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Pecado de Adão e encarnação

ANTONIO ORBEANTROPOLOGIA DE SÃO IRINEU

CAPÍTULO XVI — O PECADO DE ADÃO E A ENCARNAÇÃO

Preliminares

  • A possibilidade de encarnação do Verbo em um cenário de inocência original de Adão constitui uma questão teológica fundamental sobre o plano progressivo da salvação humana.
    • Exame dos efeitos do delito humano no Paraíso e do otimismo fundamental na permissão divina do pecado.
    • Questionamento sobre a assunção da natureza humana pelo Filho caso o protoplasto não tivesse falhado.
  • A maioria dos escritores eclesiásticos pós-nicenos sustenta que a finalidade redentora foi o motivo primário para a encarnação do Verbo.
    • Preceito anti-ariano que visava proteger a divindade do Verbo contra as acusações de corporificação espontânea.
    • Sabedoria concebida e engendrada antes da criação como instrumento de Deus com base em Provérbios 8:22.
    • Atribuição ao Logos da missão de fabricar, sustentar e salvar o universo.
    • Menção às investigações dogmáticas de P. Galtier, D. Petau, L. Thomassin, A. Royo Marín, A. Spindeler, M. Simonetti e A. Weber.
  • A teologia dos apologetas apresenta o Logos como fruto de uma decisão positiva do Altíssimo para manifestar-se ao mundo e guiar os homens ao conhecimento de Deus.
    • Geração do Verbo como imagem do invisível para estender a salvação através de uma humanização real.
    • Prolongamento da geração divina até a manifestação humana compreendido e adaptado pela tese de Ário e dos arianos.
    • Passagens de Tertuliano em Adversus Praxeam 7,1 e 12,5 associando o fiat lux de Gênesis 1:3 e a verdadeira luz de João 1:9 ao Verbo criador.
    • Escritos de Hipólito de Roma em Contra Noetum 10 apresentando o Verbo como phos ek photos enviado à criação, chefe e conselheiro baseado em Atos 3:15, Isaías 40:13 e Provérbios 8:22.
  • A encarnação do Verbo no sistema de Santo Irineu é diretamente exigida pela condição imperfeita do protoplasto e pelo desígnio de deificar a carne.
    • Necessidade de um Deus—Homem mediador que combine uma vertente divina acessível e uma vertente humana.
    • Caminhar contínuo do Verbo no Paraíso para conversar com o homem e prefigurar a assunção da natureza terrena.
    • Rejeição dos judeus ao Verbo por buscarem conhecer o Pai por si mesmos sem o Filho.
    • Estudos teológicos de Pierre Évieux e J. Ochagavía sobre a pedagogia do costume divino.
  • O primeiro homem compreendeu o sentido profético das manifestações do Filho sob a instrução imediata do Verbo.
    • Profecia do mistério do matrimônio realizada diante de Eva em Gênesis 2:24.
    • Aparições na teofania de Mambré em forma de homem antecipando o formato humano do colóquio e do Evangelho.
  • A humanidade gloriosa de Cristo representa o centro ideal de convergência da história para o qual a plasmação inicial e a comunhão do Espírito são ordenadas.
    • Exegese de Gênesis 1:26 e Gênesis 2:7 direcionada à ação das duas mãos de Deus que são o Verbo e o Espírito.
    • Comentário à Primeira Epístola aos Coríntios 15,46 estabelecendo a prioridade cronológica do homem animal seguida pelo homem espiritual.
    • Transformação do primeiro Adão em alma vivente e do segundo Adão em Espírito vivificante.
  • Críticos modernos interpretam erroneamente o pensamento de Santo Irineu ao atribuir-lhe a visão pós-nicena de que a encarnação dependia exclusivamente do pecado.
    • Posicionamento de Santo Atanásio, Santo Agostinho e São Cirilo de Alexandria sobre a finalidade puramente redentora do advento carnal.
    • Citação de Santo Irineu em Adversus Haereses V 14,1 — Se a carne não tivesse de ser salva, de modo algum o Verbo de Deus teria se feito carne; e se o sangue dos justos não tivesse de ser requerido, de modo algum o Senhor teria tido sangue.
    • Citação complementar de Adversus Haereses V 14,1 — Não se requereria isso se não devesse también ser salvo; nem o Senhor teria recapitulado em si mesmo essas coisas se não tivesse se feito ele próprio carne e sangue segundo a plasmação principal, salvando em si mesmo no fim aquilo que havia perecido no princípio em Adão.
    • Referência aos teólogos D. Petau e Thomassin na defesa da interpretação tradicional.
    • Paralelo com o tratado De resurrectione 6,3 de Tertuliano indicando que no limo da terra já se projetava a imagem de Cristo futuro na carne através de Gênesis 1:26 e Filipenses 2:6 conforme K. Wölfl.

Adquirir a salvação

  • Os conceitos de salvação e de salvador na obra de Santo Irineu encerram uma acepção genérica ligada ao destino final e uma aplicação específica voltada à libertação do pecado.
    • Significado genérico como elevação do homem ao conhecimento intuitivo do Pai fora da perspectiva da queda.
    • Significado específico focado na remoção do delito previamente ao cumprimento da saúde plena.

Salvação genérica

  • O ambiente cultural e filosófico da antiguidade clássica vinculava a salvação da alma à obtenção do conhecimento divino.
    • Tradição pitagórica celebrando a filosofia como a centelha salvadora enviada pelos deuses.
    • Constatação de Porfírio sobre a conversão a Deus ser a única salvação possível.
    • Tratados herméticos Poimandres e Asclepius focados na soteris obtida pela gnosis.
    • Estudos eruditos desenvolvidos por G. Anrich, J. Kroll, W. Bousset, P. Beskow, Friedo Ricken, R. Farina e Festugière.
    • Transliteração das expressões gregas to philosophias soterion enaunsma e mone soteria he pros ton theon epistrophe.
  • Santo Irineu reformula o conceito de salvação ao centralizá-lo no conhecimento intuitivo de Deus alcançado pelo composto deificado da carne.
    • Cláusula dos Excerpta ex Theodoto 78,2 indicando que a gnosis confere a liberdade divina juntamente com o batismo.
    • Destino do plasma inicial de Adão até a constituição do soma glorioso e espiritualizado na visão do Pai.
  • A submissão do homem a Deus não acrescenta benefícios à divindade, mas reverte em vida e incorrupção para os seguidores humanos.
    • Passagem de Santo Irineu em Adversus Haereses IV 14,1 associando o seguimento ao Salvador à participação na luz e na glória eterna.
  • O processo de deificação da substância carnal comporta uma fase histórica de preparação ativa pelo Espírito Santo e uma consumação gloriosa definitiva.
    • Libertação da corrupção material para assumir uma vida congruente com as qualidades divinas.
    • Proteção do templo de Deus formado por corpo, alma e espírito baseada na Primeira Epístola aos Coríntios 3,17.
    • Transfiguração descrita em Adversus Haereses V 13,3 na qual o corpo de humildade mortal é conformado ao corpo de glória do Verbo com base na Primeira Epístola aos Coríntios 6,20.
    • Teologia da glória na ressurreição carnal formulada por São Hilário de Poitiers, R. Favre, A. Fierro e Fr. N. Klein.
  • A missão salvífica do Verbo exige que este se assemelhe integralmente ao homem em sua pequenez e maturidade terrena para guiar a carne ao Pai.
    • Necessidade de o Filho co—infanciar-se com a espécie humana assumindo o mesmo plasma de barro.
    • Declaração de Adversus Haereses V praef — O Verbo de Deus, que por seu imenso amor se fez o que somos nós, a fim de nos aperfeiçoar para ser o que é Ele.
    • Estudos complementares de J. Werner sobre o paulonismo na antropologia patrística.
  • O pecado humano assume um caráter inteiramente marginal na estrutura fundamental da economia da salvação projetada por Deus.
    • Elevação do plasma à incorruptibilidade do Pai através da mediação de um Salvador Deus e homem.
    • Insuficiência da vontade onipotente isolada para conferir a soteris espiritual exclusiva do Criador.
  • A dispensação genérica baseada na conaturalidade do conhecimento paterno antecede qualquer desvio histórico ou incidência do pecado.
    • Habilitação da carne ao convívio divino por meio do Verbo inicialmente acessível aos sentidos humanos.
  • A destruição do pecado original e a vitória sobre a morte física não operam como causas determinantes ou justificativas plenas para a encarnação carnal.
    • Suficiência da simples Palavra ou do Verbo puro sem corpo para operar a remissão dos delitos nas curas evangélicas.
    • Análise do fragmento nos Fragmenta IX sobre a necessidade de abraçar a vida natural para eliminar a substância corruptora.
    • Investigações de E. Klebba e J. Werner sobre o perdão e os sofrimentos no Antigo Testamento.
  • O desvio de Adão atua apenas como uma circunstância temporal e subsidiária cuja remoção é integrada no plano imutável da munificência divina.
    • Formulação de A. Benoit sobre a queda retardar a realização da perfeição sem modificar o plano em seu conjunto.
  • A deificação real da humanidade exige a comunidade de essência e substância material entre o Salvador e a carne criada.
    • Rejeição absoluta da encarnação fictícia ou aparente defendida pelas seitas gnósticas.
    • Formulações de Tertuliano em Adversus Marcionem III 8 e De carne Christi 1 comentadas por E. Evans.
  • Toda a economia carnal do Verbo foi motivada pelo resgate e pela restauração do plasma original modelado pelo Pai a partir do barro.
    • Citação de Adversus Haereses V 14,2 — Aquilo que foi o homem que havia perecido, isto se tornou o Verbo de salvação, operando por meio de si a comunhão com ele e tratando de salvá-lo.

Preexistência do Salvador

  • A primazia do Cristo Salvador como medida pessoal da salvação estabelece a preexistência teológica do homem espiritual sobre o homem animal.
    • Necessidade lógica de os homens virem à existência para que o Salvador pudesse exercer sua ação deificadora.
  • Os atributos do Filho como Criador e Santificador distribuem-se em ações distintas em que a eficácia criativa serve de prelúdio à manifestação salvífica.
    • Exigência de uma matéria amorfa para a ação demiúrgica e de uma Igreja humana informada para receber a salvação.
  • A ordenação de todo o universo e da própria emanação ex Patre converge para a manifestação do Homem—Deus na terra.
    • Incompatibilidade do dinamismo do Unigênito com o abandono das criaturas às suas forças naturais.
    • Formulação de Adversus Haereses III 22,3 — Pois preexistindo o que salva, era necessário também que se fizesse o que devia ser salvo, para que o salvador não fosse vácuo.
    • Análise do tipo de Adão como prefiguração do Filho realizada por J. A. de Aldama.

Cristo, glorioso sem morte

  • Adão foi plasmado à imagem e semelhança da humanidade gloriosa de Jesus antes de qualquer previsão sobre a incidência do pecado ou da morte.
    • Permanência do exemplar original planejado em Gênesis 1:26 por cima dos desígnios do inimigo.
  • O Verbo ter-se-ia encarnado de modo idêntico em um cenário de inocência para atuar como Exemplar e Mestre do gênero humano através de todas as idades.
    • Santificação das etapas biológicas da infância, juventude e senectude descrita em Adversus Haereses II 22,4.
    • Recepção do Espírito Santo semelhante ao batismo do Jordão e à transfiguração do monte Tabor sem conotações de penitência.
    • Consumação em glória e ascensão à destra do Pai independentes do mandato de morrer na cruz.
    • Concepção carnal de mãe Virgem mantida na integridade de uma carne imune à corrupção.
    • Primogênito dos mortos e príncipe da vida conforme Colossenses 1:18 analisado por G. B. Ladner.
  • Orígenes contestou expressamente a necessidade da encarnação carnal fora da economia da queda humana.
    • Doutrina do mestre de Alexandria afirmando que o Filho só tomou a carne para servir como vítima de propiciação pelo pecado baseado em Romanos 5:12.
    • Citação de Orígenes em Homilia XXIV in Numeros 1 — Nem teria sido necessário que ele, posto na carne, fosse degolado, mas teria permanecido o que no princípio era, Deus Verbo.
    • Opiniões críticas coletadas por Thomassin e refutação do advento em carne imortal.
  • O pensamento origeniano assume que as denominações de Pastor e de Primogênito dos mortos aplicadas a Jesus decorrem exclusivamente do extravio dos homens.
    • Exame das denominações em In Iohannem I 20 indicando que o Filho reteria apenas os títulos de Sabedoria, Verbo, Vida e Verdade na ausência do delito.
    • Estudos sobre o aperfeiçoamento da natureza racional e a soteris elaborados por M. Harl.
  • A recusa de Orígenes em formular um pecado de origem na carne vincula-se ao seu sistema de queda pré-cósmica dos intelectos.
    • Doutrina do tratado De principiis apresentando o corpo carnal como consequência do resfriamento das mentes ou nous.
    • Comentário à Epístola aos Romanos traduzido por Rufino operando sob uma perspectiva dicósmica do erro de Adão e Eva.

Data da encarnação

  • A obtenção da imortalidade e da perfeição por Adão ocorreria através de uma trajetória progressiva de fortalecimento interior no cenário de inocência.
    • Passagem de Adversus Haereses IV 38,3 apontando que a contemplação do Senhor gera a incorruptibilidade baseada no Livro da Sabedoria 6,19.
    • Estudos de Rousseau sobre a maturação do homem espiritual.
  • O desígnio primordial sobre a criatura de barro exige o cumprimento de etapas humanas de crescimento antes da elevação à visão divina.
    • Enumeração das etapas em Gênesis 1:28 incluindo nascimento, crescimento, virilidade, multiplicação, madureza moral e glorificação carnal.
  • As etapas de desenvolvimento físico e espiritual mencionadas na patrística referem-se à marcha coletiva do gênero humano e não ao indivíduo isolado.
  • O Paraíso inocente abrigaria uma sucessão histórica de gerações humanas até que se atingisse o número predefinido de eleitos divinos.
    • Inclusão de Abel, Noé e dos três grandes patriarcas na linhagem histórica dos antepassados de Jesus sem a interferência da corrupção física.
  • A indissociabilidade entre cada corpo e sua respectiva alma na ressurreição carnal invalida as teses gnósticas fundadas na metensomatose.
    • Refutação da hipótese da passagem da mesma alma pelos corpos de Fineias, Elias e João Batista em Adversus Haereses II 33,5.
  • A juventude orgânica de Adão inocente progrediria em sabedoria e graça por meio de um domínio perfeito sobre os sentidos e da intimidade com o Verbo.
    • Equivalência do termo convalescer à capacitação plena da carne para abrigar a glória do Pai nos tempos do reino.
  • A quebra voluntária da justiça por alguns descendentes de Adão intramuros do Éden poderia fixar uma economia paralela de morte fora do Paraíso.
    • Governança de uma providência comum voltada à salvação dos desterrados penitentes.
    • Reunião final de inocentes e redimidos na segunda parusia descrita na Primeira Epístola aos Tessalonicenses 4,16.
  • Três cenários históricos distintos de obediência ou prevaricação universal manteriam inalterada a necessidade da encarnação do Verbo para consumar o homem.
    • Regime transatório sem a visão imediata do Pai comum a todos os estados antes da consumação final.
    • Privilégio dos inocentes em premeditar continuamente a incorrupção e dispor-se à saúde sem fratura biológica.
  • O intervalo entre o barro de origem e a efusão do Espírito é abreviado na união hipostática manifestada no corpo do Salvador.
    • Santificação interna da carne operada pelo Verbo acima das leis ordinárias da matéria.
    • Plasmação inicial de Jesus no ventre de Maria e metaplasia no dia da ressurreição gerando a perfeita imagem do Pai.

'Cur tam sero?'

  • A datação do advento carnal seguiu o plano estabelecido desde a criação do mundo, operando como centro da história da salvação.
    • Polêmica clássica sobre a demora do cristianismo tratada no Escrito a Diogneto e na Epístola de Barnabé.
    • Investigações cronológicas de Matthew Tindal e L. Thomassin sobre a plenitude dos tempos.
  • A designação do cristianismo como um novo gênero ou terceiro povo despertou o ataque dos filósofos pagãos contra a imutabilidade divina.
    • Acusações de inovação doutrinária leviana registradas por A. Casamassa e Marrou.
    • Requisito da antiguidade como critério civil de verdade e legitimidade religiosa no mundo clássico.
  • São Justino argumenta que o cristianismo partilha da mesma antiguidade que a raça humana, uma vez que todos os homens participam do Verbo.
    • Classificação de Sócrates, Heráclito, Abraão, Ananias, Azarias e Misael como cristãos anteriores a Cristo por viverem conforme o Verbo na Primeira Apologia 46.
    • Menção aos governos históricos de Quirino e Pôncio Pilatos e estudos de R. Holte sobre o Logos spermatikos.
  • Taciano e São Teófilo de Antioquia recorrem à maior antiguidade de Moisés frente aos fundadores pagãos para salvaguardar a revelação cristã.
    • Argumentação cronológica de Taciano em Ad graecos 31 superando o tempo de Homero conforme investigações de A. Puech.
    • Resumo da cronologia desde a criação do mundo exposto em Ad Autolycum III 28 e III 29.
  • A apologética patrística atribui os acertos da filosofia grega a um plágio direto das escrituras do Antigo Testamento.
    • Dependência de Platão e dos poetas pagãos em relação aos ensinamentos de Moisés examinada por Marrou.

Ataques pagãos

  • Celso ridiculariza a doutrina cristã apresentando um Deus mutável que se lembrou de justificar os homens após milênios de negligência.
    • Fragmentos de Celso preservados por Orígenes em Contra Celsum IV 7 e IV 8.
    • Concessão de meios de virtude para a correção do animal racional ao longo das gerações.
  • O ataque filosófico de Celso compara o envio do Filho de Deus à Judeia à descida mitológica de Mercúrio enviada pelo Júpiter da comédia.
    • Questionamento sobre a restrição do Espírito a um canto da terra em vez de inspirar múltiplos corpos.
    • Fragmentos de T. Kock e análise histórica da reação pagã por de Labriolle.
  • Orígenes responde que o Verbo sempre esteve presente na história infiltrando-se nas almas santas dos profetas de todas as nações.
    • Governança universal da Sabedoria divina sem alteração da providência ou coerção da liberdade humana.
  • A escolha da Judeia como palco da encarnação justificava-se por abrigar o único povo que lia os profetas e aguardava o Cristo.
    • Concentração geográfica para a posterior difusão universal da palavra do Evangelho a partir de um ângulo da terra.
    • Utilização dos tratados De oratione voltada ao esclarecimento dos homens espirituais.
  • São Agostinho transcreve as objeções formuladas por Porfírio sobre a exclusão secular das almas do Lácio e de Roma em relação à graça cristã.
    • Questionamento de Porfírio em Epistola 102 sobre a eficácia de um Salvador que se ocultou durante a vigência dos ritos dos templos em Alba.
    • Redução da lei judaica a uma zona restrita da Síria expandida apenas após o governo de Cayo César.
  • A salvação e a participação no sacramento verdadeiro jamais faltaram aos homens dignos desde o princípio da propagação humana.
    • Presença de crentes fiéis desde Adão até Moisés fora da linhagem carnal de Abraão e do povo de Israel.
    • Predicação universal regulada pela presciência divina quanto à fé dos indivíduos segundo a versão de Lope Cilleruelo.
  • A manifestação tardia de Cristo é explicada por Eusébio de Cesareia comparando as eras do mundo às etapas biológicas de maturação do indivíduo.
    • Custódia dos homens sob o pedagogo da lei até o tempo oportuno da virilidade conforme a exegese de Gálatas 3:23.
    • Erudição de P. Petau, A. Luneau e R. Farina sobre as obras de Eusébio de Cesareia e as respostas contidas em Ambrosiaster e Pseudo—Fírmico Materno.

Respostas heterodoxas

  • Os marcionitas celebram a novidade absoluta de Cristo rejeitando qualquer continuidade histórica com as instituições e profetas do Antigo Testamento.
    • Revelação repentina do Salvador chovido do céu nos tempos de Tibério César sem passar pela geração humana carnal.
    • Formulação de um novo Deus e de um novo Espírito desvinculados do arconte criador nas Antíteses examinadas por Harnack.
  • Los gnósticos heterodoxos explicam a demora histórica definindo o advento cristão como a introdução do conhecimento verdadeiro do Deus invisível.
    • Imperfeição relativa do Testamento Antigo e ignorância dos patriarcas e profetas acerca do Pai revelado pelo Verbo unigênito.
  • A limitação espacial e cronológica do Evangelho harmoniza-se no sistema gnóstico com a restrição da salvação à porção eleita dos homens espirituais.
    • Destinação da gnosis exclusivamente aos membros da Igreja pneumática dividida em três linhagens de homens.
  • Marcião defende a universalidade da salvação por meio do relato da descida do Salvador aos infernos para resgatar os antigos pecadores.
    • Adesão ao Evangelho por parte de Caim, dos sodomitas e dos egípcios retidos no reino da morte descrita em Adversus Haereses I 27,3.
    • Exclusão da salvação de Abel, Enoque, Noé e dos patriarcas por confiarem no deus justo do Antigo Testamento conforme Tertuliano e Harnack.
  • A divisão da história operada pelo advento de Cristo impunha tanto a eclesiásticos quanto a heréticos o desafio de decifrar o momento exato da revelação.
  • O Autor do Escrito a Diogneto afirma que Deus silenciou seu sábio conselho para demonstrar a incapacidade humana de herdar a vida por forças próprias.
    • Manifestação da clemência divina por meio do Filho amado após um período de longanimidade frente aos desordenados impulsos humanos.
    • Paralelos paulinos com a makrothymia de Cartas aos Romanos 2:4 e 3,25 e os tempos de ignorância de Atos 17:30 analisados por Marrou.
  • A entrega do Filho inocente como resgate pelos pecadores operou a transição necessária do tempo de iniquidade para o tempo atual de justiça.
    • Resgate do corruptível pelo Incorruptível e do mortal pelo Imortal detalhado em Ad Diognetum X 1—2.

Doutrina e resposta de San Ireneo

  • Santo Irineu contesta Marcião utilizando o argumento pagão de que um Deus manifesto apenas sob Tibério César seria réu de incuria e negligência.
    • Rejeição à tese de um Deus que permaneceu adormecido sem que o Verbo manifestasse sua presença contínua junto ao plasma humano.
  • O plano da salvação e a ação reveladora do Verbo possuem a mesma antiguidade que o próprio homem modelado no Paraíso.
    • Diálogo de Adão com o Verbo preexistente antecipando a essência do Evangelho e o conhecimento do Deus bom.
  • O pecado original não exerce influência sobre a data predefinida para a encarnação, atuando apenas sobre as circunstâncias da carne mortal.
    • Gênesis 1:26 fixando o nascimento carnal do Filho como centro eterno do progresso rumo ao homem total.
  • A exegese patrística pré-nicena do Hexaemeron estabelece uma equivalência mística entre os seis dias da criação e seis milênios de duração do mundo.
    • Aplicação de Segunda Epístola de São Pedro 3,8 e Salmo 90,4 na forma coletada pela Epístola de Barnabé 15,4 para fixar o término das obras.
    • Erudição de M. J. Routh, G. B. Ladner e K. H. Schwarte sobre as idades do mundo e a re-criação da Igreja.
  • O sexto milênio do cosmo abriga a colheita dos justos assimilados ao trigo limpo de Cristo e destinados à perfeição de imagem e semelhança.
    • Exposição de Adversus Haereses V 28,3 e V 28,4 ligando a tribulação e a maturação do homem cósmico ao celeiro da Igreja contra a apostasia das gentes.
    • Paralelo eclesial com a declaração de São Inácio de Antioquia sobre ser trigo de Deus moído pelas feras.
  • Os cinco milênios anteriores ao advento de Cristo constituem a fase pedagógica voltada a nutrir a natureza infante do homem com a Lei e os Profetas.
    • Transição da infância espiritual alimentada com leite até o manjar sólido do Verbo em conformidade com a Primeira Epístola aos Coríntios 3,2.
    • Paralelos cronológicos e litúrgicos em Hipólito de Roma e J.-M. Hanssens sobre o arranque do sexto milênio a partir do ano 5000 da criação.

Conclusão general

  • Santo Irineu afasta-se da estrutura dos tratados filosóficos clássicos adotada pelos pensadores de Alexandria e do norte da África ao estudar a constituição do homem.
  • O conhecimento das correntes psicológicas antigas e dos manuais doxográficos é integrado por Santo Irineu sem submissão ao tecnicismo profano.
    • Alusões aos Placita de Aécio e ao tratado De natura hominis de Nemésio de Emesa no exame da psicologia estoica dentro dos Estudos Valentinianos.
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