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Vinda de Cristo

ANTONIO ORBECRISTOLOGIA GNÓSTICA

CAPÍTULO 9: ALGUNS FINS DA VINDA DE CRISTO

  • A análise dos fins da vinda de Cristo ao mundo revela uma unidade íntima sob múltiplas fórmulas, que incluem o discernimento de essências, a reunião dos dispersos e a atração dos filhos naturais de Deus.
    • Os setianos, ecoando Mateus 10:34 (“Não vim pôr paz, mas espada”), ensinam que o Salvador veio para “dissociar e separar o que se achava em mistura”, uma diacrisis que garante a criação e permanência do mundo, segundo uma tese já presente em Filão.
    • A exegese de Caifás em João 11,50ss (“para que os filhos de Deus que estavam dispersos os juntasse em um”) é utilizada pelos valentinianos para distinguir entre a “gente” (israelitas psíquicos) e os “filhos de Deus dispersos” (pneumáticos), que são reunidos na unidade por Jesus crucificado.
    • O Evangelho de Felipe e o Evangelho de Eva proclamam o efeito da cruz: “Conheci-me a mim mesma – diz – e me recolhi desde todas as partes e não espalhei filhos ao arconte, senão que desarraiguei as raízes dele e congreguei os membros dispersos (synethexa ta melè ta dieskorpismena) e sei quem sou”.
  • O magistério de Jesus, embora pouco enfatizado pelos grandes gnósticos (que preferiam epítetos como “Intelecto” ou “Verdade”), é compreendido como uma revelação do mistério do Padre e do próprio origem divino do homem, concedendo a gnosis como dom mais precioso.
    • O Evangelho da Verdade (19,18ss) menciona que Jesus “entrou em uma escola, (e) explicou a Palavra em qualidade de Mestre”, mas o termo “didaskalos” arrastra uma conotação hebraica peyorativa para os valentinianos, que o evitam.
    • Nos Atos de João (97), Jesus declara: “Eu te movi a subir a este monte para que ouvisses o que é preciso aprenda um discípulo de (seu) Mestre (para didaskalou), e um homem de (seu) Deus”.
    • Os gnósticos distinguem as etapas do magistério de Jesus antes e depois da ressurreição, reservando a Cristo redivivo a fundação das grandes tradições gnósticas, com alguns atribuindo-lhe dezoito meses para desenvolvê-las após a ressurreição.
  • A atração exercida por Cristo sobre os seres, inspirada em João 12:32 (“E eu, quando for levantado da terra, a todos os atrairei para mim”), é interpretada pelos naasenos e peratas mediante analogias físicas como a do imã com o ferro e a da nafta com o fogo.
    • Os peratas afirmam que o Salvador “atrai novamente, (sacando-o) do mundo, a linhagem perfeita, consubstancial, impressa (com a imagem); e não (atrai) outra coisa (= não divina) embora emitida antes por ela (= serpente = Filho)”.
    • A comparação com a pedra-imã é perfeita para os gnósticos porque ela atrai “as coisas parecidas” (ta homoia) ou “as coisas próprias” (ta oikeia), estabelecendo um parentesco (syngeneia) entre o Logos e os “filhos naturais de Deus” dispersos na matéria.
    • Os peratas utilizam também a analogia da nafta índica, que “de todas partes atrai a si o fogo”, para explicar como o Evangelio (o Salvador) é atraído pelo filho do Magno Arconte da Ogdoada, num processo de comunicação de nociones.
  • A questão do pecado de Adão é abordada pelos gnósticos de forma radicalmente diversa da exegese eclesiástica, uma vez que a desobediência do protoplasto ao demiurgo não constituía pecado, mas um ato de obediência a uma providência superior.
    • Para os gnósticos, Adão, por sua índole espiritual, era superior a Iavé e não lhe devia obediência quando o criador tentava evitar a gnosis; a verdadeira falta foi a separação do anthropos andrógino (Adão = Cristo) e Eva (= Sofia), que deu origem à multiplicação dos filhos na diáspora.
    • O “delito” que provocou a queda da igreja espiritual no mundo é visto como um “delito eclesialmente necessário e benéfico”, origem da multiplicação pessoal dos filhos de Deus, que aguardam a intervenção de Jesus para voltar ao reino da luz.
    • A vinda do Filho ao mundo está, portanto, implicada no designio primeiro de Deus de se revelar ao homem, à margem de todo pecado moral, corrigindo os efeitos de um delito necessário que tornou possível a existência de filhos pessoais capazes da gnosis.
  • A destruição da morte e o combate contra o Thanatos são fins centrais da vinda de Cristo, interpretados pelos gnósticos à luz da diacrisis e da luta entre o Salvador e o inimigo, que se manifesta através dos arcontes e príncipes das trevas.
    • A morte de Cristo, como diacrisis livre e gratuita de si próprio, tem eficácia sobre todas as essências compendiadas em sua pessoa, determinando que, por extensão, todas as substâncias se restituam à sua região de origem.
    • O Logion do Evangelho dos Egípcios (“Hei vindo a desfazer as obras da fêmea (helthon katalysai ta erga tes theleias)”) é interpretado pelos valentinianos como a missão do Varão (Cristo) de corrigir e endireitar a obra de Sofia, que insere o espírito no mundo em estado de corruptela e morte.
    • A “katálousis” das obras da fêmea não é uma condenação da geração, mas a transformação do movimento descendente (da luz à ignorância) em ascendente (da ignorância ao conhecimento), completando a obra de Sofia que rompe a unidade do espírito para multiplicá-lo e habilitá-lo à iluminação.
  • A consumação da filiação divina do homem é apresentada como um dos fins mais delicados da vinda de Cristo, especialmente entre os valentinianos, que distinguem entre o pneuma feminino (filho natural mas amorfo, de Sofia) e o pneuma masculino (filho do tálamo, configurado por Cristo).
    • O Evangelho segundo Felipe afirma: “O Padre faz um Filho, e o Filho não pode fazer filhos, pois quem foi engendrado não pode engendrar. Mas o Filho adquire para si irmãos, não filhos”.
    • Heracleon distingue entre filhos “por natureza” (physei) e filhos “positivamente” (thesei), explicando que os psíquicos podem se fazer “filhos adotivos” do Salvador ou do diabo por vontade e mérito, enquanto os pneumáticos são filhos naturais de Deus antes mesmo da gnosis.
    • A gnosis concedida por Jesus transforma o pneuma feminino (em regime de ignorância e dependência da psique) em pneuma masculino, que passa a viver e a agir como o Noûs de Deus, contemplando diretamente o Padre.
    • A iluminação salvífica não muda o pneuma substancialmente (kat'ousian), mas qualitativamente (kata gnosin): de “filhos da lua” (dependentes da criação) passam a “filhos do sol” (orientados imediatamente à contemplação), recebendo de Cristo o vigor que ele possui enquanto Noûs divino.
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