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Eloi Leclerc

LECLERC, Eloi. Le cantique des créatures ou le symbole de l'union. Paris: Fayard, 1970

  1. O ensaio propõe uma releitura do Cântico do Sol de Francisco de Assis que vai além da interpretação direta e material do poema como louvor ao Altíssimo pelos elementos da criação — o sol, a lua, as estrelas, o vento, a água, o fogo e a terra —, leitura que o aproxima dos salmos e cânticos bíblicos e o reduz ao reflexo do sistema cosmológico geocêntrico e dos quatro elementos fundamentais da época.
  2. Uma leitura mais profunda do poema se torna possível ao deslocar a atenção das coisas celebradas para a maneira original e singular segundo a qual elas são imaginadas, valorizadas e ordenadas — os elementos cósmicos aparecem em pares fraternais sem refletir nenhuma ordem objetiva, e certos qualificativos que recebem carecem de significação objetiva, apontando para valores íntimos e inconscientes provenientes do próprio sujeito.
  3. O Cântico do Sol expressa assim uma fraternização não apenas com os elementos materiais, mas com o que esses elementos devidamente valorizados simbolizam — valores inconscientes de que são portadores e que constituem uma espécie de linguagem —, o que conduz a uma leitura que busca decifrar, no interior do sentido cósmico, um sentido íntimo.
  4. Essa leitura interior é guiada tanto pela atenção mais rigorosa ao próprio texto quanto pelo exame das circunstâncias de composição do poema: o cântico acompanha como um refrão toda a vida de Francisco de Assis e emergiu em sua forma acabada ao cabo de um longo itinerário espiritual de quase vinte anos após a conversão, durante os quais Francisco meditava incessantemente sobre a paixão do Filho de Deus.
  5. O cântico nasceu num momento de extremo sofrimento físico e espiritual: estigmatizado no monte Alverne, cego e quase agonizante no mosteiro de São Damião junto a Clara e suas irmãs, Francisco lutava contra a tentação do desânimo quando ouviu interiormente uma voz que lhe prometia a certeza do Reino como compensação de seus sofrimentos e tribulações, produzindo nele uma alegria sobrenatural que o levou a compor e cantar o cântico ao amanhecer.
  6. Torna-se impossível compreender o cântico sem vinculá-lo diretamente a essa experiência profunda — o sofrimento agudo, a paciência heroica, a alegria sobrenatural, a existência íntima com o Cristo —, pois o chant jorra das profundezas de uma existência e é seu desfecho e sua expressão mais elevada, o que torna surpreendente que um homem cujos olhos enfermos não suportavam mais a luz celebre justamente a matéria ardente e radiante, o sol, o fogo, a terra mãe, em termos que evocam as antigas celebrações pagãs das hierofanias cósmicas, sem nenhuma referência ao mistério sobrenatural do Cristo e de seu Reino.
  7. Esse paradoxo seria desconcertante se as realidades cósmicas, pela riqueza afetiva e onírica de que são inconscientemente carregadas, não constituíssem elas mesmas uma linguagem da experiência íntima do sagrado — manifestar o sagrado sobre o cosmos e manifestá-lo na psique é a mesma coisa, segundo Paul Ricoeur, pois cosmos e psique são os dois polos da mesma expressividade, e é essa afirmação que serve de chave para a leitura interior do Cântico do Sol.
  8. Aplicada a cada elemento cósmico celebrado e à ordem e estrutura da celebração, essa chave hermenêutica fez o cântico iluminar-se por dentro: as coisas apareceram como o revestimento de um discurso mais profundo, e o louvor cósmico revelou-se como linguagem simbólica e inconsciente de um caminho interior, de uma exploração da alma em suas profundezas — mais precisamente, como uma poética da reconciliação do homem com sua arqueologia e de sua abertura a uma existência plena na luz do Ser.
  9. A leitura simbólica não implica interpretação alegorizante: a celebração franciscana das criaturas pode ser considerada significante de valores íntimos precisamente porque a comunhão de Francisco com as coisas é real e profunda, engajando a alma com todas as suas potências, e seu amor pelas criaturas é real, profundo e religioso — cada criatura é para ele, por seu ser mesmo, uma manifestação da potência, da beleza ou da bondade do Altíssimo que o lança por vezes no arrebatamento.
  10. A dimensão cósmica da experiência religiosa de Francisco é inseparável da outra dimensão de sua vida espiritual — a união a Deus pelos humildes caminhos da encarnação do Filho de Deus —, e a originalidade de Francisco consiste precisamente na síntese entre a mística evangélica mais interior e mais pessoal e a mística cósmica mais entusiasta, unindo o Sol e a Cruz numa das experiências espirituais mais profundas e fascinantes que o homem realizou sobre a terra, segundo o filósofo Max Scheler.
  11. Lido na plenitude de seu sentido como louvor cósmico e canto das profundezas íntimas ao mesmo tempo, o Cântico do Sol é a linguagem de uma experiência espiritual em que a alma, ao comungar fraternalmente e com grande humildade com todas as criaturas, se reconcilia com sua totalidade e com a totalidade do ser, aproximando-se assim do Altíssimo por uma via que passa simultaneamente pela abertura às criaturas e pela abertura às próprias profundezas.
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