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Formação do corpo
ANTONIO ORBE — ANTROPOLOGIA DE SÃO IRINEU
CAPÍTULO III: FORMAÇÃO DO CORPO HUMANO
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A análise da formação de Adão segundo Irineu (Epideixis 11) distingue quatro aspectos na plasis (modelagem) do primeiro homem: a matéria ex qua (terra), a mixis da potência divina com a terra, o desenho das próprias formas divinas na carne, e a infusão do sopro de vida.
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Irineu (Adv. haer. III 17,2) utiliza a analogia do pão: “assim como de trigo seco não se pode fazer uma massa sem umidade, nem um só pão, assim também nós, muitos, não podemos ser um em Cristo Jesus sem a água que vem do céu”.
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A potência divina misturada à terra é interpretada como a “chuva voluntária superior” do Espírito Santo, que dá unidade e maciez à massa de barro, tornando-a dócil às mãos de Deus, diferentemente da água da chuva comum que umedece os campos.
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A distinção entre terra árida e limo é fundamental para Irineu contra os valentinianos: a terra de Adão era a terra visível, árida e virgem (rudis terra, virgo adhuc terra), que ainda não havia sido regada pela chuva nem trabalhada pelo homem, conforme Gênesis 2:5.
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A terra árida (tierra seca, da qual foi tomado o pó) é a mesma terra visível que pisamos; o limo resultou da mixis daquela terra com a potência divina (o Espírito), que a transformou em massa macia e maleável, não por água comum, mas por ação espiritual.
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Agostinho (De Civitate Dei XIII 24,67s) explica a formação do homem a partir da fonte que subia da terra (Gênesis 2:6): “E formou Deus o homem pó da terra… limo, porque o pó estava úmido” (pulvis humectus).
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A terra virgem (não aberta por arado nem semeada) é condição para que o pó possa receber a simiente divina (o Espírito) e não a simiente humana, preservando a parthenia necessária para a deificação da carne.
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A plasis (modelagem) estrita do corpo de Adão é realizada pelas “duas mãos de Deus” (o Filho e o Espírito Santo), atuando de modo complementar: o Verbo configura a parte visível (o homem exterior) dando-lhe a forma de Deus, enquanto o Espírito Santo configura a parte invisível (o homem interior) com a mesma paralela forma divina.
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O Verbo imprime no limo a forma humana visível, desenhando os membros de Adão de modo que “até o que é seu aspecto visível tivesse (ou fosse) a forma de Deus”, em contraste com a postura inclinada dos animais.
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O Espírito Santo configura a potência divina escondida no interior da estátua humana, dotando-a de membros e potências interiores (olhos, ouvidos, coração espirituais) que correspondem paralelamente ao homem exterior.
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A infusão do sopro de vida (alma, psyche) ocorre depois da plasis e é realizada por Deus Pai, não pelo Verbo nem pelo Espírito; a alma é o princípio de vida animal (animal rationale) que atua como intermediário entre o homem exterior (matéria configurada) e o homem interior (espírito configurado).
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Irineu (Epideixis 11) afirma que Deus “soprou em seu rosto o sopro de vida, a fim de que tanto pelo sopro (= alma) quanto pelo plasma (= corpo) fosse o homem semelhante a Deus”.
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A alma é infundida diretamente por Deus Pai no rosto de Adão; ela não é uma substância separada (como queriam os valentinianos) mas o princípio que anima e põe em movimento os membros do corpo, unindo dinamicamente o espírito e a matéria.
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O homem animal (psíquico) é o indivíduo dotado de um princípio de vida carnal, capaz de obras materiais ou carnais; o homem espiritual aparecerá no fim, quando o princípio animal for substituído pelo espiritual.
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Contra os valentinianos, Irineu nega que o sopro de vida seja uma “emissão substantiva do Demiurgo” ou que existam três substâncias separadas (hílica, psíquica, pneumática) no homem; o plasma (corpo) é o único verdadeiro homem, e alma e espírito são princípios aderentes a ele.
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A plasis uterina (formação do corpo no ventre materno) é uma continuação da plasis de Adão pelo mesmo Verbo de Deus, que não se envergonha de modelar o homem no seio da mãe com suas mãos incontaminadas, como demonstram os textos de Jeremias 1:5 (“Antes de te plasmar no seio, te conheci”) e Jó 10:8 (“Tua mãos me fizeram e me plasmaram”).
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O diálogo De recta in Deum fide (Adamâncio) argumenta que o Verbo de Deus continua plasmando os homens no ventre materno, citando Jeremias 1:5 e Salmo 118,73 contra a ideia de que uma virtude divina apenas “engendra” (zoogonein) sem plasmar.
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Metódio de Olimpo (Symposion II 2 § 33; II 6 § 44-45) afirma que Deus prolonga na matriz o trabalho que iniciou modelando o limo de Adão, coagulando a substância informe dos ossos, transformando o suco inicial em emulsão sanguínea e o limo em carne delicada, “elaborando a imagem mais racional de Si próprio, o homem que somos nós, plasmando-a e trabalhando-a como cera na matriz a partir de algumas gotas insignificantes de semente”.
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A diferença entre a plasis de Adão (virginal, de terra virgem) e a plasis dos demais homens (não virginal, de terra trabalhada pelo varão) não significa ausência da mão de Deus: o Verbo modela o corpo a partir da matéria oferecida pelos pais, mas a matéria dos filhos de Adão traz a mancha da transgressão hereditária, enquanto a de Adão e a de Cristo foram virginais.
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A curação do cego de nascença (João 9:1-7) é interpretada por Irineu como uma repetição visível da plasis de Adão e uma demonstração de que o mesmo Verbo que plasmou o primeiro homem continua plasmando os homens no ventre materno e é o único autor do corpo humano.
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Irineu (Adv. haer. V 15,2) explica que o Senhor não curou o cego por palavra, mas por operação (per operationem), fazendo lodo com saliva e terra, “mostrando a antiga plasmagem (antiquam plasmationem) como foi feita, e manifestando a Mão de Deus (manum Dei) por meio da qual foi plasmado o homem do limo”.
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O milagre prova que não há outro Deus fora daquele que plasmou o homem e lhe deu o sopro de vida, e que não há outra mão divina além da que desde o princípio até o fim nos forma, adapta à vida, assiste ao seu plasma e o consome à imagem e semelhança de Deus.
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O Verbo que plasmou Adão é o mesmo que curou os olhos do cego; “quem formou a visão é o mesmo que formou todo o homem, servindo à vontade do Pai” (Adv. haer. V 15,3).
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A analogia entre Gênesis 2:7 e João 9:6 prova a identidade do autor da plasis: “O mesmo Senhor que no Gênesis ‘tomou barro da terra e plasmou o homem’, no Evangelho ‘escutpiu em terra e fez da saliva lodo e lhe pôs lodo nos olhos’”.
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A comparação entre os dois Adão (Irineu, Adv. haer. III 21,10) revela que a matéria virginal (terra virgem para Adão, sangue da Virgem Maria para Cristo) é condição indispensável para que o corpo possa receber a simiente divina (o Espírito) e, no caso de Cristo, a união pessoal com o Verbo, sem a contaminação da simiente do varão e do pecado hereditário.
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Assim como o primeiro Adão foi tomado da terra árida e ainda virgem (pois ainda não tinha chovido e o homem não tinha trabalhado a terra), e foi plasmado pela mão de Deus (o Verbo), assim o segundo Adão, recapitulando em Si a Adão, tomou de Maria (que ainda era virgem) seu ser humano, recebendo uma geração que recapitulava a geração de Adão.
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Se o primeiro Adão tivesse tido por pai um homem e tivesse nascido de semente de varão, haveria razão para dizer que também o segundo Adão havia nascido de José; mas se aquele foi tomado da terra e plasmado pelo Verbo de Deus, convinha que o próprio Verbo, para fazer em Si a recapitulação de Adão, tivesse a mesma semelhante maneira de nascer.
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A terra virgem de Adão foi umedecida pela “simiente do Espírito” (potência divina) e não pela simiente do varão; a Virgem Maria legou seu sangue (terra virginal), sobre o qual desceu o Espírito (simiente do Pai) e o Verbo (pessoal), levantando o limo virgíneo à dignidade de Unigênito de Deus.
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Conclui-se que a plasis de Adão (virginal, da terra virgem, pela mão de Deus) estabeleceu o paradigma para a encarnação do Verbo: somente uma matéria virginal (não manchada pela simiente masculina e pelo pecado hereditário) poderia receber a simiente do Espírito e a união pessoal com o Filho, necessárias para a salvação da carne.
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