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JOÃO CLÍMACO — Escada Santa
CAPÍTULO I — DA RENÚNCIA E MENOSPREZO DO MUNDO
- A instrução dos servos de Deus tem como ponto de partida a própria natureza divina, cuja bondade infinita e incompreensível conferiu a todas as criaturas racionais a dignidade do livre-arbítrio, distinguindo entre elas categorias que vão desde os amigos íntimos de Deus até os adversários declarados.
- As substâncias intelectuais e espirituais que habitam com Deus são propriamente chamadas de amigos de Deus
- Os servos fiéis são aqueles que obedecem sem preguiça e sem cansaço à santíssima vontade divina
- Os servos inúteis são os que, após receberem o batismo, não cumprem o que nele pactuaram
- Os estrangeiros e afastados são os que se encontram apartados da santa fé
- Os adversários e inimigos são os que, não contentes em sacudir o jugo da lei de Deus, perseguem ativamente quem a observa
- O tratado dirige-se especificamente àqueles que merecem ser chamados de fiéis servos de Deus, cuja caridade impeliu à redação desta obra
- A palavra divina é comparada a uma pluma mergulhada na tinta da humildade, com a qual se escreve nos corações brandos como em tábuas espirituais
- Deus se oferece como verdadeira vida e verdadeira saúde a todas as criaturas dotadas de vontade e livre-arbítrio, sem distinção de condição, fé, virtude, estado ou idade, da mesma forma que a luz do sol e a sucessão das estações se comunicam igualmente a todos.
- A universalidade da oferta divina abrange fiéis e infiéis, justos e injustos, religiosos e irreligiosos, viciosos e virtuosos, seculares e monges, sábios e ignorantes, sãos e enfermos, jovens e velhos
- A comunicação da luz solar e a alternância dos tempos servem de analogia para a oferta universal e imparcial de Deus
- As definições dos vocábulos fundamentais delimitam os diferentes modos pelos quais a criatura racional se relaciona com seu Criador e com a lei divina.
- O irreligioso é a criatura racional e mortal que, por vontade própria, foge da vida, tratando com o Criador como se este não existisse
- O iníquo é aquele que torce violentamente o entendimento da lei de Deus para conformá-la ao próprio apetite, crendo ainda assim seguir a palavra divina
- O cristão é aquele que se esforça, quanto é humanamente possível, por imitar a Cristo nas obras e nas palavras, crendo firmemente na Santíssima Trindade
- O amado de Deus é aquele que usa ordenadamente de todas as coisas naturais e nunca cessa de praticar o bem que lhe é possível
- O continente é aquele que, posto em meio às tentações e armadilhas, trabalha com todas as forças para alcançar a paz, a tranquilidade do coração e os bons costumes
- A vida monástica é definida por uma série de caracterizações que revelam sua natureza como modo de existência angélico exercido em corpo mortal e corrompido.
- Monge é aquele que mantém os olhos da alma voltados para Deus e faz oração em todo tempo, lugar e circunstância
- Monge é uma perpétua contradição e violência da natureza, bem como uma vigilantíssima e infatigável guarda dos sentidos
- Monge é um corpo casto, uma boca limpa e uma alma esclarecida pelos raios da luz divina
- Monge é uma alma aflita e triste que, trazendo sempre diante dos olhos a memória da morte, se exercita continuamente na virtude
- A renúncia e o abandono do mundo consistem no ódio voluntário e na negação da própria natureza, motivados pelo desejo de fruir das realidades sobrenaturais, e podem ter três causas distintas, sendo que o prêmio final corresponde ao fim com que se viveu.
- O desejo das coisas supranaturais é a raiz da qual nasce o santo ódio de si mesmo
- Os que abandonam voluntária e alegremente os bens da vida presente fazem-no pelo desejo da glória futura, pela memória dos próprios pecados ou pelo puro amor de Deus
- A renúncia sem uma dessas três causas não seria racional
- Qual for o fim e o termo da vida, tal será o prêmio recebido de Cristo, juiz e remunerador dos trabalhos humanos
- Aquele que busca descarregar-se do peso dos pecados deve imitar o choro dos que estão diante dos sepulcros, derramando lágrimas contínuas e ferventes e gemidos profundos, até que Cristo remova a pedra do monumento e liberte Lázaro das ataduras de seus pecados.
- A pedra do monumento representa a cegueira e a dureza do coração
- Lázaro representa a alma humana presa pelas ataduras dos vícios
- Cristo manda aos ministros — os anjos — que desatem as ataduras dos vícios e deixem a alma partir para a quieta e bem-aventurada tranquilidade
- Todo aquele que deseja sair do Egito e da sujeição do Faraó necessita, depois de Deus, de um Moisés que lhe sirva de intermediário e guia, levantando as mãos a Deus em oração, para que o povo possa atravessar o mar dos pecados e vencer Amaleque, príncipe dos vícios.
- Moisés é a figura do guia espiritual que conduz pelo caminho com palavras, obras e oração
- Amaleque representa o príncipe dos vícios que deve ser posto em fuga
- Alguns foram enganados por confiarem em si mesmos, crendo não necessitar de guia
- Os que saíram do Egito tiveram Moisés como guia, ao passo que os que fugiram de Sodoma foram conduzidos por um anjo, e essa distinção figura duas categorias de almas que requerem tipos diferentes de mestre.
- Os que saíram do Egito figuram aqueles que procuram curar as enfermidades da alma com o cuidado e a diligência do médico espiritual
- Os que fugiram de Sodoma significam os que, cheios de impurezas e torpezas corporais, desejam libertar-se delas e necessitam de um homem semelhante aos anjos
- Conforme a corrupção das chagas, assim é necessário um sapientíssimo mestre para a sua cura
- Quem, revestido de carne, deseja subir ao céu tem necessidade de suma violência e de trabalhos contínuos e infatigáveis, especialmente nos princípios, até que o coração se afeiçoe a Deus e seja santificado pela castidade mediante o exercício das lágrimas e da penitência.
- Os costumes habituados aos deleites e o coração insensível aos próprios males precisam ser convertidos pelo estudo atento e pelo exercício da penitência
- O cão da alma — acostumado à carniçaria e à imundície dos vícios — deve ser tornado amante da contemplação e da castidade
- Auxiliam nessa conversão a virtude da simplicidade, a mortificação da ira e uma grande e discreta diligência
- Os que são combatidos pelos vícios, mesmo sem terem alcançado forças suficientes contra eles, devem confiar em Cristo e apresentar-lhe humildemente a fraqueza da alma, pois alcançarão sua graça se se submeterem ao abismo da humildade.
- A fé viva apresentada a Cristo com humildade assegura o favor e a graça divinos, mesmo acima de todo merecimento
- Esta estreita, dura e leve batalha é comparada a entrar num fogo, para quem deseja inflamar o coração com o amor divino
- O pão celestial deve ser comido com amargura e o suavíssimo cálice deve ser bebido com lágrimas, para que ninguém entre nesta gloriosa milícia para seu próprio julgamento e condenação
- Se nem todos os batizados se salvam, os que professam religião devem olhar com temor e atenção para não correrem o mesmo perigo
- O fundamento firme da virtude exige a negação, o desprezo e o exame de todas as coisas do mundo, sustentado por três colunas que são a inocência, o jejum e a castidade.
- Os que em Cristo são crianças devem começar por essas três coisas, tomando como exemplo aqueles que não têm dureza de coração, fingimento, cobiça desmedida, ventre insaciável nem movimentos de vícios desonestos
- Conforme a lenha dos manjares, assim se acende o fogo da luxúria
- É coisa abominável e muito perigosa começar com frouxidão e brandura, pois isso costuma ser indício manifesto da queda futura, ao passo que começar com grande ânimo e fervor — ainda que depois seja necessário moderar algum rigor — é muito proveitoso para a alma.
- A alma que começou a combater varonilmente e depois se debilitou pode ser ferida e provocada ao bem pela memória da antiga virtude e diligência, como por um estímulo e açoite
- Alguns, por esse caminho, voltaram ao rigor passado e renovaram as primeiras alas
- Toda vez que a alma se encontrar fora de si por ter perdido o bem-aventurado e amável calor da caridade, deve investigar diligentemente a causa dessa perda e armar-se contra ela, pois só poderá reintroduzir esse calor pela mesma porta por onde saiu.
- Os que começam o caminho da renúncia por puro temor são comparados ao incenso que queima bem no início e depois se reduz a fumaça
- Os que se movem apenas pela esperança do galardão são como pedra de atafona, que sempre gira do mesmo modo sem avançar nem aproveitar mais
- Os que deixaram o mundo por puro amor de Deus merecem desde o início o crescimento desse fogo, que, como em meio a um grande bosque, sempre vai ganhando terreno e se estendendo
- Há os que assentam pedras sobre tijolos, os que erguem colunas sobre a terra e os que, caminhando a pé com os membros aquecidos, caminham mais levemente — e cada um desses grupos figura um tipo distinto de vida espiritual com seus riscos e frutos próprios.
- Os que assentam pedras sobre tijolos são os que, sobre excelentes obras de virtude, se elevam à contemplação das coisas divinas, mas caem na tempestade por falta de fundamento na humildade e na paciência
- Os que erguem colunas sobre a terra são os que, sem terem passado pelos exercícios e trabalhos da vida monástica, querem logo voar para a vida solitária, sendo facilmente enganados pelos inimigos invisíveis por falta de virtude e experiência
- Os terceiros são os que caminham pouco a pouco na humildade sob a obediência, e nesses o Senhor infunde o espírito de caridade, com o qual completam prosperamente o caminho
- Os que são chamados por Deus — seu Rei e Senhor — devem correr alegremente, procurando agradá-lo como soldados ao seu rei, temendo-o ao menos como os homens temem certas bestas, pois há quem não tenha deixado de roubar por temor a Deus, mas o fez por temor aos cães que ladravam.
- Após a profissão desta gloriosa milícia, a prestação de contas será mais estreita
- Alguns que ofenderam a Deus e não se preocuparam em recobrar sua amizade trabalharam com toda diligência para se reconciliar com amigos ofendidos por faltas muito menores, valendo-se de intermediários, rogadores e presentes
- Deve-se amar a Deus ao menos como se ama aos amigos, pois muitos que não hesitaram em ofendê-lo sem cuidado de recobrar sua amizade empregaram toda a afição e indústria para se reconciliar com amigos feridos por offensas muito menores.
- No princípio da renúncia, as virtudes não se praticam sem trabalho, amargura e violência
- Depois de algum aproveitamento, praticam-se com muito pouca tristeza ou nenhuma
- Quando a natureza está absorta e vencida pelo favor e alegria do Espírito Santo, as virtudes se praticam com gozo, alegria, diligência e fervor de caridade
- São mais dignos de louvor os que desde o início abraçam as virtudes com devoção e alegria do que os que, após longa vida nesse exercício, as praticam com trabalho e pesadume — se é que as praticam
- Não devem ser condenadas as formas de renúncia que parecem ter ocorrido por acaso, pois há exemplos de delinquentes que, ao encontrar casualmente o Rei, foram recebidos em seu serviço e contados entre seus cavaleiros.
- Grãos de trigo caídos descuidadamente da mão do semeador se apoderaram da terra e deram grande fruto
- Alguns foram a casa do Médico por outro negócio e acabaram por receber a saúde que não tinham e recuperar a visão quase perdida
- As coisas que sucedem sem a própria vontade são às vezes mais firmes e estáveis do que as que se fazem de propósito
- Ninguém, considerando a multidão de seus pecados, deve dizer-se indigno da profissão e vida monástica, nem se iludir com essa aparência de humildade para abandonar a senda estreita da virtude e entregar-se aos vícios, pois esse é embuste do demônio e ocasião para perseverar nos pecados.
- Onde as chagas estão podres e fistuladas, mais necessária é a diligência e a destreza do sábio Médico
- Os sãos não têm tanta necessidade do médico quanto os enfermos
- Se um rei mortal e terreno nos chamasse ao seu serviço e à sua milícia, não haveria coisa que nos detivesse nem buscaríamos ocasiões para nos escusar, mas deixaríamos tudo para servi-lo com suma alegria — é preciso então não recusar por preguiça e negligência a obediência ao Rei dos reis, Senhor dos senhores e Deus dos deuses.
- Recusar o chamado divino resultaria em não ter desculpa diante de seu terrível e espantoso tribunal
- O que está preso e agrilhoado pelos cuidados e negócios do século pode ainda dar alguns passos, embora com impedimento e trabalho, assim como andam aqueles que têm grilhões nos pés.
- O que vive no mundo sem mulher, mas com cuidados e negócios mundanos, é semelhante ao que tem grilhões nos pés
- O que tem mulher é semelhante ao que está de pés e mãos acorrentado — muito menos livre e menos senhor de si
- Aos negligentes que perguntavam como poderiam viver vida monástica estando casados e cercados de negócios, foi dada a resposta de que devem fazer todo o bem que puderem, sem injuriar, mentir, furtar, levantar-se contra ninguém nem querer mal a ninguém.
- Devem frequentar as igrejas e os sermões, usar de misericórdia com os necessitados, não escandalizar nem dar mau exemplo, não favorecer bandos nem sustentar discórdias, mas desfazê-las
- Devem contentar-se com o uso legítimo de suas mulheres
- Quem fizer isso não estará longe do Reino de Deus
- É preciso aperceber-se com alegria e temor para esta gloriosa batalha, sem acovardamento diante dos adversários, pois Deus está do lado dos seus, e os inimigos invisíveis, ao perceberem o medo e a covardia da alma, tomam armas mais fortes contra ela.
- Os adversários percebem com clareza a figura das almas, embora não sejam vistos pelos homens
- Ninguém é poderoso para vencer o que combate alegre e animosamente
- O Senhor costuma usar de uma maravilhosa dispensação com os principiantes e novos guerreiros, temperando e moderando as primeiras batalhas para que não se voltem ao mundo assustados com a grandeza do perigo.
- Quando vê almas fortes no princípio, o Senhor lhes prepara batalhas mais fortes, desejando coroná-las mais cedo
- O Senhor costuma ocultar aos homens do século a dificuldade desta milícia — ainda que por outro aspecto pudesse ser chamada facilidade — para que, conhecendo-a, ninguém quisesse deixar o mundo
- Os trabalhos da juventude oferecidos a Cristo trazem na velhice as riquezas de uma quieta paz e tranquilidade
- Os jovens devem trabalhar ardentemente e correr com toda sobriedade e vigilância, pois a morte certa os aguarda a todo momento
- Os inimigos são perversíssimos, fortíssimos, astutíssimos, poderosíssimos, invisíveis, despidos de todos os impedimentos corporais, jamais dormem e trabalham com todo empenho para abrasar o templo vivo de Deus
- O jovem não deve dar ouvidos aos demônios que sugerem poupar a carne para não adoecer, pois esse conselho, sob aparência de discrição, torna o homem muito brando e piedoso consigo mesmo.
- Nessa idade dificilmente alguém mortifica inteiramente a carne, ainda que se abstenha de muitos e delicados manjares
- Uma das principais astúcias do adversário é tornar frouxo e brando o início da profissão, para que o fim seja semelhante ao princípio
- Os que desejam fielmente servir a Cristo devem buscar com grandíssima diligência os lugares, os costumes, a quietude e os exercícios mais adequados ao seu propósito e espírito, segundo o conselho dos pais espirituais e a experiência de si mesmos.
- Nem todos os que são tocados pelo vício da gula e do prazer em comer e beber convêm morar nos mosteiros
- Nem todos os que são inclinados à ira convêm seguir a quietude da vida solitária
- A vida monástica contém três maneiras de estados e profissões: a vida solitária dos anacoretas, a vida em companhia de dois ou três em solidão, e a vida de obediência nos mosteiros — e o estado intermediário mostrou-se muito proveitoso para muitos.
- O Sábio aconselha não se desviar nem à direita nem à esquerda, mas caminhar pela via real
- Ai do solitário que cair na tristeza espiritual, no sono, na preguiça ou na desconfiança, pois não terá entre os homens quem o levante
- Onde estão reunidos dois ou três em meu nome, diz o Senhor, aí estou no meio deles — conforme Mateus 18,20
- O monge fiel e prudente é aquele que, guardando inteiro o seu fervor até o fim da vida, persevere sempre acrescentando cada dia fogo ao fogo, fervor ao fervor, desejo ao desejo e diligência à diligência.
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