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ORAÇÃO DO SENHOR

Cipriano de Cartago — A Oração do Senhor. Tradução Abade Timóteo Amoroso Anastácio

O presente tratado, De Dominica Oratione, foi escrito no final do ano 251, inspirado em Tertuliano, sem deixar porém, de ser original. Sto. Agostinho, entre outros, o cita muitas vezes.

A verdadeira oração

1 Os preceitos evangélicos, caríssimos irmãos, não são outra coisa, senão ensinamentos divinos, bases para a edificação da esperança, fundamentos para fortalecimento da fé, alimento para animar os corações, guia para indicar o caminho, amparo para obter a salvação. Por eles, as almas dóceis dos fiéis são instruídas, na terra, e assim conduzidas ao Reino celeste. Deus quis que, por meio dos seus servos, os profetas, muitas coisas fossem ditas e ouvidas. São, porém, incomparavelmente maiores as que nos diz o próprio Filho. É o Verbo de Deus, que estivera nos profetas, que fala agora com sua própria voz. Não se trata mais de mandar que se prepare o caminho para Aquele que há de vir, mas é Ele próprio que vem, abrindo e mostrando o caminho, a fim de que os que errávamos cegos e hesitantes nas trevas da morte, tomássemos o caminho da vida, iluminados pela luz da graça, guiados e conduzidos pelo Senhor.

2 Entre outros salutares ensinamentos e preceitos com que o Senhor encaminhou o seu povo para a salvação, deu-nos Ele também a forma de orar; aconselhou e ensinou Ele próprio o que devemos rogar. Aquele que nos fez viver ensinou-nos também a orar e com essa mesma benignidade dignou-se dar-nos e conferir-nos outros bens, porque dirigindo-nos ao Pai com a oração ensinada pelo Filho, mais facilmente seremos ouvidos. Já anunciara que viria a hora em que os verdadeiros adoradores adorariam em espírito e verdade e cumpriu o que antes prometera. Assim os que recebemos pela sua santificação o Espírito e a Verdade, oremos também, graças a sua tradição, em espírito e verdade. E que oração poderá ser mais espiritual que esta, que nos legou o Cristo, pelo qual o Espírito Santo nos foi enviado? Que prece poderá ser mais verdadeira diante do Pai que esta, recebida da boca do Filho, que é a própria Verdade? Portanto, orar de maneira diversa da que nos ensinou não é somente ignorância, mas culpa, pois Ele mesmo preceituou dizendo: “Desprezais o mandamento de Deus, para observar a vossa tradição”. (Mc 7,9),

3 Oremos, pois, irmãos caríssimos, conforme o Mestre nos ensinou. Fazer oração agradável e familiar é rogar a Deus com o que é seu, é elevar aos seus ouvidos a oração do Cristo. Que o Pai reconheça a palavra do seu Filho quando oramos; que esteja em nossa palavra Aquele que habita dentro de nós. E uma vez que é Ele o advogado pelos nossos pecados diante do Pai, peçamos com as palavras do advogado, quando pedimos, como pecadores, pelas nossas faltas. Pois se Ele disse que obteremos tudo que pedirmos ao Pai em seu nome, com eficácia muito maior conseguiremos o que pedimos em nome do Cristo, se o fizermos com a sua oração.

4 Seja, pois, disciplinada e tranquila a palavra e a prece dos que oram. Consideremos que estamos diante de Deus. Devem ser agradáveis em Face de Deus tanto a atitude do corpo como a maneira de falar. Pois assim como é próprio do insolente rezar com clamores, convém ao modesto orar com preces discretas. Finalmente, mandou-nos o Senhor, nos seus ensinamentos, que orássemos em segredo, em lugares afastados e escondidos, mesmo nos quartos; assim é mais conveniente para a nossa fé, pois lembra-nos que Deus está presente em toda a parte, que Ele vê e ouve a todos e que penetra mesmo o distante e o oculto, com a plenitude de sua majestade conforme está escrito: “Acaso sou um Deus que está próximo e não um Deus afastado? Se por acaso o homem estiver oculto em esconderijos, eu não o verei? Não é verdade que eu encho o céu e a terra?”(Jeremias 23:23-24).

E de novo: “Em toda a parte os olhos de Deus observam os bons e os maus” (Pr 15,3). E quando nos reunimos em comunhão com os irmãos e celebramos com o sacerdote de Deus o sacrifício Divino, devemos nos lembrar da dignidade e disciplina; não proferir desordenadamente as nossas preces com vozes confusas, nem lançar tumultuosamente e com loquacidade o pedido que deve ser entregue a Deus modestamente, pois, Deus ouve o coração e não a voz. E o Senhor nos mostra que não se deve importunar com clamores Aquele que vê os pensamentos, conforme prova o Senhor quando diz: “Por que pensais o mal nos vossos corações?” (Mateus 9:4); e noutro lugar: “Em todas as Igrejas saberão que eu penetro os rins e o coração” (Apocalipse 2:23).

5 Ana, figura da Igreja, no primeiro livro de Samuel, guarda e cumpre estas palavras. Ela não pedia clamorosamente, mas calada e modesta, no segredo do seu coração. Falava com prece oculta, mas com fé manifesta. Falava não com a voz, mas com o coração, pois sabia bem que desse modo seria ouvida por Deus. E obteve, com efeito, o que pedira, porque o fizera com fé. Declara-o a Escritura divina, dizendo: “Falava no seu coração, seus lábios moviam-se, mas não se ouvia voz, ouviu-a, contudo, o Senhor” (1 Sm 1,13). Igualmente lemos nos Salmos: “Falai em vosso coração e estejais compungidos nos vossos aposentos” (SI 4,5). Também por Jeremias o Espírito Santo sugere e ensina a mesma coisa: “Tu, Deus, deves ser adorado interiormente”(Br 6,5).

6 Quem adora, porém, irmãos caríssimos, não deve ignorar a forma como oravam no templo, o fariseu e o publicano. Não foi com os olhos arrogantemente levantados para o céu, nem com as mãos insolentemente erguidas, mas batendo no peito e confessando os pecados ocultos, que o publicano implorava a misericórdia divina. E enquanto o fariseu, ao seu lado, se comprazia consigo mesmo, assim orou o publicano; sem colocar a esperança de salvação na presunção de sua inocência, pois inocente ninguém é, mas, tendo confessado os pecados, rogou humildemente e mereceu dessa maneira ser mais santificado. Ouviu a sua oração Aquele que perdoa aos humildes. Este fato coloca o Senhor no seu Evangelho quando diz: “Dois homens subiram ao templo para orar, um fariseu, outro publicano. O fariseu, em pé, orava consigo mesmo: Eu te dou graças, meu Deus, porque não sou como o resto dos homens, — injustos, ladrões, adúlteros — tal como este publicano. Eu jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo que possuo. O publicano, porém, em pé, ao longe, não ousava erguer os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo: Meu Deus, tem piedade de mim pecador. Digo-vos que este voltou para casa mais justificado que aquele fariseu, porque todo o que se exalta será humilhado e todo o que se humilha será exaltado” (Lucas 18:10-14).

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