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HERACLEON

  • Werner Foerster
  • Elaine Pagels
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Heracleon

Werner Foerster, W. Gnosis. A Selection of Gnostic Texts. R.M.L. WILSON. London: Clarendon Press, 1972.

VALENTINIANISMO II OS FRAGMENTOS DE HERACLEON

  • Heracleon, considerado o mais célebre discípulo de Valentinus de acordo com Clemente de Alexandria, teve seus comentários sobre o Evangelho de João preservados por Orígenes em seu “Comentário sobre o Evangelho de João”, sendo possível relacionar esses fragmentos com a grande seção de Ireneu sobre o sistema valentiniano.
  • No Fragmento 1, sobre João 1:3, Heracleon interpreta “todas as coisas” como significando o mundo e o que nele está, excluindo o eão e o que estava no eão, que teriam vindo a ser antes do Logos, afirmando que o Logos não foi quem criou, mas quem forneceu ao Demiurgo a causa para criar o mundo.
  • No Fragmento 2, sobre João 1:4, Heracleon entende “nele” como significando “para os homens espirituais”, afirmando que o Logos-Salvador lhes proporcionou a primeira formação conforme sua geração, dando forma, iluminação e delineamento individual ao que foi semeado por outro.
  • No Fragmento 3, sobre João 1:18, Heracleon afirma que as palavras “Ninguém jamais viu a Deus, etc.” foram ditas “não pelo Batista, mas pelo discípulo”.
  • No Fragmento 4, sobre João 1:21, Heracleon afirma literalmente que “João reconheceu que não era o Cristo, e nem um profeta nem Elias”.
  • No Fragmento 5, sobre João 1:23, Heracleon identifica o Logos como o Salvador, a voz no deserto como simbolizada por João, e o eco como toda a ordem profética, afirmando que “a voz que é parente do Logos se torna Logos, assim como a mulher é transformada em homem” e que o Salvador chama João de profeta e Elias em referência aos seus atributos, não ao homem em si.
  • No Fragmento 6, sobre João 1:25, Heracleon considera razoável a palavra dos fariseus de que batizar é dever de Cristo, Elias e de todo profeta, mas afirma que os fariseus fizeram a pergunta por malícia e não por desejo de aprender.
  • No Fragmento 7, sobre João 1:26, Heracleon afirma que João Batista deu réplica aos enviados dos fariseus não em relação ao que perguntaram, mas como ele mesmo desejava, sendo ora um símbolo para os psíquicos ou para o Demiurgo, ora um símbolo para os pneumáticos.
  • No Fragmento 8, sobre João 1:26-27, Heracleon interpreta as palavras “Ele está em vosso meio” como significando que ele já está aqui, no mundo e entre os homens, e já manifesto a todos, e interpreta a sandália como sendo o mundo e o criador deste mundo (Demiurgo) como inferior a Cristo.
  • No Fragmento 9, sobre João 1:28, na obra de Heracleon se lê “Betânia”.
  • No Fragmento 10, sobre João 1:29, Heracleon afirma que João disse “Cordeiro de Deus” como profeta (referindo-se ao corpo psíquico de Cristo) e “que tira o pecado do mundo” como mais que profeta (referindo-se ao reino pneumático).
  • No Fragmento 11, sobre João 2:12, Heracleon afirma que “Cafarnaum significa os confins extremos do mundo, o reino do material, no qual ele desceu”, sendo que “ele desceu” indica o início de uma nova dispensação.
  • No Fragmento 12, sobre João 2:13, Heracleon afirma que a grande festa era um tipo da paixão do Salvador, onde a ovelha imolada significava a paixão no mundo e o consumo significava o repouso que está nas núpcias.
  • No Fragmento 13, sobre João 2:13-16, Heracleon afirma que a subida a Jerusalém significa a subida do Senhor do reino do material para o lugar psíquico (imagem de Jerusalém), que o “santuário” é o Santo dos Santos (onde entram os pneumáticos) e o pátio do templo (onde estão os levitas) é um símbolo dos psíquicos que alcançam salvação fora do Pleroma, e que o chicote feito de pequenas cordas por Jesus é uma imagem do poder e da energia do Espírito Santo que sopra os ímpios.
  • No Fragmento 14, sobre João 2:17, Heracleon afirma que a palavra “O zelo pela tua casa me consumiu” foi dita “da boca das potestades que foram expulsas e destruídas pelo Salvador”.
  • No Fragmento 15, sobre João 2:19, Heracleon afirma que “o terceiro (dia) é o dia espiritual” no qual a ressurreição da igreja (comunidade dos pneumáticos) é revelada, sendo o primeiro dia chamado de escolha e o segundo de psíquico.
  • No Fragmento 16, sobre João 2:20, Heracleon interpreta o fato de Salomão ter completado o templo em quarenta e seis anos como uma imagem do Salvador, onde o número “seis” refere-se à matéria (estrutura) e o “quarenta” (a Tétrade não combinada) refere-se à inspiração e à semente contida na inspiração.
  • No Fragmento 17, sobre João 4:12-15, Heracleon afirma que a água que o Salvador dá vem do seu espírito e do seu poder, sendo que a graça e o dom do Salvador não podem ser tirados, não se consomem nem se destroem naquele que deles participa.
  • No Fragmento 18, sobre João 4:16-18, Heracleon interpreta o marido da mulher samaritana mencionado por Jesus como sendo seu Pleroma, e que “por seis maridos se indica todo o mal material” com o qual ela estava entrelaçada.
  • No Fragmento 19, sobre João 4:19-20, Heracleon afirma que a mulher samaritana se comportou de modo adequado à sua natureza, sendo convencida de que ele era um profeta, e revelou que a razão pela qual cometeu imoralidade foi a ignorância de Deus e do culto agradável a Deus.
  • No Fragmento 20, sobre João 4:21, Heracleon afirma que a montanha representa o Diabo ou seu mundo (para os gentios), enquanto Jerusalém representa a criação ou o criador (Demiurgo) que os judeus adoram, e que os pneumáticos não adorarão nem a criação nem o Demiurgo, mas o Pai da verdade.
  • No Fragmento 21, sobre João 4:22, Heracleon interpreta “vós” como significando “os judeus e os gentios” e cita o “Kerygma Petri” para afirmar que não se deve adorar como os gregos (coisas da matéria) nem como os judeus (que adoram anjos, o mês e a lua).
  • No Fragmento 22, sobre João 4:22, Heracleon afirma que “nós adoramos” significa “aquele que está no eão e aqueles que vieram com ele” (o Salvador e seus companheiros), e que “a salvação vem dos judeus” porque a partir dessa raça a salvação e o Logos vieram ao mundo, sendo eles considerados imagens daqueles que estão no Pleroma.
  • No Fragmento 23, sobre João 4:23, Heracleon afirma que está perdido na profunda matéria do erro aquilo que é aparentado ao Pai, sendo isso buscado para que o Pai seja adorado pelos que lhe são aparentados.
  • No Fragmento 24, sobre João 4:24, Heracleon afirma que a natureza divina de Deus (que é espírito) é indemne, pura e invisível, e que aqueles que têm a mesma natureza que o Pai são eles mesmos espírito e adoram em verdade e não em erro.
  • No Fragmento 25, sobre João 4:25, Heracleon afirma que “A Igreja recebeu a Cristo e ficou persuadida acerca dele de que só ele entende (conhece) todas as coisas”.
  • No Fragmento 26, sobre João 4:26, Heracleon afirma que Cristo disse à mulher samaritana “Sabe que eu que falo contigo sou aquele que esperas”, e que, quando ele reconheceu que o esperado tinha vindo, então seus discípulos vieram a ele.
  • No Fragmento 27, sobre João 4:28, Heracleon interpreta o “cântaro de água” como sendo a disposição e o pensamento do poder que vem do Salvador, que ela deixou com ele, e ela retornou ao mundo para anunciar as boas-novas da vinda de Cristo ao “chamamento” (os psíquicos).
  • No Fragmento 28, sobre João 4:31, Heracleon afirma que os discípulos desejavam compartilhar com ele algo do que haviam obtido por compra em Samaria.
  • No Fragmento 29, sobre João 4:32, Heracleon nada disse sobre o texto.
  • No Fragmento 30, sobre João 4:33, Heracleon supõe que os discípulos disseram de maneira carnal, entendendo de modo bastante baixo e imitando a mulher samaritana quando disse “Tu não tens com que tirar a água, e o poço é fundo”.
  • No Fragmento 31, sobre João 4:34, Heracleon afirma que o Salvador explica aos discípulos que a vontade do Pai é que os homens conheçam o Pai e sejam salvos, chamando a vontade do Pai de seu “alimento”.
  • No Fragmento 32, sobre João 4:35, Heracleon relaciona a “colheita” “às almas dos fiéis”, afirmando que algumas almas já estavam prontas, outras estavam prestes a ficar prontas, outras próximas e outras ainda sendo semeadas.
  • No Fragmento 33, sobre João 4:36, Heracleon afirma que o que é indicado pelo texto “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos” refere-se a estar pronto para a colheita e adequado para ser já recolhido no celeiro (pela fé no repouso), adequado para a salvação e para a recepção do Logos.
  • No Fragmento 34, sobre João 4:36, Heracleon afirma que o salário do Senhor é a salvação e a restauração daqueles que são ceifados, produzida pelo seu repouso sobre eles.
  • No Fragmento 35, sobre João 4:37, Heracleon interpreta as palavras “para que o semeador e o ceifador se regozijem juntos” afirmando que o Filho do Homem acima do “Lugar” semeia, o Salvador (também Filho do Homem) ceifa e envia como ceifadores os anjos representados pelos discípulos, cada um para sua própria alma.
  • No Fragmento 36, sobre João 4:38, Heracleon afirma que os anjos da dispensação (através dos quais a semente foi semeada e criada como mediadores) trabalharam, e que os apóstolos entraram nos seus trabalhos.
  • No Fragmento 37, sobre João 4:39, Heracleon interpreta “por causa do relato da mulher” como significando “por causa da igreja espiritual”, e afirma que há muitos psíquicos, mas a natureza imperecível da eleição é uma, uniforme e única.
  • No Fragmento 38, sobre João 4:40, Heracleon afirma que ele permaneceu “com eles”, não “entre eles”, e “por dois dias”, significando quer o eão presente e o que está por vir nas núpcias, quer o tempo antes da paixão e o período depois dela.
  • No Fragmento 39, sobre João 4:42, Heracleon afirma que no início os homens creem no Salvador porque são conduzidos a isso por homens, mas quando encontram suas palavras, não creem mais apenas por causa do testemunho humano, mas por causa da própria verdade.
  • No Fragmento 40, sobre João 4:46-53, Heracleon afirma que o “oficial real” era o Demiurgo (que governava como rei sobre os que estavam sob ele), que seu filho em Cafarnaum (na parte inferior do Meio) era a natureza psíquica constituída, que a morte é o objetivo e o fim da lei que mata através dos pecados, e que nem todos os psíquicos nem todos os anjos semelhantes a eles são salvos.
  • No Fragmento 41, sobre João 8:21, Heracleon pergunta como podem os homens chegar a um estado de imperecibilidade quando estão em ignorância, incredulidade e pecados.
  • No Fragmento 42, sobre João 8:22, Heracleon afirma que os judeus acreditavam que o Salvador disse “Estou prestes a me matar e ir para a corrupção, para onde vós não podeis ir”.
  • No Fragmento 43, sobre João 8:37, Heracleon interpreta “Porque minha palavra não tem lugar em vós” como significando que não tem lugar porque são inadequados para ela quer pela sua substância quer pela sua disposição.
  • No Fragmento 44, sobre João 8:43, Heracleon afirma que a razão pela qual eles não podiam ouvir as palavras de Jesus e entender o que ele dizia está nas palavras “Vós sois do diabo, vosso pai”, significando “da substância do Diabo”.
  • No Fragmento 45, sobre João 8:44, Heracleon afirma que aqueles aos quais a palavra chegou eram da substância do Diabo.
  • No Fragmento 46, sobre João 8:44, Heracleon afirma que os filhos do Diabo por natureza (os escolhidos) são de sua substância, enquanto os filhos do Diabo por intenção (os psíquicos que se tornaram filhos do Diabo por fazerem suas obras) não o são por natureza.
  • No Fragmento 47, sobre João 8:44, Heracleon afirma que a natureza do Diabo não é da verdade, mas do oposto à verdade (erro e ignorância), sendo ele próprio mentiroso e também o pai da falsidade, entendendo “seu pai” como “sua natureza, já que ela é composta de erro e falsidade”.
  • No Fragmento 48, sobre João 8:50, Heracleon afirma que “Aquele que vos busca e julga” não se refere ao Pai, mas a Moisés (o legislador), que é o vingador comissionado para esse fim e que não porta a espada em vão.
  • No Fragmento 49, sobre Mateus 3:11, Heracleon afirma que alguns gnósticos (não ele mesmo) marcaram com fogo as orelhas daqueles que são selados, entendendo assim a palavra apostólica.
  • No Fragmento 50, sobre Lucas 12:8, Heracleon afirma que a confissão é feita na fé e na conduta e com a boca, sendo que a confissão com a boca (diante das autoridades) não é universal (pois nem todos os salvos a fizeram, como Mateus, Filipe, Tomé, Levi), enquanto a confissão universal é a que se faz em obras e ação correspondentes à fé nele, e aqueles que confessam “nele” vivem de tal modo que ele nunca pode negá-los.
  • No Fragmento 51, sobre João 1:17, Heracleon e seus discípulos afirmam que as palavras “A graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” são acrescentadas para mostrar que a lei (dada por Moisés) é inferior e para opor a graça de Jesus Cristo a ela.

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