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SABEDORIA (1)
Pierre Deghaye. La Naissance de Dieu ou la Doctrine de Jacob Boehme. Paris: A. Michel, 1985.
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A revelação de Deus ocorre por meio da Sabedoria e nela, sendo ela o espelho divino e estando presente no início e no fim dos caminhos divinos.
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O Deus de Boehme se revela na realização de suas obras.
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A Sabedoria é o espelho de Deus.
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É necessário seguir o caminho da manifestação divina para conhecer a Sabedoria.
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A Sabedoria aparece quando Deus se torna verdadeiramente Deus, num primeiro começo anterior à criação do mundo e ao mundo emanado da natureza eterna.
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O primeiro começo é anterior à criação do nosso mundo.
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O nosso mundo criado é precedido pelo mundo emanado, que é a natureza eterna.
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Para chegar à origem primeira, é necessário ir além do mundo arquetípico.
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Há um primeiro começo onde Deus aparece segundo sua Sabedoria, seguido por um segundo começo onde nasce a natureza eterna, na qual a Sabedoria e Deus são inicialmente ocultados pelas trevas.
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No primeiro começo, Deus se manifesta pela Sabedoria.
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No segundo começo, a natureza eterna nasce.
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Nas raízes da natureza eterna, reinam as trevas, ocultando a Sabedoria.
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A luz surge das trevas quando a natureza é aperfeiçoada e a Sabedoria se manifesta.
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O ciclo septiforme da natureza eterna culmina na criação dos anjos, cuja carne é o primeiro céu onde a Sabedoria reina, mas ela se torna invisível novamente com a queda de Lúcifer.
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A carne dos anjos é a quintessência da natureza eterna habitada pela Sabedoria.
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A Sabedoria era o esplendor que Lúcifer perdeu.
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Adão ocupou o lugar do anjo caído, e a Sabedoria brilhou novamente em seu corpo celeste.
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Após o pecado de Adão, a Sabedoria se afastou novamente.
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A Sabedoria retornará para iluminar a carne celestial de Cristo e seu corpo universal.
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A Sabedoria personifica a presença divina, seja oculta ou manifesta, e se mostra plenamente quando o tempo da revelação se completa.
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A Sabedoria se manifesta plenamente no fim dos tempos.
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A dinâmica da manifestação divina deve ser seguida a partir de sua fonte.
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Para se revelar, Deus se gera no ciclo septiforme da natureza eterna, sendo que a Sabedoria preside esse nascimento divino.
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Deus não se revela fora da natureza eterna.
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Antes da natureza eterna, não se pode saber nada sobre Deus nem sobre a Sabedoria.
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Antes de percorrer o ciclo da natureza, a Divindade ainda não é Deus.
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O Deus que ainda não é Deus é a Deidade (Délité), comparável ao En-Sof dos cabalistas, que Ungrund (Sem-Fundamento) representa como o Infinito sem origem e sem começo.
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A Deidade escapa a todo conhecimento.
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O Ungrund é a Eternidade sem começo.
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Tentar apreender este Infinito é entregar-se às trevas.
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Lúcifer quis ser o Absoluto e foi engolido pelo abismo tenebroso.
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Para a criatura, um Deus desconhecido são apenas trevas, e Boehme identifica esse Deus oculto do início do ciclo eterno com o Pai, enquanto a luz é apropriada ao Filho.
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Em A Aurora Nascente, Boehme fala de Deus apenas nos limites do ciclo eterno.
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Sem o Filho, o Pai é apenas um vale sombrio.
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Quando o Pai é iluminado pelo Filho, então Deus é verdadeiramente Deus.
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Sem o Filho, a Divindade é monstruosa e tem o diabo como imagem.
O NASCIMENTO DE DEUS
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Posteriormente, Boehme matiza sua visão ao meditar sobre o Absoluto (Ungrund) fora da natureza, não mais como um abismo tenebroso, mas como uma Divindade incognoscível, eterna e clara.
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O Ungrund é considerado fora da natureza.
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A Divindade pura, em si mesma, permanece incognoscível.
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Boehme a evoca em termos de eternidade e claridade.
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Quando a Divindade se torna o Deus oculto, essa claridade primordial é ofuscada.
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A Sabedoria não está presente no nível da Deidade pura, que é um símbolo de perfeito silêncio, onde o Verbo ainda não existe e a claridade infinita não é a luz.
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A Deidade pura é um silêncio perfeito.
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O Verbo, voz de Deus, não existe na solidão absoluta.
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A claridade infinita da Deidade pura não é a luz.
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A Sabedoria será a alma da luz.
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A Deidade pura é um repouso absoluto, mas não o verdadeiro sábado, pois a vida ainda não nasceu, sendo a Sabedoria a vida divina e eterna que a criatura não consegue imaginar.
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O repouso da Deidade pura não é o verdadeiro sábado, símbolo de vida realizada.
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A vida não está no Infinito primordial.
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A Sabedoria é, por excelência, a vida divina e eterna.
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A criatura não consegue imaginar a vida nessa Eternidade primeira.
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Distinguem-se dois níveis no Ungrund: a Deidade pura, una e simples, e a Divindade que se move para se dar um centro (seu coração ou Filho), tornando-se uma verdadeira plenitude.
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A Deidade pura é absolutamente una, sem distinção de Pai, Filho ou Espírito.
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A Divindade se move para estabelecer um centro, que Boehme chama de seu coração ou seu Filho.
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A Divindade irradia a partir deste centro para se tornar uma plenitude.
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O Infinito primordial, como tal, não tem centro e é pura vacuidade.
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Toda vida visa um centro, que será o coração de sua existência e perfeição.
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A Divindade se fixa em um centro (o Filho) e se torna o Pai que o gera para se desdobrar, tomando o nome de Deus, e é neste primeiro começo que a Sabedoria aparece, contemporânea de Deus.
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A Deidade inominável toma o nome de Deus.
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Quando Deus nasce, a Divindade se funda, estabelecendo seu próprio fundamento e trono.
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Este fundamento é o primeiro começo, com valor de absoluto, embora não seja mais o Absoluto.
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Boehme situou este começo no início do ciclo da natureza eterna e depois o reportou à verdadeira transcendência.
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A Sabedoria aparece no momento ideal em que Deus nasce no Filho.
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A Sabedoria é por excelência a alegria (Lust) do nascimento de Deus, sendo a felicidade de uma Divindade que toma posse de si mesma.
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A alegria representada por este nascimento é a Sabedoria.
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Boehme atribui à Eternidade imóvel uma delectação (Wonne), mas a bem-aventurança da Sabedoria é de outra natureza.
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A Sabedoria é a alegria de uma Divindade que toma posse de si mesma.
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A causa desse bem-aventurança é o próprio Deus, pois nada mais existe.
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Deus não pode se manifestar senão em alguma coisa, e a natureza será esse algo; contudo, Boehme concebe uma manifestação primordial na transcendência pura, onde Deus é ao mesmo tempo o Nada e sua própria coisa.
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Deus precisa de algo em que possa irradiar para se manifestar.
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A natureza será esse algo.
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Há uma aparente contradição em conceber uma manifestação primordial na transcendência, anterior à natureza.
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Nesse nível, Deus é o Nada e sua própria coisa.
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Em toda coisa haverá sombra, mas no primeiro nível da manifestação divina, o algo que Deus representa para si mesmo não pode ser tenebroso, sendo uma claridade perfeita, e a Sabedoria simboliza essa claridade imaculada.
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O algo que Deus é para si mesmo é uma claridade perfeita, igual à do Nada.
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A Sabedoria simboliza essa claridade sem mancha.
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Mais tarde, ela será a alma da luz.
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Na natureza, a luz ainda não existe, assim como as trevas.
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A ideia de indeterminação total do Deus nascido no nível do Ungrund se expressa pela palavra liberdade (Freyheit), que significa estar livre das trevas, sendo este um dos nomes da Sabedoria.
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Ser livre (frei) significa estar livre das trevas (frey von der Finsterniss).
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Nesse nível supremo, as trevas ainda não existem.
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O termo liberdade (Freyheit) significa a ausência de trevas.
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Alegria (Lust) e liberdade (Freyheit) são nomes da Sabedoria.
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Sophia personifica a pureza primeira, que não é mais a vacuidade do Nada, mas a transparência perfeita dos corpos celestes, oferecendo o paradoxo de um corpo sem matéria.
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A pureza primeira anuncia a transparência dos corpos celestes.
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Essa pureza é o próprio corpo de Deus.
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A Sabedoria oferece o paradoxo de um corpo sem matéria.
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A virgindade de Sophia reside na pureza primeira que é ao mesmo tempo o Nada e o Tudo.
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A plenitude tem a pureza do Nada neste começo sublime.
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A Sabedoria é o corpo de Deus, o esplendor com que Ele se veste para ser conhecido, e também a vontade que comanda a manifestação divina desde sua origem até seu termo.
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A Sabedoria é o corpo de Deus e o esplendor que o veste.
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A Sabedoria é a Glória na qual Deus se manifestará.
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O corpo e a vontade são um na Sabedoria.
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A pureza da Sabedoria está na sua indeterminação e liberdade.
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A liberdade personificada pela Sabedoria está na claridade perfeita de uma vontade que não obedece a nada, e a alegria manifestada por ela está nessa vontade que é apenas delectação.
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A Sabedoria é a liberdade de uma vontade sem qualquer restrição.
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A alegria da Sabedoria é uma vontade que é apenas prazer.
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Toda contrição é contrária à Sabedoria.
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A perfeita gratuidade da vontade divina no plano da transcendência se traduz pela noção de jogo, conforme a Escritura, e toda a manifestação divina será regida por essa ideia de jogo.
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A manifestação divina é regida pela ideia de jogo.
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Deus não se revela por necessidade, mas por jogo.
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A alegria simbolizada pela Sabedoria é a de um Deus que joga.
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O nome liberdade significa a absoluta gratuidade do divertimento divino.
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A Sabedoria se relaciona a um Deus que se basta perfeitamente, mas a manifestação divina prossegue na natureza de forma dramática, levantando a questão de por que Deus não se contentou com sua perfeição primeira.
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Deus poderia se ater à felicidade sem nuvens simbolizada por Sophia.
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A manifestação divina assume um rumo dramático no ciclo da natureza.
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Por que Deus fez existir outra coisa além de si mesmo, provocando o drama?
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Por que a Deidade pura não permaneceu como o Absoluto em perfeito repouso?
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Boehme não responde a essa questão, pois é o mistério insondável dos mistérios.
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Questiona-se por que Deus, uma vez estabelecido em seu trono, se engaja em um ciclo que começa pela Morte, resultando no drama da natureza criada e na necessidade da redenção.
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O ciclo da natureza eterna começa pela Morte.
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O drama da natureza criada e a necessidade da redenção são consequências.
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Boehme diz que Deus joga consigo mesmo, mas sua teosofia não é uma estética do jogo puro.
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A beleza personificada pela Sabedoria só se revela a um preço doloroso.
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A Sabedoria é ocultada na noite do início do ciclo septiforme.
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A ideia de jogo em Boehme serve para afastar qualquer necessidade em Deus, enquanto na natureza surge a necessidade do desejo, que é gerador de trevas.
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A natureza será essencialmente o desejo.
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O ciclo septiforme é inteiramente o do desejo.
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Na transcendência anterior à natureza, o desejo ainda não nasceu.
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A vontade personificada pela Sabedoria é isenta de desejo e perfeitamente pura.
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O desejo obscurece a alma e gera trevas no início do ciclo da natureza.
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Se a Divindade se expande na natureza eterna, é por amor, pois o amor é uma força de expansão, e o gosto que Deus tem de si mesmo (Lust) expressa ao mesmo tempo sua felicidade e seu amor.
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O amor é o único motivo que pode estar de acordo com a liberdade divina.
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O amor é uma força de expansão.
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Deus ama sua perfeição e a fará irradiar na criação.
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O termo alegria (Lust), nome dado à Sabedoria, expressa tanto a felicidade de Deus quanto seu amor.
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O Deus que preexiste ao seu advento na natureza eterna é ao mesmo tempo o Nada do Ungrund e a plenitude que se desdobra a partir de seu coração, sendo que a plenitude manifestada pela Sabedoria fora da natureza já é a das coisas vindouras.
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O Nada pode ser uma plenitude?
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A plenitude do Ser já está latente no seio da Divindade, mesmo antes da manifestação da natureza.
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A transcendência fora da natureza é vacuidade apenas para o conhecimento humano.
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A plenitude simbolizada pela Sabedoria é a totalidade das coisas vindouras, guardando a pureza do Ungrund.
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A Sabedoria é a imagem de Deus e o espelho no qual estão encerradas as obras divinas, sendo que o espelho de suas obras é a sua própria imagem, e este espelho é a matriz (mysterium magnum) onde todas as coisas preexistem num caos primordial.
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A Sabedoria é a imagem de Deus e o espelho de suas obras.
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As duas coisas se confundem, pois Deus se manifesta em suas obras.
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O espelho é a matriz na qual todas as coisas preexistem antes da visão.
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O caos primordial é chamado por Boehme de mysterium magnum.
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O caos é sinônimo de liquidez e indistinção.
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No espelho da Sabedoria aparece a forma humana, que contém todas as formas vindouras e é o espelho de todos os símbolos, pois nela estão todos os mundos.
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A forma humana é o espelho da Sabedoria.
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O homem será o símbolo de todos os símbolos.
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No homem, haverá todos os mundos.
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Lúcifer, Adão e depois Cristo revestiram a forma humana.
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Cristo é o Homem eterno, conhecido de antemão no espelho da Sabedoria, e seu corpo ideal compreende todos os homens vindouros em sua perfeição última.
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Cristo é o primeiro homem no pensamento de Deus.
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O corpo ideal de Cristo, latente no espelho, contém todos os homens.
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Boehme parafraseia a primeira epístola de Pedro e cita a epístola aos Efésios.
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No Cristo, todo o gênero humano foi escolhido antes da criação do mundo.
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No espelho identificado à forma humana está compreendida não só a humanidade, mas a totalidade dos mundos vindouros e toda a criação, sendo o homem o espelho dessa vida universal.
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A totalidade dos mundos vindouros está no espelho.
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A criação inteira, inclusive as coisas inanimadas, está no espelho.
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O homem é o espelho da vida universal.
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A Sabedoria reveste a forma humana que se fará carne nos anjos, em Adão e em Cristo.
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O Espírito de Deus, quando a Deidade pura se torna Deus, se projeta num pensamento primeiro que é a soma de todos os pensamentos divinos, personificados na Sabedoria, que desde sua primeira aparição está revestida da forma humana.
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A primeira pensamento de Deus é o homem, e também será o último.
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A Sabedoria se identifica com a forma humana, imagem segundo a qual Adão foi concebido.
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Adão perdeu a imagem divina porque a Sabedoria o deixou.
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Para Boehme, como para os cabalistas, toda a manifestação divina está inscrita no corpo ideal (Bild) que é o corpo de Deus, e procurar Deus fora dessa forma humana é entregar-se às trevas.
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A forma humana é o corpo de Deus.
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A Sabedoria é a revelação compreendida no corpo do homem.
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Pretender elevar-se ao Infinito sem forma do Ungrund é orgulho que expõe ao destino de Lúcifer.
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A palavra alemã Bild significa tanto imagem quanto corpo (forma).
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A manifestação divina não é um simples desvelamento, pois Deus se revela na realização de suas obras, e cada obra é uma imagem ou espelho, sendo que toda existência é seu próprio espelho.
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Deus se revela no cumprimento de suas obras.
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Cada obra se oferece à contemplação como uma imagem.
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Uma forma é uma imagem ou um espelho.
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As coisas estão dentro da imagem ou espelho, que não são meros reflexos.
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No espelho da Sabedoria, as coisas ainda não têm realidade, mas é nessa imagem que elas vão se gerar, sendo o espelho uma matriz espiritual, e a Sabedoria é a única virgem mãe que gera o Cristo no seio de Maria.
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O espelho da Sabedoria é uma matriz.
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A Sabedoria não gera segundo a carne mortal.
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A Sabedoria é uma mãe e a única virgem mãe.
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A Sabedoria gera o Cristo segundo seu corpo celestial no seio de Maria.
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Na solidão absoluta da Deidade pura nada nasce, mas quando a Divindade se torna Deus, a Sabedoria é a promessa de todos os nascimentos vindouros e a plenitude que impele Deus a sair de si mesmo para se tornar imanente na natureza eterna.
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A Sabedoria é a plenitude que leva Deus a sair de si mesmo.
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Deus se torna imanente na esfera da natureza eterna.
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A plenitude futura está latente no seio de Deus.
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Toda a manifestação divina tenderá a atualizar essa plenitude.
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A Sabedoria não apenas é o conteúdo da manifestação, mas também o espírito ativo que levará as obras divinas à perfeição, sendo a beleza das coisas e, como alma da luz, o seu esplendor.
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A Sabedoria não criará; o Verbo cumprirá esse ofício.
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A Sabedoria é a beleza das coisas em seu acabamento e florescimento.
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A Virgem mãe gera as coisas segundo seu ser profundo.
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A Sabedoria, como alma da luz, é o esplendor das coisas.
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Antes de se engajar no ciclo da natureza eterna, Deus não tem a visão da beleza sublime que será sua, mas se deleita com ela na Sabedoria, aspirando a vê-la verdadeiramente e a saborear-se nela.
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Deus se deleita em sua Sabedoria antes das coisas existirem.
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Deus aspira a ver verdadeiramente as coisas e a saborear-se nelas.
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O símbolo do espelho sugere o despertar do desejo em Deus.
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Toda a vida divina se reduz ao desejo de Deus de gerar a plenitude.
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Deus não vê a forma humana do Cristo (identificada à Sabedoria), mas de certa maneira a saboreia, e essa imagem primordial é um tema de bem-aventurança para Deus, como indica a palavra Alegria (Lust), que transforma a vontade pura em desejo.
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A imagem primordial é um sujeito de bem-aventurança para Deus.
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O termo alegria (Lust), nome da Sabedoria, transforma a vontade pura em desejo.
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A Sabedoria é ao mesmo tempo a felicidade de Deus e seu desejo.
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Deus pode ser afetado pelo desejo sem que isso seja contringente, pois o desejo de Deus é o seu amor, e a Sabedoria é esse desejo de amor, eternamente saciado e isento de necessidade.
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A associação do termo Alegria (Lust) com Amor (Liebe) se aplica à Sabedoria.
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O desejo de Deus é seu amor.
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A Sabedoria é o amor de Deus.
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O desejo de amor é eternamente saciado e, portanto, sem necessidade.
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O desejo de amor preexiste à natureza eterna, sendo uma antecipação necessária para explicar por que Deus se engaja nas trevas e na morte, atos paradoxais que inauguram a manifestação divina.
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O desejo de amor só se manifesta realmente na natureza eterna.
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A teosofia de Boehme requer uma antecipação do desejo de amor fora da natureza.
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Deus ainda não nasceu de fato, só nascendo ao termo da natureza.
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Sem o desejo de amor e a promessa de plenitude, não se explica o engajamento de Deus nas trevas.
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A Sabedoria eterna, que preexiste à natureza, torna-se a chave da teosofia de Boehme, pois sua eternidade, concebida segundo um começo (Grund), é infinitamente mais perfeita do que a eternidade da natureza.
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A natureza é dita eterna, mas a eternidade da Sabedoria é infinitamente mais perfeita.
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A eternidade da Sabedoria não é a eternidade absoluta do Ungrund.
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O fundamento (Grund) indica um começo, o primeiro de todos os começos.
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A natureza será fundada em outro começo, dito eterno, mas a eternidade tem graus.
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Deus carrega em si todas as suas obras vindouras, mas não as conhece verdadeiramente, apenas as pressente, pois conhecê-las será conhecer-se a si mesmo na Sabedoria.
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Deus pressente suas obras, mas não as conhece.
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Conhecer suas obras é conhecer-se a si mesmo.
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Deus se conhecerá na Sabedoria, que representa a plenitude de suas obras.
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O Deus que nasce antes da natureza é um Deus que ainda não se conhece.
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Deus se conhecerá na Sabedoria sobre o fundo obscuro da natureza, pois sem sombra a luz não seria percebida, e a Sabedoria será a alma da luz que jorra no seio da natureza.
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A Sabedoria se manifestará destacando-se sobre o fundo tenebroso.
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Não é na claridade do Ungrund, mas na luz, que Deus contempla sua majestade.
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Sem a sombra, a luz não seria percebida nem existiria.
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Não há verdadeira revelação fora da luz.
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Deus não se revela senão em suas obras, e a Sabedoria é ao mesmo tempo a imagem de Deus e o espelho de seus prodígios, sendo que o homem, em sua perfeição última, será o espelho perfeito e a imagem de Deus.
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Deus se manifesta apenas em suas obras.
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A Sabedoria é a imagem de Deus e o espelho de seus prodígios.
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O homem, em sua perfeição, representará a plenitude das obras divinas.
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O homem será o espelho perfeito e, por isso, a imagem de Deus.
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Deus se conhecerá nessa imagem, que é sua própria imagem e a do homem.
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É no espelho da forma humana que Deus se revelará a si mesmo, e todas as energias da natureza tenderão a produzir essa imagem, que se identifica à Sabedoria, causa e realidade última da manifestação.
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As energias da natureza tendem a produzir a forma humana visível.
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A imagem se identifica com a Sabedoria.
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No plano da natureza eterna, os anjos figuram a forma humana, imagem de Deus.
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A imagem, que era virtual, torna-se real com a criação dos anjos.
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A imagem não é uma simples reprodução, mas a visibilidade das coisas e a face de Deus, sendo a realidade profunda das coisas, e é por meio da natureza que essa imagem será produzida e Deus se conhecerá nela.
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A imagem ou espelho é a face das coisas que contemplamos.
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A Sabedoria, imagem de Deus, é a Face de Deus.
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A imagem não dá um simples reflexo, mas a realidade profunda das coisas.
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É graças à natureza que a imagem será produzida.
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A natureza, por excelência, é a alma (Gemith), a sensibilidade divina pela qual Deus se reveste para contemplar sua própria glória, sendo o sensorium de Deus.
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Ao se engajar no ciclo da natureza, Deus se reveste de uma alma.
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A alma eterna de Deus é designada pela palavra Gemith.
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Toda inteligência se exerce pelos sentidos, mesmo no nível mais elevado.
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A alma eterna será o sensorium de Deus.
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A sensibilidade de Deus é análoga aos sentidos espirituais do homem nascido para a verdadeira vida, e o que nasce na natureza primordial é o Homem eterno, modelo da criatura nascida do alto, encarnado na carne celestial de Cristo.
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A sensibilidade divina não é imagem dos sentidos grosseiros.
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A analogia é total entre o homem que contempla e Deus que se conhece.
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O Homem eterno representa a plenitude da manifestação divina.
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O Homem eterno se encarna na carne celestial do Cristo, Homem perfeito.
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Graças à sensibilidade de que se reveste, Deus torna-se capaz de perceber e, ao mesmo tempo, de ser percebido, pois para Deus, perceber e ser percebido é uma só coisa.
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Em si mesmo, o Espírito é inapreensível.
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Deus será percebido por si mesmo e pela criatura.
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Quando a Deidade pura se funda no coração de Deus (seu Filho), o Espírito nasce, mas sua claridade deve aparecer sob uma aparência luminosa, obra da Sabedoria que não se realizaria sem a natureza.
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O Espírito de Deus não pode se manifestar em sua nudez.
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A claridade do Espírito deve aparecer sob uma aparência luminosa.
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A Sabedoria preside a todas as teofanias.
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A obra da Sabedoria não se realizaria sem a natureza.
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Uma claridade não luminosa não se percebe; é preciso um toque de sombra vindo da natureza para torná-la visível, e a Sabedoria é a visibilidade de Deus, a alma da alma eterna.
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A Sabedoria não se identifica com a natureza.
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A Sabedoria personifica o projeto divino que faz nascer a natureza.
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A Sabedoria é a visibilidade de Deus.
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A alma eterna é o modelo de todas as almas humanas e é apresentada em devir, mas é preciso saber a que nível se aplica essa afirmação, pois a Deidade, como Absoluto, é imutável e o Ungrund é uma Eternidade imóvel.
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O Deus de Boehme é um Deus em devir (in fieri) em certo nível.
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A Deidade de Boehme, considerada como Absoluto, é imutável.
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O Ungrund, em si mesmo, permanece uma Eternidade imóvel.
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O Ungrund é o repouso que não conhece o movimento.
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A Sabedoria será um símbolo de repouso, manifestando-se segundo um movimento perfeitamente dominado, sendo a alma desse movimento e sua causa ideal, enquanto permanece o perfeito repouso.
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A Sabedoria será a alma do movimento.
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A Sabedoria é a causa ideal do movimento, permanecendo o repouso perfeito.
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O ciclo da natureza é todo o movimento da alma eterna em direção à realização, dividindo-se em duas fases que constituem duas almas: a primeira obscura e a segunda luminosa, sendo esta a alma verdadeira (mens).
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O devir da alma eterna se divide em duas fases.
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A segunda fase, luminosa, é a alma verdadeira, identificada ao Espírito.
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O termo Gemüth pode significar a alma em sua raiz (trevas) ou a alma superior (luz).
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Esta dualidade da alma é fundamental na teosofia de Boehme.
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A alma humana se apresentará sob esses dois aspectos sucessivos: primeiro tenebrosa, depois, na segunda nascença, cheia de luz, formando um corpo glorioso pela transmutação da alma.
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Nasce-se com uma alma cheia de trevas.
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A segunda nascença (renascer como filhos de Deus) enche a alma de luz.
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A segunda nascença é a transmutação da alma.
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A mesma transmutação ocorre na alma eterna, modelo da alma humana.
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O ciclo da natureza eterna se repete no homem.
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Tanto no plano da natureza eterna quanto no da criatura, a Sabedoria está em obra, presidindo todos os nascimentos espirituais, incluindo o advento de Deus na alma eterna.
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Antes de se manifestar, a Sabedoria está oculta.
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A Sabedoria abre sob as aparências da morte para que nasça a verdadeira vida.
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A Sabedoria personifica a vida eterna.
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O que o teósofo descreve no ciclo primordial da natureza é o jorro da vida eterna na luz, sendo as trevas que a precedem sinônimo de morte, e a manifestação divina começa paradoxalmente pela morte de Deus.
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As trevas que precedem a luz são sinônimo de morte.
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A manifestação divina começa pela morte de Deus.
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É a morte de Cristo projetada para trás neste ciclo primordial.
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Esta morte passa do plano histórico ao de uma eternidade arquetípica.
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A ressurreição de Cristo, símbolo da segunda nascença, situa-se além do tempo ideal, e é nesse além que a Sabedoria aparece, enquanto nos três primeiros graus do ciclo a verdadeira vida está aprisionada na morte.
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A ressurreição de Cristo está além do tempo ideal.
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Nos três primeiros graus do ciclo, a vida está nascendo, mas ainda não jorra.
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Neste tempo primordial, a vida está aprisionada na morte.
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Toda vida é primeiro uma morte, no sentido de que não há verdadeira morte e que toda morte esconde uma vida a nascer, mas a vida só nasce libertando-se da prisão da morte.
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A verdadeira vida não existe sem se libertar.
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A verdadeira vida jorra escapando da prisão da morte.
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As trevas são a aparência da morte, fechando-se em si mesmas.
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A vida é o que se abre.
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A Sabedoria personifica a liberdade e a claridade da verdadeira vida.
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A Sabedoria representa a claridade do Ungrund, oposta à noite do abismo (Abgrund), e a vida é uma planta cujas raízes mergulham em profundezas tenebrosas simbolizadas pelos primeiros graus do ciclo septiforme.
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Os primeiros graus do ciclo septiforme simbolizam as profundezas tenebrosas.
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Eles anunciam, no nível dos arquétipos, a vida da criatura não liberta.
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Eles figuram o abismo que estará em cada um.
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Toda alma é primeiro um abismo tenebroso.
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A vida eterna que jorra na natureza é a dada na segunda nascença.
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A vida aparece segundo qualidades sensíveis (aspereza, amargura, quente, frio) que nascem com os sentidos e constituem essências, matrizes das coisas, sendo estas qualidades fontes e espíritos.
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As qualidades sensíveis preexistem às coisas.
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As qualidades são matrizes das coisas.
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As qualidades são fontes e espíritos.
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Para a mentalidade moderna, é paradoxal chamar uma qualidade sensível de espírito.
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As qualidades são imateriais em relação às coisas vindouras.
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Cada qualidade é uma forma de vida específica, e Boehme diz indiferentemente qualidade ou forma, sendo a forma o aspecto sob o qual a vida aparece segundo uma qualidade sensível predominante.
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A forma é o espelho pelo qual a qualidade se faz conhecer como se fosse uma coisa.
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O espelho é a imagem que a qualidade produz para ser conhecida.
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Todo ser produz sua imagem porque tende a se manifestar.
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Toda existência se realiza na imagem que oferece de si mesma.
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A produção da imagem é a imaginação, e na esfera da alma eterna, Deus imagina os mundos segundo qualidades sensíveis que se multiplicam em imagens ou espelhos, sendo a Sabedoria a imaginação divina.
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Haverá também uma imaginação perversa nas criaturas separadas de Deus.
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O mal também aspira a se revelar.
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Cada grau do ciclo septenário representa uma qualidade ou forma, chamada a se diversificar infinitamente.
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Nas duas fases da manifestação septiforme, todos os espelhos aparecem confundidos em um só; um deles será a Sabedoria (espelho radiante) e o outro a Virgem das trevas (die Jungfrau der Qual), espelho do abismo.
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A Virgem tenebrosa simboliza a vida que está nascendo nas trevas, mas é prisioneira.
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A Virgem das trevas é o espelho do abismo.
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A Sabedoria representa a claridade do Ungrund manifestada em um corpo de luz.
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A Virgem das trevas figura a potência do abismo (Abgrund) e é a Mãe do diabo.
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Para Boehme, há também uma visibilidade das trevas simbolizada pela Virgem sinistra, e sua aparição é o fundamento da fé, despertando o desejo de luz.
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A criatura vê a Virgem sinistra.
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A aparição da Virgem das trevas é o fundamento da fé.
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Não há verdadeira fé sem a visão do abismo.
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O ciclo septiforme é o ciclo do desejo, no qual a vontade divina se manifesta em vista da criação, e o desejo que nasce oculta totalmente a Sabedoria até que uma peripécia do desejo (modelo da metanoia) a manifeste.
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A Sabedoria anima a vontade divina.
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O desejo precisa de uma peripécia para que a Sabedoria se manifeste.
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A peripécia do desejo é o modelo da conversão da criatura.
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No nascimento do desejo na alma universal, ele é um frenesi oposto ao desejo traduzido por Alegria (Lust) como nome da Sabedoria, sendo que o primeiro desejo da natureza é o modelo de todos os apetites.
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O desejo personificado pela Sabedoria é uma pura complacência, não uma afecção da alma.
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O primeiro desejo da natureza é o modelo de todos os apetites.
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O primeiro desejo é totalmente insaciado, pois só pode se nutrir de si mesmo.
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Quanto mais o desejo redobra, mais se crispa e se espessa.
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A vontade do Ungrund, transcendente à alma, não era afetada por um desejo apetitivo, mas o desejo glutão é opaco e, quando nasce, as trevas aparecem com o desejo na raiz da natureza eterna.
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A vontade do Ungrund era perfeitamente clara.
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O nascimento das trevas é o do desejo na raiz da natureza eterna.
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As trevas se fecham sobre si mesmas, opondo-se à perfeita abertura simbolizada pela Sabedoria.
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As trevas são uma prisão, simbolizada pelo corpo grosseiro.
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O desejo é a sede de existir, e toda existência só pode se criar num corpo, sendo o corpo uma alma endurecida e o desejo figurado, e a primeira forma do desejo é uma potência de contração que gera o arquétipo de todos os corpos.
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A alma humana precisa se encarnar para existir.
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O corpo é alma endurecida, desejo figado.
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O endurecimento está na medida de uma cosmogonia invisível.
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O desejo é prisioneiro de si mesmo e se volta contra si mesmo.
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O desejo se desdobra, e esse desdobramento é uma discórdia universal; por um lado, ele se fecha em si mesmo e, por outro, busca escapar do seu próprio aperto com violência.
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Toda vontade não liberada será, a exemplo de seu desejo, uma vontade dividida.
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O movimento contrário do desejo aparece no segundo grau do ciclo septiforme.
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O desejo luta para escapar de sua própria prisão.
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A sede de liberdade do desejo não é ainda positiva, pois, embora a Sabedoria eterna esteja oculta sob uma noite impenetrável, o desejo permanece tenebroso e a Sabedoria nunca se compromete com as trevas.
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A peripécia se prepara, mas o desejo permanece tenebroso.
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A Sabedoria jamais se compromete com as trevas, embora estas decorram do projeto divino.
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No segundo grau do ciclo, Boehme simboliza por um aguilhão o desejo que busca escapar de si mesmo, sendo o aguilhão da morte do qual fala o apóstolo.
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A imagem é de um pico que fura furiosamente uma muralha de pedra.
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Esta muralha é o corpo e toda a natureza mortal.
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Será preciso quebrar este corpo, e é a morte que o destruirá.
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A amargura é o veneno que destruirá os corpos perecíveis.
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Dos dois primeiros graus da natureza eterna, um simboliza a vida que se endurece nos corpos antes de se libertar, e o outro a potência de morte (turba) que desintegra os corpos, sendo esta outra antítese da Sabedoria.
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A potência de morte (turba) é uma antítese da Sabedoria.
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A Sabedoria é o símbolo da vida que vence a morte: Onde está, ó morte, o teu aguilhão?
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O desdobramento do desejo não é uma dualidade abstrata, mas a Discórdia universal, a guerra que reina em toda natureza ainda não liberada.
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Enquanto não se renegarem mutuamente, os dois desejos se enfrentarão.
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Eles se arrastam mutuamente na roda da angústia.
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A roda da angústia é a roda da existência que gira num movimento de perpétuo desvario.
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Enquanto não renovada pela graça de uma segunda nascença, a vida do homem é esse turbilhão.
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A angústia é o temor de Deus, que, segundo a Escritura, é o princípio da Sabedoria, mas aparece negativamente para a criatura não regenerada, para quem o temor de Deus é apenas o medo do inferno.
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A justiça de Deus é apenas sua cólera para a criatura não regenerada.
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O auxiliar dessa justiça, que castiga e acende o fogo de Sodoma e Gomorra, é o diabo.
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O lugar do castigo (penas eternas) é o inferno.
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O gabinete da angústia é o arquétipo do inferno.
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O Deus que se teme se confunde com o diabo, que é o carrasco de Deus.
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A cólera de Deus manifestada é o contrário da alegria (Lust) sinônima de amor, e a angústia (Angst, relacionada a Enge) é o contrário da liberdade, sendo um extremo resserramento.
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A angústia é o contrário da liberdade, que é uma perfeita abertura.
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O inferno estará em cada um, na raiz da alma, pois todos nascem no inferno, e o inferno está na raiz da alma eterna, modelo das almas humanas; a manifestação divina começa no inferno.
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O inferno é o desejo.
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O inferno é o fogo.
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A alma é apenas um fogo, tanto a alma humana quanto a alma eterna.
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O fogo é primeiro um fogo frio que transforma a água em gelo, depois o calor que é o princípio de toda fermentação.
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O gelo é o corpo no qual a água se toma, mas não é seu verdadeiro corpo.
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O verdadeiro corpo da água será o cristal.
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A Sabedoria será o mar de cristal do Apocalipse, ou antes, o espírito dessa água fixada num corpo que se esparge (corpo de luz).
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O gelo, símbolo de um primeiro corpo que é apenas uma prisão (como a pedra), corresponde à solidificação de uma água original no primeiro grau da natureza eterna.
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Na pedra, um fogo adormecido não se acende; é um fogo sufocado e aprisionado que precisa ser liberado.
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O fogo que o homem faz jorrar friccionando duas pedras escapa da pedra.
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O fogo cativo da pedra é um fogo negro, que não projeta chama.
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O mesmo fogo está na raiz da alma e ruge no fundo da alma eterna.
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A alma extremamente resserrada pelo fogo que gela é o arquétipo da materialidade dos corpos, enquanto a alma segundo sua força explosiva (fogo quente) representa o espírito que recusa o corpo.
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O espírito que não se encarna torna-se um demônio.
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Os anjos têm um corpo e a Sabedoria está em sua carne celestial.
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Os anjos decaídos perderam o corpo precioso (a verdadeira forma humana) e não têm nosso corpo terrestre.
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Os demônios não têm corpo; o dragão das trevas é um espírito sem corpo.
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Quando o fogo é frio, representa o gelo do espírito num corpo do qual ele terá que se libertar; quando é ardente mas sem chama que ilumine, é a violência devastadora do furacão.
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O diabo se identifica tanto com o fogo destruidor quanto com o fogo frio que congela a matéria num corpo grosseiro.
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O espírito é representado de maneira negativa na primeira fase da manifestação divina: ou endurece a matéria, ou a faz explodir, e a noção de espírito se diversifica extremamente, assim como a de corpo.
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