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ASCLÉPIO

Biblioteca de Nag-Hammadi: Asclepius 21-29

Kuntzmann & Dubois

Tradução de J. P. Mahé, in BCNH, n. 7, 1982. (trad. em português de Álvaro Campos)

Este escrito representa fragmento de texto destacado de conjunto maior, que parece ter sido o Discurso Perfeito, documento hermético grego mais antigo, redigido provavelmente antes de fins do século III, mas que se perdeu. Esse discurso explanava todos os temas do hermetismo. O Asclépio (latino) é versão latina do Pseudo-Apuleio, ao passo que o Códice VI de Nag Hammadi apresenta a versão copta das páginas 21-29 do texto latino. Entretanto, o fragmento copta possui certa unidade e responde às reflexões encráticas e escatológicas dos textos de Nag Hammadi.

Asclépio, aspirante à iniciação, interroga-se junto ao mestre Hermes Trismegisto a propósito da Gnose e da atitude por ela exigida. Hermes Trismegisto toma como exemplo a relação sexual para insistir na experiência de Deus e no mistério da comunicação da gnose. A discussão volta-se então para o dom da ciência e da gnose, que é reservado a uns poucos eleitos:

As pessoas desse tipo são também blasfemadoras, ateias e ímpias. Quanto àquelas do (outro) tipo, elas não são numerosas, mas bem poucas que se (possam) contar, os homens piedosos. É por isso que encontramos em muitos a malícia, quando eles não têm a ciência das (coisas) que existem realmente. Pois A Gnose das (coisas) que existem realmente, na verdade, é o remédio para as paixões da matéria. Por essa razão, a ciência saiu da gnose. Mas, quando há ignorância e não há nenhuma ciência na alma do homem, as paixões persistem nela, sem remédio, ao passo que a malícia as acompanha como se fosse ferida irremediável. E essa ferida devora a alma, que é roída como por vermes por essa (chaga) da malícia. Mas Deus não é responsável por esses (males), pois ele enviou para os homens a gnose e a ciência (p. 66,1-25).

Para explicar a natureza do homem, mescla de substância divina e de substância corruptível, bem como sua predominância sobre os deuses-astros, Hermes Trismegisto desenvolve ideia audaciosa: ps deuses são produtos do homem.

p. 67,22-68,12: (Deus) distinguiu o homem: estabeleceu-o em uma ciência e uma gnose. Quanto às (faculdades) de que falamos no início, ele levou-as à sua perfeição para que, graças a elas, (o homem) afastasse as paixões e as malícias daqui de baixo, segundo a sua vontade (a de Deus). (Deus) levou à imortalidade a natureza mortal do (homem). (O homem) tornou-se bom e imortal, como já o disse. Com efeito, (Deus) criou-lhe duas naturezas, a imortal e a mortal. E assim, segundo a vontade de Deus, aconteceu que o homem é superior aos deuses, pois os deuses, por seu turno, são imortais, ao passo que os homens são imortais e mortais. É por isso que o homem tornou-se parente dos deuses e eles têm conhecimento mútuo de seus assuntos, com certeza. Por seu lado, os deuses conhecem o que é dos deuses.

(…)

p. 68,20-34: Como acabamos falando da comunhão entre os deuses e os homens, reconhece, ó Asclépio, o que o homem terá de força graças a isso. Com efeito, da mesma forma que o Pai,' Senhor do Todo, faz (deuses), o homem, este ser que vive sobre esta terra, (esse) mortal, ele, que não se iguala a Deus, por seu turno, também faz deuses. E ele não apenas dá uma força, mas também recebe (uma) força. Não apenas ele é divinizado, mas também faz deuses. Estás surpreso, ó Asclépio? Tu também (és) incrédulo como a maioria?

Em seguida, o texto passa à predição do castigo do Egito, à imagem dos céus, à enumeração dos pecados dos homens e a descrição do julga-mento das almas:

Escuta, ó Asclépio: há um grande demônio (que) o grande Deus determinou para ser inspetor ou juiz das almas humanas. Ora, Deus o instalou no meio do ar, entre a terra e o céu. E, quando a alma sair do corpo, necessariamente ela encontrará esse demônio. Então, ele fará esse homem dar meia-volta, examinando-o quanto ao modo como ele agiu durante sua vida. E, se achar que ele cumpriu piedosamente todas as obras para as quais ele veio ao mundo, então ele colocará esse homem (na região que lhe assenta…). Mas, se ele (vê) que tal homem passou sua vida em obras más, apodera-se dele no momento em que ele sobe às alturas e precipita-o para baixo, de modo que ele fica suspenso no céu, por debaixo, enquanto lhe é infligido grande castigo. E a esse acontecerá de ser privado de sua esperança, encontrando-se em grande aflição. E essa alma não encontra assento, nem sobre a terra, nem no céu, mas permanece no mar aéreo dos espaços celestes, (no) lugar onde há grande fogo e água congelada, bem como chispas de chamas e grande tormento, onde os corpos se veem atormentados, mas jamais de modo semelhante entre si: ora eles são precipitados em águas correntes, ora são precipitados no fundo do fogo que deve aniquilá-los (p. 76,22-77,24).

Definitivamente, este texto copta, fragmento parcial do Discurso Perfeito, endurece o ensinamento de Ogdoade e Eneade por seu dualismo gnóstico. A descrição do pecado e da sorte final da alma não deixa muita esperança para aqueles que não possuem a gnose.

Jean-Pierre Mahé

MEYER, Marvin W. The Nag Hammadi Scriptures: The Revised and Updated Translation of Sacred Gnostic Texts Complete in One Volume. London: HarperCollins Publishers, 2009.

  • O Livro Secreto de Tiago é uma carta que Tiago teria enviado a um destinatário cujo nome está em uma lacuna — restando apenas as três últimas letras em copta: […] thos —, escrita para poucos afortunados.
    • O tratado é uma tradução copta de um original grego hoje perdido e ocupa as primeiras dezesseis páginas do Códice I de Nag Hammadi
    • Em geral o texto está bem preservado, embora algumas linhas estejam em mau estado no topo das três primeiras páginas
    • O texto não tem título no manuscrito; contudo, o autor antigo — que emprega o pseudônimo autorizado de Tiago — refere-se a sua carta como um “apócrifo” — apokruphon — ou “livro secreto” — 1, 10 —, daí o título moderno do tratado
  • O Livro Secreto de Tiago segue o estilo epistolar antigo tanto na abertura — nome do remetente, nome do destinatário, saudação e desejo de paz — quanto na conclusão.
    • A carta foi enviada por Tiago a pedido do destinatário e contém o relato de uma revelação secreta que o Salvador concedeu a Tiago e Pedro
    • Tiago recorda que escreveu a carta — esotérica em seu conteúdo — em letras hebraicas, pedindo ao destinatário que não compartilhe o escrito com muitos: mesmo o Salvador não quis transmitir sua mensagem aos doze discípulos, mas apenas a dois deles — 1, 15–25
    • O destinatário é sem dúvida digno de receber este ensinamento secreto, como atesta o título que Tiago lhe confere: “ministro da salvação dos santos” — os santos podem ser os membros de uma comunidade gnóstica ou, de modo mais geral, os crentes eleitos merecedores da salvação
    • A fé transmitida por esse discurso — logos — conferirá automaticamente a salvação a esses eleitos
  • Na ficção literária do Livro Secreto de Tiago, os eventos descritos ocorrem 550 dias após a ressurreição do Salvador, quando os doze discípulos, reunidos, estão escrevendo em livros o que se lembram das palavras que Cristo dirigiu a cada um durante sua vida terrena — 2, 7–15.
    • Esse detalhe constitui uma informação importante sobre como os discípulos moldaram os logia de Cristo, processo também registrado em outros lugares da literatura cristã primitiva — como em 1 Clemente 13.1–2
    • O intervalo de 550 dias entre a ressurreição e a segunda vinda do Salvador pode ser comparado com uma tradição registrada na Ascensão de Isaías — texto apócrifo judaico com interpolações cristãs —, que fala de um período de 18 meses ou 540 dias
  • A intenção do Salvador é apartar Tiago e Pedro dos demais discípulos e ajudá-los a “serem preenchidos” — expressão técnica do pensamento gnóstico ligada ao Pleroma e à “plenitude” — por meio de sua revelação.
    • Tiago é receptivo às palavras do Salvador, mas Pedro não demonstra compreensão
    • As duas figuras foram interpretadas como símbolos opostos da comunidade gnóstica e da Igreja ortodoxa em formação: os membros da comunidade gnóstica não precisam de intermediário para obter a salvação, enquanto os membros da grande Igreja dependem de uma estrutura eclesial para serem salvos — cf. Livro Secreto de Tiago 2, 23–33
    • Os ensinamentos do Salvador são expressos por meio de uma série de metáforas gnósticas opostas: embriaguez e sobriedade, vigília e sono, saúde e doença, vazio e plenitude — metáforas pertencentes ao patrimônio comum da Antiguidade tardia que, em conjunto, expressam temas típicos do ensinamento gnóstico
    • O Salvador profere ensinamentos compostos de ditos, parábolas e profecias organizados em um diálogo no qual Tiago faz perguntas; Pedro limita-se a uma afirmação polêmica que revela sua incompreensão — 13, 26–36
  • O gênero literário do Livro Secreto de Tiago é heterogêneo: o tratado é uma carta que relata uma revelação moldada sob a forma de diálogo.
    • A carta pode ser inclusive um enquadramento acrescentado posteriormente ao conteúdo original por um redator
    • O corpo do texto é um exemplo de diálogo revelatório — no qual um interrogador faz perguntas sobre questões ocultas e um revelador fornece respostas —, bem atestado nas tradições judaica e cristã, e com bons paralelos na literatura gnóstica: Diálogo do Salvador, Pistis Sofia e Livros de Jeu
  • Dois temas centrais estruturam o Livro Secreto de Tiago: o da plenitude e da dor — 2, 39–6, 21 — e o da profecia — 6, 21–34.
    • Essa parte do tratado é guiada pela intenção polêmica do autor contra Pedro e a Igreja oficial, mas o caráter polêmico é velado e o autor mantém uma atitude prudente ao tratar dessas questões
    • As características polêmicas do texto sugerem que o Livro Secreto de Tiago responde a uma situação em que estruturas de autoridade estão sendo estabelecidas, contra as quais o texto reage
    • Outros textos de Nag Hammadi — Segundo Discurso do Grande Sete, Revelação de Pedro e Testemunho da Verdade — mostram preocupações semelhantes
    • Alguns ditos atribuídos a Jesus podem ser comparados com logia dos evangelhos canônicos, mas outros não têm paralelos na tradição neotestamentária — como o dito sobre o broto de palmeira, 7, 24–35
  • Temas apocalípticos e esotéricos judaicos são combinados no tratado: o tema do “carro do espírito” que eleva o Salvador — 14, 3–36 — evoca as especulações judaicas Merkavah sobre o carro divino de Deus; a visão experienciada por Tiago e Pedro tem paralelos nos pseudepígrafos judaicos, por exemplo, na literatura de Enoque.
    • Após ouvir trombetas angélicas e grande agitação — 15, 10–13 —, os dois discípulos ascendem a um lugar superior, onde ouvem anjos a louvar e a regozijar-se, bem como majestades celestiais — as mais altas classes de anjos — a cantar hinos — 15, 15–23
    • Subindo ainda mais em espírito, Tiago e Pedro se aproximam da Majestade — o Deus supremo —, mas não lhes é permitido ouvir nem ver mais nada — 15, 23–28
  • A pesquisa sobre o Livro Secreto de Tiago é rica e objeto de debate: segundo Henri-Charles Puech, Gilles Quispel, Jan Zandee e S. Kent Brown, a carta é uma composição gnóstica pertencente muito provavelmente a uma escola de pensamento valentiniana.
    • Essa interpretação é reforçada pelo fato de o Livro Secreto de Tiago fazer parte de um códice com características valentinianas
    • Algumas expressões referentes ao Salvador têm sabor gnóstico — por exemplo: “Retornarei ao lugar de onde vim” — 2, 23–24 — e “Ascenderei ao lugar de onde vim” — 14, 20–22
    • Para W. C. van Unnik, contudo, o tratado não é gnóstico, e sua proveniência poderia situar-se em uma pequena comunidade egípcia algum tempo após a rebelião judaica de 135 d.C.
    • A cristologia do tratado não apresenta tendências docéticas — comuns nos textos gnósticos —, e a paixão e o sofrimento do Salvador são entendidos como reais; não obstante, o Salvador é descrito como uma entidade pré-existente — 2, 23–24
  • O lugar e a data de composição do Livro Secreto de Tiago podem ser fixados no final do segundo século ou no início do terceiro, no Egito — provavelmente em Alexandria —, em um meio que caminhava para uma ruptura com a Igreja oficial.
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