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gnosis:petrement:gnosticismo:dualismo
DUALISMO
Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
Capítulo V: “Dualismo” gnóstico
1. Em que sentido o gnosticismo é dualista
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O termo “dualismo” nasceu para designar tanto uma oposição religiosa entre Deus e o diabo quanto uma distinção filosófica entre alma e corpo, mas o gnosticismo comum não coincide plenamente com nenhuma dessas duas formas.
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Hyde cunhou o termo dualistae para caracterizar pensadores religiosos que concebiam Deus e o diabo como dois princípios coeternos.
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Christian Wolff introduziu o termo na filosofia para designar doutrinas que consideravam alma e corpo como duas substâncias distintas.
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Na história das religiões, “dualismo” costuma referir-se aos maniqueus ou ao mazdeísmo do Avesta pós-gático e dos escritos pehlevi.
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Na filosofia, “dualismo” aplica-se a doutrinas como o cartesianismo.
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O gnosticismo não pertence propriamente a nenhum desses dois tipos.
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O maniqueísmo é um ramo do gnosticismo, mas sua doutrina propriamente dualista resulta de uma transformação em relação a outros sistemas gnósticos.
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Nos sistemas gnósticos não maniqueus, o chamado dualismo consiste sobretudo em uma distinção radical entre Deus e o mundo.
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Essa distinção é mais profunda que a admitida pelo cristianismo comum.
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Nos mitos gnósticos, o mundo é fechado e separado do reino divino por um abismo ou por obstáculos como céus, esferas, muros ou rios.
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Deus pode vencer essa separação ao descer ao mundo.
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Nada no mundo pode elevar-se acima dele sem auxílio divino.
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Para os gnósticos, Deus não é diretamente o criador do mundo.
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A criação do mundo é atribuída a potências que procedem de Deus de algum modo, mas não o conhecem.
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A distância entre Deus e o mundo torna-se oposição quando se considera a relação da humanidade com Deus e com o mundo.
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As potências do mundo procuram aprisionar a alma humana em seu reino e impedi-la de voltar-se para Deus.
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Deus intervém para libertar a alma do domínio dessas potências.
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Do ponto de vista do valor e da religião, há oposição e até combate entre Deus e o mundo.
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Na alma, confrontam-se duas forças opostas: aquilo que possui valor verdadeiro e aquilo que é falso.
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A separação gnóstica entre Deus e o mundo aproxima-se às vezes da distinção filosófica entre ideias e matéria, mas não se identifica com ela nem com o dualismo mazdeísta.
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H. Jonas observa corretamente que a separação gnóstica não é idêntica à distinção filosófica entre ideias e matéria.
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A separação gnóstica é ainda menos idêntica ao dualismo mazdeísta.
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Para os mazdeístas, o mundo foi criado por Ahura Mazda.
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Ahriman entrou no mundo a partir de fora.
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Embora Ahriman misture suas criações más às boas criações de Ohrmazd, o mundo permanece bom em seu conjunto e em sua essência.
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No mazdeísmo, o mundo não se encontra em oposição polar a Deus.
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O “dualismo” gnóstico normalmente não diz respeito aos primeiros princípios.
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Em relação aos primeiros princípios, alguns gnósticos são dualistas, como os maniqueus.
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A maioria dos gnósticos é monista, pois o mundo procede em última instância de Deus.
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Essa procedência ocorre por intermediários e não diretamente.
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O “dualismo” gnóstico não é dualismo no sentido estrito da palavra.
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O gnosticismo possui antes um sentimento dualista, no qual a transcendência divina é acentuada ao extremo.
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A distância entre Deus e o mundo é tão grande que ambos aparecem como dois reinos ou esferas separados no estado atual das coisas.
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A passagem do reino do mundo ao reino de Deus só pode ser sobrenatural.
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Na alma, as inspirações vindas de Deus e as vindas do mundo são totalmente distintas.
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A alma propriamente dita, isto é, a alma natural distinta do espírito, encontra-se do lado do mundo.
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A alma só pode conhecer Deus se ele se revelar.
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Esse dualismo equivale a uma acentuação extrema da transcendência.
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É impreciso afirmar simplesmente que o gnosticismo é dualista, pois se trata de um dualismo particular e limitado.
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A palavra “dualismo” pode ser usada por conveniência, desde que acompanhada de precisões.
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Jonas chama esse dualismo de “dualismo anticósmico, escatológico”.
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A qualificação “anticósmico” deve receber mais ênfase que “escatológico”.
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“Anticósmico” não significa que se deva ser contra o mundo.
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“Anticósmico” significa que se deve ser contra a adoração das potências que reinam no mundo.
2. Sobre a origem dessa forma de dualismo
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A origem do dualismo gnóstico não pode ser explicada como simples combinação de dualismo persa e dualismo platônico.
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Bousset explicou essa forma de dualismo por uma combinação entre o dualismo religioso persa e o dualismo filosófico platônico.
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Jonas criticou corretamente esse tipo de explicação.
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Uma visão de mundo não pode ser explicada por uma espécie de combinação química de duas visões muito diferentes.
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Duas visões de mundo, cada uma com pretensão total e absoluta, não se combinam como substâncias químicas.
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A teoria de Bousset poderia conter alguma verdade apenas se fosse aplicada ao maniqueísmo.
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No maniqueísmo, o dualismo gnóstico aproxima-se cada vez mais do dualismo filosófico platônico, pois a matéria passa a ocupar o polo oposto a Deus.
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Quando o maniqueísmo surgiu, o “dualismo” gnóstico já se aproximava do dualismo filosófico platônico.
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O polo oposto a Deus passou a ser menos o mundo e mais a matéria.
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Essa evolução encontra-se quase completa em Mani.
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Para Mani, é a matéria, mais do que o mundo, que se opõe a Deus.
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Enquanto ordem, o mundo foi organizado por Deus ou por emanações divinas para permitir a libertação das almas aprisionadas na matéria.
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Mani parece ter desejado unir seu cristianismo gnóstico-platônico ao mazdeísmo.
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Em Mani, o dualismo platônico transforma-se em dualismo no qual os princípios são inimigos absolutos, como Ohrmazd e Ahriman.
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A matéria torna-se princípio independente de Deus e voluntariamente oposto a ele, ao menos na forma mítica do maniqueísmo.
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A matéria é má em si mesma, e não apenas por inadequação à alma, como em Platão.
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Mesmo no maniqueísmo, a combinação de platonismo e mazdeísmo não basta para explicar a doutrina de Mani, pois permanece dominante um dualismo propriamente gnóstico.
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Mani parece unir duas formas de dualismo.
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Ainda assim, platonismo e mazdeísmo não explicam integralmente sua doutrina.
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No fundo, é o dualismo gnóstico propriamente dito que permanece em Mani e domina sua doutrina da salvação.
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O “Príncipe das trevas” continua sendo para Mani o Príncipe do mundo.
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Esse Príncipe pode ser descrito como filho da Matéria ou como seu representante.
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Ele é criador e substância de todos os corpos.
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Ele reina sobre todas as criaturas terrestres que não recebem luz da revelação divina.
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Ele reina até sobre os seres celestes, com exceção do sol e da lua.
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Esse dualismo não é platônico nem mazdeísta, mas gnóstico.
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Bousset não explica esse dualismo propriamente gnóstico.
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Nem o mazdeísmo nem o platonismo oferecem a fonte adequada do “dualismo” gnóstico.
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No mazdeísmo, o mundo como conjunto e em sua essência é bom.
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No platonismo, também não se pode dizer que o mundo seja mau.
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No Timeu, o artífice do mundo é bom, e o mundo por ele construído é belo.
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Há grande diferença entre o otimismo do Timeu e o pessimismo do Fédon.
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No Fédon, aquilo que se opõe às Ideias são os aistheta, isto é, as coisas sensíveis, não o mundo em si.
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Em Platão, a palavra mundo evoca ordem e beleza, conforme o sentido do termo grego cosmos.
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No Górgias 507e—508a, afirma-se que céu, terra, deuses e homens são mantidos juntos pela comunhão, amizade, ordem, temperança e justiça.
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No mesmo passo, por essa razão o conjunto do mundo é chamado ordem, cosmos, e não desordem ou dissolução.
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Para Platão, o mundo não é exatamente o mesmo que as coisas sensíveis.
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O mundo é uma ordem que deve ser percebida por trás das coisas sensíveis.
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A oposição entre Deus e o mundo, tão característica do gnosticismo, já aparece no Evangelho de João com força quase gnóstica.
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A fonte do “dualismo” gnóstico não se encontra no Irã nem na Grécia.
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No Evangelho de João, a oposição entre Deus e o mundo já está presente de modo quase tão forte quanto entre os gnósticos.
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Para João, o mundo é o polo oposto a Deus na maioria dos textos em que o mundo é mencionado.
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O mundo foi criado por Deus mediante o Verbo.
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Em relação aos seres humanos, Deus e o mundo aparecem como princípios de duas naturezas distintas e opostas.
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Os seres humanos são “de Deus” ou “do mundo”.
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Não parece haver caminho da natureza inferior para a natureza superior.
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Em João 3:3 e 3,13, somente aquele que desceu do céu é capaz de subir ao céu.
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Em João, ser do mundo e ser do diabo quase se equivalem.
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De um lado, estão aqueles que são de Deus, do Espírito, da verdade ou do alto.
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De outro lado, estão aqueles que não são de Deus.
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Esses podem ser chamados indiferentemente de filhos do diabo, da carne, da terra ou de baixo.
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A expressão joanina “ser de” sugere não apenas pertença momentânea, mas origem.
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A expressão “filho de” no Antigo e no Novo Testamento nem sempre indica origem.
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Pode-se dizer “filho da mentira” para indicar mentiroso.
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Israel pode ser chamado “filho de Deus” porque Deus o elegeu.
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O Quarto Evangelho às vezes afirma que alguém pode tornar-se filho de Deus ou filho da luz, como em João 1:12 e 12,36.
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Ainda assim, a acumulação de expressões como “ser de”, “nascer de” e “ser filho de” sugere origem.
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Em cada um dos dois grupos descritos por João, parece haver uma comunidade de natureza atribuível a um primeiro princípio.
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Böcher percebeu que essas expressões joaninas remetem tanto à participação presente em um dos dois reinos quanto à origem.
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Em João 8:47, a origem parece determinar a ação humana, e não simplesmente resultar dela.
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A passagem afirma: “Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; a razão pela qual não as ouvis é que não sois de Deus”.
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Essa formulação parece indicar que a origem de uma pessoa causa suas ações.
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Não parece indicar apenas que as ações ligam a pessoa a certa origem.
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O pensamento joanino conserva tensões e contradições entre liberdade humana, eleição divina, escatologia futura e escatologia realizada.
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João nem sempre pensa de uma só maneira.
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Em vários temas, suas concepções parecem pertencer a dois domínios profundamente diferentes.
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A liberdade humana é um desses temas.
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O Cristo joanino ensina que, ao seguir os mandamentos, as pessoas escolhem seu destino eterno.
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Em João 16:27, os discípulos são amados pelo Pai porque amam Cristo.
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Em João 14:21, aquele que ama Cristo é aquele que guarda seus mandamentos.
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Por outro lado, em João 15:16, Cristo afirma que escolheu os discípulos, e não que eles o escolheram.
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Em João 8:32 e 8,36, a verdade liberta e torna alguém verdadeiramente livre.
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Essas afirmações sugerem que a humanidade não é naturalmente livre, mas precisa ser libertada pela eleição ou pela revelação divina.
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Algo semelhante ocorre com a escatologia, pois o Cristo joanino ensina tanto escatologia futurista quanto escatologia realizada.
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Em João 5:25, lê-se: “Vem a hora, e já chegou”.
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Em sentido estrito, há contradição, pois, se a hora vem, ainda não chegou.
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Os escritos joaninos ensinam ao mesmo tempo que o mundo foi criado por Deus e que há duas naturezas fundamentalmente divididas.
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A fé em um mundo criado por Deus poderia ser chamada monista.
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A fé em duas naturezas fundamentalmente divididas, uma de Deus e outra do mundo, poderia ser chamada dualista.
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Em João 8:47 e 1 João 4:6, afirma-se que alguns não são de Deus.
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Em 1 João 2:16, lê-se: “Tudo o que há no mundo — a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida — não é do Pai, mas é do mundo”.
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Essa afirmação parece negar que Deus seja a causa de tudo.
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Contudo, João sustenta que Deus criou tudo, como se afirma no Prólogo.
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João quer ensinar ao mesmo tempo que tudo vem de Deus e que algo não é de Deus.
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Em João 1:3 e 1,10—11, lê-se: “Todas as coisas foram feitas por meio dele… O mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”.
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Tudo é de Deus, e o mundo é de Deus, mas o mundo não conheceu Deus.
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Ser do mundo não é ser de Deus.
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João nunca afirma, como ocorre nos textos de Qumran, que o espírito do mal também venha de Deus.
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O Pai é fonte de tudo e, ainda assim, está de um lado.
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Em João, a salvação depende mais frequentemente de eleição, predestinação ou revelação divina do que de escolha humana.
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A interpretação segundo a qual “ser de”, “nascer de” e “ser filho de” indicariam apenas pertença momentânea pressupõe que João afirma sempre a liberdade humana sem ambiguidade.
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Essa pressuposição não se sustenta.
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Há mais textos nos quais a salvação humana depende da eleição, da predestinação ou da revelação divina do que textos nos quais depende da escolha humana.
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Em João há duas doutrinas ou dois aspectos de uma mesma doutrina, um monista e outro dualista, e o aspecto dualista coincide com o modo pelo qual o gnosticismo é dualista.
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O mundo é o princípio oposto a Deus.
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O mundo não é um primeiro princípio absoluto.
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Também na maioria dos gnósticos o mundo não é um primeiro princípio absoluto.
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O dualismo joanino e o dualismo gnóstico compartilham a mesma estrutura fundamental.
3. Sobre a origem do dualismo joanino
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O dualismo joanino não se reduz ao dualismo relativo do judaísmo pós-bíblico, porque João vai além do judaísmo pré-cristão na direção do dualismo gnóstico.
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Böcher tentou reduzir o dualismo de João ao dualismo relativo do judaísmo imediatamente anterior ao cristianismo.
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Seu argumento é problemático porque utiliza textos que podem ser cristãos ou influenciados pelo cristianismo.
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Entre esses textos estão os Testamentos dos Doze Patriarcas.
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Böcher reconhece a existência de interpolações cristãs nesse texto.
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Não é possível saber com certeza até onde essas interpolações se estendem.
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A redação da obra tal como chegou até hoje parece ser cristã, embora utilize fontes judaicas.
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Considerando apenas obras quase certamente anteriores ao cristianismo ou exteriores à sua influência, o dualismo joanino não é idêntico ao delas.
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Em Qumran, o Anjo das trevas não é o príncipe do mundo.
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Em Qumran, o mundo é dividido “igualmente” entre os dois espíritos, o Príncipe da luz e o Anjo das trevas.
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Em Qumran e na apocalíptica judaica em geral, o mundo é dividido internamente entre bem e mal.
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O mundo joanino, porém, está inteiramente “sob o poder do maligno”, conforme 1 João 5:19.
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A comparação entre João e Qumran permite admitir influência terminológica essênia apenas de modo limitado e incerto.
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Na coletânea John and Qumran, J. H. Charlesworth compara o dualismo de João ao do Manual de Disciplina.
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Charlesworth conclui que os dualismos não são idênticos.
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João poderia ter sido influenciado pela terminologia dos essênios.
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Conceitos essênios poderiam ter sido refratados pelo prisma da originalidade joanina e, assim, modificados.
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Se o dualismo de João deve algo ao de Qumran, isso ocorre em grau menor.
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Nada muito claro pode ser afirmado sobre essa dependência.
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O dualismo joanino aparece no cristianismo antes de João, especialmente em Paulo.
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Aquilo que João não encontra plenamente no judaísmo pré-cristão encontra-se em Paulo.
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Paulo permanece mais próximo que João da apocalíptica judaica.
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O polo que Paulo opõe a Deus é às vezes o “século”, aion.
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Na apocalíptica, não era o mundo que se condenava, mas o século presente em oposição ao século futuro.
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Esse dualismo temporal reaparece em Paulo.
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Paulo condena o século de modo mais completo que a apocalíptica judaica.
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Paulo também usa com frequência a palavra “mundo”, cosmos, em vez de “século”, para designar o polo oposto a Deus.
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A transformação de um dualismo temporal dentro do mundo para um dualismo de tipo gnóstico ocorreu na vida e no pensamento de Paulo.
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A cruz de Cristo levou Paulo a compreender a existência de duas ordens fundamentalmente distintas.
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A transformação paulina da concepção judaica pré-cristã relaciona-se ao Demiurgo e aos Sete.
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A cruz de Cristo aparece como chave da distinção entre duas ordens.
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Em Gálatas 6:14, Paulo afirma: “Por ela o mundo foi crucificado para mim, e eu para o mundo”.
4. Sobre o dualismo simplista ou intolerante, chamado hoje de “maniqueu” na França
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O dualismo de Qumran pode ter influência persa, pois se aproxima mais do dualismo mazdeísta do que do “dualismo” gnóstico.
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Kuhn considera haver influência persa no dualismo de Qumran.
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Huppenbauer e Böcher não excluem essa possibilidade.
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Nos Manuscritos do Mar Morto, o mundo como conjunto não se opõe a Deus.
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O mundo é dividido internamente entre forças do bem e forças do mal.
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Todas essas forças são consideradas criadas por Deus.
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Por isso, o dualismo de Qumran não é absoluto.
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Também não é certo que o dualismo fosse absoluto na forma mais antiga do mazdeísmo.
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Nas Gathas do Avesta, o Espírito Mau opõe-se ao Espírito Bom, não diretamente a Ahura Mazda.
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Ahura Mazda parece situar-se acima da oposição.
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Vários especialistas em estudos iranianos sustentam essa interpretação.
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A concepção de um Espírito Mau coeterno a Ahura Mazda pertenceria ao Avesta pós-gático e aos escritos pehlevi, não às Gathas.
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A religião mazdeísta mais antiga talvez não tenha sido absolutamente dualista, mas dividia o mundo e a humanidade entre forças radicalmente boas e radicalmente más.
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A religião de Zoroastro talvez não fosse absolutamente dualista.
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Como a doutrina de Qumran, ela talvez incluísse uma visão na qual mundo e humanidade se dividem entre forças absolutamente boas e forças absolutamente más.
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Os sectários de Qumran concebiam a humanidade como composta de “filhos da luz” e “filhos das trevas”.
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Os mazdeístas viam o mundo como composto por criaturas do Espírito Bom e criaturas de Ahriman.
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Essa visão pode ser chamada de dualismo guerreiro, simplista ou intolerante, e corresponde ao uso francês moderno, embora inadequado, da palavra “maniqueísmo”.
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Considerar certas coisas como criações de Ahriman equivale a considerá-las absolutamente más.
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Considerar algumas pessoas como “filhos da criação do Mal”, nas Gathas, ou “filhos das trevas”, em Qumran, equivale a chamá-las absolutamente más.
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Nas últimas décadas, na França, esse tipo de dualismo tem sido frequentemente chamado de maniqueísmo.
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Escritores e jornalistas franceses chamam de maniqueu tudo que é intolerante, fanático e simplista.
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Também chamam de maniqueia toda ideia que divide os seres em inteiramente bons e inteiramente maus, totalmente negros ou totalmente brancos.
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Esse uso da palavra “maniqueu” é novo e não parece legítimo.
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Para os maniqueus, tudo no mundo era misturado, e somente os princípios originais eram puros.
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Nos Kephalaia maniqueus, lê-se: “O bem e o mal habitam em cada homem”.
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Os maniqueus eram não violentos.
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Mesmo no campo das ideias, eles não eram particularmente intolerantes.
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Ensinavam que há algo de bom em quase todas as religiões.
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Procuravam conformar sua linguagem à de religiões e tradições muito diversas.
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A identificação da mentalidade maniqueia com a mentalidade de um inquisidor inverte a história.
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Os maniqueus não inventaram a Inquisição.
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Eles foram vítimas dela, na medida em que podem ser identificados com os cátaros.
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O dualismo guerreiro ou intolerante não foi propriamente maniqueu, mas pode ter pertencido ao mazdeísmo.
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O mazdeísmo dá a impressão de ser uma religião de combate.
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Ele parece convidar o ser humano a lutar não apenas contra si mesmo ou contra sua parte inferior.
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Gnosticismo, maniqueísmo e cristianismo enfatizam sobretudo o combate contra si mesmo ou contra a parte inferior de si.
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O mazdeísmo parece convidar também ao combate contra inimigos externos.
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O reformador que fala nas Gathas prega contra a violência.
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Contudo, ele prega uma justiça que pode parecer abstrata, rígida e dura.
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Nas Gathas afirma-se: “Quem é bom para o perverso é perverso”.
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Segundo Heródoto, sacerdotes mazdeístas matavam certos animais com as próprias mãos.
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Os sacerdotes egípcios, diferentemente, só podiam derramar sangue nos sacrifícios.
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A evolução posterior do dualismo das Gathas para um dualismo absoluto talvez se explique pelo espírito das próprias Gathas.
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Esse espírito é de luta e de oposição irreconciliável.
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Tal espírito podia levar à negação de qualquer vínculo ou relação entre os adversários.
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A origem do mazdeísmo permanece obscura, mas Zoroastro provavelmente reformou a religião indo-iraniana clássica do Veda.
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A origem da religião persa é um dos problemas mais obscuros da história das religiões.
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A opinião mais comum e inicialmente mais provável é que Zoroastro reformou a religião indo-iraniana clássica do Veda.
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A palavra daeva, forma iraniana de uma raiz indo-europeia que significa deuses, passa a significar demônios ou falsos deuses.
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Esse deslocamento indica profunda transformação religiosa.
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Os ritos religiosos atestados pelo Veda são atacados nas Gathas.
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Certos costumes dos Magos, como a exposição de cadáveres a aves ou cães e os casamentos incestuosos, pareciam impiedosos a outros povos.
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Esses costumes indicam ruptura radical com antigas crenças.
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Nas Gathas há desejo de transformar ou “renovar” a existência.
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Essa renovação só será aperfeiçoada no futuro, depois de uma grande guerra.
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Percebe-se o desejo de vencer inimigos, converter pessoas a certa ordem social ou política e combater uma religião considerada falsa, a dos daeva.
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Também se percebe o combate contra poderes sociais considerados violentos ou opressivos.
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Esses textos podem exprimir a intransigência e a intolerância de um reformador revolucionário que deseja fundar uma nova ordem.
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A renovação mencionada nas Gathas provavelmente não é a renovação sazonal da natureza, mas uma renovação final e definitiva.
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Molé considera que a renovação se refere à renovação da natureza celebrada no início de cada ano.
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Quase todos os povos celebram a renovação da natureza sem possuir religião análoga ao mazdeísmo.
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A renovação esperada nas Gathas parece final e definitiva.
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A interpretação de Molé omite completamente a pessoa de Zoroastro, seu papel e os traços principais da religião persa.
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A religião persa antiga inclui elementos severos e hostis ao herege, o que confirma seu caráter pouco brando.
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O índice do livro de Molé sobre Ahraman, ahramok e ahramokih mostra a dureza dessa religião.
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Ahraman é associado à religião do mal.
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Ahramok, isto é, o herege, é descrito como o pior dos homens.
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O herege espalha destruição.
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O herege deve ser morto para que a prosperidade venha.
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O Avesta e o Zand não devem ser ensinados ao herege nem aprendidos dele.
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O herege será esmagado por Sosans.
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A tolerância atribuída a Ciro não basta para caracterizar a religião persa como liberal.
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A tolerância de Ciro é frequentemente citada.
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Não é certo que Ciro fosse zoroastriano.
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Sua política liberal em relação ao povo judeu talvez tenha sido uma estratégia para enfraquecer a Babilônia.
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A questão de saber se Ciro era realmente liberal permanece aberta.
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Ciro teria desprezado os gregos por serem comerciantes, considerando o comércio um engano mútuo.
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Os gregos eram comerciantes, mas eram muito mais livres que os súditos do Império Persa.
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Embaixadores gregos eram os únicos capazes de falar ao Grande Rei sem se prostrar a seus pés.
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Ciro não compreendia a liberdade grega.
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As Gathas contêm elementos atraentes, mas nelas aparece uma atitude guerreira e intolerante mais forte que a comum em textos religiosos.
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Percebem-se boa vontade, coragem e fé nas Gathas.
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Ainda assim, sua atitude de combate e intolerância é mais acentuada que em textos religiosos habituais.
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O dualismo relativo do Irã, de Qumran e do judaísmo pós-bíblico pode derivar de um mesmo espírito de combate, sem necessidade de influência persa direta.
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As mesmas causas que produziram dualismo relativo no Irã poderiam produzir dualismo relativo em Qumran e no judaísmo pós-bíblico.
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Não é necessário supor influência persa direta.
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O espírito de batalha que talvez explique a doutrina das Gathas também aparece entre os judeus da época pós-bíblica.
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Esse espírito também aparece na seita de Qumran.
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Os judeus pós-bíblicos opunham-se violentamente ao paganismo dos impérios que os cercavam e dominavam.
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Eles esperavam uma inversão das relações de força.
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Esperavam que um dia Yahweh fosse adorado em todo o universo.
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A seita de Qumran opunha-se violentamente ao judaísmo oficial e aos sacerdotes de Jerusalém.
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Essas hostilidades bastam provavelmente para explicar a existência de “filhos da luz” e “filhos das trevas”.
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Uma explicação por influência persa é possível, mas não absolutamente necessária.
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A tendência a oposições extremas também aparece no Antigo Testamento, aproximando-o em certa medida do espírito da religião persa.
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Renan observou que, no Antigo Testamento, tudo é preto ou branco, levado ao extremo, sem meio-termo feliz.
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Deus não diz: “Amei Jacó e amei menos Esaú”.
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Em Malaquias 1:2—3, Deus diz: “Amei Jacó e odiei Esaú”.
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Nesse aspecto, o espírito do Antigo Testamento concorda em certa medida com a religião persa.
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A distinção intolerante e simplista entre bons e maus não é a distinção gnóstica entre Deus e o mundo nem a distinção maniqueia entre espírito e matéria.
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Pode haver algo dessa distinção na forma assumida pela oposição entre espírito e matéria em Mani.
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O dualismo gnóstico e o dualismo maniqueu são antes de tudo distinções dentro da humanidade.
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Eles não são principalmente distinções entre seres humanos.
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O dualismo horizontal separa seres do mesmo nível, enquanto o dualismo vertical distingue realidades de níveis diferentes e se compreende melhor como afirmação rigorosa da transcendência.
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O dualismo horizontal relaciona-se a um mundo horizontal.
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Nesse dualismo, a divisão é feita entre seres do mesmo nível.
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O dualismo mazdeísta e o dualismo de Qumran pertencem a esse tipo.
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O dualismo vertical relaciona-se a uma construção vertical.
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Nesse dualismo, a divisão situa-se entre realidades de níveis diferentes.
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O dualismo platônico, cristão e gnóstico, assim como o dualismo cartesiano e kantiano, pertence a esse tipo.
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O dualismo de níveis não pode ser perfeitamente equilibrado nem perfeitamente simétrico.
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Não há igualdade nem analogia perfeita entre realidades de níveis diferentes.
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Esse dualismo não pode constituir verdadeiramente um sistema.
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Ao contrário, ele torna todos os sistemas imperfeitos.
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Por isso, talvez seja melhor não chamá-lo dualismo, mas afirmação rigorosa da transcendência.
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