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6 Clemente de Alexandria

Peter Brown. The Body and Society: Men, Women, and Sexual Renunciation in Early Christianity; Twentieth Anniversary Edition with a New Introduction (Columbia Classics in Religion)

6 “Um pálido reflexo da providência divina”: Clemente de Alexandria

1. Clemente chegou a Alexandria aproximadamente em 180, ainda à procura de um guia espiritual, pois já passara pelas mãos de muitos mestres cristãos vindos de pontos tão distantes quanto a Sicília e a Síria, e é possível que até Taciano tenha estado entre eles.

2. Panteno era um filósofo conhecido como orgulho da escola estóica que, como cristão devoto, fora designado para pregar o Evangelho de Cristo aos povos do Leste e chegara a viajar até a Índia, possivelmente para estabelecer contato com os grupos cristãos entre as comunidades mercantes instaladas no Golfo Pérsico e ao longo da costa de Malabar.

3. Estabelecido em Alexandria como presbítero e chefe de uma escola de instrução de convertidos — a chamada Escola Catequética —, Panteno foi sucedido por Clemente, a quem inicialmente transmitira seus ensinamentos da maneira esperada, pois fecundou seu discípulo pela boca, através de uma comunicação oral extensa da qual não restou, ou não se pretendeu que restasse, uma só palavra em forma escrita.

4. Para Clemente, suas extensas obras escritas tinham um toque de tristeza deliberada, pois eram fracas, escreveu ele, se comparadas ao espírito cheio de graça a quem tivera o privilégio de ouvir, e, como leitos secos de rio pelos quais um dia jorrara dos lábios de Panteno uma torrente de palavras vivificadoras, as obras de Clemente repousam agora pesadamente nas prateleiras das bibliotecas modernas.

5. Para Clemente, elas foram um remédio contra o esquecimento, uma simples imagem e esboço dos discursos vigorosos e instigantes desse homem, pois, a despeito de seu papel fundamental como guia íntimo de almas, Clemente foi um dos autores mais vastos da igreja pré-constantiniana e é sem dúvida o que se julga conhecer melhor.

6. A doce e incansável precisão de suas ilustrações da conduta cristã seduz a crer que se está com ele na Alexandria do século II — jantando, mantendo conversazioni, andando com passos ligeiros pelos gramados bem aparados de uma vila suburbana helenística, e até, vez por outra, retirando-se discretamente para a cama com sua mulher —, onde, entre outras coisas, ele se declara favorável ao ginásio natural da cama dura, cura soberana para as dores nas costas.

7. Todavia, esse é apenas o Clemente que sobreviveu, sendo a impressão que se extrai de sua Exortação aos pagãos, do Paidagogos, do Stromateis ou Miscellanies, e de sua homilia sobre A salvação do homem rico, pois o outro Clemente perdeu-se quase por completo: Clemente o clérigo, autor de obras perdidas Sobre a páscoa e Contra os judaizadores, compilador das Hipotiposes, primeiro comentário bíblico completo na história da igreja.

8. Aquilo com que as gerações posteriores se deleitaram, e que preservaram ao copiar os escritos que hoje se possuem, foi a imensa serenidade cultural do homem, pois ele se apresentava como o jardineiro de Cristo, cortava brotos das moitas cerradas, ressequidas e quebradiças da literatura pagã e os enxertava no rizoma suculento da verdade de Cristo, produzindo frutos mais ricos e robustos no pomar da Igreja.

9. Apesar disso, nunca se deve esquecer que outros cristãos, e não os pagãos, foram os verdadeiros precursores do adorável classicismo de Clemente, pois, como professor em Alexandria e tendo feito extensas viagens, Clemente sabia que seus pupilos estavam expostos a interpretações muito mais radicais do cristianismo do que as dele.

10. Com toda probabilidade, teriam passado pelas mãos de guias espirituais austeros — os seguidores encratitas de Taciano ou os gnósticos da escola de Valentino —, pois os laços estreitos entre Alexandria e a Palestina levaram às portas de Clemente a devoção dos círculos encratitas da Síria, e o papel dos mestres gnósticos na Escola Catequética de Alexandria colocou as concepções de Valentino e seus seguidores no primeiro plano de suas preocupações.

11. Esses grupos, embora cada qual de maneira muito diferente, pareceram a Clemente pregar um cristianismo da descontinuidade — um cristianismo dos renascidos —, pois haviam afirmado poder arrancar por completo os fiéis renascidos da trama da vida normal.

12. Os encratitas se diziam capazes de deter instantaneamente os processos naturais mediante os quais Deus, em Sua providência, havia tecido, através do coito conjugal, a trama humilde e necessária da raça humana, pois os gnósticos afirmavam poder superar, através de um momento de redenção instantânea, a longa disciplina moral e intelectual exigida de todos os cristãos.

13. O que se tem aí é uma confrontação direta, pois, desdenhando os encratitas, Clemente sempre levou realmente muito a sério a imagem valentiniana da pessoa redimida.

14. Clemente acreditava apaixonadamente que o lento e paciente trabalho de Cristo na alma produzia homens e mulheres tão profundamente modificados quanto qualquer um que tivesse passado pela mutação associada à conversão gnóstica, pois, para ele, esses eram os verdadeiros gnósticos.

15. Eis aí um termo em que Clemente confiava, pois, para ele assim como para seus oponentes, era um termo que resumia a humanidade no que esta tinha de mais elevado, e, como sábios cristãos perfeitos, essas pessoas olhavam o mundo do outro lado de uma imensa mutação de seu ser interior.

16. Mas, ao contrário dos convertidos dos grupos mais radicais, os sábios cristãos de Clemente fitavam com mais serenidade sua vida passada, bem como a sociedade e a cultura em que viviam, pois o passado se descortinava abaixo deles como uma paisagem agradável, com seus marcos antes costumeiros agora reduzidos a proporções ínfimas, vistos de sua perspectiva elevada.

17. Embora minguados pela distância, os marcos do passado não tinham sido descartados, pois a absorção de uma cultura convencional nas escolas pagãs, os deveres solenes do leito conjugal e a providência microcósmica implicada no cuidado com os filhos e a casa haviam desempenhado um papel necessário nas etapas anteriores do desenvolvimento dos cristãos espiritualmente maduros.

18. Longe de constituírem um obstáculo intransponível para a perfeição espiritual, os interesses de uma vida ativa, incluindo o próprio ato das relações sexuais conjugais, serviam para afinar as cordas que, na velhice, produziram o som bem temperado de um sábio que se aperfeiçoou.

19. O amplo uso de fontes gregas pagãs por Clemente foi consequência de uma aliança cuidadosamente considerada, pois ele se baseou nas normas de conduta disciplinada recomendadas pelos filósofos às elites gregas de sua época, no intuito de envolver os fiéis numa rede de padrões minuciosos e aparentemente insignificantes de vida cotidiana.

20. Mas cada detalhe desses códigos comunicava discretamente uma visão do mundo, da pessoa humana e da sociedade que era à prova do som das reivindicações estridentes dos renascidos, pois um senso instintivo de forma, uma viva sensibilidade ao próximo e uma profunda crença em que o corpo era capaz de transmitir mensagens com tanta precisão quanto quaisquer palavras estavam no cerne da noção pagã de refinamento moral.

21. Os códigos ensinados pelos filósofos, e aplicados às necessidades do homem público por uma aristocracia urbana culta, foram apropriados e transformados por Clemente, pois foram resgatados do mundo tenso e preocupado com o poder em que viviam as grandes personalidades civis e aplicados às necessidades mais resguardadas das famílias de fiéis.

22. O resultado consistiu em proporcionar aos fiéis cristãos um equivalente — em seus efeitos, senão em seus pressupostos subjacentes — da halakhia que os rabinos tinham começado a preparar para os judeus escrupulosos, pois os textos de Clemente comunicaram o sentimento da abençoada importância de cada momento da vida cotidiana, e em especial da vida doméstica.

23. Através de atos livres de habilidade moral consciente, os fiéis poderiam criar dentro de casa um oásis de ordem minuciosa em meio a um mundo desalinhado, pois o Paidagogos foi escrito para dizer como cada um de nós deve se conduzir com respeito ao corpo, ou melhor, como regular o próprio corpo.

24. O livro foi uma vitória da razão pedagógica, pois Clemente, o mestre talentoso, extrai o essencial, parecendo pedir o insignificante.

25. À primeira vista, o Paidagogos causa a impressão de ser clamorosamente voltado para ninharias, pois poucos detalhes são poupados, e depara-se com o cristão à mesa mantendo as mãos, o assento e o queixo livres de manchas de gordura, possuindo a graça da aparência imperturbável e sem cometer nenhum indecoro no ato de engolir.

26. Ele devia arrotar com delicadeza, sentar-se corretamente e se abster de coçar as orelhas, pois a sintonia perfeita entre o corpo e a alma devia refletir-se no mais delicado de todos os instrumentos — a voz.

27. Os ouvidos gregos e do Oriente Próximo tinham uma sensibilidade à voz humana que é preciso um certo esforço mental para resgatar para a imaginação anglo-saxônica moderna, pois Clemente abominava a explosão grosseira do riso, e sua liberação súbita e instintiva lhe parecia uma tentativa deliberada de sabotar o fluxo comedido das palavras humanas conscientes, que ecoavam em sons controlados e inteligíveis à ordem serena e duradoura da Palavra divina, de Cristo, na alma.

28. Clemente escreveu com autêntica raiva sobre aqueles que chamavam os escravos estalando os dedos, pois negar aos escravos o contato através das consonâncias suaves da voz humana era negar-lhes sua humanidade.

29. Sentados em torno da mesa, com suas imensas barbas prateadas deixando transparecer a solenidade da longa experiência, os patriarcas tranquilos a quem Clemente tanto amava tinham que aprender, entre outras coisas, a pôr à vontade os meninos e meninas tímidos mediante uma brincadeira apropriada e gentil, pois Clemente sabia, é claro, sugerir brincadeiras dessa natureza.

30. Eles deviam aprender a não falar com os surdos por meio de resmungos respeitosos, pois isso demonstraria extrema insensibilidade, e, tendo o caráter bem estribado na velhice, podiam dar-se o luxo de tomar um trago ocasional de vinho quente para combater o frio do inverno, com sua alegria ordeira transbordando entre eles em risinhos harmoniosos.

31. Que o olhar seja firme, e que os giros e movimentos do pescoço e a gesticulação das mãos durante a conversa sejam decorosos, pois, em suma, o cristão se caracteriza pela compostura, tranquilidade, quietude e paz.

32. Grosso modo, se a genialidade pode ser definida como uma capacidade infinita de esmero, o Paidagogos revela Clemente como um gênio moral, pois toda essa minúcia transmitia o peso de sua mensagem: a pessoa humana atinge seu fim almejado através do corpo, consorte e aliado da alma, e em nós não é apenas o espírito que tem de ser santificado, mas também nosso comportamento, nosso estilo de vida e nosso corpo.

33. O produto final desse aprimoramento era, sob muitos aspectos, uma figura tranquilizadoramente antiquada, pois, por baixo da encantadora aparência clássica do cristão requintado de Clemente, encontrava-se o fiel íntegro das comunidades cristãs primitivas.

34. A fala virginal, terna e isenta de fraude era aquilo por que Clemente ansiava em seus polidos chefes de família, exatamente como fizera Hermas em Roma duas gerações antes, pois exemplares do Pastor de Hermas circularam entre as igrejas provincianas do Egito, e os cristãos que o leram provavelmente levavam uma vida bem próxima daquelas noções vetustas e despretensiosas.

35. A népiotés, a simplicidade sem artifício, a franqueza e a falta de afetação das crianças, eram qualidades preciosas para Clemente, pois, para ele, essa noção condensava todo um projeto moral e social, presumindo que o fiel cristão continuasse a ser um membro pleno da sociedade.

36. Casados ou solteiros, homens ou mulheres, velhos ou moços, os que continuavam a ser crianças no coração traziam para o meio de um mundo dissimulado e cheio de atritos um toque da despretensiosa cortesia original de Adão, o cavalheiro da natureza, e de Cristo, o novo Adão, que caminhara entre os homens com uma doçura infantil.

37. O ideal de vida cristã de Clemente era permeado por um profundo sentimento de reverência a Deus como Criador do universo, combinado com uma consciência da presença, na alma dos fiéis, de Sua Palavra, Cristo — um companheiro íntimo com quem deveriam relacionar todos os detalhes da vida dos fiéis.

38. O puro e diáfano Jesus, o olho que vigia na carne, a Palavra translúcida, divide uma só morada conosco, partilhando de nossas deliberações mais íntimas, falando dentro da alma, sentando-se à mesa dentro dela, partilhando do esforço moral de nossa vida.

39. Para ficar à altura dessa noção e do projeto de permanente aprimoramento moral que ela implicava, Clemente recaiu instintivamente nas concepções estoicas, que, ao lado da metafísica platônica, eram parte integrante da koine intelectual da época, pois o estoicismo forneceu a Clemente exatamente a linguagem de que ele precisava.

40. O Sábio estoico também fora apresentado como uma pessoa comprometida com o respeito incondicional a uma potência superior, possibilitado por um vívido sentimento de intimidade com essa potência, pois o Sábio era livre para cooperar, alegremente e de bom grado, com a ação oculta da Mente Suprema, no que ela extraía triunfalmente a beleza e a ordem do fluxo visível do mundo material.

41. Longe de ser uma filosofia que incentivasse a inatividade, o estoicismo levava seus adeptos a mostrar suas virtudes numa vida ativa, pois o monarca que aceitava os encargos do ordenamento do Estado como uma nobre escravidão, o atleta cujo corpo ágil e bem preparado dançava e oscilava na perpétua luta de boxe entre a mente e os golpes erráticos da sorte, e o soldado voluntário sempre disposto a aceitar mais uma missão perigosa eram as imagens que resumiam a vida do estoico escrupuloso.

42. Para atingir um estado de prontidão entusiástica, o ego individual tinha que passar por uma transformação total de sua maneira de perceber o mundo, pois o clima interno da própria mente tinha que se modificar, e cada situação devia ser percebida exatamente como era — não como uma oportunidade de experimentar o medo, a frustração ou uma esperança inadequada, mas como uma oportunidade de servir com alegria.

43. O que entravava esse estado de disponibilidade lúcida e atenta eram aquilo a que se chama equivocadamente, nos modernos resumos do estoicismo, as paixões, pois a melhor maneira de vê-las é encará-las como tendências formadas dentro do ego, passíveis de forçar o sábio a reagir exageradamente a uma situação qualquer, a investi-la com uma carga de significação pessoal e egoísta que distorcesse seu sentido verdadeiro.

44. As paixões coloriam as percepções do mundo externo com fontes inexistentes de medo, angústia e esperança, ou então mergulhavam esse mundo num brilho falso de prazer e satisfação potencial, pois eis aí uma doutrina austeramente introspectiva: as paixões podiam ter sua origem remota no corpo, mas somente depois de promoverem uma mudança no clima interno da mente é que podiam ser erradicadas.

45. Como criaturas físicas, os seres humanos não podiam evitar os anseios — ôrxeis —, pois a fome, o medo cego da extinção e as sensações necessariamente associadas ao desejo sexual eram a chiadeira inevitável e emudecida do eu biológico, que nunca podia ser abandonada.

46. A consciência de tais sensações despontava na mente como vapores finos, pois, se não fossem dispersados pela reflexão vigilante, esses vapores poderiam nublar todo o clima interno da mente, envolvendo-a numa espessa bruma de paixões.

47. Só um ritmo de vida meticuloso, em que as comoções do corpo fossem minuciosamente avaliadas em termos de quais eram as expressões legítimas e as expressões ilegítimas de suas necessidades instintivas, permitiria ao sábio manter a lucidez e a serenidade de visão infinitamente preciosas, associadas com o estado desapaixonado.

48. Clemente se identificava entusiasticamente com a noção estoica de apatia, com o ideal de uma vida livre das paixões, pois, diante de uma doutrina tão austera e que teve um futuro tão extenso na igreja cristã, deve-se tomar o cuidado de definir com exatidão o que Clemente contemplava nessa vida.

49. Não era algo tão drástico quanto pode parecer à primeira vista, pois a linguagem de Clemente, tal como a de seus contemporâneos pagãos, era conscientemente estética, e o sábio era um artista que trabalhava com amoroso desvelo sobre a mente e o corpo.

50. Moldar a vida, nos círculos de Clemente, não implicava uma fustigação impiedosa do corpo, pois era, ao contrário, um processo tão meticuloso, tão exigente e tão amoroso quanto a atenção que os homens de letras tinham que dar à colocação exata de cada palavra, ao tom e ao equilíbrio correto de cada frase.

51. Era um polimento das excrescências inestéticas que embaçavam a forma nítida e verdadeira da pessoa, pois Clemente não tinha dúvidas de que esse era um processo difícil, mas definitivamente não era um processo que exigisse a repressão dos sentimentos.

52. As paixões não eram o que se tende a chamar sentimentos, pois eram, ao contrário, complexos que dificultavam a expressão verdadeira dos sentimentos, e as imagens mais ternas de Clemente sobre a vida cristã foram imagens de uma atividade constante e diligente, livre para amar e servir ao Senhor.

53. Rédeas de potros indomados dominando nossos desejos, asas de pássaros decididos a guiar nosso voo em segurança, leme firme da juventude, inabalável ante todos os choques, pois o que Clemente contemplava no ideal da apatia era um estado de serenidade última de propósitos.

54. Não mais sendo refreadas pelos temores e incertezas gerados pelas paixões, as boas ações poderiam brotar tão fluentemente do conhecimento acertado quanto a sombra se desprendia do corpo, pois Cristo gostava de inclinar Seus ouvidos para ouvir essa recreação serena entre Seus santos na terra.

55. Entreter-se e se alegrar com a capacidade de suportar o que é bom e com a administração do que é bom, celebrando com Deus um solene festival, pois com tal divertimento se entretém Júpiter, e essa citação, extraída de Heráclito, fluiu da pena de Clemente sem a sombra de qualquer dúvida.

56. Tornar-se semelhante a Deus era partilhar do imenso bom-humor de um Zeus olímpico, brincando alegremente dentro de um lindo universo, pois o sereno sábio cristão de Clemente não tinha que ser um recluso: era um professor ativo, ou até um administrador, cuja diversão era o cuidado com as almas, ou mesmo o governo da igreja.

57. Como Moisés, o sábio era portador de uma alma régia, pois o sábio cristão tampouco era uma abstração desprovida de carne, um mero ideal piedoso.

58. No pensamento pagão, o estado sereno de apatia era enumerado como um cânon de excelência pelo qual se deviam julgar os sábios aprimorados, caso surgissem candidatos, pois, para os cristãos, o candidato à excelência já estava presente na figura de Cristo.

59. Os servos de Cristo, a sucessão de apóstolos, mestres e mártires até a época de Clemente, deixavam claro que a presença duradoura de Cristo na alma podia efetivamente aperfeiçoar a vida dos fiéis, transformando-a num reflexo cristalino de Sua própria vida, pois sugerir algo diferente disso deixava Clemente imensamente enraivecido.

60. Em parte alguma a preocupação de Clemente com a produção do sábio cristão perfeito é mais evidente do que em suas concepções sobre a sexualidade e o casamento, pois seu Paidagogos, bem como a discussão sobre o casamento e a sexualidade no terceiro livro da Miscelânea, foram escritos para os cristãos moderados, para os metriopáticos — ou seja, para os fiéis que ainda não haviam alcançado a imensa serenidade associada aos sábios, cujas paixões já não exigiam um controle angustiado.

61. Era para esses cristãos moderados casados — provavelmente os casais jovens e os adolescentes que se aproximavam da idade do casamento — que a imagem encratita da sexualidade representava maior perigo, pois os encratitas haviam sobrecarregado a sexualidade de associações pesadas.

62. Os encratitas haviam-na apresentado como um indicador privilegiado do estado de decadência da humanidade e tinham defendido a enkrateia — a rigor, a renúncia abrupta ao casamento — como instrumento privilegiado por meio do qual os cristãos poderiam pôr termo à terrível exigência da sepultura, pois nenhuma atitude poderia ser mais profundamente repulsiva a Clemente: eles depositam suas esperanças em suas partes íntimas.

63. Sendo de ponta a ponta um homem da antiguidade, a morte, e não a sexualidade, continuava a representar para Clemente a mais permanente aflição da raça humana, pois toda carne é relva e toda a glória do homem é como a flor da relva: para ele, isso não significava que as relações sexuais fossem uma perda de tempo, mas exatamente o oposto — que a carne frágil, tão facilmente devastada pela morte, devia ser renovada a cada geração através da procriação, caso contrário a palavra do Senhor não perduraria.

64. Sem o corpo, como poderia o plano divino para nós, na igreja, atingir seu objetivo?, pois Clemente, nosso mestre da razão pedagógica, estava perfeitamente disposto a dizer aos casais cristãos exatamente como conduzirem suas relações sexuais conjugais.

65. Os leitores modernos, como é compreensível, prefeririam que ele não o tivesse feito, pois no começo do século XX considerou-se que nosso pedagogo tinha falado demais, e hoje em dia, ao contrário, é mais comum ele ser censurado por ter admitido muito pouco.

66. Já se observou a tendência dos autores gregos, durante o Império Romano, a dotar as relações conjugais de portentosas implicações de ordem ideal, pois eles tendiam a falar da união sexual dos casais como se se tratasse de um ato do qual se devesse excluir a satisfação erótica.

67. Clemente recorreu a esses textos e, ao fazê-lo, caricaturou-os, pois a tendência da antiguidade recente a exigir ordem até mesmo no ato do amor atingiu seu auge na discussão de Clemente sobre o casamento, no Paidagogos.

68. Moisés, escreveu ele, tivera a prudência de proibir os filhos de Israel de comerem a carne da hiena, pois os hábitos sexuais da hiena deixavam muito a desejar: esse animal infame mantinha relações sexuais com frequência, numa multiplicidade de posições, e às vezes até quando a fêmea estava grávida, e seus casais de cristãos não se deveriam permitir tais liberdades na cama.

69. O importante para Clemente era que as relações sexuais conjugais fossem abordadas da maneira estoica, como uma ação consciente praticada a serviço de Deus, pois por essa razão não podiam ser separadas da ordenação harmoniosa da vida cristã.

70. O leito conjugal não devia ser como o tear de Penélope, pois os fios de seda da conduta cristã, tão cuidadosamente tecidos em torno da pessoa durante as horas do dia, não deveriam ser desfeitos à noite.

71. Com Clemente, a sexualidade disciplinada do judaísmo e das comunidades cristãs primitivas foi sutilmente endurecida ao se infundir nela a aguda sensibilidade estética dos gregos, pois a maximização do prazer no ato sexual, através da escolha de posições diferentes e do prolongamento da atividade sexual fora dos períodos estritamente necessários à concepção dos filhos, foi considerada vulgar e plebeia.

72. As acrobacias desvairadas eram incongruentes nas figuras primorosamente ajustadas dos sábios em potencial, em quem nem mesmo uma palavra ou um gesto devia estar fora do lugar, pois, quanto a charis, a afabilidade criada pelas relações sexuais — aquela qualidade indefinível de confiança e afeição mútuas adquirida através do prazer da cama, que até o augusto Plutarco admitia —, a rígida insistência de Clemente em que as relações sexuais só ocorressem para a geração de filhos fez com que o delicado desabrochar dessa ideia desaparecesse para sempre do pensamento cristão da antiguidade recente.

73. Clemente deixou-se levar para uma postura que os moralistas pagãos tinham tido o bom senso de evitar, pois as normas de conduta sexual tinham permanecido como questões relativamente periféricas para eles, mas Clemente não podia dar-se o luxo de imitar-lhes a reticência.

74. Era um cristão escrevendo para cristãos confrontados com ataques de uma minuciosidade sem precedentes às relações sexuais conjugais, pois os argumentos encratitas contra o sexo exigiam respostas extraídas do próprio âmago do leito conjugal.

75. Clemente disse a seus leitores, de maneira concreta e meticulosa, que a sexualidade ordenada não era, em si mesma, um ato bestial, pois, ao fazê-lo, porém, ele deslocou o centro de gravidade das atitudes antigas perante o aprimoramento e o controle do corpo para fora de seu contexto diurno habitual, e elas passaram a se apoiar no casal cristão na cama.

76. Era um fardo pesado de suportar para qualquer um que estivesse nessa situação, pois nos círculos pagãos os testes por que passava a pessoa requintada tinham sido extremamente públicos, e os contemporâneos observavam os indivíduos em sua persona pública, ao falarem, ao se postarem de pé, à mesa, ou reagindo, geralmente em público, à tristeza, ao medo e à raiva.

77. Nesses contextos, era legítimo esperar que os sábios não movessem um dedo sequer sem uma deliberação racional, pois tal conduta, entretanto, dificilmente poderia ser esperada de seu pênis, e mesmo assim Clemente deu o passo fatal.

78. O teste supremo da alma bem sintonizada deslocou-se de seu antigo contexto — o banquete, o tribunal, o leito de morte sumamente público — para um cenário mais íntimo e mais estritamente sexual, pois foi na própria cama que o antigo combate entre a razão e as paixões passou a ser travado mais claramente e com extrema meticulosidade.

79. Mas Clemente não esperava que seus pupilos sofressem tão intensamente com essas questões quanto alguns moralistas cristãos posteriores, pois, em certas regiões cristãs, passaram a insistir em que sofressem, e seu senso da solene reverência a Deus se sobrepunha a seu casuísmo.

80. Simplesmente não se sabe com que rituais — com que orações, quais gestos e quais precauções ocultas — os casais cristãos do século II se arrumavam para colaborar com o Criador, pois alguns fragmentos da doutrina judaica sugerem que o coito cristão não era o ato antisséptico da razão que parece ser na fria letra impressa, e o acordo sobre um casamento controlado não precisa ter sido uma questão inteiramente insípida.

81. Sabe-se que Clemente achava do outro ponto em que a mente e os reflexos físicos conivergiam no corpo humano — a voz, pois isso talvez forneça uma analogia com que abordar sua atitude perante a experiência de descarga física durante a relação sexual: a gargalhada descontrolada estraçalharia, mas ele gostava de se estender sobre o casquinho lento e melodioso dos santos, relaxando harmoniosamente a austeridade e a tensão excessiva de nossas graves questões.

82. Ao que se sabe, Clemente talvez presumisse que o jovem casal cristão se uniria na cama num clima similarmente relaxado, pois quanto aos sábios grisalhos de Clemente, não havia absolutamente nada que impedisse essas pessoas de terem um dia desempenhado seus deveres conjugais dessa maneira comedida.

83. A atividade sexual não trazia em si nenhum estigma que proibisse o cristão de atingir a perfeição em Cristo, pois, se essa pessoa, uma vez aperfeiçoada, continuaria a ser sexualmente ativa, era outra questão, e uma questão um tanto acadêmica.

84. Os cristãos moderados de Clemente eram os membros mais jovens e sexualmente ativos da comunidade, pois como a serenidade última do sábio não era resultado de uma mutação instantânea, essa serenidade costumava chegar aos fiéis no fim da vida.

85. E as relações sexuais não eram coisa para homens idosos: Clemente era vigorosamente insensível à ênfase depositada por muitos de seus contemporâneos no dor permanente e ameaçador do desejo sexual, pois, para ele, o desejo sexual não era um símbolo palpável, dentro do corpo humano, do sinistro perpetuum mobile de um mundo decaído, e ele não pensava em termos da amargura do fogo que arde no corpo dos homens, queimando-os dia e noite.

86. A diferenciação sexual, bem como o aumento, nos jovens, de uma densa consciência sexual do outro, eram meras fendas que se abriam por algum tempo entre a deliciosa indeterminação do jovem pré-púbere e a serenidade da velhice, despendida toda a paixão, pois não havia razão por que o sábio que transcendera na meia-idade a necessidade de ter filhos não os pudesse ter gerado, como cristão batizado, na juventude.

87. Muito mais importante para Clemente era que o cristão espiritualmente amadurecido muitas vezes se descobria chefiando uma família numerosa, pois, qual um monarca helênico em miniatura, presidir um lar era ser um pálido reflexo da Providência Divina.

88. Essa era uma questão de certa importância nas condições do final do século II, pois a igreja de Clemente, como a comunidade a que Hermas se dirigira em Roma, continuava a ser uma confederação desconexa de famílias de fiéis.

89. Clemente tendia a encarar o mundo pela perspectiva desses chefes de família, pois muitos deles teriam sido seus alunos, e muitos mais ter-lhe-iam confiado seus filhos.

90. Ao contrário de outros pais espirituais mais radicais, Clemente parece ter sido invulgarmente indiferente ao medo da família, pois quando dois ou três se reunirem em Meu nome significava, para ele, pai, mãe e filho rezando num lar cristão.

91. Clemente insistiu em que marido e mulher podiam servir juntos a Cristo sem desatenção, pois, ao citar Paulo dessa maneira, demonstrou uma sublime indiferença à intenção original das palavras do apóstolo.

92. Ao aceitar o casamento e, com ele, as estruturas duradouras do lar cristão, Clemente estava perfeitamente cônscio de que estava também defendendo um tipo peculiar e necessário de coragem cristã, pois, se Deus o exigisse, o sábio cristão deveria transformar-se num mártir cristão, e para Clemente o mártir era o verdadeiro ser humano de nossa raça.

93. Isso significava, na prática, que o sábio devia enfrentar a morte — como muitos antigos pagãos a haviam enfrentado — sem se deixar abalar pelo mais terrível de todos os sofrimentos: o temor pela sorte de sua mulher e filhos, pois Pedro vira sua mulher ser levada para a execução e lhe gritara: lembra-te do Senhor.

94. E essa não era uma lenda distante, pois no ano em que Clemente deixou Alexandria, Leônidas, pai de sete filhos de uma cidade provinciana no Egito, foi executado pelo augusto Prefeito, e seu filho, o jovem Orígenes, escreveu-lhe dizendo que ele não se deixasse abalar pela angústia acerca da família.

95. O cristão casado tinha que aprender a viver não apenas ahedonós, insensível ao prazer indisciplinado, mas também alupétós, sem se deixar abalar pela tristeza, pois só aqueles que vivem num mundo realmente muito protegido, em meio a seus livros, podem dar-se o luxo de se concentrar em Clemente como o pavoroso controlador do prazer sexual e ignorar o corolário sombrio de Clemente — a coragem silenciosa exigida dos maridos e mulheres comuns que, na situação do final do século II, podiam ainda ser chamados a se tornar mártires.

96. Essa era uma coragem ainda maior na medida em que podia ser demonstrada apesar dos vínculos com cônjuges e filhos, as relações mais preciosas de nossa vida.

97. Clemente tornou-se padre, pois em 202-203 saiu de Alexandria para servir ao bispo de Jerusalém, e é possível que tenha morrido por volta de 215.

98. Seu lugar em Alexandria foi ocupado pelo admirável jovem Orígenes — uma alma já endurecida pela execução do pai —, pois Clemente talvez tenha buscado no clero o papel mais ativo do sábio, convocado a confrontar, fascinar e até educar seus perseguidores.

99. Depara-se com essas pessoas nos Atos de muitos bispos-mártires do mundo grego do século seguinte: algumas eram casadas, muitas eram ricas, e todas recorriam à imagem de Sócrates para justificar sua própria postura heroica e a de Cristo, seu modelo, pois, no entanto, não existe um Martírio de Clemente, e apenas o Clemente ho Stromateus, o Clemente da Miscelânea, sobreviveu.

100. A obra de Clemente suscitou questões que mal chegaram a ser resolvidas um século depois de sua morte, pois o ideal proposto por Clemente foi assemelhado por um de seus expositores mais sensíveis ao de um monge hesicasta, mas era um monge sem mosteiro e sem deserto.

101. Podia escarnecer de seus oponentes, pois eles dizem com soberba estar imitando o Senhor, que não se casou nem teve quaisquer posses neste mundo, e se gabam de compreender o Evangelho melhor do que qualquer outra pessoa, e ele perguntava qual deles anda por aí como Elias, envolto numa pele de carneiro e num cinto de couro, qual deles como Isaías, nu, exceto por um trapo de aniagem, e descalço, qual deles imitará o assombroso estilo de vida de João Batista.

102. Não obstante, passado um século, a vida de Santo Antônio tornou irremediavelmente obsoleto o escárnio de Clemente, pois Antônio compreendeu o Evangelho justamente dessa maneira drástica e, ao fazê-lo, tornou-se, por sua idade avançada, um doutor para todo o Egito.

103. Os textos de Clemente levam, por um grato momento, para fora dos confins estreitos dos grupos radicais descritos nos dois últimos capítulos, pois sua obra deveu sua textura humana à habilidade com que ele enxertou os brotos fulgurantes da paidéia grega numa humilde raiz de moralidade conjugal cristã.

104. Por trás dessa fachada elegante pode-se vislumbrar cristãos cujos códigos de vida cotidiana talvez pouco diferissem dos de seus vizinhos judeus, pois o ato mais ousado de Clemente, numa época de radicalismo cada vez mais eloquente, foi ter levantado a voz, em seu estilo engenhoso e elegante, em defesa dos leigos cristãos casados.

105. Suas dissertações eruditas não atingiam todos os membros da congregação cristã, mas, pelo menos, seus escritos validaram implicitamente o papel, no interior da Igreja, dos ricos senhores casados que protegiam e faziam donativos à comunidade cristã, pois era a eles que os radicais tinham querido pôr de lado, na tentativa de criar uma forma muito diferente de liderança dentro das igrejas.

106. Talvez seja até possível vislumbrar os contornos de uma luta social no meio alexandrino de Clemente, travada no tocante à questão do casamento e da continência na Igreja, pois a insistência na continência teria tornado a liderança da Igreja acessível a figuras muito diferentes daquelas para quem Clemente escreveu.

107. Em algumas circunstâncias, a rejeição do casamento teria feito do clero uma carrière ouverte aux talents, na qual os membros ambiciosos e mais pobres da comunidade cristã pudessem ascender socialmente através da castidade, à custa de figuras mais estabelecidas, de chefes de família ricos e cultos, maculados pelo simples fato do laço matrimonial.

108. Em condições diferentes, poderia ter encorajado pequenos grupos de pessoas espirituais continentes, de classe e cultura superiores às de seus vizinhos, a olhar com desdém para o vulgar clero casado de sua cidade, pois ambas as situações devem ter existido no século III.

109. Clemente escreveu, em parte, para bloquear a ascensão de uma perigosa mística da continência, pois assegurou aos chefes de família que eles não precisavam se envergonhar de ter líderes casados, nem tampouco, como pessoas casadas, sentir-se incapazes de aspirar à perfeição cristã.

110. Eles também podiam aspirar à liderança nas comunidades cristãs, pois até Paulo fora casado, como conjecturou Clemente com muita habilidade, e Pedro certamente o fora.

111. Nunca se deve esquecer a presença de uma maioria silenciosa de pessoas casadas nas grandes igrejas do Oriente, pois, por volta de 300 d.C., é possível que tenha chegado a haver cinco milhões de cristãos espalhados por todo o mundo romano, mas eles são figuras apagadas, mal discerníveis na fímbria do resplandecente foco de luz sob o qual a minoria ativa e bem-falante argumentava com tanta veemência e tão mortífera presunção.

112. Nos escalões superiores da Igreja, a voz de Clemente logo foi abafada, pois as obras copiosas escritas pelos bispos e pelo clero dos séculos III e IV se fazem passar por história do cristianismo na antiguidade recente e são elas que recobrem agora as prateleiras das bibliotecas.

113. Esses textos abandonaram tacitamente a missão de Clemente, pois a geração mais nova de líderes simplesmente não estava interessada em repensar a questão da santificação dos casados, como é óbvio que Clemente sentiu-se obrigado a fazer, e seu lema era a virgindade.

114. A ascensão da igreja cristã à proeminência na sociedade romana, ao longo do século III, foi um processo que ganhou impulso numa velocidade surpreendente, pois foi acompanhado pela emergência do que melhor se chamaria de uma sensibilidade, ou quase uma estética da virgindade.

115. O ideal do corpo humano intocado passou para o primeiro plano, pois na imaginação da época ele funcionou como um tenso ponto de união entre o céu e a terra e, na própria terra, como o ponto de reunião simbólico de uma igreja em rápida expansão.

116. Deve-se olhar à volta, por um momento, para as relações entre homens e mulheres nas igrejas cristãs do final do século II e início do III, a fim de entender as condições em que se deu essa mudança crucial.

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