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Evangelho de Tomé

Jean-Yves Leloup

  • Em 1945, no Alto Egito, na região onde havia existido Khenoboskion — a antiga comunidade monástica fundada por São Pacômio —, um camponês que cavava em busca de fertilizante descobriu acidentalmente um tesouro enterrado num jarro: uma biblioteca gnóstica composta de cinquenta e três pergaminhos escritos em copta saídico, escondida em ânforas normalmente usadas para envelhecer vinho.
    • Khenoboskion — antiga comunidade monástica nas proximidades da atual aldeia árabe de Nag Hammadi.
    • Copta saídico — a última língua ainda próxima do extinto egípcio faraônico antigo; a palavra “copta” deriva do árabe qibt, que por sua vez deriva do grego Aiguptios (Egito).
  • Entre os cinquenta e três manuscritos, no Códice II, encontra-se um evangelho atribuído ao discípulo Tomé, sem proclamações apocalípticas nem profecias, revelando em vez disso um Espaço infinito idêntico dentro e fora do ser humano — e tudo que é necessário é romper o jarro fabricado pelo homem que o oculta.
  • O Evangelho de Tomé não contém biografia de Jesus nem relato de milagres, mas uma coleção de 114 ditos denominados logia (singular: logion), atribuídos ao “Jesus vivo” e registrados por Dídimo Judas Tomé, o Gêmeo, cujas palavras são tão concisas e enigmáticas quanto os koans do Zen.
    • Yesu — forma grega e copta; Yeshua — forma aramaica.
    • Didymos — “gêmeo” em grego; thomas ou te'oma — “gêmeo” em aramaico.
    • Os logia são “sementes vivas” que, se deixadas penetrar no aparato mental ordinário, podem deter suas engrenagens e provocar uma transformação da consciência.
  • O Evangelho de Tomé suscitou um amplo espectro de reações: para alguns estudiosos é um entre muitos escritos apócrifos de interesse acadêmico; para outros, uma colagem de palavras de Jesus derivadas dos evangelhos canônicos misturada a tradições heterodoxas; para outros ainda, o documento mais próximo da própria fonte de que os evangelhos canônicos se serviram — o “protoevangelho” transmissor das palavras autênticas de Jesus.
    • Yeshua de Nazaré não era escritor, tornando impossível falar em “palavras autênticas de Jesus”: cada dito é palavra ouvida, com a marca de um ouvinte cuja escuta pode ser grosseira ou sutil.
    • Os evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas, João, Tomé e outros representam pelo menos cinco maneiras diferentes de escutar o Verbo, cada uma com sua verdade, nenhuma contendo a verdade toda.
  • Tomé tem um ouvido menos “judaico” que Mateus, é menos interessado em milagres que Marcos e não partilha do interesse de Lucas pelo anúncio da Misericórdia divina “até aos pagãos” — o que interessa a Tomé é a transmissão do ensinamento de Yeshua, tratando cada dito recebido do Mestre como uma semente com potencial de fazer crescer um novo ser humano plenamente consciente.
  • A pergunta “Yeshua foi um gnóstico?” exige cautela: no Evangelho de Tomé ele aparece como um Ser que busca despertar para o estado de consciência, o que é consonante com o Evangelho de João — “Onde eu estou, quero que vós também estejais… o Espírito que meu Pai me deu, eu também vos dei… eu estou em vós e vós em mim” —, desde que a gnose seja entendida como não-dualista e não confundida com certas formas de gnosticismo dualista ou maniqueísta.
    • Gnose — dupla lucidez acerca da condição humana: testemunho unitário e consciência dual do absurdo e da graça; “somos pó e voltamos ao pó,” mas também “somos luz e voltamos à luz.”
    • Evangelho de Maria Madalena: “Tudo que é composto será decomposto.”
    • A gnose não é expansão mental nem inflação do ego, mas fim do ego — transparência em relação a “Aquele que É” em total inocência e simplicidade, cujas qualidades se dizem semelhantes às “de uma criança de sete dias.”
  • O Yeshua de Tomé difere do Yeshua dos outros evangelhos não tanto na natureza última do Cristo quanto na apresentação de seu ensinamento — diferença de escuta, não de palavras —, e isso torna possível ler esse evangelho de modo católico, ortodoxo ou de outro modo, assim como se leem Lucas, Marcos, Mateus e João de maneiras diferentes, sem necessidade de polêmica dualista que o oponha aos evangelhos canônicos.
    • A proposta é ler todos os evangelhos juntos como diferentes pontos de vista sobre o Cristo, existentes tanto dentro quanto fora do ser humano, em dimensões históricas e meta-históricas.
    • A descoberta de Nag Hammadi convida a ir além tanto do entusiasmo ingênuo quanto da suspeita doutrinária, cultivando o “ouvido do justo meio” para escutar o Espírito que fala a todos os seres humanos além de todas as igrejas, religiões e elites.
  • A tradução utiliza o texto copta estabelecido por Yves Haas, os papiros de Oxirrinco e a retroversão grega de Rudolf Kasser, além dos trabalhos do Professor Puech e do Professor Ménard — com quem o tradutor trabalhou na Universidade de Estrasburgo sobre o Evangelho da Verdade —, sem pretensão de apresentar uma versão “definitiva,” mas como uma interpretação fiel ao sopro e ao espírito tanto quanto às letras das palavras.
    • Papa Gregório I disse que somente um profeta pode compreender os profetas; diz-se que somente um poeta pode compreender um poeta.
  • O comentário proposto não é tanto uma análise textual quanto uma meditação nascida do solo lavrado do silêncio, distanciando-se tanto das querelas dos eruditos quanto dos excessos esotéricos, buscando deixar os logia falar por si mesmos e conduzir a uma viagem de transformação rumo à plena realização do ser.
    • A questão central é se é possível ler o Evangelho de Tomé hoje como uma escritura livre dos glosários da crítica textual ou do excesso subjetivo, permitindo que ele penetre na mente e no coração da humanidade.
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