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Oriental
Francisco García Bazán. GNOSIS: la esencia del dualismo. Madrid: Editorial Trotta, 1997.
Capítulo VI — O Gnosticismo Oriental
O Maniqueísmo
A Doutrina Maniqueísta, Sua Essência e Origem
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Ao abordar a cosmovisão maniqueísta depara-se com dificuldades análogas às encontradas para o gnosticismo cristão, a saber, a questão de sua origem e a da atitude fundamental que o explique.
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O surgimento sucessivo das fontes maniqueístas originou três concepções sobre a origem do maniqueísmo
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Primeira concepção: os primeiros testemunhos estão nos Padres da Igreja, nos quais o maniqueísmo se apresenta como uma heresia cristã ou um “cristianismo helenizado”
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Segunda concepção: a descoberta de Turfã levou os críticos a pensar num fenômeno religioso especificamente oriental e independente do cristianismo, que ao se fazer presente no Ocidente teria assumido aparência cristã
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Terceira concepção: Mani seria um reformador do zoroastrismo — Reichlin-Meldegg, 1826 —, um pensador de ideias hinduístas — Fr. Ed. Colditz, 1837 —, um sistematizador zoroastriano-budista — F. Ch. Baur, 1831 —, um expositor velado dos mitos e ritos babilônios — K. Kessler —, ou um reformador religioso inspirado no mandeísmo — G. P. Wetter, I. Scheftelowitz — ou no pensamento religioso do Irã — W. Bousset, seguido sobretudo por Reitzenstein, em Das Iranische Erlösungsmysterium, 1921
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Reitzenstein insiste em que o maniqueísmo é uma Gnose mítica, de fundo religioso popular iraniano, cujo tema central é a figura e vicissitude do Homem Primordial, ser transcendente, caído na matéria e que se libera dela ao longo do tempo, constituindo a figura típica do “redentor redimido” ou salvator salvandus
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H. S. Nyberg e S. Wikander seguiram essa hipótese; G. Widengren extrai dela os resultados mais valiosos
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Essa evolução geral das ideias sobre as origens do maniqueísmo é paralela à do gnosticismo cristão, pois também este foi visto primeiro como heresia vinculada ao cristianismo e depois como movimento précristão de origem oriental.
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Os começos orientais do maniqueísmo foram buscados sobretudo no Irã, e os historiadores apoiaram-se nele como exemplo típico de doutrina gnóstica — Kessler
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A partir de 1920 insiste-se na posição primitiva de vinculação com o cristianismo — Burkitt, H. H. Schaeder, Casey
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Sublinha-se o lugar que Jesus ocupa no sistema, inclusive nos textos asiáticos — E. Waldschmidt, W. Lentz
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O maniqueísmo é tomado como forma de gnosticismo cristão ou como prolongamento de sistemas anteriores, como os de Marcion e Bardesanes — P. Alfaric
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Para H. H. Schaeder, o maniqueísmo seria uma Gnose intelectual helenística, baseada na ideia de que o conhecimento determina a salvação
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A forma primitiva do sistema a constituiriam poucas ideias — Deus-matéria-alma-intelecto-demiurgo —, suficientemente gerais para se adequar a diferentes lugares e religiões
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Para Mani, a causa das heresias e da decadência das religiões de seus predecessores — Buda, Zoroastro e Jesus — estava no fato de eles não terem fixado sua doutrina por escrito; ele preocupou-se com isso e foi o redator de sua revelação.
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Mani deu a suas obras a forma de um cânone invariável e exigiu sua reprodução cuidadosa
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Essa “religião de um livro” é intangível, por estar livre de toda alteração, e os cismas lhe foram desconhecidos
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Nas versões “oriental” e “ocidental” desse movimento é possível encontrar um fundamento comum
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Mesmo nas versões “orientais”, as mais antigas, há marcas cristãs, o que mostra que o cristianismo revestiu sempre importância para o maniqueísmo
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Todos os influxos citados puderam refletir-se em Mani, mas a “sabedoria” de Mani não é a simples composição de verdades anteriores, e sim uma restauração da Verdade em forma mais universal e completa, anterior a todos os mensageiros da luz — Keph. 143-154.
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A revelação é única e diferente por sua expressão em várias línguas
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O maniqueísmo está destinado ao mundo inteiro; seu caráter absoluto e total não só lhe permite absorver as revelações anteriores, mas também superá-las infinitamente, pois sua parte de verdade se deve a essa Verdade completa
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Tudo o que é estranho é visto segundo uma intuição original de Mani, e sobre ela se compreendem as diferentes influências
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O maniqueísmo é um modo de gnosticismo que envolve a ideia de um conhecimento que salva por revelação do Si-Mesmo ou identificação nesse conhecimento do conhecedor e do conhecido — gnose —, e por ele expõe sua sabedoria sobre o homem e o mundo, suas origens, destino e estado atual.
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Essa exposição se dá de forma coerente e total, insistindo no caráter absolutamente verdadeiro e imediato dessa autognose ou revelação
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O maniqueísta gnóstico apoia-se numa intuição essencial que lhe permite compreender o universo e imbricar soteriologia e cosmologia — abarcando os aspectos antropológicos e cosmogônicos
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Neste tipo de gnosticismo oriental, o selo do mazdeísmo se fez sentir de tal maneira que a atitude dualista, negadora de toda dualidade, transformou-se em dualismo de princípios
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Dessa maneira a autognose, com seu caráter revelado e soteriológico, ao afirmar o Si-Mesmo substancial, coafirma o não Si-Mesmo coeterno e coexistente neste mundo demiúrgico, diferente também do mundo de ilusão do gnosticismo cristão
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Reconhecer-se é aqui perceber o dualismo: conhecer a irredutibilidade entre luz e escuridão, dogma maniqueísta central
O Mito Dogmático
Primeiro Momento
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O mito maniqueísta começa tornando patente o dualismo radical das duas “substâncias”, “naturezas” ou “raízes” — Luz e Escuridão, o Bem e o Mal, Deus e a Matéria —, que são princípios eternos, igualmente fortes e do mesmo valor, opondo-se em tudo o mais.
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Fausto enuncia isso em Contra Fastum XI, 1, mas isso não significa que o maniqueísta aceite dois deuses
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Em Contra Fastum XX, 1, rejeita-se o uso do epíteto “deus” para referir-se à matéria, marcando a responsabilidade do mal, que compete só à Escuridão
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Widengren aponta o estrito dualismo maniqueísta, cujas origens devem ser buscadas no dualismo iraniano
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Deus governa sobre a Luz, e ela o manifesta; essa Luz é perceptível apenas pela inteligência
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A Luz é primeiro celestial e depois terrestre; ambas se identificam, e esse é o tema central da “aventura” maniqueísta
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Nesse primeiro estado de tranquilidade há duas regiões opostas e separadas por um limite: ao norte, a região do Bem, presidida pelo Pai da Grandeza — Sroshav —, composta de cinco elementos — consciência, razão, pensamento, imaginação e ânimo —, que são as moradas ou membros do Pai, ou éter luminoso.
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O Pai da Grandeza, com sua Luz, Força e Sabedoria, forma uma quaternidade divina
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Tem no Grande Espírito seu auxiliar e está rodeado por quatro “Eões principais”, em grupos de três, segundo os quatro pontos cardeais, além de outros Eões em número ilimitado
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Ao sul encontra-se a região do Mal, cujo rei é o Príncipe das Trevas, com seus arcontes demoníacos: o “Fumo” — ou a “Confusão” —, o “Fogo Devorador”, o “Vento Destruidor”, a “Água” — ou excrementos — e as “Trevas”
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Esses procedem dos cinco abismos e formam cinco mundos superpostos, regidos cada um por um rei com figura de demônio, leão, águia, peixe e dragão
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Correspondem-lhes também cinco metais — ouro, cobre, ferro, prata, estanho — e cinco sabores — salgado, azedo, picante, insosso e amargo
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A Luz e a Escuridão são substâncias, pessoas ou ideias, forças cujo impulso rege a natureza; o Bem aspira ao alto e o Mal à profundidade; essas expansões ilimitadas chocam-se e se freiam mutuamente, ficando a Sombra como uma cunha que se introduz na Luz
Segundo Momento
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A mistura da Luz e da Escuridão constitui o período médio e só é possível porque a natureza da Matéria é dinâmica, pois ela quer atacar e subsumir ao tropeçar com a Luz, que a rejeita; a Matéria é “movimento desordenado”, semiinconsciente, e sua imagem é a luta eterna dos demônios que se autoaniquilam.
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Uma concentração sem finalidade, casual, faz o Príncipe ascender ao limite superior e desejar a assimilação da Luz
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O Pai da Grandeza decide lutar só — em realidade, carece de meios, pois sua mesma essência bondosa o autolimita —, e assim emite a Mãe da Vida — Râmrâtukh —, cujo modelo é o Grande Espírito
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Esta emana o Homem Primordial com seus cinco filhos: o Ar, o Vento, a Luz, a Água, o Fogo — os cinco amarhspand, sua “armadura” —; nas zonas fronteiriças é vencido e seus filhos devorados pela Escuridão
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Essa parte do mito pode ser considerada um preliminar paradigmático no qual a emanação e queda das mesmas hipóstases ou derivações substanciais do Pai são plasticamente ilustradas; essa derrota será o prelúdio da futura vitória
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Os hinos e salmos maniqueístas falam desse terrível golpe para a Luz pelo qual o Homem Primordial caiu no abismo profundo; perturbado pelo acidente, os demônios o rodeavam para devorá-lo
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O Homem Primordial despertou de seu estupor e orou por sete vezes; o Pai da Grandeza ouviu sua voz, emanou o Amado das luzes, este ao Grande Arquiteto e ele ao Espírito Vivente
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O Espírito Vivente gritou ao Homem Primordial e este respondeu; esse intercâmbio de intimações e respostas — Xroshtag e Padvâxtag — transforma-se em duas divindades que auxiliam na libertação
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Segundo Teodoro Bar Kônai, a voz do Espírito Vivente entrou na Escuridão como espada afiada; o Homem Primordial respondeu: “Vem, traz tua salvação: traz a mensagem da paz e da salvação. Como está o pai nosso? Como estão em sua pátria os filhos da luz?”
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O Espírito Vivente acompanhado pela Mãe deu a mão ao Homem Primordial, e os três como vencedores retornam à morada celestial — M. 33
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O tema ilustrado nesse parágrafo é o da paixão e redenção do Homem Primordial, centro do mito maniqueísta; o Homem Primordial é o redentor, mas se redime a si mesmo, necessitado dessa redenção.
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Esse é o dogma do “redentor redimido” ou salvator salvandus, já verificado como fundamental no gnosticismo cristão
Terceiro Momento
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Se o Homem Primordial foi resgatado, sua “armadura”, o “alma”, as partículas de Luz, seguem prisioneiras da matéria e precisam ser libertadas; essa tarefa será realizada pelo Espírito Vivente, que na tradição iraniana era chamado às vezes Mihryazd, “o Deus Mitra”.
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Algumas fontes gregas chamam-no demiurgo, pois ele criou o mundo visível, cuja finalidade é a salvação das “almas”, tendo castigado os demônios da Escuridão — arcontes —, arrancou-lhes a pele e fez o céu delas, os montes de seus ossos e a terra de suas carnes
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O universo está formado por dez firmamentos e oito esferas
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Um filho do Espírito Vivente — Safet-Ziwa, em siríaco o Splenditenens — sustenta o mais alto firmamento, e outro — Sakkala em siríaco — sustenta o oitavo orbe
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O Espírito Vivente iniciou a libertação: as partículas de Luz não manchadas foram purificadas e delas se formou o sol e a lua — as naves da Luz —; as manchadas em menor grau formaram as estrelas
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O Pai da Grandeza emanou ao Terceiro Mensajero — izgadda, Tertius Legatus —, pai das doze virgens da Luz, ou os doze signos do Zodíaco
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O Terceiro Mensageiro construiu o Espírito de Vida, uma enorme máquina, uma grande roda que extrai as partículas de Luz; estas vão ao sol e à lua — na primeira parte do mês à lua “pela coluna da glória”, na segunda ao sol
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Há também a chamada “sedução dos arcontes”: quando o Terceiro Mensageiro navegava em sua nave de luz, a lua cruza a abóbada celeste e se faz visível às forças demoníacas acorrentadas; para o arconte macho era a Virgem da Luz desnuda — Kanigrôshn —, e para o arconte feminino o sol na forma de um jovem desnudo
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Por excitação sexual, o arconte masculino dispersou sobre a terra seu esperma, que continha as partículas de Luz; as plantas absorveram a maior parte; o arconte fêmea abortou sobre a terra e os monstros surgidos devoraram as plantas e ingeriram as partículas de Luz
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Dessa maneira a Luz fracionada ficou repartida entre os demônios e o mundo vegetal
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A Matéria, personificada em concupiscência — Az —, decide concentrar toda a Luz numa só pessoa oposta ao divino; assim Ashqualûn, demônio masculino, devora a todos os demais e une-se a Namrâel, demônio feminino
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Deles nascem Gêhmurd e Murdiyânag — Adão e Eva —, obra deles e de sua descendência, a humanidade, do canibalismo e da sexualidade
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O corpo e a líbido serão os indícios permanentes que mostram essa origem demoníaca da humanidade; o primeiro, pela forma animal dos arcontes, e o segundo, como estímulo colaborador para manter prisioneiras as partículas de Luz pela propagação da espécie humana; porém, também daí procederá a libertação
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A Matéria privou o Primeiro Homem da sabedoria de sua origem e lhe tirou a consciência, mas os cinco anjos celestes, penalizados, rogam à tríade divina que envie um salvador e o arrebate, outorgando-lhe a consciência.
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É enviado Jesus — em siríaco Isho' ziwa, Jesus esplendoroso —, mas M. 9 fala de Ohrmazd — o Homem Primordial — e os Acta Archelai de “filho de Deus”, em outras palavras, o nous ou Vahman
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Sua finalidade é salvar sua própria alma; fala e desperta Adão, o sacode, abre seus olhos e o libera do demônio e da carne ao instruí-lo sobre o verdadeiro conhecimento; assim o testificam Bar Kônai e o M. 9
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Conforme M. 9: “O Homem Primordial abriu-lhe os olhos e mostrou-lhe claramente tudo o que havia ocorrido e tudo o que ocorrerá. Rapidamente revelou que não é Orhmizd, o Senhor, que criou esse corpo carnal, e que não é ele tampouco quem acorrentou a alma. Ao alma clarividente do bem-aventurado foi concedida a ressurreição. Ela creu na sabedoria de Orhmizd, o senhor bom. Ela aceitou na forma mais ampla, como um herói enérgico, os signacula da paz. Depôs esse corpo de morte e ficou redimida para a eternidade, e foi elevada ao paraíso, àquele reino dos bem-aventurados”
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A partir desse momento todo o interesse se centra na “alma” espalhada no mundo, ou Alma do Mundo — ela é o Jesus patibilis e o devir cósmico, um processo de autoliberação divina
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A reintegração do Si-Mesmo é dolorosa e alcançará seu fim quando toda a luz estiver congregada, quando o múltiplo tiver consciência da Unidade; antes disso, o mundo alcançará seu fim, precedido por aflições semelhantes às das especulações próprias da apocalíptica iraniana, do Próximo Oriente Antigo, do último judaísmo e do cristianismo — Marcos XIII, Mateo XXIV, Lucas XXI.
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Finalmente triunfará a Igreja, virá o Grande Rei e se realizará o último juízo frente ao trono — Bêma —; o bom será separado do mal, os condenados, os demônios e o mundo formarão um bolo que será lançado à profundidade e uma grande pedra será colocada sobre ele para que fique imobilizado
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Dessa maneira a religião maniqueísta se apresenta como a doutrina das três épocas: Luz e Escuridão separadas, mistura de ambas e separação definitiva
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O que o mito não expõe com clareza é se a totalidade das partículas de Luz alcançará a salvação ou se algumas ficarão envoltas na matéria inabilitada
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No maniqueísmo encontram-se as mesmas notas constantes que no gnosticismo cristão e a mesma ideia de gnose; nele, porém, o dualismo adquire um grau de potência psíquica que chega a obscurecer a mesma doutrina metafísica.
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Nas ensinanças maniqueístas as referências ao Deus desconhecido empobrecem na medida em que o império demiúrgico se bifurca, arrecadando seus meios para manter prisioneiro o Bem
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No fundo, sustenta-se esse segundo como um princípio mau coeterno ao divino, o que — apesar de seu caráter mitológico — parece difícil de conciliar com um pensamento estritamente metafísico
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Como símbolo, o mais que poderia significar é a virtualidade do mal, contida no coração do Não-Ser não manifestável, algo parecido ao mito zurvanita sobre as origens de Ohrmazd e Ahriman, e similar à seita zuvaniya de Shahrastani, para a qual o mal contido desde sempre no divino deve ser explicitado e assim expulso
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Isso implica uma confusão entre a potência e a virtualidade no divino, que vem em última instância a negar a perfeição do Si-Mesmo, o que resulta inaceitável
Mandeísmo
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No Iraque vivem ainda hoje grupos que se chamam a si mesmos mandaiia — mandeanos ou gnósticos — e falam um dialeto do aramaico; quando os árabes invadiram a região foram protegidos e chamados de sabeanos, que no dialeto local significa “os que se imergem”, denominação relacionada com suas práticas batismais — masbuta — e frequentes imersões.
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O Fihrist, no século X, os chama al-Mughtasilah com a mesma referência; os que possuem a doutrina secreta da comunidade, chamados nasuraiia — nasoreanos —, são poucos e nem sequer toda a hierarquia sacerdotal os inclui
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Não só observam inteiramente as regras da pureza, mas também compreendem intimamente a doutrina secreta que não deve ser entregue ao público em geral
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O estudo dos manuscritos mandeanos reflete uma verdadeira teosofia — entendida como a ciência ou sabedoria sagrada do divino —, expressa por meios entre os quais não estão ausentes a sabedoria e astrologia babilônias e egípcias, o dualismo iraniano e platônico, a especulação grega e a moralidade judaica.
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Quanto a suas origens históricas, os nasoreanos podem ter germinado nas comunidades judaicas de Pártia, Média e Babilônia, em permanente contato com Jerusalém
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Teriam se espalhado pelo vale do Jordão, Judeia e Galileia, subdividindo-se em seitas, admitindo algumas influências cristãs e vice-versa
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Destruída Jerusalém no ano 70, ao se retirarem os judeo-cristãos ao leste do Jordão, os mandeanos também o fizeram, mostrando mútua hostilidade; um grupo abandonou essas terras e se estabeleceu na Babilônia e no Khuzistão
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Acaso ali puderam encontrar uma seita gnóstica semelhante, já estabelecida, que aceitaria o batismo trazido por esses fugitivos da Palestina
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Jesus e João são citados nos documentos mandeanos; o primeiro é um mistificador, tudo ao contrário do gnosticismo cristão que o reinterpreta, o que era possível por sua aversão ao judaísmo oficial e ao cristianismo palestinense — Panarion XXIX, 6
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Essa segunda corrente de mandeanos era originária ou parcialmente judaica e provinha das margens do Jordão; por isso seus adeptos dizem que o Batista pertenceu a sua organização, o Jordão é tema central em suas escrituras, e Epifânio diz que havia nasoreanos entre os judeus anteriores a Cristo
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O ódio dos nasoreanos pelos judeus devia ter-se produzido em data em que estiveram em estreito contato com a ortodoxia judaica, que possuía a autoridade; o judaísmo heterodoxo da Galileia e Samaria parecia ter um viés gnóstico que era próprio das comunidades da diáspora, e não seria estranho que entre elas o mandeísmo tivesse se feito presente
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A gnose nasorea recebe o nome de nasirutha; é um ensinamento esotérico sistemático e baseado na identificação especulativa com Adão, uma Gnose dentro de uma gnose, um gnosticismo completo, cujas ideias centrais expressas por símbolos ou em linguagem indireta negativa refletem uma profunda intuição do mundo e do homem no Infinito.
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Primeira noção principal: o Ser Supremo sem formas, o Não-Ser, designado como Vida, Grande Vida, Grande Imanência, expresso às vezes por contradições aparentes em sua denominação; é descrito também como mikraiia, “alheio”, remoto, incompreensível, inefável
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As duas primeiras folhas da Ginza descrevem em termos negativos o Rei da Luz; carece de sexo ou atributos humanos e ao citá-lo não se diz Ele, mas Eles — Hiia —, um abstrato plural em mandeo
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Segunda noção principal: emanacionismo e queda; o Ser — o Não-Ser manifestável e Ser — surge do Não-Ser; a criação superior é obra de suas emanações; dele surge em primeira instância o Resplendor, Pensamento ou Luz Ativa — Ziwa, Mana, Yawar Ziwa —, posteriormente a Luz ou Mãe — nhura —; deles o mundo etéreo e os seres espirituais que o habitam, os uthras, e o Homem Primordial, Adam Qadmaia ou Kasia ou Secreto, que é a ideia de cosmos sob forma humana
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A Adam Qadmia se opõe como cópia Adam Pagria, o homem físico, cujo primeiro representante foi o Adão bíblico; ele é obra fracassada de Pthahil e foi Adakas — contração de Adam Kasia — quem se encarregou de completar essa imperfeita criatura, acrescentando-lhe o espírito — mana —, com o que este ficou prisioneiro da matéria inferior
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Terceira noção principal: dualismo; na construção humana de Pthahil patentiza-se um dualismo entre o Si-Mesmo e o não Si-Mesmo, em forma simbólica a que acostuma todo tipo de gnosticismo; entre os nasoreanos essa referência tem um momento antecedente no mito, nas “Águas Escuras”, primeiro sinal visível do mal
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O mal é o acompanhante inevitável da matéria, que aparece como necessário resultado da primeira expressão da Unidade em pluralidade; ao dividir-se o Uno em suas formas espirituais superiores, em Resplendor e Luz, o mal se faz presente
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Nessa doutrina metafísica a possibilidade do mal é já colocada no Não-Ser manifestável como potência que se faz virtual no homem; o Não-Ser não manifestável é a potência enquanto possibilidade de ser pura e simples em seu fundo insondável; o Não-Ser manifestável é virtualidade ou possibilidade germinal do Ser ou Manifestação
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O símbolo da queda, que no gnosticismo ocidental introduzia a ruptura ontológica no Pleroma em seu último grau de emanação, aqui se faz presente no mais prístino fracionamento da Unidade, numa figura que aspira ao maior rigor da forma metafísica
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Quarta noção principal: Salvador e Retorno; Adakas-Zaiwa e sua esposa Anana-Ziwa engendram três pares de gêmeos e posteriormente a tríade exemplar Hibil, Shitil e Anush-Hibil, chamado Hibil-Yawar, Hibil-Mana e Hibil-'uthra, que será o espírito salvador; desce ao mundo da escuridão e salva as “almas” aprisionadas
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Em momento final, a “alma” reencontrada ou re-conhecida integra-se a seu arquétipo eterno no Mushnia Kushta, e o vestido será um só Vestido, ou seja, mana será como em sua origem Mana, ou em outras palavras, o Infinito ou Si-Mesmo proclamado
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