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Protoevangelho de Tiago
Madeleine Scopello. Les évangiles Apocryphes - Nouvelle édition Revue et Augmentée. 1st ed ed. Québec: Presses de la Renaissance, 2017.
- O Protevangelho de Tiago circulou amplamente no Oriente cristão por meio de ao menos cento e cinquenta manuscritos gregos, os mais antigos dos quais remontam ao século IV, sendo traduzido em várias línguas e exercendo papel significativo na liturgia mariana, enquanto no Ocidente foi rejeitado sob alegação de incompatibilidade doutrinária.
- O decreto de Gelásio, do século VI, registra a exclusão formal do texto no Ocidente
- Nenhuma versão latina foi encontrada até hoje
- O título atual foi atribuído pelo humanista Guilherme Postel, que publicou uma tradução latina em 1552
- A autoria é atribuída a Tiago, irmão do Senhor
- O título original era A Natividade de Maria
- Os eventos narrados precedem os relatados pelos evangelhos canônicos de Mateus e Lucas
- Maria é a personagem central — sua existência, desde a concepção, é marcada pelo selo do divino
- A vida da mãe prepara a do filho, e a trajetória de pureza permite ao leitor apreender o mistério da encarnação de Jesus no corpo de uma jovem
- O escrito foi provavelmente composto para responder a polêmicas sobre o nascimento virginal de Jesus, oriundas tanto do meio judaico quanto do meio pagão
- O papel do Protevangelho de Tiago na constituição da piedade mariana foi essencial
“Ela era nutrida pela mão de um anjo…”
- A narrativa inaugura-se com o anúncio de que o nascimento de Maria decorre de intervenção divina, pois Ana, sua mãe, esposa do rico Joaquim, era estéril e suas súplicas a Deus haviam permanecido sem resposta.
- Maria nasce no sétimo mês de gestação, o que constituía, no mundo judaico e na Antiguidade em geral, sinal de uma destinação excepcional, e toda a sua primeira infância é marcada por prodígios.
- Maria dá os primeiros passos aos seis meses
- Ana decide impedir a filha de caminhar até sua apresentação no Templo de Jerusalém
- A câmara da criança é transformada em santuário para que nenhum contato impuro a manche
- Aos um ano, Maria é apresentada no Templo e depois devolvida à casa dos pais
- Aos três anos, Ana e Joaquim cumprem a promessa feita e levam Maria ao Templo para que ali permaneça, acompanhada de um enxame de jovens com lamparinas acesas para que ela não fosse tentada a voltar.
- O sumo sacerdote do Templo a recebe e a abençoa com as seguintes palavras: “O Senhor Deus exaltou teu nome em todas as gerações e em ti, nos últimos dias, o Senhor manifestará a redenção aos filhos de Israel” — Protevangelho de Tiago 7, 2, tradução de A. Frey, em Escritos Apócrifos Cristãos, tomo I, organizado por F. Bovon e P. Geoltrain, Paris, Gallimard, coleção Bibliotheque de la Pleiade, 1997, p. 88
- No Templo, tomada pela graça divina, Maria era nutrida pela mão de um anjo
- Ao atingir a puberdade, aos doze anos — número simbólico que reaparece na vida de Jesus e na de outros fundadores de religiões —, os sacerdotes deliberam sobre o futuro de Maria, e um anjo ordena ao sumo sacerdote que convoque todos os viúvos do povo para que Deus indique aquele que deve desposá-la.
- A escolha recai sobre o velho José, carpinteiro de ofício, que acolhe Maria sob sua guarda com certa relutância diante da responsabilidade
- Enquanto José parte para seus trabalhos, Maria permanece em sua casa fiar um magnífico véu destinado ao Templo
- As cores do trabalho foram sorteadas entre as virgens de Israel escolhidas para essa tarefa
- Maria recebeu a púrpura e a escarlate — duas cores que simbolizam a realeza
A anunciação do anjo
- Certo dia, ao sair de casa para buscar água, Maria ouve uma voz misteriosa — é o anjo da anunciação.
- O relato do Protevangelho de Tiago narra o episódio nos seguintes termos: “Maria tomou sua bilha e saiu para tirar água. E eis que uma voz lhe disse: Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo, tu és bendita entre as mulheres. E Maria olhava para a direita e para a esquerda para ver de onde vinha essa voz. E toda tremendo, entrou na casa e, depois de ter depositado a bilha, tomou a púrpura, sentou-se em sua cadeira e começou a fiar. E eis que um anjo se pôs diante dela, dizendo: Não temas, Maria, pois encontraste graça diante do Senhor de todas as coisas. Conceberás de Sua Palavra. E Maria, tendo ouvido essas palavras, pôs-se a meditá-las em si mesma: Conceberei eu, do Senhor Deus vivo, da mesma maneira que toda mulher dá à luz? E eis que um anjo se pôs diante dela, dizendo-lhe: Não assim, Maria; pois o poder de Deus te cobrirá com sua sombra. Por isso o ser santo que vai nascer será chamado filho do Altíssimo. E darás a ele o nome de Jesus, pois é ele quem salvará seu povo de seus pecados. E Maria disse: Eis a serva do Senhor diante dele. Que me seja feito segundo tua palavra” — Protevangelho de Tiago 11, 1-3, Escritos Apócrifos Cristãos, I, p. 92-93
- O relato da anunciação no Evangelho de Lucas oferece um paralelo canônico ao texto apócrifo.
- Lucas narra o episódio nos seguintes termos: “O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem prometida em casamento a um homem da casa de Davi, chamado José. O nome da virgem era Maria. O anjo entrou e lhe disse: Salve, cheia de graça! O Senhor está contigo; tu és bendita entre todas as mulheres. Ela, ao ouvir essas palavras, ficou perturbada e se perguntava o que poderia ser aquela saudação. O anjo lhe disse: Não temas, Maria, pois encontraste favor junto a Deus. Conceberás e darás à luz um filho ao qual darás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, reinará para sempre sobre a casa de Jacó e seu reinado não terá fim. Maria disse ao anjo: Como será isso, uma vez que não conheço homem? O anjo lhe respondeu: O Espírito Santo virá sobre ti e a sombra do poder do Altíssimo te cobrirá; por isso o filho que nascerá será chamado filho de Deus” — Evangelho de Lucas 1, 26-35
- De volta de suas viagens, José encontra Maria grávida de seis meses e se lamenta por acreditar que ela tivera relações com um homem, mas um anjo lhe revela a verdade, após o que José decide partir rumo ao recenseamento ordenado por Herodes na Judeia, sem saber como inscrever Maria — se como esposa ou como filha.
- José sela seu jumento e faz Maria sentar-se nele
- Sentimentos contraditórios habitam Maria, triste e alegre alternadamente
Jesus nasce em uma gruta
- No meio do caminho, as dores do parto acometem Maria e José a faz descer do jumento, descobrindo por fim uma gruta onde a instala, deixando-a sob a guarda de um de seus filhos enquanto parte em busca de uma parteira judaica.
- O motivo da gruta associado ao nascimento de Jesus, retomado por numerosos artistas medievais, funda-se nas tradições do Protevangelho de Tiago
- Textos posteriores inspiraram-se nessa tradição para enriquecer o episódio
- Ao retornar com a parteira, José vê a gruta envolta em uma nuvem luminosa, e o relato descreve o nascimento de Jesus como um evento de luz sobrenatural.
- O texto narra: “E imediatamente a nuvem se retirou da gruta e uma grande luz apareceu no interior da gruta, a ponto de os olhos não poderem suportá-la. E pouco a pouco essa luz se retirava até que apareceu um recém-nascido; e ele veio mamar no seio de sua mãe Maria” — Protevangelho de Tiago 19, 2, Escritos Apócrifos Cristãos, I, p. 99
- Deslumbrada, a parteira sai da gruta e conta a uma certa Salomé o prodígio ao qual acabara de assistir — o parto de uma virgem
- Salomé recusa-se a crer e examina Maria para verificar se ela é de fato intacta, mas sua mão é devorada pelo fogo
- Reconhecendo seu erro, Salomé eleva uma súplica a Deus
- Ao proclamar que Jesus é o rei que Israel aguardava, Salomé é instantaneamente curada
- O episódio da vinda dos magos à gruta, guiados por uma estrela, é narrado no Protevangelho de Tiago com certa sobriedade, sem que os nomes dos magos sejam mencionados, embora os presentes que trazem sejam registrados.
- Os presentes mencionados são ouro, incenso e mirra
- O episódio é relatado nos evangelhos canônicos por Mateus (2, 7-12) e por Lucas (2, 15-21)
- Textos posteriores enriqueceram esse episódio a partir da tradição inaugurada pelo Protevangelho de Tiago
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