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CERTEAU

Michel de Certeau

La Fable Mystique

Este livro apresenta-se em nome de uma incompetência: está exilado daquilo que trata. A escrita que se dedica aos discursos místicos de (ou sobre) a presença (de Deus) tem por estatuto não ser deles. Produz-se a partir desse luto, mas um luto não aceito, tornado a doença de estar separado, análogo talvez ao mal que constituía já no século XVI uma mola mestra secreta do pensamento, a Melancolia. Uma falta faz escrever. Não cessa de se escrever em viagens por um país do qual se está distante. Ao precisar o lugar de sua produção, gostaria de evitar primeiro a este relato de viagem o “prestígio” (impudico e obsceno, no seu caso) de ser tomado por um discurso credenciado por uma presença, autorizado a falar em seu nome, em suma, suposto saber do que se trata.

O que deveria estar lá não está: sem ruído, quase sem dor, essa constatação está em trabalho. Atinge um lugar que não se sabe localizar, como se se tivesse sido atingido pela separação muito antes de sabê-lo. Quando essa situação consegue dizer-se, pode ainda ter por linguagem a antiga oração cristã: “Que eu não seja separado de ti.” Não sem ti. Nicht ohne. Mas o necessário, tornado improvável, é de fato o impossível. Tal é a figura do desejo. Ele se prende evidentemente a essa longa história do Único cuja origem e avatares, sob sua forma monoteísta, intrigavam tanto Freud. Um único vem a faltar, e tudo falta. Esse começo novo comanda uma série de errâncias e perseguições. Está-se doente da ausência porque se está doente do único.

O Um não está mais lá. “Eles o levaram”, dizem tantos cantos místicos que inauguram pelo relato de sua perda a história de seus retornos alhures e de outra maneira, sobre modos que são o efeito antes que a refutação de sua ausência. Ao não ser mais o vivo, esse “morto” não deixa todavia repouso à cidade que se constitui sem ele. Assombra nossos lugares. Uma teologia do fantasma seria sem dúvida capaz de analisar como ele ressurge em outra cena que aquela da qual desapareceu. Seria a teoria desse novo estatuto. Outrora o fantasma do pai de Hamlet tornava-se a lei do palácio do qual não era mais. Do mesmo modo o ausente que não está mais no céu nem na terra habita a região de uma estranheza terceira (nem um nem outro). Sua “morte” colocou-o nesse entre-dois. A título de aproximação, é a região que nos designam hoje os autores místicos.

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