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ESCATOLOGIA
Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
Capítulo IV: Escatologia realizada
1. Escatologia no Antigo Testamento
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A escatologia judaica apocalíptica desenvolveu-se como esperança última de um povo oprimido diante do juízo divino contra o mundo e contra seus opressores.
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A escatologia é entendida como especulação sobre as últimas coisas, isto é, sobre o fim do mundo.
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A crença no fim do mundo parece nascer da revolta e do desespero de um povo submetido a um inimigo excessivamente poderoso.
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Em Daniel, depois da queda sucessiva dos quatro impérios simbolizados por feras selvagens, o povo dos santos do Altíssimo recebe domínio, glória e reino.
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A passagem de Daniel 7:2—27 não implica propriamente o fim do mundo, mas uma transformação enorme das relações de força dentro da história.
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A frase segundo a qual os santos “possuirão o reino para sempre, para todo o sempre” cria a impressão de uma condição para além da vida comum.
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Em Daniel 12:2, muitos ressuscitam, uns para a vida eterna, outros para a vergonha e o desprezo eterno.
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No Livro dos Jubileus, os céus, a terra e toda a criação são renovados para a salvação, a paz e a bênção dos eleitos de Israel.
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Em Jubileus 23,18—32, após a destruição da terra, surge uma espécie de idade de ouro dos justos, com vida longa, juventude permanente, ausência de mal e alegria do espírito após a morte.
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A ideia de ressurreição no Antigo Testamento aparece raramente e muitas vezes se refere mais à restauração da nação do que à ressurreição individual.
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Isaías 25:8 e Ezequiel 37 parecem tratar da ressurreição de Israel como povo.
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Em 2 Macabeus 7,9 e 7,14, assim como em Daniel, já se espera claramente uma ressurreição individual.
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O mundo dos ressuscitados, quer espiritual, quer ainda material e temporal, tende a ser concebido como profundamente novo.
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A transformação das estruturas de poder dentro do mundo acaba unindo-se à ideia de que o mundo conhecido chegará ao fim.
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A escatologia judaica oscila entre uma interpretação imanente do futuro prometido aos justos e uma interpretação mais ou menos transcendente.
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No Antigo Testamento e nas obras apocalípticas pré-cristãs, a interpretação imanente parece predominar sobre a transcendente.
2. A chamada escatologia “futura” nos Evangelhos Sinóticos
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No tempo de Cristo, a interpretação de Daniel exercia grande influência em círculos judaicos hostis ao domínio romano, e Cristo a empregou para exprimir sua fé e sua esperança.
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O “Filho do homem” nos Evangelhos Sinóticos remete quase certamente a Daniel.
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O Filho do homem sofre, é entregue aos inimigos e ressuscita pouco depois.
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Manson pode ter razão ao sustentar que, em alguns ditos de Cristo, o “Filho do homem” representa um grupo, como em Daniel.
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Em certos casos, essa expressão pode designar Israel, especialmente os pobres e humildes, ou ainda os pobres, mansos, aflitos e perseguidos em todo o mundo.
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Nas Bem-aventuranças, o Reino é prometido justamente aos pobres, humildes, mansos, aflitos e perseguidos.
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Cristo aplica a si mesmo essa designação porque as provações esperadas para o Filho do homem recaíam sobre todos os que compunham essa figura coletiva, e especialmente sobre ele próprio.
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O Reino prometido por Daniel ao povo dos santos é ao mesmo tempo reino dos santos e Reino de Deus.
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A expectativa de libertação de Israel imaginava que um dia Deus reinaria sozinho sobre seu povo.
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Ao adotar as previsões de Daniel, Cristo parece ter transformado profundamente seu significado.
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O juízo anunciado por Cristo afasta-se do nacionalismo apaixonado de Daniel e das revoltas galileias, assumindo sentido moral e talvez social.
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João Batista já havia afirmado que Deus julgaria não apenas os povos, mas cada pessoa individualmente segundo seus atos.
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Cristo distingue indivíduos dentro dos povos, em vez de prometer felicidade e glória a Israel como totalidade nacional.
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O Reino traz alegria e glória aos pobres e mansos, não necessariamente a todo Israel enquanto Israel.
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Ao expulsar os vendedores do Templo, Cristo recorda que o Templo deveria ser casa de oração para todas as nações.
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Cristo parece mais impressionado pelas perseguições sofridas pelos profetas por parte de seus concidadãos do que pela opressão romana sobre Israel.
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Seus adversários aparecem com mais frequência como sacerdotes e escribas do que como romanos.
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Embora os sacerdotes de Jerusalém fossem vistos por patriotas como colaboradores dos romanos, a crítica de Cristo contra eles não parece depender dessa colaboração.
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O Reino anunciado por Cristo frequentemente ultrapassa de modo mais claro este mundo, de maneira que sua escatologia assume sentido propriamente transcendente.
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A existência no Reino parece destacada das condições terrestres.
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Em Marcos 12:25 e paralelos, homens e mulheres serão como anjos no céu e não se casarão.
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Em Marcos 10:30 e paralelos, no “século vindouro” recebe-se “vida eterna”.
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Permanece discutido se essa vida futura seria apenas da alma.
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Alguns intérpretes consideram que, para Cristo, como para o pensamento judaico em geral, a vida da alma seria inseparável da vida do corpo.
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Em Lucas 23:43, as palavras dirigidas ao bom ladrão parecem implicar que a alma pode sobreviver sem o corpo.
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Em Marcos 12:25 e paralelos, o dito sobre a mulher que teve sete maridos parece sugerir que na vida futura já não haverá corpo: “Pois, quando ressuscitarem dentre os mortos, nem se casarão nem serão dados em casamento, mas serão como anjos nos céus”.
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Nesse ponto, Cristo parece talvez mais próximo da ideia grega da imortalidade da alma do que da ideia judaica e cristã da ressurreição do corpo.
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A vida do século vindouro aparece como tão diferente da vida presente que pode ser compreendida como outro mundo.
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A passagem do século presente ao século futuro parece envolver catástrofes que constituem uma espécie de morte do mundo.
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Em Marcos 13:24—25 e paralelos, o sol e a lua se obscurecem e as estrelas caem do céu.
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Essa imagem pode ser apenas simbólica, como nos profetas.
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Alguns exegetas suspeitam que esse tipo de apocalíptica não provenha do ensino autêntico de Cristo.
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Em Marcos 13:31 e paralelos, a afirmação “O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão” poderia pertencer ao próprio Cristo.
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O Reino predito difere tanto do século presente que pode ser chamado de outro mundo.
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Nos Sinóticos há uma escatologia orientada para o futuro, inspirada pelo Antigo Testamento e especialmente por Daniel, mas com esperança nacional enfraquecida e transcendência acentuada.
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Essa escatologia pode ser chamada, de modo abreviado, escatologia futurista.
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O caráter nacionalista da esperança aparece atenuado.
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O caráter transcendente do novo mundo aparece intensificado.
3. Escatologia realizada nos gnósticos
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A escatologia futurista provém do judaísmo, ao passo que o pensamento grego tende a deslocar a esperança para uma ordem superior, não para o fim da história.
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Certos elementos da escatologia judaica foram modificados no cristianismo.
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Os gregos pouco esperavam do tempo ou da história.
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Para eles, o tempo era cíclico e sempre conduzia às mesmas coisas.
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Muitas vezes, o curso do tempo parecia declínio, não progresso.
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A idade melhor e mais feliz, a idade de ouro, era situada no começo do tempo.
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Filósofos da escola platônica pensavam em níveis do mundo e da humanidade, e não em etapas sucessivas orientadas a um fim ideal.
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Para esses filósofos, o ideal estava acima, não no fim.
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Aristóteles parece conceder maior importância ao tempo, mas continua a situar a perfeição no princípio, aproximando-se nesse ponto do platonismo.
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A doutrina aristotélica segundo a qual os seres existem primeiro “em potência” e depois “em ato” poderia sugerir progresso temporal.
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A teoria aristotélica da história também poderia parecer compatível com algum progresso no tempo.
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No entanto, Aristóteles ensina que, no princípio, o ato é anterior à potência.
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Desse modo, também ele coloca a perfeição no começo.
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Os gnósticos aproximam-se da concepção grega ao descreverem o mundo por divisões espaciais ou níveis, mais do que por períodos históricos sucessivos.
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Van Baaren observa que a representação gnóstica do mundo é marcada por divisões espaciais, isto é, por níveis.
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Os gnósticos ensinam, em geral, que há estágios no mundo e no ser humano, conforme a terminologia de Alain.
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A realidade é concebida como reinos sobrepostos e hierarquia vertical, não como história horizontal conduzida ao Reino de Deus.
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A história e a consumação final ainda existem em muitas doutrinas gnósticas, mas não constituem o essencial.
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Um dos primeiros temas gnósticos atestados afirma que a ressurreição prometida aos justos não é futura, mas já ocorreu na vida presente para aqueles que têm fé ou conhecimento.
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A Segunda Epístola a Timóteo denuncia essa ideia como erro de certos hereges.
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As chamadas epístolas pastorais — as duas a Timóteo e a epístola a Tito — geralmente não são consideradas paulinas.
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Essas epístolas parecem ter sido escritas no fim do primeiro século, ou talvez no início do segundo.
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O autor da Segunda Epístola a Timóteo condena conversas descritas como “tagarelice ímpia”.
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Himeneu e Fileto, aparentemente cristãos de Éfeso, são denunciados por terem “se desviado da verdade, afirmando que a ressurreição já aconteceu” em 2 Timóteo 2:17—18.
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Himeneu e Fileto podem ser reconhecidos como gnósticos muito antigos, ou ao menos muito próximos do gnosticismo.
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A ressurreição já passada implica que a verdadeira ressurreição é espiritual e resulta da fé verdadeira ou do conhecimento.
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Essa concepção corresponde ao que teólogos chamam de escatologia realizada.
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A escatologia realizada pode ser considerada uma das características da visão gnóstica do mundo e da salvação.
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O mundo gnóstico é estruturado por níveis, nos quais a origem superior ou inferior determina a capacidade de reconhecer a Palavra.
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Está-se acima ou abaixo.
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Vem-se de cima ou de baixo.
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Quem vem de cima permanece, de certo modo, acima.
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A origem superior se reconhece pelo acolhimento e pela compreensão da Palavra.
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Só se compreende aquilo com que se tem semelhança.
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Só se pode tornar aquilo que se é.
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A superação gnóstica do tempo afirma que alguém se torna aquilo que já é ou aquilo que já foi.
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No Evangelho da Verdade afirma-se: “Aquele que de modo algum existiu jamais virá à existência”.
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No Evangelho de Filipe lê-se: “Bem-aventurado aquele que é antes de vir a ser. Pois aquele que é, foi e será…” em 64,10—12.
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Esse pensamento recorda o dito evangélico: “Àquele que tem, mais será dado”, em Marcos 4:25 e paralelos.
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A vida eterna recebida já supõe que o ser era eterno em outro mundo, ou ao menos no pensamento de Deus.
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A ressurreição espiritual gnóstica é apresentada como participação já atual na vida do Salvador, na luz e no céu.
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A carta valentiniana a Regino recorda Paulo: “Como disse o Apóstolo, sofremos com ele, isto é, com o Salvador, e fomos ressuscitados com ele e subimos ao céu com ele”.
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A mesma carta acrescenta: “Revestindo-o, somos seus raios e somos cercados por ele até nosso ocaso, que é nossa morte nesta vida”.
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Ainda na carta a Regino, lê-se: “Somos atraídos ao céu por ele, como raios pelo sol, enquanto nada nos obstrui. Esta é a ressurreição espiritual”.
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A carta também declara: “Separa-te das divisões e dos vínculos, e já possuis a ressurreição” em 49,13—15.
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Tertuliano testemunha que os valentininianos consideravam a ressurreição já realizada em De Praescriptione haereticorum 33,2—7.
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No Evangelho de Filipe lê-se: “Se não receberem a ressurreição enquanto vivem, quando morrerem nada receberão” em 73,3—5.
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Também se lê: “Se alguém não a receber, isto é, a luz, enquanto estiver nestes lugares, não poderá recebê-la no outro lugar” em 86,6—7.
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O paralelismo entre as frases sugere que ressuscitar equivale a receber luz.
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Sobre Cristo, o Evangelho de Filipe afirma: “Aqueles que dizem que o Senhor morreu primeiro e depois ressuscitou estão em erro, pois ele ressuscitou primeiro e depois morreu” em 56,15—18.
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No Evangelho de Tomé, os discípulos perguntam: “Em que dia virá o mundo novo?”, e Cristo responde: “Aquele por quem esperais veio, mas não o reconheceis” em 90,9—12.
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O gnosticismo pode ser compreendido como uma resposta ao fracasso da escatologia futurista, embora essa explicação não seja necessária para todos os sistemas gnósticos.
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Burkitt considera que o gnosticismo talvez tenha tentado resolver o problema criado pela não realização da escatologia futurista.
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Os primeiros cristãos acreditavam viver nos últimos dias do mundo.
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Esperavam que a Parusia, isto é, o retorno glorioso de Cristo, estivesse próxima.
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Com a Parusia, esperavam o colapso do mundo, a ressurreição de todos os mortos e o juízo de Deus.
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Quando esses acontecimentos não se realizaram, alguns cristãos teriam sentido necessidade de modificar crenças anteriores.
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A oposição entre dois períodos teria sido substituída pela oposição entre dois níveis.
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Casey mostrou que os sistemas gnósticos não precisavam necessariamente ter sido construídos para responder a esse problema.
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Mesmo preservando a escatologia futurista em muitas doutrinas, o gnosticismo dá preferência à escatologia realizada.
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A ressurreição mais importante é aquela que pode ocorrer no presente.
4. “Escatologia realizada” no Quarto Evangelho
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A preferência gnóstica pela escatologia realizada provavelmente provém do próprio cristianismo, pois a ressurreição presente aparece em diversas passagens do Novo Testamento.
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A ideia de uma ressurreição presente aproxima o cristianismo do helenismo ao diminuir a importância do tempo.
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A origem direta dessa ideia dificilmente pode ser grega, porque os gregos não falam de ressurreição.
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Nos Evangelhos de Mateus e Lucas, Cristo ensina mais de uma vez que o Reino já veio.
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No Novo Testamento, o Quarto Evangelho destaca a escatologia presente e faz recuar a escatologia futurista.
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A escatologia do Quarto Evangelho é, em grande parte, escatologia realizada.
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Em João, a vida eterna costuma ser pensada como já presente naqueles que têm fé.
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O Quarto Evangelho substitui em grande medida a linguagem sinótica do Reino pela linguagem da vida eterna já presente nos que recebem a verdade.
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Nos Sinóticos, a salvação escatológica é a vinda do Reino ou do Reinado.
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João fala raramente do Reino ou do Reinado.
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João fala antes de “vida eterna”.
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Em João, a vida eterna já está presente naqueles que recebem a verdade.
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Em João 6:47, afirma-se igualmente a vida eterna daquele que crê.
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Em João 5:24, lê-se: “Quem ouve minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna; não entra em juízo, mas passou da morte para a vida”.
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Em João 6:54, lê-se: “Quem come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna”.
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Em João 10:27—28, Cristo diz: “Minhas ovelhas ouvem minha voz… eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão”.
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Em 1 João 5:11—13, lê-se: “Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está em seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida. Escrevo isto a vós que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna”.
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Em João, o juízo final apenas confirma a decisão já realizada pela vinda de Cristo e pela atitude do mundo diante dele.
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O juízo presente é a decisão real.
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João compreende a ideia paulina de que o mundo é julgado pela Crucificação.
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O mundo é julgado como causa da Crucificação e também por sua maneira de compreendê-la.
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Em João 12:31, Cristo diz, quando a Paixão se aproxima: “Agora é o juízo deste mundo”.
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Em João 9:39, Cristo afirma: “Para juízo vim a este mundo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos”.
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O juízo parece consistir no fato de ver ou não ver.
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Em João 3:18, lê-se: “Quem crê nele não é condenado; quem não crê já está condenado”.
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Em João 5:24, quem ouve a palavra de Cristo não entra em juízo.
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Se quem não crê já está julgado e quem crê não está sujeito ao juízo, o juízo futuro parece tornar-se inútil.
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Os ditos joaninos sobre a ausência de juízo para quem crê aproximam-se da ideia gnóstica segundo a qual aquele que possui conhecimento não será julgado.
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Nos mitos gnósticos, os que têm conhecimento atravessam ilesos a Hebdômada após a morte.
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A Hebdômada é o domínio do Deus do Antigo Testamento, concebido como Deus julgador.
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A ideia subjacente a essa mitologia poderia vir diretamente de João.
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Ela também poderia vir de Paulo, para quem aquele que tem fé escapa da destruição do mundo, isto é, do juízo.
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A distinção entre justificação pela fé em Paulo e João e justificação pelo conhecimento nos gnósticos não constitui diferença essencial nas formas mais antigas dessas tradições.
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Em Paulo, João e nos gnósticos mais antigos, fé e conhecimento não aparecem como realidades essencialmente separadas.
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A oposição entre fé e conhecimento não explica adequadamente a diferença entre cristianismo joanino-paulino e gnosticismo primitivo.
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No Quarto Evangelho, a ressurreição final permanece, mas é pensada como antecipada para aqueles que creem ou conhecem.
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Quem crê nasce de novo.
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Em João 3:3, lê-se: “Se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”.
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Quem crê é, de certo modo, ressuscitado.
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Em João 5:24, quem ouve a palavra de Cristo “passou da morte para a vida”.
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Em 1 João 3:14, lê-se: “Sabemos que passamos da morte para a vida”.
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Em João 11:25—26, Cristo diz: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá, e todo aquele que vive e crê em mim jamais morrerá”.
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Em João 10:27—28, as ovelhas de Cristo recebem vida eterna e jamais perecerão.
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Em João 6:48—51, o pão descido do céu permite que alguém coma dele e não morra.
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Em João 8:51, lê-se: “Se alguém guardar minha palavra, jamais verá a morte”.
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As doutrinas de Himeneu, Fileto e Menandro tornam-se compreensíveis quando comparadas ao Quarto Evangelho.
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Himeneu e Fileto afirmavam que “a ressurreição já aconteceu”.
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Menandro, considerado pelos heresiólogos o segundo dos grandes gnósticos, ensinaria que a ressurreição ocorre nesta vida.
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Essa ressurreição seria obtida pelo batismo.
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Aqueles que assim ressuscitam não morreriam mais.
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Justino talvez não tivesse lido o Quarto Evangelho, embora isso seja pouco provável.
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A hipótese de que discípulos de Menandro esperavam não morrer por confiança em sua magia atribui-lhes ingenuidade excessiva.
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É preferível entender que eles interpretavam a promessa de não morrer no mesmo sentido dos cristãos que liam o Evangelho de João.
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A acusação de que Menandro batizava em seu próprio nome não aparece no testemunho mais antigo de Justino.
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Esse batismo significaria adesão a Menandro, não a Cristo.
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Justino é o primeiro a falar de Menandro.
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Justino era samaritano como Menandro e talvez o conhecesse melhor que Irineu.
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Justino nada sabe sobre um batismo em nome de Menandro.
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Justino também não afirma que Menandro se apresentasse como Salvador.
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Em Apologia 1,26, Justino diz que demônios suscitaram homens que se diziam deuses, mas provavelmente tinha em mente apenas Simão.
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Sobre Menandro, Justino sabe apenas que ele persuadia seus discípulos de que não morreriam.
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A doutrina de Menandro sobre a vida eterna pode derivar do Quarto Evangelho ou de um ensinamento oral anterior à sua redação.
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Menandro provavelmente ensinou no fim do primeiro século.
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A vida eterna obtida pela conversão ou pela fé poderia provir do Evangelho de João.
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Também poderia provir de uma tradição oral que precedeu a redação desse Evangelho.
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Himeneu e Fileto, localizados na mesma cidade onde a tradição situa a redação do Quarto Evangelho, poderiam conhecer as ideias de seu autor.
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A atribuição de uma ressurreição já presente a Nicolau sugere outro caminho de transmissão dessa doutrina.
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Hipólito atribui a mesma doutrina da ressurreição a Nicolau.
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Nicolau era um dos sete diáconos eleitos pelo grupo dos cristãos “helenistas” de Jerusalém, segundo Atos 6:5.
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Estêvão, o primeiro mártir, pertencia ao mesmo grupo.
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Segundo Hipólito, Nicolau foi o primeiro a afirmar que a ressurreição já veio, entendendo por “ressurreição” o fato de crer em Cristo e receber o batismo.
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A primeira comunidade cristã da Samaria foi fundada por outro desses diáconos, Filipe.
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Filipe e Nicolau poderiam ter compartilhado muitas ideias.
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Filipe tornou-se uma figura muito apreciada pelos gnósticos.
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Menandro, de origem samaritana, poderia depender dos cristãos da Samaria instruídos pelos “helenistas”, e não diretamente de João.
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João, Nicolau, Menandro, Himeneu e Fileto podem pertencer a um mesmo ambiente de ideias ligado à Samaria, a Éfeso e aos nicolaítas.
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Estudos recentes destacaram vínculos entre o Quarto Evangelho e a Samaria.
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Algumas ideias atribuídas a Nicolau talvez pertençam não a ele próprio, mas a uma seita que o invocava: os nicolaítas.
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A presença dos nicolaítas em Éfeso e na região de Éfeso é atestada pelo Apocalipse 2:6 e 2,15.
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Os nicolaítas poderiam ter sido influenciados pelo autor chamado João.
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Segundo a tradição, João teria atuado em Éfeso.
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Nesse caso, João poderia ser a fonte comum dos nicolaítas, de Menandro, de Himeneu e de Fileto.
5. “Escatologia realizada” em Paulo
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A ideia de que a ressurreição já ocorreu não se limita a João, Nicolau, Menandro ou aos hereges das epístolas pastorais, pois aparece também em Paulo.
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Em Colossenses 3:1, lê-se: “Se, pois, fostes ressuscitados, buscai as coisas do alto, onde Cristo está”.
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Em Colossenses 1:13, lê-se: “Ele nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o reino de seu Filho amado”.
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Em Colossenses 2:12—13, lê-se: “Fostes sepultados com ele no batismo, no qual também fostes ressuscitados com ele pela fé… vós, que estáveis mortos em delitos…, Deus vos deu vida juntamente com ele”.
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A Epístola aos Efésios retoma a mesma ideia.
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Em Efésios, Deus, rico em misericórdia, vivifica os fiéis com Cristo, ressuscita-os com ele e os faz sentar-se com ele nas regiões celestes em Cristo Jesus.
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A Epístola aos Efésios provavelmente não é paulina, mas parece traduzir Colossenses para uma linguagem mais próxima do gnosticismo.
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É possível e até provável que Paulo não tenha escrito Efésios.
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Efésios segue Colossenses de perto nas ideias e na ordem das ideias.
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Justamente por parecer copiar Colossenses e transpor seu conteúdo para outros termos, Efésios dificilmente é autêntica.
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A epístola parece traduzir Colossenses para uma linguagem mais próxima do gnosticismo.
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É mais provável que um cristão gnosticizante tenha interpretado Colossenses para seus companheiros do que que Paulo tenha feito essa tradução.
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Éfeso foi um dos primeiros centros, talvez junto com Corinto, onde surgiram sinais que prefiguravam o gnosticismo.
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Efésios provavelmente não trazia originalmente o nome de seus destinatários.
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A designação “aos Efésios” talvez tenha surgido porque a carta entrou na comunidade de Éfeso.
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Mesmo deixando Efésios de lado, Colossenses e Romanos conservam a ideia paulina de uma ressurreição presente.
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Colossenses tem boa possibilidade de ser autêntica.
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A ideia de ressurreição presente parece estar mais ou menos implícita em Romanos 6.
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Em Romanos, há oscilação entre vida eterna futura e vida eterna já presente.
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R. M. Grant mostrou uma evolução na concepção paulina da escatologia.
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Nas epístolas mais antigas, dirigidas aos Tessalonicenses, aparece apenas a escatologia futurista.
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Em 1 Coríntios, a ressurreição futura ainda é fundamental.
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Em Romanos, escrita mais tarde, a escatologia presente já é evidente.
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Em Colossenses, escrita durante o cativeiro romano de Paulo, a escatologia é em grande parte realizada.
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Essa mudança manifesta-se no gnosticismo e já em João, mas ocorreu ainda durante a vida de Paulo e em seu círculo.
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João talvez apenas tenha formulado o pensamento de Paulo com mais audácia e em outros termos.
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A dimensão realizada da escatologia paulina influenciou outros autores do Novo Testamento.
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Lucas atribui a Cristo palavras que ensinam que o Reino já está presente.
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Na Epístola aos Hebreus, a escatologia futura passa ao segundo plano, como em João.
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Hebreus quase nunca menciona a ressurreição dos mortos.
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Hebreus alude apenas brevemente à segunda vinda de Cristo em 9,28 e 10,37.
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O autor de Hebreus parece pensar que os cristãos já entraram de algum modo no céu.
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Em Hebreus 12:28, os cristãos recebem “um reino inabalável”.
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Em Hebreus 6:5, eles já provaram “os poderes do século vindouro”.
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Mesmo que Efésios não seja de Paulo, ao menos pertence a um discípulo de Paulo.
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A reação contra a ressurreição já realizada revela, dentro do Novo Testamento, a divisão entre uma linha paulina tardia inclinada ao gnosticismo e uma linha que protesta contra essa evolução.
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A Segunda Epístola a Timóteo considera herética a ideia de que a ressurreição já aconteceu.
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Os hereges denunciados dificilmente entendiam a ressurreição de outro modo que Paulo ou João quando falavam de ressurreição espiritual.
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Uma ressurreição já ocorrida só poderia ser uma ressurreição espiritual.
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O autor das epístolas pastorais talvez não conhecesse Colossenses.
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Outra possibilidade é que ele tenha se assustado com o rumo assumido pelo paulinismo e tentado revertê-lo.
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Uma parte dos cristãos deseja prolongar o pensamento paulino tardio e tende ao gnosticismo.
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Outra parte dos cristãos protesta e reage contra essa evolução.
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A Segunda Epístola de Pedro preserva a escatologia futurista e adverte contra interpretações consideradas errôneas das cartas paulinas.
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A Segunda Epístola de Pedro não é autêntica.
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Em 2 Pedro 3:3—10, mantém-se a escatologia futurista.
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Em 2 Pedro 3:16, há advertência contra erros derivados de má interpretação das epístolas de Paulo.
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Os adversários combatidos em 2 Pedro provavelmente são gnósticos.
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A epístola parece bastante tardia, talvez a obra mais tardia do Novo Testamento.
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Esses adversários apelavam para Paulo.
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O autor do Tratado sobre a Ressurreição também recorre justamente aos textos paulinos favoráveis à escatologia realizada.
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Paulo basta para explicar a escatologia realizada de Menandro e do gnosticismo, sem necessidade absoluta de recorrer a João ou Nicolau.
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Himeneu e Fileto talvez fossem simplesmente homens que conheciam Colossenses.
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É até possível perguntar se um deles poderia ser o autor de Efésios.
6. “Escatologia realizada” nos Sinóticos
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Certas passagens dos Sinóticos sugerem que a escatologia realizada pode remontar ainda mais longe, ao próprio ensino atribuído a Cristo.
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Quando Lucas atribui esse ensino a Cristo, pode-se suspeitar de influência paulina.
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Quando Mateus o atribui a Cristo, essa explicação é mais difícil.
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Em Mateus 12:28, Cristo afirma: “Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então o Reino de Deus chegou a vós”.
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Também em Marcos, o mais antigo dos evangelistas, encontram-se traços da presença já atual do Reino.
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Em Marcos 2:5, Cristo diz ao paralítico: “Teus pecados estão perdoados”.
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Em Marcos 2:10, Cristo acrescenta: “O Filho do homem tem autoridade na terra para perdoar pecados”.
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Essa autoridade faz o Filho do homem aparecer como juiz.
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Se o Filho do homem já julga, de certo modo já é rei e o Reino já está realizado.
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A tradição da primeira comunidade de Jerusalém pode ter acentuado elementos futuristas no ensino transmitido de Cristo.
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Alguns estudiosos percebem nos Sinóticos indícios de desenvolvimento progressivo das ideias apocalípticas.
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Esse desenvolvimento talvez tenha ocorrido na tradição elaborada pela comunidade de Jerusalém.
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As concepções escatológicas de Cristo podem ter sido, na realidade, bastante próximas das que o Quarto Evangelho lhe atribui.
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A resposta de Cristo aos saduceus sugere que a ressurreição dos justos desaparecidos já está realizada, e não apenas reservada ao futuro.
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O relato aparece em Mateus, Lucas e Marcos, o mais antigo dos Evangelhos.
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Os saduceus, que não criam na ressurreição, fazem a Cristo uma pergunta embaraçosa sobre a vida futura.
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Em Marcos 12:26—27 e paralelos, Cristo responde: “Não lestes no livro de Moisés, na passagem da sarça, como Deus lhe disse: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó? Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos”.
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Se Abraão, Isaac e Jacó não pertencem aos mortos, mas aos vivos, isso parece implicar que já estão ressuscitados.
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Se apenas fossem ressuscitar um dia, poderia ser dito que por ora estariam mortos e que Deus seria Deus dos mortos.
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O ensino evangélico de Cristo comporta tanto Reino, salvação e ressurreição futuros quanto elementos de escatologia realizada.
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Os Evangelhos certamente atribuem a Cristo a proclamação de um Reino futuro.
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Também atribuem a ele uma salvação futura e uma ressurreição futura.
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João e Paulo mostram que escatologia futura e escatologia realizada não são incompatíveis.
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Mesmo em Colossenses 3:4, Paulo não abandona a escatologia futura.
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João também não renuncia à escatologia futura.
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A oposição entre escatologia judaica e dualismo grego talvez não seja tão profunda quanto se supôs.
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A visão histórica dos judeus e a concepção metafísica dos gregos podem coexistir.
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Em Paulo e João, há simultaneamente ponto de vista histórico e ponto de vista metafísico.
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Não é necessário concluir que haja contradição profunda em seus pensamentos.
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Esses dois pontos de vista não se excluem mutuamente e podem ser facilmente associados.
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A escatologia entendida como visão histórica pode deslizar para o dualismo, entendido como crença em uma realidade transcendente.
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A escatologia, ou dualismo temporal, distingue dois “séculos”, não dois mundos.
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Em linguagem religiosa, “mundo” e “século” tornaram-se quase sinônimos.
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Essa quase sinonímia mostra a proximidade entre as duas ideias.
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Em Paulo, “mundo” alterna com “século”.
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Em João, “mundo” substituiu completamente “século”.
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No judaísmo, a crença no século futuro podia ser acompanhada pela ideia de que esse século já existe de algum modo.
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A ideia de Jerusalém celeste pode ser considerada judaica.
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Essa ideia parece aparecer relativamente tarde e talvez não seja completamente independente de influência cristã.
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A palavra hebraica que significa “século” também pode significar “mundo”.
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Nas Parábolas de Enoque, há uma afirmação notável: “Deus fará descer a paz sobre vós em nome do século vindouro. Pois a paz veio dele desde a criação do mundo” em 71,15.
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Se “dele” significa “do século vindouro”, então o século vindouro existe de certo modo desde a criação do mundo.
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Não é certo, contudo, que as Parábolas de Enoque sejam pré-cristãs.
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A escatologia realizada pode ter antecedentes judaicos, mas sua evolução mais visível ocorre dentro do cristianismo, de Cristo a Paulo e de Paulo a João.
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H. W. Kuhn considera que a escatologia realizada já se encontra em alguns hinos da seita de Qumran.
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Se isso for correto, a escatologia realizada poderia derivar do judaísmo sem passagem necessária pelo cristianismo.
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Contudo, observa-se sua evolução gradual dentro do cristianismo.
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A escatologia realizada dos gnósticos deve provavelmente ser colocada nessa linha de desenvolvimento cristão.
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Apesar de tudo, o judaísmo permanece o estágio mais distante dessa ideia.
7. O destino do indivíduo depois da morte
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A escatologia realizada também pode designar a ideia de que as almas sobem ao céu imediatamente após a morte, recebem juízo e destino eterno sem esperar o juízo final em lugar subterrâneo.
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Essa ideia tornou-se crença comum entre os cristãos.
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Stuiber considera que talvez os gnósticos tenham sido os primeiros a sustentá-la.
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Stuiber mostrou que cristãos do século II contrários ao gnosticismo condenavam essa doutrina.
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Justino julgava essa doutrina herética.
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Irineu e Tertuliano pensavam que os justos dormem enquanto aguardam a ressurreição geral.
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Segundo Stuiber, Clemente de Alexandria e Orígenes ensinam que os justos sobem ao céu imediatamente após a morte por influência do gnosticismo.
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A ascensão imediata ao céu após a morte tem pontos de contato prováveis com o Novo Testamento.
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Não é tão certo, como pensam Stuiber e Cullmann, que essa ideia esteja ausente do Novo Testamento.
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Paulo declara desejar morrer e estar “com Cristo” em Filipenses 1:23.
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A explicação de Cullmann segundo a qual o “sono” intermediário seria “mais próximo de Cristo” não é convincente.
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Paulo não diz “mais próximo de Cristo”, mas “com Cristo”.
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Em 2 Coríntios 5:8, Paulo diz “com o Senhor”, não “mais próximo do Senhor”.
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Não haveria razão para alguém estar mais próximo de Cristo em um estado intermediário, pois, segundo Paulo, o crente já está em comunicação com Cristo pelo Espírito.
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Para Paulo, é até Cristo quem vive no fiel.
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Não se compreende como Paulo poderia pensar que alguém está mais próximo de Cristo em um estado de sono.
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Paulo prevê uma ressurreição da humanidade com um corpo novo, diferente do antigo e substituto dele, ou com um corpo novo que de algum modo reveste o antigo.
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Em 2 Coríntios 5:2, essa segunda possibilidade aparece caso o fim do mundo venha enquanto a pessoa ainda vive.
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Paulo também concebe um estado humano após a morte no qual a pessoa está “nua”, isto é, sem corpo, conforme 2 Coríntios 5:3—10.
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Assim, o “homem interior” não é pensado como indissoluvelmente ligado ao corpo.
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Cullmann admite que isso se aproxima da distinção grega entre alma e corpo.
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Paulo parece considerar o estado do homem interior “nu” menos perfeito que o estado revestido de um corpo novo e espiritual.
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Isso não implica necessariamente que o homem interior durma em lugar subterrâneo até a ressurreição geral.
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O Evangelho de Lucas apresenta imagens de destino pós-morte que pressupõem separação imediata entre os justos e os maus.
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O pobre Lázaro é separado do rico mau por “um grande abismo” em Lucas 16:26.
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Essa separação não faria sentido se Lázaro não estivesse no céu.
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Lázaro é levado pelos anjos ao seio de Abraão.
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O rico é sepultado e vai ao lugar dos mortos.
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O rico é atormentado, como se já tivesse sido julgado.
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Para ver Lázaro, o rico precisa erguer os olhos, segundo Lucas 16:22—23.
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Em Lucas 23:43, Cristo diz ao bom ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso”.
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Mais uma vez, a formulação é “comigo”, não “mais perto de mim”.
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A resposta de Cristo aos saduceus confirma a possibilidade de uma vida dos justos junto de Deus antes do juízo final.
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A resposta já citada concorda com a história do pobre Lázaro em Lucas.
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Lázaro, provavelmente no céu, está “no seio de Abraão”.
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Abraão, Isaac e Jacó aparecem como vivos diante de Deus.
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Os gnósticos provavelmente difundiram a doutrina da sobrevivência imediata, mas quase certamente não a inventaram nem a tomaram diretamente do helenismo.
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Essa doutrina já podia ser encontrada no cristianismo.
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A influência gnóstica favoreceu sua propagação.
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A origem cristã da doutrina é mais provável que uma simples importação helenística.
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