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Traidor ou Favorito
Elaine H. Pagels; Karen L. King. Reading Judas: the Gospel of Judas and the shaping of Christianity. New York: Viking, 2007.
- O que teria perturbado tão profundamente um discípulo leal a ponto de entregá-lo aos inimigos que por anos desejavam matá-lo — essa questão atravessa milênios de reflexão cristã, e o Evangelho de Judas apresenta uma resposta radicalmente diversa da tradição canônica, ao mostrar Judas como o confidente mais próximo e confiável de Jesus.
- O Evangelho de João já sugere cumplicidade de Jesus na entrega, quando Jesus diz a Judas: “Faz depressa o que tens a fazer” — João 13:27
- O Evangelho de Judas leva essas sugestões à sua conclusão lógica, mas sem resolver a questão — ao contrário, a recoloca com mais força do que nunca
- Após a morte de Jesus, grupos de seus seguidores narraram e renarraram os eventos da paixão enquanto tentavam compreender como as coisas poderiam ter dado tão errado, e a figura do traidor sempre exerceu mais fascínio do que a dos discípulos fiéis.
- O assassino retratado por Giotto, a história paradoxal de Judas escrita por Jorge Luis Borges, o filme A Última Tentação de Cristo de Martin Scorsese e o Satanás de Michelangelo devorando Judas no inferno são expressões dessa fascinação
- O Evangelho de Judas, junto a outros textos cristãos antigos recentemente descobertos — como o Evangelho de Maria de Magdala e o Apocalipse de Pedro —, mostra que os escritores do Novo Testamento não foram os únicos perturbados por essas questões
- Irineu de Lião foi o primeiro, tanto quanto se sabe, a insistir em que a Igreja possui “apenas quatro evangelhos, nem mais nem menos”, justificando-o cosmologicamente — “assim como há quatro cantos do universo e quatro ventos universais, convém que ela tenha quatro pilares” — e os escolhendo por sua alegada ligação com testemunhas oculares.
- Poucos estudiosos do Novo Testamento concordariam hoje com o raciocínio de Irineu: o Evangelho de Marcos foi escrito cerca de quarenta anos após a morte de Jesus, e os demais dez a trinta anos depois; é altamente improvável que qualquer um tenha sido escrito por discípulos que conheceram Jesus pessoalmente
- As reivindicações de autoria apostólica — tanto as de Irineu quanto as de seus oponentes — pertencem às batalhas do século II sobre quais visões dominariam a religião cristã nascente
- Classificar o Evangelho de Judas como “gnóstico” pode levar a impressões falsas, pois até recentemente os estudiosos derivavam suas descrições dos cristãos gnósticos quase exclusivamente dos Pais da Igreja — e o próprio termo Gnosticismo foi inventado no século XVIII, muito antes dos novos textos serem descobertos.
- Ler o Evangelho de Judas como apenas mais um exemplo de heresia gnóstica conhecida repete clichês arraigados, ouvindo mais uma vez apenas as vozes dos perdedores
- Se se vai além dos estereótipos provenientes de ouvir um único lado da história — uma versão contada tão frequentemente e por tanto tempo que erroneamente passou a parecer a única história possível —, esses novos achados enriquecem o conhecimento da diversidade do imaginário e da prática cristã primitiva
- O que suscitou tamanha raiva no autor do Evangelho de Judas foi a angústia diante das mortes agonizantes de companheiros cristãos pelas mãos dos romanos — ele não conseguia conciliar sua crença em um Deus amoroso e bom com a ideia de que Deus desejava a morte sacrificial e sangrenta de Jesus e de seus seguidores.
- Na visão desse autor, os líderes cristãos que convocavam seus irmãos a “glorificar-se” dessa forma eram assassinos que haviam totalmente desentendido o ensinamento de Jesus e adoravam um deus falso
- O autor fala como “verdadeiros crentes” frequentemente fazem — insistindo que apenas os que estão com ele prevalecerão —, e Jesus diz a Judas que seu desígnio supera o de todos os outros discípulos: “Quanto a ti, tu os superarás a todos. Pois sacrificarás o ser humano que me carrega […]. Eis que tudo te foi dito. Levanta os olhos e vê a nuvem e a luz que está nela e as estrelas que a rodeiam. E a estrela que indica o caminho — essa é a tua estrela” — Evangelho de Judas 15:3-4, 14-16
- Judas torna-se o primeiro mártir: segundo o Evangelho de Judas, ele não se suicidou, mas foi apedrejado até a morte pelos “doze” — Evangelho de Judas 9:7-8
- Cada evangelho narra a morte de Jesus como forma de enfatizar os pontos teológicos que seu autor quer transmitir, e cada versão retrata Jesus progressivamente mais no controle dos acontecimentos — do Evangelho de Marcos ao de João.
- Para o Evangelho de Marcos, era necessário que o Messias de Deus sofresse e morresse para inaugurar o reino de Deus
- O Evangelho de Mateus argumenta que tudo o que aconteceu fazia parte do plano de Deus, mesmo quando Judas agiu movido pela avareza — a mais humana das falhas; é Mateus que inverte a narrativa de Marcos para mostrar Judas exigindo dinheiro dos sumos sacerdotes: “Então um dos doze, chamado Judas Iscariote, foi aos sumos sacerdotes e disse: Que me dareis se eu vos o entregar? E eles lhe pagaram trinta moedas de prata” — Mateus 26:14-15
- O Evangelho de Lucas mostra Jesus completamente no controle, inclusive de Satanás, que entra em Judas para cumprir o plano de Deus: “Satanás entrou em Judas Iscariote, que era um dos doze” — Lucas 22:3
- A questão de se a traição de Judas tem base histórica permanece em aberto entre os estudiosos — alguns argumentam que os escritores dos evangelhos inventaram episódios a partir de oráculos proféticos, o que o estudioso John Dominic Crossan formula como a pergunta: os detalhes dos relatos da crucificação são “história profetizada” ou “profecia historicizada”?
- O Evangelho de Mateus oferece o exemplo mais claro de invenção a partir da profecia: ao reescrever a entrada de Jesus em Jerusalém, o autor parece não ter percebido que o último verso de Zacarias 9:9 é uma repetição poética, resultando na imagem ridícula de Jesus montado em dois animais ao mesmo tempo — “os discípulos foram e fizeram como Jesus lhes ordenara; trouxeram a asna e o jumento, puseram sobre eles as suas capas e ele sentou-se em cima delas” — Mateus 21:6-7
- O Evangelho de Judas é, assim, mais uma renarração de um conto muito narrado, mas com uma reviravolta radicalmente nova que vira a mesa sobre “os doze”, e seu impacto já se faz sentir em mais de vinte línguas, alterando a peça central de uma religião mundial.
- A história tradicional do cristianismo foi escrita quase exclusivamente do ponto de vista do lado que venceu — notavelmente bem-sucedido em silenciar ou distorcer outras vozes, destruir seus escritos e suprimir os que discordavam como “hereges” perigosos
- Irineu buscou criar uma igreja unificada insistindo que todos os cristãos verdadeiros devem professar as mesmas coisas, dividiu as igrejas entre bispos, sacerdotes e “laicato” e plantou as sementes do que se tornaria o Novo Testamento cristão ao argumentar que os fiéis “ortodoxos” devem ler durante o culto apenas os livros aprovados pelos bispos
- Constantino, ao se tornar imperador com a ajuda de Cristo, encerrou a perseguição e reuniu bispos em Niceia em 325 para estabelecer uma definição de cristandade; os que objetavam eram amaldiçoados, e nos séculos seguintes dissidentes viram seus edifícios confiscados ou incendiados, e seus escritos forçados literalmente ao subsolo
- Sobre os quarenta anos de acesso a mais de quarenta evangelhos, cartas e outras obras cristãs primitivas, torna-se possível ver com mais clareza que a história primitiva do cristianismo foi tumultuada — um tempo de intensa reflexão, experimentação e luta envolvendo todas as questões fundamentais
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