, em enigmas (1Cor 13,12). Mas a clareza da terceira economia será quase integral e medida da plenitude da verdade, o que quer dizer olhar face a face, interposto somente o obstáculo de um véu sutilíssimo.

Assim como foi anulada a prática do cordeiro pascal na realização do corpo de Cristo, assim, na iluminação nupcial do Espírito Santo, cessará sem mais a observância das imagens e das figuras, de modo que os homens não devam proceder mais atrás de pálidos símbolos, mas atrás do fogo que é a verdade, em sua essência elementar. Pois diz o Senhor: “Deus é espírito, e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e em verdade” (Jo 4,24).

Mas a luz se fará através da manifestação sobrenatural. Porque Deus fecha e ninguém, fora dele, reabre; Ele, que esconde as palavras da vida aos prudentes e aos sábios do mundo, para revelá-las aos pequenos; Ele, que repudia toda vaidade da superstição filosófica. A ela seguem também aqueles escribas disseminados no âmbito da santa Igreja, os quais, inflados e inchados pela vaidade secular, pela ciência mundana, usurpando o magistério de dogmas perversos, constituem seu cérebro como ninho de aves de mau agouro. Eles se chamam Ário, Eunômio, Macedônio e seus seguidores.

O altar inflamado

E nossa tarefa é esta: construir com Elias (1Rs 18,31-38) um altar com os elementos da terra. A terra deve ser posta debaixo dele, para que a água possa fundir-se sobre ele. E depois esperar do céu o fogo que devore e consuma a terra e a água, esperar, isto é, aquela inteligência espiritual que anule e esvazie aquela superfície terrena da letra, que vem da terra e fala terrenamente, e em pouco tempo a transforme, fazendo-a brilhar, naquela doutrina evangélica que aqui é simbolizada pela água; precisamente como aquela água espessa, posta pelo sacerdote Neemias (2Mac 1,20-22) sobre o altar, foi transformada em fogo, ou como, no banquete da Galileia, a água foi transformada em vinho.

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