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Jo 1,1

PRÓLOGO DE JOÃO — No princípio era o Verbo…

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

Erígena: NO PRINCÍPIO

F.M. Braun: Luz

Joaquim Carreira das Neves (CNEJ)

No v. primeiro, a tradução: e o logos era Divino, em vez da tradução comum: e o Logos era Deus, explica-se pela falta do genitivo qualificativo tou. O mesmo acontece com a tradução do v. 18: é o unigênito divino, em vez da tradução igualmente comum: o unigênito Deus. O autor nunca confunde o Deus dos vv. 1, 2, 6, 12, 13, 14 (Pai), 18 (Pai) com o Logos. São duas entidades distintas. O Logos existe junto ou em comunhão com Deus desde sempre (v. 1). É esta a força da expressão grega pros ton Theon nos vv. 1 e 2. A partícula grega é uma partícula modal, como é também a partícula para nos vv. 6 (enviado por ou da parte de Deus) e 14 (enquanto unigênito do / da parte do Pai). O mesmo sentido aparece no v. 18, mas, agora, com a expressão de modalidade física: que está reclinado no seio do Pai ou em comunhão com o Pai. Todas estas modalidades exprimem a união íntima entre Deus / Pai e o Logos, mas nunca a identidade. O autor tem em vista o dinamismo soteriológico do Logos e não a sua natureza essencialista.

Stanislas Breton: NO E PELO VERBO

Georg Kühlewind: COM-CIÊNCIA DO LOGOS

René Guénon: VERBO E SÍMBOLO

Não sem razão, a propósito do simbolismo, vieram à mente as primeiras palavras do Evangelho de São João: “No princípio era o Verbo”. O Verbo, o Logos, é ao mesmo tempo Pensamento e Palavra: em si mesmo, é o Intelecto divino, que é o “lugar dos possíveis”; em relação a nós, manifesta-se e expressa-se pela Criação, na qual se realizam na existência atual alguns desses mesmos possíveis que, enquanto essências, estão contidos Nele desde toda a eternidade. A Criação é obra do Verbo; é também, por isso mesmo, sua manifestação, sua afirmação exterior; e por isso o mundo é como uma linguagem divina para aqueles que sabem compreendê-lo: Caeli enarrant gloriam dei (Salmo 19, 2). O filósofo Berkeley não se enganava, portanto, quando dizia que o mundo é “a linguagem que o Espírito infinito fala aos espíritos finitos”; mas errava ao acreditar que essa linguagem não passa de um conjunto de signos arbitrários, quando, na verdade, nada há de arbitrário nem mesmo na linguagem humana, pois todo significado deve ter, em sua origem, seu fundamento em alguma conveniência ou harmonia natural entre o signo e a coisa significada. Como Adão havia recebido de Deus o conhecimento da natureza de todos os seres vivos, pôde dar-lhes seus nomes (Gênesis 2, 19-20); e todas as tradições antigas concordam em ensinar que o verdadeiro nome de um ser é uno com sua natureza ou essência mesma.

Michel Henry: EU SOU A VERDADE

É este nascimento verdadeiro e o único possível como a Arque-geração transcendental do Arque-Filho que expõe o Prólogo fulgurante de João. João nada sabe de uma geração humana, ou melhor ele sabe que tal geração não é uma geração humana. Eis porque ele não se dirige senão a «aqueles que não são nascidos nem de sangue nem de um querer carnal nem de um valor humano» (Prólogo, 12). E isso não é, a princípio, porque o sangue, querer carnal ou querer humano seriam maus, mas por esta razão muito mais radical que nem este sangue nem nenhum destes quereres não é capaz de engendrar a vida, a pressupondo ao contrário. Engendrar a vida não é o fato senão da Vida, na Medida que ela se engendra ela mesma — o fato de Deus. «…Aqueles que não são nascidos nem (…) mas de Deus.» Àqueles João se dirige para lhes falar não deles mesmos mas Daquele que se engendra originariamente na Vida na medida que ela se engendra ela mesma, a saber o Arque-Filho, que ele chama o Verbo — Logos. Verbo, Logos, quer dizer “Revelação”. A revelação em questão é aquela da Vida. Esta revelação pertence à Vida como sua essência mesma na medida que não há Vida senão como revelação de si, como sua auto-revelação. O Verbo designa a auto-geração da Vida na medida que se cumpre sob a forma de uma auto-revelação, na medida que esta auto-revelação se cumpre sob a forma de uma Ipseidade essencial e assim do Primeiro Vivente. Porque não há Vida que não se cumpra desta maneira, na Ipseidade essencial do Primeiro Vivente, este é tão antigo quanto ela. «No princípio era o Verbo». Porque a Verdade da Vida (esta verdade que é a Vida) é radicalmente estranha ao mundo, enquanto ela engendra no constringir inicial de sua Ipseidade essencial — o Primeiro Vivente — não se vai fora dela mas se permanece nela, neste constringir da vida. «E o Verbo estava junto de Deus». Porque este constringir da Vida no qual o Verbo permanece é a vida mesma em sua auto-revelação, enquanto este Verbo não é diferente com efeito da essência desta vida. «E O Verbo era Deus». O segundo versículo já é o resumo das implicações essenciais que acabamos de lembrar com João, e que constituem o núcleo do cristianismo, o que nomeamos as tautologias essenciais da Vida. «Ele estava no princípio junto de Deus». O que significa este «junto de» já é arrancado à longa sequência de contrassensos que vai lhe fazer se submeter o pensamento ocidental até o bei sich hegeliano. E isso no texto muito denso do versículo 4 onde é afirmada a Interioridade fenomenológica recíproca do Pai e do Filho — se é verdade que a vida não se projeta em si senão na Ipseidade do Primeiro Vivente de sorte que a primeira porta nela a segunda, e a segunda a primeira: «Nele estava a Vida».

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