Flatland
COULIANO, Ioan P. The tree of gnosis: gnostic mythology from early Christianity to modern nihilism. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1992
Suponha-se que haja um mundo bidimensional, com habitantes bidimensionais. Eles ignorariam por completo a existência da terceira dimensão, e fenômenos cuja explicação é trivial em um mundo tridimensional lhes pareceriam tantos enigmas, que somente gênios da Planolândia talvez fossem capazes de compreender.
Em 1916, Albert Einstein publicou um daqueles pouquíssimos livros que têm importância na história humana, intitulado A teoria especial e geral da relatividade, ao alcance de todos. A palavra alemã é gemeinverständlich. Aos amigos, Einstein referia-se jocosamente a ele como gemeinunverständlich, “para incompreensão geral”.
O Einstein privado estava mais correto do que o público. Para o leigo que procura compreender as consequências da teoria de Einstein, a visão de mundo resultante é estonteante. Ela se encontra tão distante da experiência que de modo algum pode ser representada sem ao menos alguma explicação. O próprio Einstein ofereceu tal explicação alhures, em palavras enigmáticas que afirmam que a imaginação, o sonho e a visão, embora rejeitados pelos eruditos, desempenham nas teorias científicas um papel que excede o mero raciocínio.
Com um pouco de contexto histórico, é possível acompanhar algumas das referências de Einstein. Para explicar por que não se está em posição de compreender o mundo de dentro para fora, ele recorre a uma fábula bastante célebre: a fábula da Planolândia, concebida por um estudioso shakespeariano, o reverendo Edwin Abbott Abbott, no início da década de 1880. Suponha-se que haja um mundo bidimensional, com habitantes bidimensionais. Eles ignorariam por completo a existência da terceira dimensão, e fenômenos cuja explicação é trivial em um mundo tridimensional lhes pareceriam tantos enigmas, que somente gênios da Planolândia talvez fossem capazes de compreender. Partindo dessa analogia, Einstein desenvolveu sua concepção do universo como a hipersuperfície de uma hiperesfera. Se cinco dimensões bastavam a Einstein para dar sentido às forças físicas conhecidas por ele, hoje os físicos em busca de uma Grande Teoria Unificada do universo elevam o número de dimensões a dez ou onze, sete das quais se encontram enroladas em partículas diminutas. Para oferecer um exemplo notável da utilidade dessa teoria, poder-se-ia simplesmente mencionar que a eletricidade é explicada como o resultado — ou antes, a recepção — da gravidade quadridimensional em nosso mundo tridimensional.
A concepção einsteiniana do universo, como previsto, foi “geralmente mal compreendida”. No entanto, ela deu origem a uma proliferação de métodos de investigação que afetaram profundamente as ciências humanas. Pode-se dizer que, com poucas exceções — sendo a mais notável o biólogo D’Arcy Wentworth Thompson —, os estudiosos não costumavam estabelecer nenhuma filiação direta entre suas teorias e o universo einsteiniano. Contudo, quando devidamente reinterpretadas em seu contexto histórico, todas essas teorias mostram semelhanças assombrosas. Hoje elas são chamadas cognitivas; os estudiosos, escritores e artistas russos que, na década de 1920, iniciaram todo um movimento que frutificou na linguística e na teoria literária chamaram-nas formalismo; são mais conhecidas por sua versão francesa, que se difundiu sob o nome de “estruturalismo”.
Por mais aparentemente divergentes que sejam suas premissas, todos esses métodos cognitivos têm algo em comum: reconhecem uma dimensão sincrônica ou sistêmica em qualquer fenômeno histórico e, na maioria dos casos, rejeitam como sem sentido as concepções comuns de história. No que se segue, será descrita a essência de alguns desses métodos. Contudo, deve-se afirmar desde o início que muitos deles têm pouca utilidade para o historiador, na medida em que fracassam em sua tentativa de integrar sistema e história, sincronia e diacronia.
A consequência mais extraordinária do contínuo espaço-tempo einsteiniano para o historiador das ideias é a existência de “objetos ideais” que se tornam compreensíveis somente quando são reconhecidos como tais em sua própria dimensão. Isso pode soar ainda mais incompreensível do que o universo de Einstein. Para torná-lo compreensível, convém retornar à Planolândia e supor que o país plano seja a superfície da sopa em um prato. Suponha-se que os círculos de óleo nessa superfície sejam os habitantes inteligentes da Planolândia. Evidentemente, sendo bidimensionais, eles podem mover-se apenas em duas direções: esquerda-direita e frente-trás. A direção cima-baixo lhes é tão destituída de sentido quanto seria, para nós, uma nova direção rumo a uma quarta dimensão desconhecida, direção que o matemático Rudy Rucker chama de ana-kata. O que veem uns dos outros é uma linha, e qualquer espaço — como uma casa ou um banco — lhes é fechado apenas por uma linha. Contudo, ao vê-los a partir de uma terceira direção do espaço, pode-se ver diretamente suas entranhas, o interior de suas casas, e seria possível roubar com facilidade o cofre mais bem guardado de seu banco.
Suponha-se agora que todo esse mundo plano seja perturbado pelo ato de começar a comer a sopa com uma colher. Como um habitante da Sopândia experimentaria a colher?
Ele ou ela ficaria horrorizado por um fenômeno estranho. Primeiro, uma linha bastante curta, correspondente à ponta da colher, apareceria na Sopândia, aumentando à medida que a colher se dirige ao fundo do prato e diminuindo novamente quando o cabo cruza a superfície. Então, de súbito, ocorreria um tremendo sismo-sopífero, e parte do mundo seria absorvida para lugar nenhum. A ruptura continuaria por algum tempo, enquanto a sopa gotejasse para fora da colher e atravessasse a Sopândia; depois, a situação retornaria ao normal.
Para o habitante da Sopândia, a colher não aparece como um objeto sólido e vertical, tal como aparece para nós. Os habitantes da Sopândia só podem experimentar a colher como uma série de fenômenos no tempo. Não deve causar surpresa que a expectativa de vida seja bastante curta na Sopândia. Portanto, seriam necessárias milhões ou bilhões de gerações de habitantes da Sopândia para dar sentido aos fenômenos da colher. E seria necessário um gênio de profundidade incomum para fazer cálculos que mostrassem que a única maneira de reuni-los seria postular a existência de uma dimensão superior — a terceira —, na qual existiriam objetos de natureza desconhecida.
De modo semelhante, falha-se em compreender o que os fenômenos podem ser no espaço-tempo — e o que “história” realmente significa —, especialmente quando os objetos da investigação não são tangíveis. Muitos sequer acreditam que uma “história das ideias” seja possível, muito menos uma história que não fosse mera somatória, mas algo relacionado ao “espaço-tempo”. No entanto, a novidade dos métodos multiformes pertencentes à abordagem cognitiva consistiu em mostrar que as ideias são sincrônicas. Em outras palavras, as ideias formam sistemas que podem ser concebidos como “objetos ideais”. Esses objetos ideais atravessam a superfície da história chamada tempo como a colher atravessa a Sopândia, isto é, em uma sequência aparentemente imprevisível de eventos temporais.
Como se indicou antes, por mais que todos os métodos cognitivos que tratam sincronicamente os fenômenos históricos — incluindo os objetos ideais — tenham até agora enriquecido a compreensão do passado, é legítimo traçar uma linha entre aqueles que falharam em fornecer pistas significativas para a integração de sincronia e diacronia e aqueles que não recuaram diante dessa prova suprema da disciplina. A fascinação do século por arquétipos e repetição, formalismo, estruturalismo e “morfologias” de diferentes tipos não necessita aqui nem de prova nem de exposição. Contudo, somente muito poucos dos precursores da abordagem cognitiva puderam compreender — e muitíssimos deles ficariam tão surpresos ao descobri-lo quanto seus críticos — que aquilo que havia desencadeado sua insatisfação com os métodos tradicionais era, na verdade, a nova concepção do tempo implicada na teoria da relatividade geral de Einstein.
