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Dionísio o Areopagita — Hierarquia Eclesial

Caput 2. Sobre as Coisas Realizadas na Iluminação

I. Sobre as Coisas Realizadas na Iluminação

  • A finalidade da hierarquia é a assimilação e união com Deus, alcançável pelo amor e pela observância religiosa dos mandamentos veneráveis, cuja fonte está na regeneração divina como primeiro movimento da alma em direção a Deus.
    • As palavras citadas dos Oráculos divinos são: “Quem me ama guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele nossa morada”
    • O ilustre Líder — mencionado sem nome — ensinava que o primeiro movimento da mente em direção às coisas divinas é a receptividade voluntária a Deus Todo-Poderoso
    • O primeiro passo da recepção religiosa em direção ao cumprimento dos mandamentos divinos é a operação inefável do ser humano a partir de Deus
    • O ser a partir de Deus é o engendramento divino — sem ele, ninguém pode conhecer ou realizar qualquer instrução divina
    • Como advertência contra a aproximação indevida às coisas sagradas, são evocados Ozias, que estendeu a mão às coisas sagradas sem direito; Coré, que o fez a coisas sagradas acima de sua capacidade; e Nadab e Abiú, que trataram de modo ímpio as coisas dentro de sua própria esfera

II. Mistério da Iluminação

  • O Hierarca, desejando a salvação de todos mediante a assimilação a Deus, proclama a todos a boa nova de que Deus, por compaixão e bondade própria, se dignou vir ao encontro dos seres da terra com braços abertos, para assimilá-los a Si como o fogo unifica o que é fundido, conforme a aptidão de cada um para a deificação.
    • A citação dos Oráculos proclamada é: “A todos os que O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus — aos que creem em Seu nome, que foram gerados não de sangues, nem de vontade de carne, mas de Deus”
  • Aquele que sente ardor religioso por participar desses dons supramundanos procura um iniciado que o conduza ao Hierarca, prometendo seguir integralmente o ensinamento que lhe será dado e pedindo que o iniciado superintenda sua introdução e toda a sua vida posterior.
    • O iniciado, embora desejoso da salvação do candidato, é tomado de hesitação ao medir a fragilidade humana diante da grandeza do compromisso, mas ao fim concorda de bom grado e o conduz ao Hierarca supremo
  • O Hierarca recebe com alegria os dois homens como ovelhas sobre seus ombros e, antes de tudo, prosta-se em adoração e glorifica com ação de graças mental e corporal a única Fonte beneficente, da qual os que são chamados são chamados e os que são salvos são salvos.
  • Reunindo toda a assembleia religiosa no lugar sagrado para cooperação, alegria comum pela salvação do homem e ação de graças pela bondade divina, o Hierarca entoa um hino encontrado nos Oráculos acompanhado por toda a Igreja, beija a mesa sagrada e avança ao encontro do candidato, perguntando-lhe o que o trouxe até ali.
  • Quando o candidato confessa, por instrução de seu padrinho, sua impiedade, sua ignorância do verdadeiramente belo e sua insuficiência para a vida em Deus, pedindo pela mediação santa atingir a Deus e às coisas divinas, o Hierarca testifica que a aproximação deve ser integral e sem mácula, expõe o curso piedoso de vida, recebe a promessa do candidato, impõe-lhe a mão direita sobre a cabeça, sela-o e ordena aos sacerdotes que registrem o homem e seu padrinho.
  • Após inscrever os nomes, o Hierarca faz uma santa oração completada por toda a Igreja, manda desatar as sandálias e remover as vestes do candidato, depois o faz voltar-se para o oeste com as mãos estendidas nessa direção e ordena-lhe que sopre por três vezes seu desprezo a Satanás e profira as palavras da renúncia; em seguida, atestada a renúncia tríplice, volta-o para o leste, e após elevar os olhos e estender as mãos para o céu, ordena-lhe que se inscreva sob Cristo e todos os Oráculos divinamente transmitidos, atestando então por três vezes a profissão tríplice, rezando, agradecendo e impondo a mão.
  • Os Diáconos despem completamente o candidato, os Sacerdotes trazem o santo óleo da unção, o Hierarca inicia a unção com o tríplice selo e confia o homem aos Sacerdotes para a unção de todo o corpo; enquanto isso, o Hierarca avança até a pia batismal, purifica a água com santas invocações, perfaz três efusões em forma de cruz do puríssimo Mirão e igual número de infusões, invoca a sagrada melodia dos Profetas inspirados por Deus, manda conduzir o candidato, cujo nome e o de seu fiador são anunciados por um Sacerdote; conduzido pelos Sacerdotes até a mão do Hierarca junto à água, este o mergulha três vezes invocando a tríplice Subsistência da Bênção Divina; os Sacerdotes o recebem, entregam-no ao padrinho, e após vesti-lo com trajes adequados conduzem-no novamente ao Hierarca, que o sela com o Mirão de ação supremamente divina e o proclama desde então participante da santíssima Eucaristia.
    • O Mirão — Muron em transliteração do grego Myron — é o óleo consagrado usado na crisma e na consagração das águas batismais
  • Concluídos todos esses atos, o Hierarca eleva-se de sua progressão rumo às coisas secundárias à contemplação das coisas primeiras, persistindo sempre nas coisas que lhe são próprias e ordenando-se continuamente sob o estandarte do Espírito supremamente divino.

III. Contemplação

  • A iniciação do sagrado nascimento em Deus não contém nada de indecoroso ou irreverente, mas encerra enigmas de contemplação digna de Deus sob imagens físicas e humanas, e mesmo que o sentido divino das coisas realizadas fosse omitido, a instrução divina, ao perseguir a boa vida do candidato e exigir a purificação de todo mal mediante a vida virtuosa e a purificação física pela água, já não seria destituída de valor religioso.
    • O tratado Sobre o Inteligível e o Sensível é mencionado como lugar onde se demonstra que as coisas sagradas em formas sensíveis são cópias das coisas inteligíveis, para as quais conduzem e mostram o caminho
  • Para os não iniciados, esse ensinamento é uma orientação da alma que separa o sagrado e uniforme da multiplicidade; para os que ascenderam pelas gradações sagradas às fontes das ações realizadas, tais ações revelam-se como relevos de moldes invisíveis e semelhanças de realidades inteligíveis.
  • A bondade da Bênção Divina desdobra sem inveja os raios de sua luz a todas as visões intelectuais, e se o contemplador, por amor ao mal, fecha as faculdades de iluminação naturalmente implantadas em si, é a si mesmo que priva da luz sempre presente; e se ultrapassa temerariamente os limites do visível que lhe foi proporcionalmente concedido, é por sua própria falha que não atinge o que almeja.
    • À imitação dessa conduta divina, o Hierarca desdobra a todos, sem inveja, os raios luminosos de seu ensinamento inspirado, iluminando os prosélitos com luz condutora segundo a aptidão de cada um para as coisas sagradas, sem usar de raiva mesquinha ou ímpia pelas quedas anteriores
  • Aquele que recorre à visão própria de sua natureza verá a si mesmo tal como originalmente era e, reconhecendo sua condição imperfeita, não desejará de imediato a mais perfeita união com Deus, mas será conduzido ordenada e reverentemente pelas coisas presentes até as mais avançadas e, ao ser perfecionado, ao cume supremamente divino.
    • A modéstia do prosélito e sua prudência em ter o padrinho como guia ao Hierarca são uma ilustração desse decoro sagrado
    • A Bênção Divina recebe o homem assim conduzido em comunhão consigo e lhe imparte a luz própria como sinal, tornando-o partícipe da herança dos piedosos
    • O selo do Hierarca dado ao prosélito e a inscrição salvífica dos sacerdotes são símbolo sagrado que o registra entre os que estão sendo salvos, inscrevendo nos memoriais sagrados tanto o candidato quanto seu padrinho — o primeiro como verdadeiro amante do caminho que dá vida à verdade, o segundo como guia infalível de seu seguidor pelas direções divinamente ensinadas
  • Não é possível manter conjuntamente qualidades radicalmente opostas, nem ter uma vida dividida após alguma comunhão com o Uno; por isso o ensinamento dos símbolos, ao despir o prosélito de sua vida anterior, fazê-lo voltar-se para o oeste rejeitando com as mãos as participações na baixeza tenebrosa e soprar para fora o hábito de dissimilaridade adquirido, professa a renúncia total a tudo o que é contrário à semelhança divina.
    • Voltá-lo para o leste declara claramente que sua posição e recuperação se darão na Luz Divina pura, mediante a separação completa da baixeza
    • As coisas intelectuais adquirem a imutabilidade do hábito deiforme por meio de lutas contínuas e persistentes em direção ao Uno e pela destruição e aniquilação totais das coisas contrárias
    • Não basta afastar-se de toda baixeza — é preciso também ser corajosamente obstinado e sempre destemido contra a submissão nociva a ela, e nunca se tornar remisso no sagrado amor à verdade
  • O Hierarca inicia com a santa unção, e os Sacerdotes completam o serviço divino do Crisma, convocando em tipo o homem iniciado para os sagrados combates nos quais Cristo é o Árbitro — como Deus é o instituidor dos prêmios do combate, como Sábio estabeleceu suas leis, como Generoso fixou os prêmios adequados aos vencedores, e como Bom entrou devotadamente na luta em favor da liberdade e vitória dos homens sobre a morte e a destruição.
    • O iniciado, inscrito sob um bom Senhor e Líder dos prêmios, após ter seguido os passos divinos do primeiro dos atletas, abate em suas lutas as energias e impulsos contrários à sua deificação e morre com Cristo — para falar misticamente — ao pecado, no Batismo
  • A morte não é aniquilação do ser, mas separação do que está unido rumo ao invisível — a alma tornando-se invisível pela privação do corpo, e o corpo pelo sepultamento na terra — e por isso a cobertura total pela água é imagem adequada da morte e do túmulo invisível.
    • O ensinamento simbólico revela em mistério que o batizado imita, pelas três imersões na água, a morte supremamente divina de Jesus que dá vida, o qual passou três dias e três noites no sepulcro
    • A citação do ensinamento místico e secreto dos textos sagrados é: “o Príncipe deste mundo nada encontrou nEle”
  • As vestes brancas como luz lançadas sobre o iniciado simbolizam que, pela insensibilidade viril e deiforme às paixões contrárias e pela inclinação persistente para o Uno, o sem adorno é adornado e o sem forma toma forma, tornando-se brilhante por sua vida luminosa.
    • A unção perfeccionante do Mirão une os perfecionados ao Espírito supremamente divino, tornando-os de bom odor
    • O encobrimento que torna inteligivelmente de bom aroma e perfeito — por ser o mais inefável — é deixado à consciência mental daqueles julgados dignos da participação sagrada e deificante do Espírito Santo em sua mente
    • Ao fim de tudo, o Hierarca chama o iniciado à santíssima Eucaristia e lhe imparte a comunhão dos mistérios perfeccionantes
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