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Vivo porque vivo

Vladimir Lossky. Théologie négative et connaissance de Dieu chez Maitre Eckhart. Paris: Vrin, 1960

  • O retorno completo sobre a própria essência constitui uma ação intelectual, segundo o Livro das Causas, que afirma que todo aquele que conhece a sua essência está retornando para a sua essência com um retorno completo.
  • O mestre Eckhart observa que se usa significativamente o termo completo porque onde quer que cesse o retorno a si, ali cessa também o conhecimento, pois ali logo se introduz e permanece o alheio e, por conseguinte, o desconhecido.
    • Essa observação encontra—se no Comentário sobre João.
  • A inteligência e o inteligível devem ser perfeitamente idênticos em um ato de compreensão total.
  • Aristóteles chamou de Vida por excelência esse ato subsistente em si e aplicou ao seu Deus o nome de Vivente eterno perfeito.
    • Na Metafísica, livro XII, e no comentário de Averróis, afirma—se que Deus possui a vida porque a ação do intelecto é vida. Esse nome vida é dito a respeito da compreensão, e, sendo a ação do intelecto compreensão, conclui—se que a ação do intelecto é vida.
    • O intelecto por si possui uma vida nobre, e, sendo o intelecto um e a sua ação vida, aquilo que é inteligente porque entende a si mesmo, e não porque entende outro, é vivo e possui a vida no fim da nobreza, razão pela qual a vida e a ciência são ditas propriamente a respeito dele.
    • São Tomás aborda esse tema no Comentário à Metafísica e na Suma Teológica.
  • Essas expressões desenvolvem no sentido aristotélico da mente que se pensa um tema esboçado no Sofista de Platão, onde se buscava reunir a inteligência e a vida com o ser, sendo posteriormente retomadas por Plotino e aplicadas ao Noûs que faz subsistir o Ser ao pensá—lo.
    • M. de Gandillac analisa a sabedoria de Plotino nessa estrutura.
  • A vida uni—múltipla da segunda hipóstase plotiniana, que faz desprezar qualquer outra vida, não constitui a verdadeira identidade do conhecedor e do conhecido, mas um limite de sua identificação.
  • A tradição salvaguardava a preeminência apofática do Uno, situado além do Ser e da Inteligência.
  • O mestre Eckhart recebe essa noção de Vida atribuída ao Intelecto divino de fontes diversas, encontrando—na em Aristóteles, Averróis, São Tomás, Proclus e no Livro das Causas.
    • Proclus afirma nos Elementos de Teologia que o conhecimento é vida e o que conhece, enquanto tal, vive. Nas proposições 101 e 102, ele dissocia a Vida e a Inteligência, mas na proposição 103 estabelece os modos das participações recíprocas de Ser, Vida e Inteligência.
    • A proposição 12 do Livro das Causas apresenta a teoria da presença dos três Primeiros uns nos outros.
  • A autoridade das Escrituras no Evangelho de João 1, 4, que afirma que o que foi feito nele era vida, integra—se a esses elementos doutrinais junto com a interpretação de Santo Agostinho através do exemplo da arca na mente do artesão.
    • Santo Agostinho trata dessa exegese no Comentário sobre o Evangelho de João.
  • Esses elementos transformados compõem a ideia de espontaneidade vital que caracteriza a concepção eckhartiana da atividade interior do Uno, manifestando a identidade do ser no retorno do Intelecto divino sobre a sua própria Essência.
  • A Vida que vive por excelência responde ao princípio do sum qui sum.
  • A noção de Vida introduz na realidade intratrinitária, que é superior ao ser criado, o qual nunca é verdadeiramente vida.
  • A vida significa uma espécie de jaizamento no qual uma coisa fermenta e se verte primeiramente em si mesma, derramando tudo o que é em tudo o que é, antes de se efundir para fora.
    • No Comentário sobre o Êxodo, afirma—se que o que foi feito nele era vida, pois a vida diz uma espécie de jaizamento pelo qual a coisa, intumescendo em si mesma, se profunda primeiro em si toda, qualquer parte sua em qualquer parte sua, antes que se efunda e ebula para fora.
  • A emanação das Pessoas em Deus constitui a razão e o preâmbulo da criação por esse motivo.
    • No Evangelho de João, mostra—se que no princípio era o Verbo, e só depois todas as coisas foram feitas por ele.
    • Em outra passagem, imagina—se a coisa intumescendo a partir de si mesma e fervendo em si mesma, sem que ainda se coentenda a ebulição.
  • Tudo o que foi feito ou produzido é princípio sem princípio na medida em que era vida em Deus, pois tudo o que vive não recebe o princípio de sua atividade do exterior como algo outro.
    • Santo Agostinho e os exegetas latinos da Idade Média costumavam ler dessa forma o prólogo de São João, prática também seguida por São Tomás na Suma Teológica.
    • No Comentário sobre João, explica—se que o que foi feito ou produzido era vida nele, isto é, princípio sem princípio, pois vive propriamente o que é sem princípio, ao passo que o que tem o princípio de sua operação de outro não vive propriamente.
  • Vivo é o que é movido por si e possui o princípio de seu movimento dentro de si mesmo.
    • São Tomás aborda essa definição na obra Sobre as Sentenças, na Suma Teológica e na Suma Contra os Gentios.
  • A criatura não vive propriamente porque depende de uma causa eficiente anterior e superior, e também porque não possui a sua causa final em si mesma, mas tende para uma fim que lhe permanece exterior.
    • No Comentário sobre João, afirma—se que se diz vivo ou vivente tudo o que se move a partir de si mesmo ou de um princípio interno. O que não se move senão por algo externo não é vivo, do que patgeneric que não vive propriamente tudo o que tem um eficiente antes de si e acima de si, ou um fim fora de si. Apenas Deus, como fim último e primeiro motor, vive e é a vida.
  • Deus sozinho vive e é a Vida enquanto fim último e primeiro motor.
  • Viver provém do de dentro, de nós e do nosso, conforme se expressa em um sermão latino.
  • A forma verbal viver convém mais do que o substantivo vida ao pensamento de Eckhart, atenta à espontaneidade de um movimento que escapa às determinações conceituais.
  • O termo Leben em alemão é um nome verbal, assim como o esse em latim.
  • O termo exprime uma ação e aproxima—se do ser na medida em que a ação de viver não é determinada por uma causa ou fim exterior.
    • No sermão latino, afirma—se que isto sozinho não possui um porquê, assim como o viver, mas é por si mesmo, por sua graça, livre, referindo—se à graça santificante que se une às noções de viver e de ser.
  • Viver significa jaillar livremente, sem ter resposta a dar à pergunta sobre o porquê.
  • A Vida responderia que vive para viver caso fosse interrogada durante mil anos sobre o porquê de sua vida.
    • No Sermão alemão 5 b, utilizam—se as expressões sem porquê e eu vivo porque vivo.
  • A Vida extrai a sua vida de seu próprio fundo e jaila de seu ser próprio, vivendo sem pedir o porquê porque vive apenas em si mesma.
  • O redobramento Eu vivo porque vivo une—se a outras expressões geminadas para mostrar a medula do Ser afirmado, onde a Essência liquefeita na ação ferve na produtividade interior do Uno.
    • A metáfora da liquefação refere—se à manifestação dinâmica da identidade do ser na ação reflexiva do Intelecto divino.
    • No Livro das Parábolas do Gênesis, afirma—se que a justiça falando justifica, e o justo ouvindo a justiça é justificado, engendrando—se o justo como filho da justiça, perdido tudo o que não é justo em si e, liquefeito, transforma—se na justiça, conforme o Cântico dos Cânticos que diz que a minha alma se liquefez.
    • Essa metáfora liga—se à mística da união deificante em Eckhart.
  • A proposição de que Deus é princípio sem princípio, processo sem variação e fim sem fim corresponde ao que Eckhart chama de Vida ou Viver, representando uma atualidade do ser que se produz sem dependência causal.
    • Trata—se da sétima proposição dos 24 Filósofos.
  • A criação interior ou Sagesse pré—criacional constitui um mundo incréu que nasce espontaneamente na mente divina, independente de causalidade exterior, a qual só atua sobre o fieri e não sobre o ser propriamente dito.
    • No Comentário sobre João, descreve—se o mundo absoluto de tudo o que está fora, como o eficiente e o fim, os quais são causas extrínsecas que não possuem causalidade sobre o ser, mas apenas sobre o fieri propriamente. Eles produzem não a si mesmos, mas o semelhante, dando a forma segundo o seu gênero.
  • Um agente que opera exteriormente não atua na identidade do ser, mas produz apenas o seu semelhante na alteridade e distinção numérica, conferindo a forma segundo o seu próprio gênero.
  • A emanação nas Pessoas divinas é um ebulimento formal onde as três Pessoas são simples e absolutamente um, pois na produção interior o Un por si principia e dá o ser, e o princípio está dentro.
    • O Uno não produz o semelhante, mas um e o mesmo é ele próprio.
    • O semelhante inclui alteridade e diversidade numeral, mas no uno não cai nenhuma diversidade.
    • A produção das criaturas ocorre por modo não formal, mas de eficiente e fim, sendo criação, razão pela qual não permanece simplesmente um, mas um em muitos.
    • O manuscrito apresenta a grafia ebullucio por erro do copista, onde deveria constar bullucio.
    • A imagem do ebulimento exprime a ação interior do Uno e a sua identidade com todas as coisas na vida do Intelecto divino.
    • Essa expressão foi utilizada por Dietrich de Freiberg no Tratado sobre o Intelecto e o Inteligível, onde é aplicada à atividade interior das substâncias separadas, definida como uma espécie de ebulimento que tem o modo de ação.
    • Berthold de Moosburg, discípulo de Dietrich, aplica a imagem do ebulimento ao objeto do conhecimento físico, ao ser das formas na matéria submetidas ao câmbio perpétuo.
    • A metáfora aplicada ao intelecto deve—se a Dietrich de Freiberg, e Eckhart deu—lhe uma nova elaboração, distinguindo entre ebulimento como ação interior na procissão das Pessoas e ebulição como a mesma ação considerada em relação ao exterior na criação.
  • A distinção pessoal é alheia ao número, que só surge fora do Uno, na produção exterior onde Deus se apresenta como Causa de seus efeitos criados, os quais são semelhantes ao seu princípio, mas nunca idênticos a ele.
  • Não se pode falar de similitude quando o Ser se produz a si mesmo sob a razão do Uno, mas unicamente de Imagem, visto que a similitude é incompatível com a Unidade.
  • O termo Imagem é trinitário em Eckhart e aplica—se à Pessoa do Filho em sua relação com o Pai, conforme Hebreus 1, 3.
  • A imagem não forma número com aquilo de que é imagem, pois não se trata de duas substâncias distintas, mas do Uno no Outro, em uma compenetração recíproca na identidade essencial da mesma substância.
    • O Evangelho de João 14, 10 expressa essa união através da frase Eu no Pai e o Pai em Mim.
  • A dependência formal do justo perante a justiça e do Filho perante o Pai constitui uma relação que exclui qualquer exterioridade, pois a imagem é uma emanação simples e formal que transfunde a essência total, pura e nua.
    • O justo depende da justiça por uma dependência formal, não como de um estranho ou de outro fora de si.
    • A imagem é uma emanação a partir do íntimo, no silêncio e na exclusão de todo o forasteiro, sendo uma espécie de vida.
    • O ser é considerado aqui tal como se apresenta à especulação do metafísico, fazendo abstração das causas eficientes e finais que pertencem à física.
  • Esse processo vital só é possível na natureza intelectual, que permite um retorno completo sobre si mesmo onde o Mesmo permanece idêntico ao Mesmo.
    • No retorno completo, o pariente com o parido é um mesmo em si outro.
    • Alain de Lille expressa na Regra Teológica que de si engendra outro si, isto é, o Filho, e reflete o seu ardor em si outro, isto é, o Espírito Santo.
    • Utiliza—se também a expressão de que transfundiu a substância, com referência a Santo Agostinho.
  • Esse efluxo formal da natureza nuda constitui o primeiro grau da produção no ser, ocorrendo a partir de si, de si mesmo e em si mesmo por uma ação intelectual, sem o concurso da vontade ou de um fim.
    • Existem três graus de produção no ser: o primeiro consiste na emanação formal da natureza nuda a partir de si, de si mesmo e em si mesmo, com a vontade acompanhando e não cooperando, dado que o bem é difusivo de si.
    • O segundo grau corresponde à causa final e é a facção, sendo a produção a partir de si, mas não de si mesmo, logo, de outro.
    • O terceiro grau é a criação, que pertence à causa eficiente e é a produção a partir de si que não é nem de si mesmo nem de outro, mas do nada.
    • Nicolau de Cusa anotou à margem que apenas o filho de Deus é propriamente imagem.
  • O Viver apresenta—se em vários textos como a operação primeira do Ser manifestado no Uno, como o estado incréu de tudo o que retorna sobre si mesmo em um ebulimento formal.
    • A vida ou o viver é uma operação que procede de dentro e do íntimo, diferindo da posição de São Tomás, para quem a vida não é uma operação, mas um modo de ser próprio das substâncias capazes de se moverem por si mesmas.
    • Esse processo circular possui três termos que correspondem às Três Pessoas divinas nas quais a Essência é transfundida pelo Uno a partir de si, de si e em si.
  • A perspectiva na qual Eckhart considera o ser transformará os textos das Escrituras em enunciados de metafísica, mas também emprestará um caráter de teologia trinitária às especulações dos filósofos gregos, árabes e judeus.
  • Os mestres pagãos tornam—se testemunhas do mistério da fé cristã nessa abordagem.
  • A definição de Aristóteles de que a metafísica é a ciência do ser enquanto ser recebia um sentido teológico vinculado ao termo enquanto, significando o retorno do ser sobre si mesmo.
    • Esse movimento circular identifica—se com a monáda intelectual que engendra a mônada e reflete sobre si mesma o seu amor.
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