Reincorporações
ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 34: ASCENSÃO E REINCORPORAÇÕES
A ascensão de Cristo, conforme determinadas famílias gnósticas, põe termo à metensomatose (reincorporação ou transmigração das almas de um corpo a outro), fenômeno que muitos filósofos e povos antigos admitiam e que os gnósticos justificavam com base em passagens escriturísticas.
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O termo mais antigo para designar a doutrina, embora não muito próprio, seria o de palingenesia (paliggenesia), como atesta Servio ao comentar que “Pitágoras não a chama de metempsicose, mas de palingenesia”.
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O vocábulo metempsicose (metempsychosis) foi pouco usado entre os gregos e ignorado pelos gnósticos, sendo que o termo metensomatose (metensomatosis) alcançou maior popularidade entre os basilidianos e na pluma de sectários e não sectários.
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Santo Irineu atribuiu erroneamente a invenção da doutrina da transmigração a Platão, enquanto Clemente de Alexandria, seguindo testemunho de Filolau, apontou com mais acerto para os antigos teólogos (órficos) e vates.
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Tertuliano e Orígenes trataram com verdadeira amplitude do tema da metensomatose no tratado “De anima”, e Clemente de Alexandria havia querido estudá-lo, mas não chegou a escrever a obra.
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Os escritos pseudoclementinos acomodam a doutrina da transmigração à sua teoria das formas de aparição do “Verus propheta” ao longo do Antigo Testamento, sendo melhor assimilada pelos elquesaitas.
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Plotino denunciou a metensomatose entre os gnósticos, acusando-os de tê-la tomado de Platão ao mencionar “os juízos, e os rios do Hades, e as transmigrações (hai metensomatoseis)”.
Os simonianos simpatizaram com a reincorporação, ensinando que Ennoia (a primeira ideia pessoal do Deus supremo) andou errante de um corpo a outro de mulher, reaparecendo na Helena de Troia séculos antes de Simão a encontrar em sua homônima de Tiro.
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Irineu relata que Ennoia (Helena) foi incluída em um corpo humano e transmigrou através dos séculos como de vaso em vaso para outros corpos femininos, tendo estado também naquela Helena por cuja causa se contraiu a guerra troiana.
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A metensomatose simoniana representava o “erro” (plane) ou perdição dos homens, caídos do reino da unidade ao mundo da diáspora, e o Salvador (Filho de Deus) vem para salvar a ovelha perdida, que, uma vez salva do erro, não voltará de um corpo a outro.
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Simão apresentava-se como o verdadeiro Salvador da “ovelha perdida” a que aludia Jesus, sob o pretexto de que Jesus passava por filho do Criador ou simples Messias, enquanto ele (Simão) era o Intelecto divino, Unigênito do Pai, único capaz de redimir Helena (a Igreja) do erro e da ignorância do verdadeiro Deus.
Segundo Carpócrates, as almas devem experimentar tudo (in omni vita et in omni actu fieri) antes de se elevarem ao Deus supremo, e, como na prática são necessárias várias vidas para agotar as experiências, daí a necessidade da reincorporação até que o último quadrante seja pago.
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Irineu relata que Carpócrates e seus seguidores interpretavam a parábola de Mateus 5:25-26 (sobre o adversário, o juiz e a prisão) como uma descrição do processo de transmigração: o adversário (um dos anjos do mundo, chamado diabo) leva as almas ao príncipe (o primeiro dos fabricadores do mundo), que as entrega a um anjo ministro para que as inclua em outros corpos, considerando o corpo como uma prisão.
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Carpócrates ensinava que a alma não sai do poder dos anjos que fabricaram o mundo enquanto não tiver experimentado toda e qualquer operação que há no mundo, sendo então traspassada de corpo em corpo (transcorporatum semper) até que, nada lhe faltando, sua alma é liberada para aquele Deus que está acima dos anjos fabricadores do mundo.
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O gnóstico se levanta sobre as categorias de bem e mal, e a transmigração das almas não obedece a castigo por falta precedente, mas sim à necessidade de agotar todas as experiências, podendo-se em tese passar por todas em uma só vida (in uno adventu) ou em várias.
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A morte e os atos da vida de Jesus têm valor normativo, ensinando o caminho para desprezar o regime judaico (do criador e seus arcontes) e superar as paixões, mas não põem fim à reincorporação para todos, pois os que renunciam ao benefício da saúde trazida por Jesus continuam escravos de Iahweh e sujeitos à metensomatose.
Basílides e seus discípulos também ensinaram a reincorporação, recorrendo a passagens como Romanos 7,9a (“eu vivia outrora sem lei”) e Deuteronômio 5:9 (“Deus paga até a terceira e quarta geração aos incrédulos”) para demonstrar a preexistência da alma em corpos bestiais e a necessidade das reencarnações como castigo.
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Orígenes, comentando Romanos 7,9a, relata que um herege (Basílides) interpretou o “eu vivia outrora sem lei” como referência a um período anterior à vinda do alma ao corpo atual, em que ela vivia em uma espécie de corpo não sujeito à lei (de animal ou ave).
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Clemente de Alexandria testemunha que Basílides, citando Jó 14:4 (“nenhum homem há puro de mancha”), supunha que a alma, por ter cometido pecado em outra vida anterior, sofre aqui castigo: a alma eleita o sofre com honra mediante o martírio, e as demais são purificadas com castigo apropriado.
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Os Excerpta ex Theodoto (28) indicam que os basilidianos entendiam a passagem de Deuteronômio 5:9 (“Deus paga até a terceira e quarta geração aos incrédulos”) como uma alusão às (re)encarnações (kata tas ensomatoseis).
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Orígenes, em sua obra “Ser. in Matth.”, afirma que os discursos de Basílides ensinam que não há outras penas para os pecados senão as transcorporações das almas após a morte (non esse alias peccatorum poenas nisi transcorporationes animarum post mortem).
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A doutrina basilidiana das reencarnações até “a terceira e quarta geração” (epi triten kai tetarten genean) abrangeria todo o evo do demiurgo durante o Antigo Testamento, cessando o fenômeno com a vinda do Salvador e o anúncio do regime de fé e conhecimento no Pai.
Os docetas de Hipólito descrevem o demiurgo como um “deus ígneo” (ho pyroeides theos) que, tendo por essência as trevas, estava sempre insultando os caracteres eternos de luz divina, causando grande desconcierto entre as almas até a aparição do Salvador.
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Hipólito relata que, segundo os docetas, antes da vinda do Salvador havia muito desconcierto (polle tis en plane) das almas por obra do demiurgo, sendo as almas (as ideias resfriadas por se separarem das de cima) custodiadas por ele e mudando de uns corpos para outros (ek somaton eis somata).
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Os docetas alegavam dois testemunhos bíblicos em favor das reincorporações: um de Jó (“Eu mesmo ando errante e passo de um sitio a outro e de uma casa a outra”) e outro do Evangelho (Mateus 11:14-15: “E se quereis recebê-lo, é pessoalmente o Elias que há de vir”).
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A partir do Salvador, segundo os docetas, cessou a reincorporação (apo de tou soteros pepautai he metensomatosis), e é anunciada a fé para perdão dos pecados, acabando o domínio do demiurgo sobre as almas.
Os ofitas de Irineu explicam o término da metensomatose por meio da “sessio a dextris” do Cristo animal à direita de seu pai Jaldabaote, que lhe permite receber as almas santas e enervar o demiurgo.
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Irineu relata que, após a ascensão, Jesus foi recebido no céu, e Cristo (animal) sentou-se à direita do pai Jaldabaote para receber em si as almas daqueles que conheceram Jesus e Cristo, após o depósito da carne mundana, enriquecendo-se a si mesmo, com o pai dele (Jaldabaote) ignorando e nem sequer vendo.
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O Cristo sentado à direita de Jaldabaote atua como instrumento de Jesus, enervando o demiurgo e lhe tirando a virtude sobre as almas, de sorte que Jaldabaote já não terá as almas santas para enviá-las de novo ao século (ut rursus demittat eas in saeculum), mas somente aquelas que são de sua substância (as do sopro).
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A metensomatose, signo do domínio e cativeiro da ignorância e do demiurgo, desaparece para os crentes (as almas daqueles que reconheceram Jesus e Cristo), enquanto as almas incrédulas (que procedem do sopro do criador e não reconhecem Jesus por Filho do verdadeiro Deus) continuam sujeitas ao ciclo de gerações.
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A fórmula dos ofitas “uti in quantum Iesus semetipsum ditat in sanctis animabus, in tantum pater eius in detrimentis factus deminoretur, evacuatus a virtute sua per animas” expressa o antagonismo entre o reino da abundância (Jesus que se enriquece com as almas santas) e o reino da penúria (Jaldabaote que se vê esvaziado de sua virtude).
A “Pistis Sophia” (provavelmente os ofitas de Irineu) desenvolve uma exegese detalhada de Mateus 5:25-26 para explicar o processo da reincorporação após a vinda de Cristo, mas sob o controle da Virgem da luz.
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No processo descrito pela “Pistis Sophia”, quando a alma sai do corpo e vai pelo caminho com o espírito falsário (antimmon pneuma) e não deu com o mistério para romper os laços e selos, então o espírito antimmon conduz a alma à Virgem da luz (o verdadeiro juiz), que a submete a prova.
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Se a Virgem da luz acha que a alma pecou e não deu em si com os mistérios da luz, a consigna a um de seus paralemptai (psicopompos), que a conduz e a arroja a seu corpo correspondente, não saindo das mutações (metabole) do corpo até que tenha pago o último siclo (koklos).
Os basilidianos e os valentinianos oferecem duas interpretações distintas de Deuteronômio 5:9 para explicar a sorte dos homens antes do advento de Jesus, recorrendo respectivamente às reencarnações e aos “três lugares sinistros”.
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Os basilidianos invocam as (re)encarnações (kata tas ensomatoseis) como meio de ter os homens sujeitos ao mundo material e a suas leis, explicando que Deus paga até a terceira e quarta geração aos incrédulos.
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Os valentinianos, por sua vez, afirmam que a cláusula “até a terceira e quarta geração” significa os três lugares (treis topois) sinistros do mundo infralunar (estratos dos elementos físicos, da alma irracional e dos espíritos materiais), enquanto pela “quarta geração” se denotam as sementes dos espirituais, e “faz misericórdia por milhares” alude às regiões destras (ta dexio).
A conclusão do capítulo estabelece que, ao sentar-se à direita de Iahweh, Cristo (animal) inaugura um novo regime durante o Novo Testamento, contrário ao que imperava até então, terminando com a “reincorporação” e liberando do “ciclo da geração” todos os que creram no Evangelho de Jesus.
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Durante o Antigo Testamento, Iahweh vinha apoderando-se, após a morte, de todos os homens (paganos e israelitas, bons e maus), obrigando-os a tomar novamente um corpo (ao menos humano) na terra, de geração em geração, sem esperança de romper a cadeia da gênese.
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O Cristo sentado à direita de Iahweh, com domínio sobre ele, libera todos os devotos do Evangelho da Verdade, de sorte que nenhum dos que tenham professado Deus ao Pai e Salvador ao Filho Unigênito incorrerá no círculo fatal de gerações, livrando-se em sua viagem póstuma das mãos de Iahweh para ir às mãos de Cristo.
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Os incrédulos (que se obstinam nas antigas crenças e perseveram em render culto a Iahweh como único verdadeiro Deus) continuarão o regime do Antigo Testamento, reencarnando-se após a morte de um corpo a outro, sujeitos aos caprichos de Iahweh e alimentando neste mundo a multidão de seus adoradores por meio da metensomatose.
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A escatologia sectária, que requer estudo aparte, serviu-se da exegese de textos como Mateus 5:25-26 e Deuteronômio 5:9 para definir a sorte das almas em um e outro Testamento, reabilitando a figura do Messias frente ao demiurgo Iahweh, que fica destituído do governo sobre o cosmos e enervado em sua Lei e nos planos correlativos de justiça.
