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JUSTINO

Peter Lampe. From Paul to Valentinus: Christians at Rome in the first two centuries. Tradução: Michael G. Steinhauser. Minneapolis: Fortress Press, 2003.

As informações histórico-sociais diretas e indiretas sobre Justino complementam-se, provenientes de suas duas Apologias, do Diálogo com Trifão e dos Atos de seu martírio.

  • Justino, o filósofo, viveu em Roma como imigrante, nascido em Flávia Neápolis (Samaria) de família pagã.
  • Beneficiou-se de uma educação filosófica pagã no oriente, sendo primeiro aluno de um estoico e depois de um peripatético que exigia pagamento.
  • Afastou-se do peripatético e buscou um pitagórico famoso, mas foi dispensado por falta de conhecimento propedêutico em música, astronomia e geometria.
  • Finalmente, estudou com um platônico proeminente em Neápolis, onde progrediu diariamente e contemplou a espiritualidade do incorpóreo e a visão direta de Deus.
  • Antes de 135, ainda no oriente, o platônico converteu-se ao cristianismo, possivelmente durante a insurreição de Bar Kokhba.
  • Presenciou a devastação da Judeia por Adriano e, antes de imigrar para Roma, já havia visitado a capital uma vez.
  • Retornou a Roma após 135, vivendo acima dos banhos de Mirtino, onde reunia seus alunos e não conhecia outro local de assembleia cristã.
  • Como cristão, manteve o manto de filósofo, reconhecível na rua pelo pálio, sandálias leves, cajado e barba de bode.
  • Sofreu martírio sob o prefeito romano Júnio Rústico (163-168 d.C.), e suas duas Apologias datam da década de 150, sendo o Diálogo o mais tardio dos três escritos.

INFORMAÇÕES HISTÓRICO-SOCIAIS INDIRETAS: COMPONENTES DA EDUCAÇÃO

A lista autobiográfica de experiências educacionais em Diálogo 2 pode ser verificada pelos componentes da educação presentes nos escritos de Justino.

  • A enumeração de professores filosóficos de diferentes procedências não é apenas convenção literária, pois a educação eclética era parte da “vida real” no período de Justino.
  • Ao contrário da convenção literária, Justino não afirma ter tido vários professores, mencionando apenas dois (estoico e platônico), com um peripatético por poucos dias e uma admissão reprovada no pitagórico.
  • Esses desvios da norma refletem algo autêntico e pessoal.

EDUCAÇÃO FILOSÓFICO-LITERÁRIA DE JUSTINO

Justino não apenas se refere a poetas, filósofos e escritores pagãos em geral, mas também cita nominalmente vários autores, incluindo Platão, Sócrates, Homero, Pitágoras, Heráclito, Empédocles, Xenofonte, Epicuro, Sótades, Filânis, Arquestrato, Histaspes, a Sibila, Menandro, Musônio Rufo e Corinto, o Socrático.

  • As referências a Platão abrangem pelo menos 11 das 36 obras, um nível claramente acima da pessoa geralmente educada na época imperial.
  • A despeito desse conhecimento acima da média, Justino também utiliza passagens platônicas conhecidas pelos geralmente educados, como o núcleo do Timeu (27A-45A) e a doutrina da imortalidade da alma do Fedro (245C ss.).
  • Os elementos educacionais mais frequentes são platônicos (primeiro) e estoicos (segundo), confirmando a informação direta do Diálogo 2.
  • Qualitativamente, Justino situa-se no campo platônico, apresentando os elementos estoicos do ponto de vista platônico.
  • Justino é atribuído ao Médio Platonismo religioso, embora este não fosse um fenômeno uniforme, e ele não se refere ao Platão original, mas ao Platão visto pelos platônicos contemporâneos.
  • O entendimento de Platão por Justino é tão qualificado quanto o de muitos “platônicos” pagãos de seu tempo, estando no mesmo nível daqueles que se apresentavam com as vestes dos filósofos do Médio Platonismo.
  • Justino ganhou os elementos de sua educação principalmente ouvindo palestras de professores, e não por leitura própria, citando Platão de memória e sem conhecimento do contexto original.
  • Reminiscências de expressões literárias individuais de Platão podem ser explicadas como reminiscências de palestras platônicas orais.
  • Quando dependente de algo escrito, Justino provavelmente usou manuais (como os de Albino ou Apuleio) ou florilégios contendo tópicos e opiniões.

EDUCAÇÃO PAGÃ GERAL

Justino revela uma boa educação pagã geral, com conhecimento frequente de mitologia pagã, cometendo erros apenas ocasionalmente.

  • A mitologia pagã aparece frequentemente: a saga de Mitra, a lenda de Dioniso, a saga de Héracles, a saga de Asclépio, as circunstâncias do nascimento de Perseu, as filhas de Zeus (Core e Atena), Zeus e seus filhos, Hermes, Belerofonte, os Dióscuros, os filhos de Leda, Posídon e Pluto, Ariadne, Ganimedes, Cronos e Zeus, Semele, Latona e Apolo, Perséfone, Afrodite e Adônis, Antíope, Tétis e Aquiles, Briseis, Deucalião, e o luxo do lendário Sardanapalo.
  • Justino teve acesso a esse material pela leitura de poetas e escritos de historiadores, alcançando sua educação escolar de gramáticos com textos gregos ensinados aos jovens até os dezessete anos.
  • O conhecimento dos mitos corresponde ao conhecimento dos cultos pagãos, incluindo os mistérios de Dioniso e Mitra (imitando o cristianismo), os mistérios de Cibele, os mistérios de Saturno, e os mistérios de Apolo, Perséfone, Afrodite e Asclépio.
  • Justino conhece o papel do asno no culto de Dioniso, os oráculos de Anfiloco, Dodona e Pito, a serpente como símbolo cultual, os ritos de purificação e banho, o costume de erguer estátuas de Perséfone perto de fontes, o culto de Júpiter Latiaris, e o culto do jovem Antínoo (promovido por Adriano).

ELEMENTOS DE EDUCAÇÃO JURÍDICA

Os escritos de Justino demonstram conhecimento de vários princípios e leis romanas.

  • O conhecimento do direito romano inclui a esposa dar carta de divórcio (repudium), a possibilidade de segundo casamento após divórcio ratificado com a primeira esposa ainda viva, e o princípio legal de que a punição destinada ao acusado atinge o caluniador.
  • Lembra a proibição de Tibério de consultar oráculos sobre a vida do imperador ou assuntos políticos, a proibição de Adriano de qualquer judeu pôr os pés na Judeia, e o imposto sobre a moralidade de Calígula.
  • Os termos legais nas Apologias são tomados do processo oficial de petição (a libellis), indicando que Justino escolheu o caminho direto de petição para descriminalizar o nome cristão.
  • Apesar de seu conhecimento judicial, o resultado malsucedido do processo de Justino mostra que a condenação continuava a ser pronunciada simplesmente com base no nome cristão.

CONHECIMENTO GEOGRÁFICO, ETNOLÓGICO E LINGUÍSTICO

Justino demonstra conhecimento de geografia local da Samaria, da Judeia, da Arábia e da Índia (esta como topos literário).

  • Conhecimento da Judeia e Arábia é evidente, e o animal da Índia aparece como topos literário.
  • Justino lia a Septuaginta e possivelmente tinha conhecimento de uma língua semítica.
  • Como romano por escolha, não parecia à vontade com o latim, caracterizando repudium como palavra estrangeira (“como dizeis vós, romanos”).
  • Cometeu um erro ao tornar o rei Ptolomeu Filadelfo (falecido em 247 a.C.) contemporâneo de Herodes, o Grande, e ao confundir Semo Sancus Dius Fidius com Simão Mago em uma inscrição na ilha do Tibre.

HABILIDADE LITERÁRIA DE JUSTINO

Justino não parece possuir habilidade literária excepcional, desviando-se da organização de material que propôs e ficando confuso na sintaxe prolixa.

  • Justino está ciente de suas limitações, afirmando não lutar por uma apresentação totalmente artística por não ter talento para isso.
  • Repete-se continuamente, especialmente no Diálogo, e até repete essa autocrítica, com o Diálogo esvanecendo-se perto do fim em um monólogo.
  • A disposição não sistemática do material não era considerada ofensiva em si, pois digressões eram um recurso retórico, desde que em conexão lógica com o tema principal.
  • O problema está no uso imoderado da técnica digressiva em uma obra do gênero “apologético”, onde se poderia esperar mais de acordo com os requisitos do gênero.
  • A Apologia é um pouco mais estritamente organizada que o Diálogo, contendo jogos de palavras com os nomes e títulos dos imperadores destinatários (eusebes e philosophos).
  • Justino tem senso de humor, como visto nas trocas de golpes com o cínico Crescens, usando trocadilhos mordazes.
  • A falta de linguagem literária classicista (comparado a Taciano) deve-se em parte à época em que cresceu e ao fato de sua educação superior consistir apenas de palestras filosóficas, não de exercícios retóricos.

O PAPEL DE JUSTINO COMO FILÓSOFO

A PRETENSÃO DE SER FILÓSOFO

A educação filosófica de Justino corresponde à sua pretensão de ser entendido e aceito seriamente como filósofo mesmo após tornar-se cristão.

  • Essa pretensão é sinalizada pelo manto de filósofo na rua e pela escolha dos gêneros literários: a Apologia como discurso de petição e o Diálogo na forma dialógica adequada a um ex-platônico.
  • Justino apresenta os profetas do Antigo Testamento como filósofos, afirmando que o Antigo Testamento já fizera uso do diálogo filosófico.
  • Oferece ao leitor filosoficamente interessado uma discussão sobre heimarmene, responsabilidade ética e livre-arbítrio, respondendo às questões éticas primárias daqueles interessados em filosofia.
  • O cristianismo elicia, como a filosofia, piedade e justiça, leva a uma vida feliz, é “certo e proveitoso”, e é até a coroa da filosofia, compreendendo todos os ensinamentos valiosos das filosofias anteriores.
  • Paralelos são traçados entre filósofos e cristãos: Sócrates, Heráclito e Musônio Rufo são comparados aos cristãos perseguidos; os evangelistas escreveram “memoriais” como Xenofonte; os cristãos adoram a Deus com o intelecto.

O QUÃO PREPARADO ESTAVA O AMBIENTE PARA ACEITAR A PRETENSÃO DE QUE O CRISTIANISMO DE JUSTINO ERA FILOSOFIA?

A pretensão de Justino era nova e deve ter parecido ousada tanto para romanos pagãos quanto para cristãos, pois a literatura cristã anterior usava “filosofia” negativamente para sistemas pagãos.

  • Galeno, médico renomado, foi o primeiro entre os pagãos a comparar cristãos e filósofos, concedendo que o cristianismo, com base em seus altos padrões éticos, era uma escola “filosófica”.
  • Celso evitou designar os cristãos como filósofos, mas seu ensaio mostra a filosofia em crescente competição com o cristianismo.
  • Luciano pôde rotular Jesus como sofista e a doutrina cristã como sabedoria, e Taciano verifica que pessoas proficientes em grego se ocupavam com o cristianismo.
  • Tertuliano confirma que o manto de filósofo incorporava não apenas uma pretensão dos apologetas, mas partes do mundo pagão consideravam o cristianismo um tipo de filosofia (“philosophiae genus”).
  • O reconhecimento do cristianismo como “filosofia” não era surpreendente na situação intelectual da época, onde ecletismo, tons religiosos e tradições orientais haviam se tornado bastante aceitáveis para a filosofia.

EM QUAIS RELAÇÕES SOCIAIS JUSTINO VIVEU?

CONTATO COM FILÓSOFOS PAGÃOS

Justino, o filósofo, toma posição em uma discussão escolar platônica corrente sobre se o mundo veio a existir, fazendo isso como cristão.

  • Em Roma, Justino entra em discussões orais com filósofos pagãos, sendo a disputa com o cínico romano Crescens a única exemplo extant.
  • Crescens criticava publicamente o cristianismo para divertir a plebe, e ambos os filósofos discutiram tão violentamente em público que Justino imaginou que as autoridades imperiais poderiam ter ouvido essas “conversas”.
  • O conteúdo da disputa tratava pelo menos parcialmente de ética e da questão da motivação para as ações, o que dominava o empreendimento filosófico contemporâneo.
  • O prefeito da cidade, Rústico, um estoico que influenciou Marco Aurélio, dirige-se a Justino como estudioso, apela a ele como “chamado douto” e envolve-o em um intercâmbio de palavras sobre a imortalidade da alma (inclusive o termo estoico ekpyrosis).

A ESCOLA DE JUSTINO

Em Roma, ouvintes e estudantes reuniam-se em torno de Justino, e pelo menos dois alunos são conhecidos por nome: Taciano (da Assíria) e Euelpisto (um escravo imperial da Capadócia).

  • De acordo com os Atos, Justino e Euelpisto, juntamente com outros cinco cristãos (uma mulher, Carito, e quatro homens), foram presos e levados diante do prefeito por se recusarem a oferecer sacrifício.
  • O prefeito pergunta aos réus se Justino os tornou cristãos, considerando-o o cabeça do grupo, e nada impede identificar todo o grupo como o círculo de estudantes de Justino.
  • Apenas as moradias de Justino “acima dos banhos de Mirtino” eram conhecidas pelas autoridades como local de reunião do grupo.
  • Justino instruía gratuitamente (sem pagamento), criticando o professor peripatético que exigia dinheiro, e a questão de sua subsistência (meios privados, presentes ocasionais de alunos, trabalho manual) permanece em aberto.
  • Uma analogia pagã para a escola do filósofo cristão Justino são as escolas filosóficas gregas que, na forma de associações religiosas, cultivavam refeições e discussões comuns.

O PAPEL DO FILÓSOFO NA SOCIEDADE DO SEGUNDO SÉCULO

Justino reivindicou o papel de filósofo em um ambiente que estava parcialmente predisposto a essa reivindicação, sendo seu nível de educação igual ao dos filósofos do Médio Platonismo.

  • O papel do filósofo tinha três variantes: educador e conselheiro de indivíduos, professor de ética em escolas abertas ao público, e missionário e pregador popular (sendo a primeira e a terceira adequadas a Justino).
  • Deve-se distinguir entre a origem social de um filósofo (Justino é nascido livre) e o status que um filósofo possuía na sociedade, sendo possível o avanço social por tornar-se filósofo no segundo século.
  • A atividade de um filósofo estava aberta a qualquer classe, do escravo ao senador, e o reconhecimento de alguém vestido com o manto de filósofo em Roma é a questão do status social da “educação” em geral.
  • Nos tempos imperiais, os vários campos da educação tornaram-se cada vez mais estimados socialmente, com César e Augusto concedendo privilégios a professores e a educação em alta demanda.
  • A educação tornou-se um fator social que influenciava o status social, com a filosofia estoica entrando nas fileiras do senado e o patrocínio imperial aos filósofos aumentando.
  • A barba de filósofo tornou-se elegante, e com Marco Aurélio, o próprio filósofo sobe ao trono, testemunhado por Justino ao apelar à autocompreensão filosófica do imperador.
  • O aumento do prestígio das profissões intelectuais distingue-as do trabalho manual, vindo de uma fome por filosofia nas classes altas de Roma, onde a demanda por orientação ética tornou os filósofos conselheiros influentes.
  • O status social de uma atividade no período imperial era conferido pela utilidade (princípio do utilitarismo), especialmente em questões éticas.

A RENDA DE UM FILÓSOFO E A PROIBIÇÃO DE COBRANÇA DE HONORÁRIOS

Se um professor é pago por seus esforços depende de sua origem social, sendo os membros da classe senatorial proibidos de se envolver em trabalho remunerado.

  • Ulpiano (Digesto 50.13) informa que era proibido aos filósofos e juristas, em contraste com retóricos, gramáticos e professores de geometria, tomar medidas para fazer cumprir exigências de honorários.
  • A regulamentação reflete que jurisprudência e filosofia são as ciências mais estimadas, também ensinadas por membros da classe senatorial superior.
  • Não é o honorário em si que é proibido, mas a ação legal para fazer cumprir as exigências de honorários.

FUNÇÃO CATALISADORA DOS APOLOGETAS

Os apologetas cristãos tiveram uma dupla função catalisadora: teológica (infiltração do pensamento filosófico na doutrina cristã) e histórico-social (tornar o cristianismo mais socialmente aceitável).

  • A infiltração do pensamento filosófico pagão no ensinamento cristão, encontrada nos apologetas, é bem conhecida.
  • Porque o cristianismo começou a invadir o mundo social da educação filosófica pagã e a conquistar filósofos, abriu-se a novos modos de pensar.
  • Um cristão que abraçou a profissão educacional da filosofia (da qual faziam parte o ecletismo e o conhecimento de sistemas concorrentes) não pôde deixar de ter influências desses ensinamentos no sistema herdado da doutrina cristã.
  • O trabalho dos filósofos cristãos tornou o cristianismo mais socialmente aceitável, atraindo as camadas sociais mais altas a partir da segunda metade do segundo século.
  • A importância dessa dupla função catalisadora dos Apologistas dificilmente pode ser superestimada.
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