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RELIGIÃO GNÓSTICA

Hans JonasRELIGIÃO GNÓSTICA

O livro em inglês publicado sob o título, The Gnostic Religion, é uma versão resumida pelo autor de sua tese de doutorado. É um dos clássicos mais representativos da pesquisa acadêmica sobre o Gnosticismo, anterior à descoberta da Biblioteca de Nag Hammadi. Suas constatações ainda são reconhecidas pela Academia, sendo muito referenciado mesmo nos trabalhos atuais.

Montserrat Torrents à versão em espanhol, La religión gnóstica

  • O primeiro volume de Gnosis und spatantiker Geist apareceu na Alemanha em 1934, quando Hans Jonas já estava exilado, tratando-se na realidade de uma tese doutoral realizada por um pós-graduando de menos de trinta anos, cujo objetivo era oferecer uma interpretação filosófica do fenômeno gnóstico antigo em geral.
    • Hans Jonas tinha a possibilidade de abordar esse projeto a partir da mais pura metodologia fenomenológica, pois havia escutado Husserl em Friburgo.
    • Optou, porém, por acolher o existencialismo heideggeriano em sua forma mais radical, aquela expressa em Sein und Zeit, publicado em 1927, justamente quando Jonas iniciava seus trabalhos doutorais.
    • O resultado foi um trabalho que pretende apresentar os gnósticos como os autênticos antecessores do moderno pessimismo existencial.
    • A obra teve boa acolhida no mundo filosófico e teológico, e consideravelmente menos entre os historiadores e os filólogos; A. D. Nock, numa resenha de 1936, classifica o escrito de trabalho metafísico e reconhece que “não entendo o que faz nesse sentido.”
    • O fato de esse livro de Jonas ter sido considerado o cume dos estudos gnósticos deve-se à sua inserção na dupla corrente do existencialismo heideggeriano e da crítica escriturística da escola teológica de Bultmann; foram sobretudo os teólogos da Formgeschichte (história das formas) que apresentaram Hans Jonas como o renovador dos estudos gnósticos.
  • Em 1958, Hans Jonas publicou em inglês a obra cuja tradução ao castelhano é apresentada, recolhendo os elementos válidos de seu trabalho anterior para moldá-los de uma maneira radicalmente distinta, atenta à história, à filologia e, o que é mais importante, a uma filosofia não orientada ideologicamente.
    • O resultado desse esforço é um trabalho amplo, profundo, maduro e ao alcance de todo leitor de cultura média.
  • O descobrimento dos documentos coptas de Nag Hammadi abalou, já nos anos cinquenta, os estudos sobre o gnosticismo, abrindo novos horizontes mas fechando outros.
    • Em particular, abandonou-se o tratamento generalista da gnose como fenômeno de ampla difusão na Antiguidade, passando-se a uma análise restrita do gnosticismo representado nos documentos egípcios — basicamente o gnosticismo judeu e o cristão.
    • O maniqueísmo e o mandeísmo ficaram relegados e seguiram seu próprio caminho.
    • Diante dessa especialização na orientação dos novos estudos, A religião gnóstica de Jonas representa uma sólida visão de síntese e uma exposição renovada dos mais válidos resultados da escola da história das religiões, tornando-se um clássico dos estudos gnósticos justamente no momento de encaixe entre as velhas teses — representadas pelos grandes eruditos do século XIX e da primeira metade do XX — e as novas correntes, representadas pelos estudiosos de Nag Hammadi.
  • A Introdução e a Primeira parte são as peças mais valiosas da obra, cuja importância não diminuiu com o tempo, e o ponto de partida metodológico é a convicção de que para compreender a gnose é necessário remontar a Alexandre Magno e aos contatos entre o helenismo e as civilizações orientais: Egito, Mesopotâmia, Irã e Índia.
    • No início foram os orientais que se helenizaram; mas a partir do século II a.C., inverte-se o sentido do movimento e é o mundo greco-romano que recebe as influências orientais.
    • O orientalismo que o mundo ocidental absorve é, porém, um orientalismo já transformado pelo helenismo — e Jonas é um dos estudiosos que mais pertinentemente insistiu nesse ponto.
    • As antigas religiões babilônicas e iranianas haviam deixado de ser organismos vivos e haviam entrado num estado de sincretismo para o qual Jonas cria a palavra “teocrasia” — mistura de deuses.
    • É esse produto cultural que, a partir do século I, se expande em direção ao Ocidente sob diversos aspectos: judaísmo helenístico, astrologia e magia babilônicas, cultos mistéricos, cristianismo, correntes gnósticas, neopitagorismo.
    • Para descrever esse fenômeno, Jonas retoma de Spengler o conceito mineralógico de “pseudomorfismo”, percebendo nesse movimento uma unidade subjacente denominada “princípio gnóstico”, descrita em termos históricos e sem uso da terminologia existencialista.
    • Esse princípio gnóstico é composto pelos seguintes elementos: uma visão nitidamente religiosa; uma referência à salvação; um conceito transcendente da divindade; diversos dualismos (Deus e mundo, espírito e matéria, luz e trevas, etc.) — tratando-se, em suma, de uma religião de salvação transcendente e dualista.
  • Jonas analisa o pensamento gnóstico em geral sob cinco epígrafes — teologia, cosmologia, antropologia, escatologia e ética —, sublinhando as tendências dualistas, a influência da astrologia, a distinção entre alma e espírito, a função decisiva do conhecimento e a ausência da noção de virtude, e mantendo dentro de seus justos limites os conceitos de Entweltlichung (desmundanização) e de Entfremdung (alienação).
  • Numa entrevista concedida a Ioan Petru Culianu (Gnosticismo e pensiero moderno: Hans Jonas, Roma 1985), Jonas reconhece a mudança de orientação em relação à sua primeira obra, afirmando ter passado da “história das religiões” à “história do espírito” e que, após a publicação de A religião gnóstica, incorporou em seu pensamento uma maior apreciação pelo testemunho dos heresiológos cristãos antigos.
    • Na primeira obra predominava a concepção “existencialista”, enquanto o novo escrito privilegia os elementos sistemáticos e objetivos.
  • Na segunda edição dessa obra, Jonas quis acrescentar um capítulo sobre os descobrimentos de Nag Hammadi, e é surpreendente constatar o acerto de suas apreciações, não invalidadas pela investigação posterior.
    • Muito pouco era o que Jonas podia conhecer dos documentos de Nag Hammadi em comparação com a completa documentação contemporânea.
    • Esse capítulo — pouco mais que um esboço — é um testemunho fiel da maestria com a qual Hans Jonas, ao final de um longo périplo de investigações, navega pelo Mar dos Sargaços dos estudos gnósticos.
  • Prefácio
  • Prefácio à segunda edição
  • INTRODUÇÃO: ORIENTE E OCIDENTE NO HELENISMO
  • LITERATURA GNÓSTICA — PRINCIPAIS DOUTRINAS, LINGUAGEM SIMBÓLICA
  • SISTEMAS DE PENSAMENTO GNÓSTICOS
  • GNOSTICISMO E A MENTE CLÁSSICA
  • RECENTES DESCOBERTAS NO CAMPO DO GNOSTICISMO
  • EPÍLOGO: GNOSTICISMO, NIILISMO E EXISTENCIALISMO
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