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Scivias
PERNOUD, Régine. Hildegarde de Bingen: conscience inspirée du XIIe siècle. Monaco: Ed. du Rocher, 1994.
- É impossível saber com precisão qual trecho do Scivias foi lido pelo papa diante do sínodo de Trèves, mas sabe-se que se tratava dos primeiros capítulos, compostos antes de 1147, sendo a obra inteira concluída apenas em 1151, e que ela se divide em três livros contendo respectivamente seis, sete e treze visões, encerrando-se a última com uma espécie de ópera alegórica retomada posteriormente na obra musical Ordo virtutum.
- A terceira visão do primeiro livro do Scivias descreve uma imensa esfera redonda e sombria, de forma oval, cercada por um círculo de luz cintilante, dentro do qual arde um globo de fogo tão grande que ilumina toda a esfera, regulado por três estrelas que o mantêm em equilíbrio, subindo e descendo segundo ritmos que determinam calor e frio sobre a criação.
- Da rede de chamas que envolve a esfera saem ventos com seus turbilhões, e do envelope tenebroso emerge outro vento furioso, enquanto no interior desse envelope arde um fogo sombrio repleto de pedras e tempestades que agita tudo ao redor, ao passo que acima o céu permanece límpido e sem nuvens.
- No céu visível à visionária aparece um globo de fogo ardente contido por duas estrelas, rodeado de múltiplas esferas luminosas para as quais envia sua luz periodicamente, e de onde um sopro impetuoso se expande por toda a esfera celeste, enquanto abaixo do céu o ar úmido e as nuvens produzem chuvas sucessivas e ventos que cercam um globo arenoso central sem o deixar desaparecer.
- Uma voz celeste anuncia que Deus criou todas as coisas por Sua vontade para o conhecimento e a honra de Seu nome, não apenas para manifestar realidades visíveis e temporais, mas para revelar por meio delas as realidades invisíveis e eternas.
- Hildegarde interpreta a esfera sombria como sinal de Deus e articula a história da humanidade em três momentos — rudeza primitiva, instrução pela Lei Antiga e Nova, endurecimento nos últimos tempos —, indicando que o envelope de sombra representa os que estão fora da fé, e que o globo de fogo que ilumina toda a esfera significa o Filho único de Deus, sol de justiça encarnado na pobreza humana e gloriosamente ressuscitado.
- Os dois sopros de vento recebem interpretação teológica: um representa a onipotência de Deus que preenche o universo, e o outro, furioso e turbulento, provém da ira de Satã, de onde se difundem boatos e rumores inúteis misturados a homicídio, avareza, embriaguez e crueldades entre os povos.
- O céu puro sobre o envelope tenebroso representa a fé luminosa fundada em Cristo, o globo de fogo ardente designa a Igreja unida na fé, as duas estrelas acima dela indicam os dois Testamentos que a conduzem, e a umidade com as nuvens e chuvas evoca o batismo que propaga a salvação e a doutrina pelos povos que abandonam a incredulidade.
- O globo arenoso central designa o homem e o mundo criado para seu uso, e o comentário de Hildegarde converte-se em oração contemplativa diante da beleza da criação, expressando o mesmo assombro presente em Hugues de Saint-Victor, para quem Deus não quis apenas que o mundo existisse, mas que fosse belo e magnífico.
- A grande montanha erguida entre o Aquilão — lugar de trevas — e o Oriente — lugar de luz — evoca a queda do homem pelo engano do espírito maligno, e introduz uma severa condenação de todas as formas de adivinhação, de escrutínio das criaturas para conhecer o futuro e de astrologia, pois as estrelas e criaturas cumprem somente a vontade divina e não possuem nenhum outro significado sobre qualquer criatura.
- Deus dirige-se ao homem para adverti-lo de que o adquiriu pelo sangue de Seu Filho com perfeita justiça, exortando-o a abandonar o seguimento da mentira e a retornar à fé, ao amor e à penitência, para que, mesmo ferido pelas chagas do pecado, se levante da profundeza de sua queda.
- Nenhum homem pode conhecer o tempo de sua vida nem evitar ou ultrapassar o limite determinado pelo Criador, pois Deus retém junto a Si o espírito do justo até que seus frutos atinjam a maturidade, e retira prematuramente o fraco antes que sua alma murche, porque Deus quer dar ao gênero humano toda a justiça necessária à sua salvação.
- A quarta visão do Scivias descreve uma esplendor imenso e sereno com quatro ângulos voltados para os quatro pontos cardeais, dentro do qual aparece uma forma feminina trazendo no seio uma forma humana perfeita, animada por uma esfera de chamas que penetra o coração, o cérebro e todos os membros, fazendo a criatura nascer e mover-se segundo os movimentos dessa esfera interior.
- A criatura humana exilada lamenta ter perdido o tabernáculo resplandecente que deveria ser seu — fundado sobre topázio, ornado de gemas, com degraus de cristal puro e átrios de ouro, destinado à companhia dos anjos —, e reconhece que, ao olhar em todas as direções com liberdade de escolha, voltou-se para o Aquilão, lugar do frio e da angústia.
- Sobre a criatura abatida recaem todos os males da queda — opróbrio, convívio com os porcos, ervas amargas, tormentos no lagar, feridas, abandono às bestas, serpentes, escorpiões e áspides —, e ela clama pela mãe Sião, cuja voz não pode ouvir porque o mugido das águas da Babilônia cobre tudo, até que um perfume suave anuncia a presença materna e a alegria irrompe em meio ao exílio.
- Diante dos obstáculos intransponíveis — o mar agitado, a ponte estreita demais, as montanhas altíssimas —, a criatura ouve a voz materna que lhe anuncia asas concedidas pelo doador poderoso a quem ninguém pode resistir, e, penetrando num tabernáculo de bases indestrutíveis, realiza obras de luz após ter praticado obras de trevas, edificando construções simbólicas nos quatro pontos cardinais, exceto no Ocidente voltado para o século.
- A voz celeste revela que a bem-aventurada e inefável Trindade se manifestou ao mundo quando o Pai enviou Seu Filho único, concebido do Espírito Santo e nascido da Virgem, para conduzir os homens presos pelos laços do pecado ao caminho da Verdade, e a visão é então elucidada: a forma feminina com o ser humano no seio representa a formação da criança no ventre materno, e a esfera de chamas sem traços corporais é a alma, que não é corpórea nem efêmera, mas fundamento e governo do corpo inteiro.
- A alma manifesta sua força segundo as energias corporais — simplicidade na infância, vigor na juventude, sabedoria na plenitude da idade —, e o homem possui três caminhos: a alma, que vivifica o corpo e sustenta o pensamento; o corpo, que atrai a alma e manifesta o pensamento; e o sentido, que toca a alma e halaga o corpo, sendo a inteligência e a vontade as duas forças principais da alma, comparadas aos dois braços pelos quais ela se manifesta como o sol pela sua esplendor.
- A alma no corpo é como a seiva na árvore — a inteligência como o verdor dos ramos e das folhas, a vontade como as flores, o espírito como o primeiro fruto, a razão como o fruto amadurecido, e os sentidos como a extensão da grandeza da árvore —, e é por essa realidade que o homem deve compreender o que é por sua alma, em vez de renunciar à inteligência e querer ser comparado aos animais.
- A quinta visão apresenta a imagem de uma mulher branca da cabeça ao umbigo e negra do umbigo aos pés ensanguentados, cega e de mãos sob as axilas, próxima ao altar mas sem tocá-lo, trazendo em si Abraão no coração, Moisés no peito e os demais profetas no ventre — figura que representa a Sinagoga, mãe da encarnação do Filho de Deus, que entrevê os segredos divinos mas não os descobre plenamente, e que ao consumar-se matou o Cristo e desabou, enquanto a Igreja surgia com a doutrina apostólica espalhada por toda a terra.
- Em contraste com a Sinagoga de olhos velados, a Igreja aparece majestosa como a alta torre de uma cidade, ornada com a beleza dos preceitos divinos e com uma auréola semelhante à aurora, pois manifesta o milagre da encarnação e seus mistérios; e assim como a Sinagoga precede na sombra da figura, a Igreja a segue na luz da verdade — imagem familiar à época de Hildegarde, evocada também no esplêndido portal sul da catedral de Estrasburgo e no portal da catedral de Bamberg.
- Os extratos do primeiro livro do Scivias revelam visões de poderosa originalidade, ricas e precisas, desenvolvidas num grande luxo de detalhes e cores típicos de uma época de grande criatividade, nas quais temas conhecidos como a Encarnação, a Redenção e a Criação são tratados com uma força que os renova fora das formulações convencionais, em páginas inflamadas pontuadas pelas interrogações “Como isso?” e “O que é isso?”, seguidas das interpretações que detalham seu sentido e alcance.
- As visões alternam comparações suntuosas — gemas, topázios, colunas de ferro e trompetes de marfim — com imagens de simplicidade próxima à natureza, como a alma no corpo comparada à seiva na árvore, e até imagens tradicionais como a da Sinagoga e da Igreja ganham sumptuosidade nova; compreende-se assim que Bernardo de Claraval tenha reconhecido nelas “uma luz radiante”, pois Hildegarde renova para seu tempo, com violência inesperada, a expressão dos mistérios que a Bíblia ensina e a Igreja transmite.
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