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JOÃO CLÍMACO — A ESCADA DO CÉU

CAPITULO III – Terceiro degrau, que trata da verdadeira peregrinação.

  • A peregrinação é o abandono constante de tudo o que impede o propósito e o exercício da piedade — que é honrar e buscar a Deus —, e consiste num coração vazio de toda vã confiança, numa sabedoria desconhecida, numa prudência secreta, numa fuga do mundo, numa vida invisível e num profundo silêncio de alma.
    • A peregrinação inclui ainda: amor ao desprezo, apetite de angústias, desejo do amor divino, abundância de caridade e aborrecimento da opinião de sábio ou de santo
    • No início, essa maneira de vida árdua e o fogo do desejo de afastar-se da pátria e dos seus costumam fatigar os servos de Deus
    • Esse desejo provoca também o querer ser, por amor de Deus, afligido e desprezado
  • Quanto maior e mais louvável for a peregrinação, tanto maior atenção ela requer ao ser examinada, pois nem toda peregrinação feita superficialmente é digna de louvor, correndo o risco de tornar-se ocasião de vanaglória.
    • Se, como diz o Salvador, não há Profeta que seja honrado senão fora de sua terra e entre os seus, é preciso vigiar para que a fuga da pátria não se converta em ocasião de vanaglória
    • A verdadeira peregrinação é um perfeito apartamento de todas as coisas, com a intenção de que o pensamento nunca — quanto possível — se afaste de Deus
    • O verdadeiro peregrino é amador do pranto perpétuo, arraigado nas entranhas pela memória do Criador
    • Peregrino é o que afasta e repele sempre a memória e o afeto de todos os seus, na medida em que esses constituem impedimento para ir a Deus
  • Quando se determina peregrinar e retirar-se à solidão, não se deve demorar no mundo esperando levar consigo as almas dos que estão nele enredados, pois o inimigo pode aproveitar esse tempo para roubar o bom propósito.
    • Muitos, pretendendo levar consigo alguns negligentes e preguiçosos, pereceram juntamente com eles, vendo a chama da inspiração divina apagar-se com a demora
    • Ao sentir em si essa chama e inspiração divina, é preciso correr apressadamente, pois não se sabe se ela se apagará tão depressa, deixando a alma às escuras
  • Nem todos são obrigados a salvar os outros, pois, como diz o Apóstolo, cada um dará por si conta a Deus — e em outro lugar ele mesmo acrescenta: Tu que ensinas a outros, por que não te ensinas a ti mesmo?
    • As necessidades e obrigações dos outros não são conhecidas por todos, mas cada um conhece as suas próprias e assim é obrigado a atender a elas
  • O peregrino deve guardar-se do demônio guloso e vagabundo — isto é, do que, sob o título de peregrinação, pretende alimentar a curiosidade dos sentidos e o apetite da gula, que em diversos lugares encontra diversos convites e hospedarias.
    • A peregrinação costuma dar ocasião a esse demônio
  • É coisa grande ter mortificado o afeto de todas as coisas perecíveis, e a peregrinação é mãe dessa virtude — por isso os que por amor de Deus andam peregrinando devem deixar todos os afetos do século e estar como mortos às suas coisas.
    • Não devem parecer, por um lado, apartados do mundo e, por outro, enlaçados com os afetos dele
    • Os que se afastaram do século não deveriam mais querer ter conta com ele, pois os vícios adormecidos há muito tempo facilmente costumam despertar
    • Eva saiu do Paraíso contra a sua vontade, mas o monge se desterrou da pátria pela sua — ela foi expulsa para não voltar a comer da árvore da desobediência; ele foge da vizinhança dos lugares do mundo como de um grandíssimo açoite e perigo, porque o fruto que não se vê com os olhos não move tanto o coração
  • Há outro modo de engano dos ladrões espirituais: eles aconselham a não se apartar dos seculares, dizendo que será maior coroa viver limpamente no meio dos laços e vencer as paixões lutando com elas — e a esses não se deve obedecer em nenhuma forma, mas sempre fazer o contrário.
  • Depois de alguns anos de peregrinação e de ter alcançado alguma religiosidade, compunção ou abstinência, os demônios começam a combater com pensamentos de vaidade, incitando ao regresso à pátria para edificação e exemplo dos que antes viram o peregrino viver desordenadamente no século.
    • Se o peregrino tem alguma instrução ou graça ao falar, os demônios o pressionam ainda mais a voltar ao século para ser mestre e guardião das almas alheias, a fim de que a fazenda adquirida com trabalho no porto se perca em alto mar
    • Não se deve imitar a mulher de Ló, mas o próprio Ló — pois a alma que voltar ao lugar de onde saiu se dissolverá como sal e ficará como estátua imóvel, dificilmente voltando a Deus
    • Os corações que voltaram ao Egito não gozaram daquela quietíssima e pacífica terra de Jerusalém
  • Não é mau, porém, que os que no início de sua conversão deixaram a pátria e tudo com ela, depois de confirmados e adiantados na virtude e perfeitamente purificados, voltem a ela para fazer outros participantes da saúde que alcançaram.
    • Aquele grande Moisés, que viu a Deus e foi escolhido para procurar a salvação de seu povo, passou muitos perigos no Egito e muitas aflições neste mundo por causa dele
    • Vale mais entristecer os pais do que ao Senhor — pois este nos criou e redimiu, enquanto aqueles muitas vezes destruíram os que amaram e os entregaram aos tormentos eternos
  • Peregrino é aquele que, como homem de outra língua morando entre gente estrangeira que não conhece, vive só no conhecimento de si mesmo — e o abandono da pátria e dos parentes não se faz por ódio a eles, mas para fugir do dano que por sua parte pode vir.
    • O Salvador é mestre e exemplo nisso, pois muitas vezes se ausentou da Virgem e do santo José, tido por seu pai
    • Quando lhe disseram: Eis aqui tua mãe e teus irmãos, o Bom Mestre ensinou esse santo ódio e liberdade de coração, dizendo: Minha mãe e meus irmãos são os que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus
  • Deve-se ter por pai aquele que pode e quer trabalhar junto e ajudar a descarregar a carga dos pecados — e toda a família espiritual do peregrino é reconfigurada segundo vínculos de virtude e salvação.
    • A mãe deve ser a compunção, que lava as máculas e impurezas da alma
    • O irmão deve ser o que juntamente trabalha e combate no caminho do céu
    • A esposa e companheira que nunca se afasta deve ser a memória da morte
    • Os filhos muito amados devem ser os gemidos do coração
    • O servo deve ser o próprio corpo
    • Os amigos devem ser os santos Anjos, que na hora da morte poderão ajudar se agora se procurar torná-los familiares
    • Essa é a geração espiritual dos que buscam a Deus
  • O amor de Deus exclui o amor desordenado dos pais, e quem crê que esses dois amores podem coexistir se engana a si mesmo, pois o Salvador afirma que ninguém pode servir a dois senhores.
    • Em outro lugar o mesmo Senhor disse: Não vim trazer paz à terra, mas espada — porque vim apartar os amadores de Deus dos amadores do mundo, os terrenos e materiais dos espirituais, os invejosos dos humildes
    • O Senhor se alegra quando vê essa contenda e apartamento feitos por seu amor
  • É preciso estar atento para não ser tomado secretamente pelo amor dos parentes e, vendo-os naufragar no dilúvio das misérias do mundo, ir despreparado socorrê-los e perecer juntamente no mesmo dilúvio.
    • Não se deve ter pena dos pais e amigos que choram a saída do mundo, para não ter de chorar para sempre
    • Quando os parentes cercam como abelhas — ou melhor, como vespas — e começam a fazer lamentações, deve-se fortalecer o coração com a consideração da morte e dos pecados, para que com uma dor se afaste outra dor
    • Os parentes prometem enganosamente que se farão à vontade do peregrino em tudo e que não impedirão seus bons propósitos — mas fazem isso com intenção de barrar o caminho e trazê-lo à sua vontade
  • Ao apartar-se do mundo, o apartamento deve ser nos lugares mais humildes, menos públicos e mais afastados das consolações do mundo — e quem for nobre deve esconder, quando puder, a claridade e nobreza de seu linhame.
    • Não se deve parecer nas palavras um e nas obras outro — pregando humildade nas palavras e ostentando vaidade nas obras
    • Ninguém peregrina de maneira tão plena quanto o grande Patriarca Abraão, a quem foi dito: Sai da tua terra e de entre os teus parentes e da casa de teu pai — sendo por essa via chamado a andar entre gente bárbara e de língua estrangeira
    • O verdadeiro humilde deve fugir da glória e defender-se dela com o escudo da humildade, mesmo que lhe seja divinamente concedida
  • Quando os demônios louvam a virtude da peregrinação ou outra insigne virtude, deve-se recorrer com grande atenção à memória do Senhor que peregrinando desceu do céu à terra por nós — e então se verá que, ainda que se vivesse todos os séculos, não se poderia imitar a pureza dessa peregrinação.
  • Todo afeto desordenado de parentes ou estranhos que paulatinamente arrasta ao amor das coisas do mundo e amortigua o fogo do amor de Deus deve ser evitado com grandíssima diligência.
    • Assim como é impossível olhar com um olho ao céu e com outro à terra, assim também é impossível estar no corpo e com a alma afeiçoada às coisas do céu
    • Com grande trabalho e fadiga se alcançam a virtude e os bons costumes, e pode acontecer que o que com muito trabalho e em muito tempo se alcançou se perca num instante
    • Quem depois de renunciar ao mundo quer viver e conversar com os homens do mundo, ou morar perto deles, certamente cairá nos mesmos perigos e enlaçará o coração nos pensamentos deles
    • Se assim não se enlaçar, ao menos julgando e condenando os que se enlaçam, também ele se enlaçará
  • Dos sonhos com que costumam ser tentados os principiantes
  • O conhecimento humano é imperfeito e cheio de toda ignorância — pois, como está escrito, o paladar julga a qualidade dos manjares e o ouvido a verdade das sentenças — e assim como o sol descobre a fraqueza dos olhos, as palavras declaram a rudeza dos entendimentos, mas a caridade obriga a tratar de coisas que excedem a própria faculdade.
    • Considera-se necessário acrescentar algo sobre os sonhos, para que não se ignore esse gênero de engano de que se servem os adversários espirituais
    • Sonho é movimento da alma em corpo imóvel, pois tal costuma estar o corpo quando se sonha
    • Fantasia é engano dos olhos interiores na alma adormecida — quando o que não é se representa como se fosse, por estar impedido o uso da razão
    • Fantasia é também alienação da alma estando o corpo desperto — quando a alma está como fora de si pela apreensão veemente em alguma coisa
    • Fantasia é ainda apreensão ou imaginação que passa depressa e não permanece
  • Depois que se deixa por amor de Deus a casa e os parentes e se entrega à peregrinação, os demônios começam a perturbar nos sonhos, representando os pais e parentes tristes, aflitos, mortos por causa do peregrino ou em necessidade e perigo de morte.
    • Quem dá crédito a tais sonhos é semelhante ao que corre atrás de sua sombra para alcançá-la
  • Os demônios tentadores da vanaglória se fazem às vezes profetas enganosos, revelando nos sonhos algumas coisas que, como astutíssimos, podem conjecturar — para que, vendo cumprido o que se sonhou, o peregrino se espante e pense estar muito próximo da graça dos Profetas, ensoberbecendo-se.
    • Por secreto juízo de Deus, o demônio pode sair verdadeiro para com os que lhe dão crédito, assim como sai mentiroso para os que não fazem caso dele
    • Como espírito, o demônio vê tudo o que se faz dentro deste ar — e quando adivinha que alguém vai morrer, diz-no nos sonhos aos mais crédulos, enganando-os
    • Nenhuma coisa futura o demônio sabe com ciência certa, mas apenas por conjecturas — tanto que até as crianças por esse meio às vezes adivinham a morte
  • Muitas vezes os demônios se transfiguram em anjo de luz e tomam figura de mártires, apresentando-se nos sonhos — e quando se desperta, enchem de alegria e soberba, o que é um sinal de seus enganos.
    • Os bons Anjos, ao contrário, representam tormentos, juízos e apartamentos — e quando se desperta, deixam temerosos e tristes
    • Os que começam a dar crédito ao demônio nos sonhos acabam por ser por ele enganados fora dos sonhos
    • É próprio de loucos e maus dar crédito a tais vaidades — o verdadeiro Filósofo é o que nenhum crédito lhes dá
    • Deve-se dar crédito somente àqueles que pregam pena e juízo — e se isso move à desesperação, deve-se entender que essa desesperação também vem da parte do demônio
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