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SOLIDÃO
DAVY, Marie-Madeleine. L’Homme intérieur et ses métamorphoses : suivi de Un itinéraire - A la découverte de l’intériorité. S.l.: Albin Michel, 2021.
Solidão do “nobre viajante”
- Quem opta pela interioridade deve ter como companheira, em seus primeiros passos, a solidão — não como escolha, mas como necessidade decorrente de sua singularidade —, e embora a solidão seja inicialmente um fardo, torna-se progressivamente uma alegria estranha e plena, ainda que o ser assim situado se veja privado de peso numa sociedade de consumo em que o ter prevalece sobre o ser.
- A solidão do caminho interior distingue-se dos artifícios de evasão e das máscaras com que o eu tenta iludir-se; o isolamento adquire sua significação precisamente em relação à multidão da qual o ser se aparta
- Nos momentos de fraqueza, o ser em caminho busca aprovação e encorajamento nos olhos alheios — equívoco que revela a persistência de uma dependência da exterioridade
- A solidão do caminho interior manifesta-se em dois níveis distintos: no primeiro, o indivíduo renuncia voluntariamente ao casamento e à paternidade ou maternidade para preservar a plenitude de sua liberdade, pois seu amor é amplo demais para fixar-se num único ser; no segundo, trata-se de uma incapacidade de ordem metafísica em relação à participação em qualquer coletividade, religiosa ou política.
- Kierkegaard — filósofo dinamarquês do século XIX; afastou-se de Régine Olsen apesar do amor que sentia por ela; cita a imagem do soldado de guarda nas fronteiras para quem o casamento seria incompatível com o combate espiritual contínuo: “Toda a minha vida é uma interjeição, nada nela está fixado definitivamente, tudo é móvel”
- Novalis — poeta alemão do Romantismo; a morte de sua noiva lhe pareceu experiência dolorosa necessária, ocasião de reconhecimento precoce de sua vocação para a eternidade
- A fidelidade na ordem do infinito pode coexistir com uma incapacidade de fidelidade no plano do finito — paradoxo que esses exemplos ilustram
- O segundo nível da solidão metafísica concerne à consciência dolorosa de um pseudo-cristianismo — uma civilização dita cristã sem transformação interior real —, e C. G. Jung formulou o problema com precisão ao observar que um cristão pode ter “todo Deus fora” e nunca encontrá-lo em sua alma, permanecendo subdesenvolvido e inalterado em sua profundidade mais íntima.
- C. G. Jung — psicólogo suíço do século XX; citado pela formulação de que a maioria dos homens encontrou Cristo apenas exteriormente, nunca pelo interior da alma, por falta de interioridade e por não terem descoberto seu centro — o si-mesmo, que implica simultaneamente o consciente e o inconsciente
- A mediocridade de tantos cristãos é atribuída ao hábito de viver na periferia de si mesmos, sem experiência pessoal do Cristo interior
- A imagem da Cananeia — aquela que se contentaria com migalhas, mas as migalhas pressupõem um festim; em certos meios bem-pensantes o perigo é morrer de inanição espiritual
- Os “nobres viajantes” — expressão de Milosz em Arcanos — são os iniciados que empreendem viagens imóveis na interioridade de uma meditação, em direção a uma quinta dimensão, medida de um outro mundo próximo, totalmente outro e incomunicável; Mestre Eckhart consagra a esse tema o sermão “Do homem nobre”, descrevendo os seis graus da ascensão do homem interior até a unidade perfeita com o Um.
- Milosz — poeta lituano-francês do século XX; a expressão “nobres viajantes” remete à parábola lucana do homem nobre que parte para um país distante a fim de obter um reino (Lucas XIX, 12)
- Mestre Eckhart — místico dominicano alemão do século XIII–XIV; inspirado no De vera religione de Santo Agostinho, descreve o grau último como a purificação de todas as imagens do mundo efêmero e a conservação unicamente da imagem do Filho de Deus, na qual o homem torna-se filho no coração do Pai
- Conhecimento “vespertino” — conhecimento da criatura em si mesma, por imagens e distinções múltiplas; conhecimento “matutino” — conhecimento das criaturas em Deus, na unidade do Um; o homem nobre conhece Deus e a criatura no Um: “Um com o Um, um do Um, um no Um e, no Um, um eternamente”
- A iniciação do “nobre viajante” não provém necessariamente de recepção numa coletividade secreta ou de transmissão por um Mestre, mas pode resultar de um aprofundamento da interioridade, de uma descida no mistério do interior que se efetua por graça, conferindo ao viajante uma dimensão cósmica pela qual derrama seu amor sem distinção sobre todas as criaturas.
- O “nobre viajante” aparece como eterno viajante de um universo interior ilimitado; aqueles que se limitam a percorrer espaços exteriores tomam-no por estrangeiro — e de fato ele o é em relação a todas as fronteiras geográficas, sociais e espirituais
- Os “nobres viajantes” são homens como os outros — de carne e sangue, com suas dúvidas, problemas e desespero —; o que os distingue é unicamente esse movimento interior: puseram-se a caminho
- O itinerário interior exige continuidade sem retorno: os pés do “nobre viajante” não deixam rastros, o passado apaga-se, a distância percorrida é esquecida e o importante é avançar — razão pela qual tal peregrino habita o instante presente, esvaziado de seu passado e de seu desejo, em total obediência às leis secretas que regem a marcha interior.
- A referência aos contos de Grimm — as crianças perdidas que jogam pedrinhas brancas ou migalhas de pão para reencontrar o caminho de volta — serve de contraste: para o “nobre viajante” não há pedrinhas nem migalhas, pois ele não deseja regressar ao ponto de partida temporal
- O “abandono à vontade divina” — expressão dos homens piedosos justa em si mesma, mas frequentemente mal compreendida; o risco é confundir a vontade divina com a realização do evento humanamente suscitado por si mesmo
- O “nobre viajante” mantém-se constantemente num estado de disponibilidade; ignora para onde vai e qual é o seu devir
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